Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
50 Família
Notas iniciais
Família
— Lady Bolton as receberá em seus aposentos – anunciou um dos guardas com o brasão do homem esfolado, aquilo era novidade para Coryna. Sua sobrinha assumira tão prontamente a Casa do esposo que assustava-a pensar que havia “tomado” Correrrio ao invés de considerar a herança. Ela não era a primeira na linha de sucessão. Mas o primeiro era Namond e o segundo era Damon. Talvez elas realmente precisassem começar a pensar em uma sucessão feminina.
Pensar isso a machucava.
Ela sempre pensou em seu casamento como algo até a morte, havia enfrentado dificuldade em aceitar completamente as palavras dos Tully, mas agora não se via em outro lugar além de perto de sua família. As palavras eram fortes em todas as suas decisões. Família. Dever. Honra. Não era uma lista, era uma escada. Nada para os Tully é mais importante que a honra de fazer a coisa certa. A não ser o dever de cumprir o que é preciso. Então a honra pode ser ignorada. Mas mesmo o dever não substitui o lugar da família. Para ela não há deveres ou honra que possam equivaler, Mas aquela fortaleza, que por décadas ostentou os brasões da carpa, agora pendurava as mesmas cores, porém com a cruz e o esfolado. Aquela era a consequência de uma história muito mais antiga.
Coryna jurou que jamais lembraria, que isso nunca faria parte da vida deles, da vida de Anezka em primeiro lugar. Três filhos, três bastardos. Salyne Tully era a garota mais tola que existiu na face do mundo. Conquistada pelo Lannister sem glória, grávida aos dezesseis, enganada por benfeitores, grávida novamente. Mas essas foram gestações perdoáveis, dela nasceu Dorian, legítimo embora os pais ainda não fossem casados na época, e Kilian, um garoto para assegurar a Casa. Mas a terceira vez não poderia ser perdoada. Desgraçada, amaldiçoada, cuspida pelos deuses. Não se sabe porquê isso aconteceu com Salyne Tully, uma jovem tão graciosa e vivaz. Mas o terceiro bastardo era uma menina, meia-Tully, meia-Bolton, fruto de um sequestro bem sucessido e a paixão tola de Salyne pelos princípios da fé. “Não vou matar o meu filho! Maldita mãe seria se fizesse isso com o irmão de Dorian e Kilian!”. Tola, Salyne, tola.
Agora sua querida filha bastarda estava casada com o próprio meio-irmão.
E ninguém sabia disso. É claro. Somente ela e os velhos mortos de Correrrio.
Qual profanação melhor para o teto de família, dever, honra?
— Vocês vieram me visitar – Anez não era a garota que haviam deixado para trás, ela estava mais alta e com uma voz muito mais grave. Talvez pelas noites chorando e gritando, enquanto o esposo a abusava. Coryna só conseguia pensar o pior para sua sobrinha, somente as coisas das quais não havia conseguido protegê-la. Amaldiçoada como a mãe. Tão amaldiçoada! – Até que enfim, eu sempre quis receber alguém na minha própria fortaleza. Desculpe não ter aquela fileira de criados lá embaixo ou banquete em homenagem. Somos mais simples, nós Bolton.
— Você é uma Tully – Emmeline franziu as sobrancelhas, mulher que não evitava o próprio martírio. Coryna segurou-a pelo braço e sorriu.
— Então não sabem do meu casamento? Há praticamente um ano estou casada com o meu amado senhor Bolton. Ele é um homem que me arrebatou da torre, como se diz pelas canções. – canções de taverna, a maioria com mais insultos do que poesia. Coryna fingiu lembrar-se de uma canção e assentiu, mas Emmeline não tinha a mesma sabedoria.
— Os Bolton invadiram nossa casa e mataram seus pais. Provavelmente também estupraram todas as mulheres da vila e as criadas! – tia Emme não conseguia compreender o mundo em que vivia, aparentemente. Isso fazia Anezka desejar arrancar a cabeça dela e acabar com toda aquela confusão.
