Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
3 O Veado Não Coroado
Notas iniciais
O Veado Não Coroado
“A natureza deu tanto poder à mulher que a lei, por prudência, deu-lhes pouco.” — Samuel Johnson
The Realm of The Fallen King — Brunuhville
O mundo da janela da torre de Ponta Tempestade era apenas uma vastidão de azul, o azul do céu e o azul do mar, unidos até o fim do horizonte, o fim do mundo. Apoiou-se de cotovelos sobre a janela, olhando as gaivotas enquanto caçavam seu alimento e os barcos pesqueiros voltando de seu fatídico trabalho. O cheiro de peixe e a brisa quente a sufocavam, porém não tinha coragem de fechar a janela, ou morreria sufocada por sua própria vida.
— Querida, um cavaleiro acabou de chegar com notícias do torneio. – mamãe entrou no quarto, seu vestido era curiosamente escuro, como uma ferida no rosto de um homem, um hematoma recém-feito, ela deixara os cabelos soltos, cachos negros até o final das costas, seus olhos azuis resplandeciam e as mangas longas arrastavam-se pelo chão. – Notícias de sua prima, Betyne. – ela atravessou o quarto da torre e entregou a mensagem a sua filha, que curiosamente estavam passiva e desinteressada.
— Já escolheram o novo noivo da herdeira das terras de meu irmão? – perguntou, acidamente, porém sua mãe apenas a repreendeu com os olhos, exigindo que lesse a carta antes de falar. A menina obedeceu. – Deu certo?
— Mas é claro que deu certo! – a mulher exclamou, erguendo seus braços, deixando que as mangas escorregassem até os cotovelos – Louvados sejam o Guerreiro e a Mãe que nos abençoaram com a justiça que nosso querido Yann merece! Logo nós estaremos no Sentinela, para consolar a menina e oficializar a herança de Yann.
— Isso é muito bom. Eu estava duvidando de seu plano, na verdade. Os Tyrell não são confiáveis, servem àqueles que mais lhes interessam. – murmurou Laysa, pensativa – E o príncipe?
— Está a nosso favor, é claro, agora que nos aliamos, nem mesmo Dorne poderá impedir que a justiça seja feita. – sorriu Catalina Baratheon, esposa de Oster Baratheron, irmão mais novo de Lorde Baratheon, e consequentemente o herdeiro direto das Terras da Tempestade caso sua filha legítima não se casasse e tivesse um herdeiro antes de sua morte. A mulher imaginou seu filho querido vestindo um gibão dourado e com guardas ostentando a bandeira dos Baratheon enquanto ele passava com seu corcel negro. Era uma cena divina. – Precisamos arrumar os baús para a viagem, todos os lordes de Westeros estão no Sentinela aguardando que algo seja resolvido.
— Eu preciso ir junto? – perguntou Laysa, já caminhando até seu baú e abrindo-o para vasculhar as roupas necessárias – Papai sabe disto?
— Seu pai não precisa saber de nada – garantiu a mulher, soberbamente feliz. – Ele é amável demais para aspirar a qualquer herança de Samwell, mas não se preocupe, minha querida, você será a filha de um Lorde poderoso e terá o melhor casamento de todas as terras dos Sete Reinos, eu lhe garanto. E nosso Yan se sentara na mesa do Lorde e será o Senhor da Tempestade. – ela gargalhou.
— Você deveria ser mais discreta, mãe. – a menina revirou os olhos, dobrando seus vestidos com cuidado e colocando-os dentro do baú. – Alguém pode ouvi-la. Nós ainda estamos em Ponta Tempestade e ainda somos a família do Lorde.
— Continuaremos sendo a família do Lorde – ralhou Catalina. Ela olhou para o quarto de sua filha, naquela torre tão fria e desconexa de todo o castelo. Ela logo não precisaria mais dormir ali. Ajoelhou-se ao lado de sua filha, segurando-lhe as mãos e obrigando-a a olhar dentro de seus olhos – Eu a amo demais, minha menina, e quero o melhor para você. Obrigada por estar ao meu lado.
Laysa sorriu.
— Eu também te amo muito, mãe. – apertou-lhes as mãos afetuosamente. — Mas é a senhora quem está do meu lado.
º º º
Laysa detestava viagens. Montar a deixava enjoada após um tempo e mesmo a carruagem movendo-se na estrada gerava tonturas nela. Detestava deixar Ponta Tempestade, odiava viajar para qualquer lugar fora das Terras da Tempestade. Mas aquela era uma boa causa, pois fazia parte do plano de alcançar justiça. Aquele lugar era de Yann por direito, seu irmão menor e herdeiro legítimo, Betyne não tinha capacidade para passar esse direito a outro homem que poderia arruinar toda a Casa Baratheon. Não entendia porquê o Lorde queria tanto que o lugar fosse de outra pessoa fora de sua própria família, não seria mais fácil assumir Yann como seu herdeiro? Mas, é claro, ele insistia em nomear sua filha como próxima Senhora da Tempestade, como se mulheres pudesse passar seus direitos a seu filho. Aquilo só seria legal se o Lorde não possuísse mais herdeiros homens, e ele possuía.
