Strada Per L'inferno
4 A pior coisa que poderia ter-me acontecido
Notas iniciais
Retornamos a minha casa, depois de pegarmos vários caminhos errados. O portão estava aberto, então passamos sem dificuldade e Henry o trancou depois de passar. Não trocamos mais nenhuma palavra depois de iniciamos o caminho de volta a casa. Entramos pela cozinha e assim que me viu, minha mãe suspirou aliviada da sala e correu até mim. Ela abraçou-me forte, fazendo-me largar minhas sandálias ao chão. Ela murmurava “Grazie al Signore”, apertando-me mais e mais. Henry descolou de mim e se postou atrás de mim. Grace também correu a cozinha e estava atrás de minha mãe. Mamma largou-me e segurou meu rosto com as mãos, observando-me.
–Lane, Lane...! — Ela suspirou olhando-me.
Ela me soltou e Grace correu a mim. Ela abraçou-me tão forte quanto mamma.
–Você me assustou Lane! — Ela cochichou para mim.
Apertei-a mais, em sinal de desculpas. Desgrudamo-nos e eu olhei em direção a sala. Babbo tinha uma expressão de alivio também. Caminhei lentamente até ele. Os Mantovani, que eram uma espécie de segunda família para mim, também pareciam aliviados. Nick, o amigo de Henry, parecia também meio aliviado e desconcertado. Caminhei até babbo, que estendeu os braços a mim num abraço. Refugie-me ali em seus braços, tremendo. Ele dizia baixo “Figlia, figlia...”, como em um suspiro. Eu desgrudei dele, e este pegou meu rosto com as mãos. Ele beijou-me a testa e soltou-me. Minha mãe, Grace e Henry retornaram da cozinha. Babbo se dirigiu a Henry, pedindo para que ele se aproximasse. Ele fez isto, postando-se ao meu lado.
–Meu caro, você encontrou minha filha, mesma ela tendo fugido de você. Agora não tenho dúvidas que você é o homem ideal para minha filha – Babbo dirigiu-se a Henry, agradecido.
Henry sorriu tímido, com sua marca registrada de frieza. Eu só abaixei o olhar, sem conseguir encara-lo.
–Bom, agora que tudo já está nos conformes novamente, Lane você pude subir para ajeitar-se novamente para o jantar – Babbo mandou-me, com delicadeza.
Concordei com a cabeça, sem levantar o olhar. Dirigi-me às escadas, subindo-as, e Grace se pronunciou no andar de baixo, dizendo que me ajudaria. Entrei em meu quarto e Grace entrou em seguida também com meus saltos em mãos, fechando a porta a sua passagem. Eu postei-me de frente a minha janela e Grace se aproximou abraçando-me pelos ombros, tendo deixado os saltos em um canto de minha cama.
–O que aconteceu Lane? Porque você fugiu? — Ela me questionou intrigada.
Eu engoli em seco, tentando me controlar para não chorar. Deuses, eu iria casar-me com aquele ser! Com aquele ser totalmente estranho a mim, que ainda por cima, era frio e causava-me calafrios a um simples sussurro! Respirei fundo e caminhei a minha cama, me sentando nesta. Grace se sentou a minha frente. Comecei a falar, olhando-a:
–Eu fugi porque eu não quero me casar com Henry. Você notou-o bem? – Perguntei olhando-a — Ele é frio! Sem contra que não quero me casar com um completo desconhecido! Quero apaixonar-me por alguém e casar com esta pessoa, e não ter um casamento arranjado. Quero viver uma paixão, naturalmente, sentir meu eu interior se arrepiar a primeira vista ao primeiro contato, vista aliás, com esta pessoa. Quero viver um romance de verdade, com uma pessoa escolhida por mim; e não viver um casamento planejado por minha família, algo tão ultrapassado e sobrenatural!