— Isso é quase verdade. Todas as mulheres da fortaleza, incluindo o cadáver da minha mãe, a ama Lyla e eu, é claro. Talvez tenha existido uma septã na lista, eu não consigo me lembrar, já faz um ano. – Anezka se levantou da cama e deixou a camisola cair sobre suas pernas, deixando a gravidez evidente. A gestação já deveria estar no final, aparentemente. Coryna esperou que isso fosse um bom sinal.
— Você está grávida? – Emmeline se aproximou da sobrinha e tocou-lhe a barriga. – Quantos meses?
— Ah, que bom que perguntou, nove. Ele não quer sair. – a lady empurrou sua tia com a mão e puxou as roupas, ignorando os guardas na porta. – Ele me deu estrias demais, mas o que não fazemos pelos nossos filhotes, não é verdade? Tia Coryna, é muito bom tê-la aqui comigo neste momento, não imagino uma pessoa melhor para me ajudar a cuidar desse bebê.
— E eu estou muito ansiosa para vê-lo, também – Coryna tentou puxar Emmeline pelo braço, mas a garota continuou próxima de Anezka. Provavelmente era tão estúpida quanto a aparência sugeria.
Anezka detestava garotas bonitas, elas estragavam o gênero feminino. Belas, tontas, tudo o que os homens gostavam de rir durante noites de bebedeira. Ela sabia disso, os ouvira contando suas histórias e suas piadas, também fizera parte de algumas. Agora era o tipo de mulher que eles apreciavam, uma que respeitavam, mais que seu próprio Lorde. Era esse o tipo de mulher de que todos precisam no mundo, e infelizmente não se cria ladys para isso.
— Ele é de Lorde Bolton?
— Como? – Anezka encarou-a sem entender se era para rir ou ficar ofendida.
— O bebê – Emmeline olhou a barriga com receio.
Anezka não suportaria aquela humilhação na frente dos seus próprios homens. Eles observavam atentamente como a Lady lidaria com sua família, antiga família. Correriam para contar aos demais o que ouviram e viram. Manter as rédeas é muito mais que mostrar força. Lady Bolton ergueu a mão e estapeou o rosto da menina ruiva e rosada, ela parecia um bebê enquanto gritava e se afastava. Coryna abraçou-a e pediu perdão quase de joelhos, porém Anez não queria vê-las decapitadas, ou enforcadas, ou violadas, ou qualquer dessas coisas. Família ainda significava alguma coisa, afinal ela mesma estava prestes a ter um filho. Tinha de ser um filho, um garoto viril, saudável, gordo.
Pelos deuses, até mesmo um garoto enfermiço ela aceitaria, desde que tivesse um pinto.
Somente assim os seus vassalos concordariam em executar Vikta. Um garoto, só precisava de um garoto. Mas parecia difícil para a Casa Tully gerar homens, principalmente aqueles que sobreviviam além dos trinta. Coryna e suas filhas foram para seus aposentos, mas a noite de Anezka não havia terminado. Um dos Senhores que a acompanhava adentrou com novas informações sobre a movimentação entre Skagos e Porto Branco. A guerra parecia estar amenizada após a derrota dos Greyjoy na Ilha dos Ursos, mas os selvagens de Skagos não se importavam com as guerras do mar ou do leste, eles foram vistos por vinte vezes entre a Baía das Focas e além da Muralha, um barco, normalmente aparentando ser pescadores, mas perto demais da costa para conseguir uma boa rede de peixes. A Patrulha da Noite também começava a enviar seus corvos.
Vikta terminou de beber com seus amigos e se divertir com suas prostitutas, voltou para o quarto e abraçou-a para dormir. Ela detestava aquilo, aquela posição. Dormir tornou-se um desafio conforme a barriga crescia, mas ainda pior era agradar Vikta e seu egoísmo. Ele não percebia ou se importava se ela estava sufocando a si mesma e ao bebê, desde que pudesse roçá-la por trás e satisfazer-se sem realmente consumar qualquer coisa. Era desonroso forçar uma grávida àquilo, muitos meistres diziam que poderia ser prejudicial ao bebê. Graças aos deuses algum meistre disse isso, ou Vikta também não teria se importado.