Mamãe cantarolava animadamente, enrolando os cachos de seu filho nos dedos, sentado em seu colo. O pequeno Yann era uma criança talentosa, possuía o mesmo carisma vindo da mãe que Laysa também tinha, a todos encantava, era belo, com cachos escuros e olhos esverdeados, como os Baratheon possuíam, em todos os séculos até o fim do mundo não nasceria um homem tão adorável quanto ele. E, pela sorte divina, destinado a herdar as Terras da Tempestade. Layse gostaria de fazer tudo a seu alcance para que isso acontecesse. O prestígio Baratheon não seria perdido nas mãos de um estranho.
A carruagem repentinamente parou de se movimentar e os cavalos relincharam assustadiços. O cocheiro gritou para que saíssem do meio da estrada do rei, porém tudo o que se ouviu em seguida foi um gemido doloroso e um corpo caindo duro não chão.
— É uma emboscada? – Laysa levantou-se, agarrando a barra do vestido para tirar a adaga que prendia na parte interna de sua coxa, porém a mãe apenas colocou a mão sobre seu braço, os olhos serenos.
— Somos a família dos donos destas terras, temos uma escolta. Deixe que os homens façam seu trabalho.
Laysa sentou-se novamente, acatando ao conselho de sua mãe. Mais cavalos relincharam, e agora os soldados gritavam em fúria, espadas brandindo e armaduras se chocando. O som do aço era angustiante e a medida que mais gritos de dor eram soltados, Laysa tinha vontade de sair da carruagem e esfaquear quem quer fosse o culpado daquilo.
Após algum momento de delicada calmaria, a porta da carruagem se abriu co violência. Catalina Baratheon atirou a faca que estava em suas mãos, escondida sob seu colo, onde Yann esconderia qualquer coisa. O menino gargalhou com o susto que o soldado tomou ao quase ser atingido por uma faca. A arma se prendeu na parede da carruagem.
— Minha senhora, fomos atacados, mas não há mais perigo, os criminosos fugiram. – ele assegurou-a, ainda ofegante e gaguejando. Ele lutara pela vida da família do Lorde, e era recebido com uma faca a centímetros de seu rosto.
Era realmente engraçado, Laysa sorriu.
— É claro que eles fugiram. Lutou bravamente, sir. Você e todos os homens, temos muita sorte de tê-los conosco – a mulher sorriu abraçando seu filho, como se fosse a criatura mais doce da face da terra – Por favor, me diga se podemos ir.
— Eu mesmo guiarei a carruagem – o homem assentiu e deixou-os.
A morte do cocheiro por causa de foras da lei foi o cúmulo para Laysa, pois sem um homem acostumado aos cavalos e a condução, teve de suportar os solavancos e buracos em que o soldado os conduzia. Não foram mais interrompidos até que caísse a noite e assim pudessem descansar em um dos senhores juramentados a Casa Baratheon. Ter uma cama confortável e comida boa eram revigorantes e pela manhã já estavam na estrada novamente. Chegaram ao Sentinela no final da tarde, o Sol já por trás das nuvens. Parecia que logo haveria chuva, pela força do vento e o frio que se espalhava na noite. Laysa gostava de tempestades.
— Minha senhora, veio tão prontamente! – o governante do castelo recebeu os Baratheon com amabilidade e preocupação, beijando as mãos de Catalina e curvando-se em frente a seus filhos, que chamava de crianças. – Espero que a senhora e as crianças tenham tido uma boa viagem.
— Apenas um pequeno assalto que logo foi resolvido por nossos soldados. Não entendo os ladrões que insistem em desafiar uma escolta, não é visivelmente para proteção? – a mulher abanou-se, como se estivesse sufocada – Por favor, caro homem, providencie um quarto pois eu e meus filhos estamos cansados demais de toda a viagem. Mande os soldados para a casa dos soldados e lhes dê vinho bom, carne e uma boa companhia, eles merecem.
— U-uma companhia, vossa senhoria? – o velho parecia assustado.
— Você entendeu. Não vamos medir as educações enquanto minha amada sobrinha está perdida! Que a Mãe nos ajude, por favor, preciso descansar, não durmo desde que soube de Betyne, jurei que não dormiria até estar aqui.
Rapidamente o governante os conduziu para o quarto separado. Laysa sabia que o torneio seria cancelado e que os nobres teriam de retornar a suas casas transtornados. Demandava tempo e dinheiro ir e voltar de um torneio, ainda mais aqueles que traziam soldados junto, para impressionar. Ela não era fã de torneios, sabia exatamente como eles funcionavam e não via graça. As lutas (ou duelos) não eram verdadeiros e não exigiam muito do cavaleiro que estivesse na quadra. As guerras, sim, mostravam quem realmente sabia lutar ou não.
O quarto tinha uma grande cama para sua mãe e outras duas menores, montadas especialmente para que ficassem juntos. Os colchões eram mais duros que os de Ponta Tempestade e a janela ficava do lado errado do quarto, permitindo que o vento frio entrasse, mas sem sinal do Sol. Era escuro, úmido e empoeirado, como se os empregados não pudessem arrumar tudo em um dia, desde que o anúncio da viagem fora feito.
— Quando eu for a dona deste lugar, tratarei de terminar com a folga desses malcriados. – resmungou Catalina, sentando-se na cama com seu filho no colo.
— Quando for a dona deste lugar, você não se importará com isto aqui pois morará em Ponta Tempestade – Laysa a corrigiu, revirando os olhos, e sua mãe concordou com um sorriso. – Só espero que isso não seja logo, eu me mataria se precisasse voltar para a estrada.
Fale com o autor