Grace me olhou compreensiva, segurando minhas mãos. Olhei para baixo, ainda controlando as lágrimas. Levantei minha cabeça pouco depois, sorrindo desanimada a minha irmã. Levantei-me da cama e fui ao banheiro, arrumar-me. Meu vestido estava todo amassado e sujo de terra e folhas, então o troquei por um parecido com o de Grace, só que rosa clarinho e de rendas. Meus saltos também estavam sujos, mas Grace passou um pano neles e eles ficaram bons, ou aceitáveis pelo menos. Calcei-os e arrumei meu cabelo, que se bagunçara um pouco. Penteei-os e ficaram bons. Retoquei meu batom e estava pronta. Olhei para Grace, que estava sentada na ponta da minha cama. Suspirei e ela me deu um sorriso triste. Nós descemos de volta a sala e todos ainda estavam ali, só que agora com taças de vinho, cheias, em mãos. Encaminhei-me até meu babbo e ele chamou com um aceno Henry. Henry se postou ao meu lado e estendeu o braço, pedindo o meu. Eu, a contragosto, dei meu braço. Ele sorriu frio e eu desviei meu olhar. Ele me guiou até a sala de jantar, mesmo eu sabendo o caminho de cor. Sentei-me ao seu lado, com Jonas ao meu outro. Nick sentou-se ao outro lado de Henry e Grace à frente de Jonas, no outro lado da mesa. Babbo sentou-se na ponta, e mamma ao seu lado, de frente a Nick. Ao lado dela se sentou Don Mantovani e, no meio dele e de minha irmã, se sentou Mary. Mamma pediu para a nossa empregada, Amapola, servir o jantar. Sentamo-nos e comemos em paz, com meu pai e Don Mantovani conversando normalmente e, às vezes, meu pai questionado Henry sobre ele mesmo. Eu não falei um momento sequer, e também nem fui entrevistada para. Depois da sobremesa, um delicioso Panna Cotta preparado por Grace, nós dirigimo-nos de volta a sala. Minha mãe serviu todos, inclusive eu e Grace que não podemos e nem gostamos de beber, com tacinhas de licor. Ela, claro, serviu um licor de laranja. Enquanto apreciávamos a bebida, babbo acenou discretamente com a cabeça a Henry. Os outros presentes na sala não notaram, porém eu sim. Meu pai pigarreou um pouco alto, e todos cessaram as conversas paralelas. Os olhos de todos se voltaram a Henry, uma vez que o próprio babbo olhava-o. Ele deixou sua taça em cima da mesinha de centro e se aproximou de mim. Eu também larguei minha taça em cima do piano mais ao canto da sala, onde eu estava. Ele chegou onde estava parada, encarou-me frio, e se abaixou, ficando de joelhos. Eu o olhei, sem emoção nenhuma, já sabendo o que se decorreria a seguir. Ele pegou uma caixinha de joia de veludo de dentro do bolso da calça e abriu-a, entendendo-a a mim. Dentro da caixinha havia uma aliança de noivado nada convencional, porém com seu charme: era de ouro amarelo com uma ágata rosa clara encrustada na ponta. Era linda, devo admitir.
–Lane Aurora Giordano, aceita se casar comigo? — Perguntou Henry formalmente e com polidez.
Eu encarei-o fria. Sabia que ele iria pedir, mas se eu queria aceitar já era outra história... Minha vontade de recusar com a mesma frieza dele e sair correndo de novo era extremamente grande, entretanto sabia que não adiantaria de nada. Eu iria me casar com ele de uma forma ou outra, afinal conhecia babbo muito bem: quando ele metia algo em sua cabeça, não havia ser vivo algum que lhe tirasse de seus pensamentos. Ou seja, eu poderia aceitar de bom grado, ou ser obrigada de extrema má vontade. Puxei o ar para dentro de meus pulmões.
–Sim – Pronunciei da maneira mais fria e polida que consegui, numa tentativa de parecer-me com Henry em seu pedido.
Todos na sala sorriram e comemoraram. Henry deu seu sorriso vitorioso. Ele levantou-se e pegou minha mão direita com delicadeza. Ele enfiou a aliança no dedo anelar, com certa pressa, e depois deu um beijo nas costas de minha mão, num ato bem cortês, enquanto olhava-me fixamente. Eu tentei parecer indiferente, mas tratando-se de mim, era algo que não dominava com maestria. Eu simplesmente não consegui ser tão fria; não se comparada a Henry, obviamente. Não era de minha natureza e criação. Nós dois nos voltamos para o restante dos presentes na sala e todos foram nos parabenizar pela pior coisa que poderia ter me acontecido.
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