Enquanto ele roncava ao seu lado, Anezka ouvia-o respirar e contava os intervalos entre um espamo e outro. Ele dormia rápido, não conseguia ficar quieto por cinco minutos inteiros, muitas vezes jogava os braços e as pernas para cima dela. Tudo isso sem deixá-la deitar numa posição agradável. Não estava dormindo, essa era a verdade. Não conseguia dormir, tanto pela ansiedade de ver o bebê nascer quanto por finalmente tirá-lo da sua vida, os próprios olhos ficavam encarando o criadomudo, a vela apagada, a luz da lua entrando pela janela aberta.
Horas ela passava, deitada na mesma maldita posição, com a mesma maldita dor debaixo das costelas. O meistre de Correrrio dissera que aquele bebê era um dos maiores que já havia visto, tão grande que só poderia ser um garoto saudável e, consequentemente, difícil de sair. Disseram que ela poderia morrer no parto.
Duvidava muito.
Após as longas horas, ela conseguia sentir o próprio cansaço tentando derrubá-la. A mão de Vikta escorregou para debaixo do lençol e alcançou sua intimidade, mas ela não sentia nada há semanas. Mesmo com as tentativas dele. Talvez Vikta tivesse acordado no meio da noite com vontade de alguma coisa, algo que ele demoraria demais para encontrar em quem descontar.
— Você está molhada – ele sussurrou em seu ouvido. – E está... você... alguém veio aqui antes de mim?
— O quê? – Anezka se levantou, mas uma forte contração a compeliu a se curvar. – O que você...
— Você está molhada e aberta como uma puta, alguém veio aqui – Vikta segurou seus cabelos – Você não me deixa te tocar há meses, quem vem sendo mais prestativo que eu? Diga-me!
— Chame o meistre, seu maldito bastardo idiota, é a droga do bebê que está nascendo. Você é retardado? – Anezka gritou e em seguida outra contração a fez agarrar os lençóis. – Está me ouvindo? Vá buscar uma parteira, agora!
Seu esposo era um homem simplório, ele a encarou e então começou a chorar, antes de ir buscar a maldição do meistre e da parteira. Chore, chore mesmo. Anezka puxou os lençóis e viu a poça entre suas pernas, não percebeu aquilo antes, mas agora fazia mais sentido a constante dor para respirar e para sentar. Seu filho estava tentando ficar no lugar certo para sair. Tão esperto, ela suspirou.
Suportou mais cinco contrações antes que alguém entrasse e acendesse as velas. Coryna também veio, ela se sentou ao seu lado e segurou-lhe a mão. Anez não gritou com ela, talvez tivesse gritado se não estivesse tão ocupada sentindo dor e gritando com todos os homens que pareciam entrar em desespero quando a viam prestes a dar a luz.
Sua parteira, finalmente estava ali. A mulheres experiente subiu na cama e deu todas as ordens do que precisava, água, pano, tesoura, a lista parecia não acabar, mas ela não parou até ter tudo ao seu redor. Então olhou para a mãe e Anezka sentiu como se ela pudesse perscrutar toda a sua alma negra e suja.
Ela parecia a Mãe. Mas sem aquela coisa de misericórdia.
— Vou sentir o bebê – ela avisou e inspecionou como estava o parto – Ele está no lugar certo, você precisa empurrar.
— Quando? – Anezka gritou, seu corpo estava coberto de suor e ela via a expressão de espanto de todos no quarto. Guardas, criados, sua família e Vikta. Eles pareciam não acreditar no que viam.
Talvez uma Anezka mais frágil do que o normal.
— Você sabe quan- agora! – a parteira empurrou suas pernas para cima e Anez se ergueu nos cotovelos para pressionar o ventre. Era como esmagar algo entalado, de um lado apertando e do outro soltando, o caminho para o bebê foi fácil, após a primeira contração e alguns gritos de dor, ele estava chorando nos braços da mulher. – Esperem! – ela colocou a criança.
Anezka sentiu novamente aquela vontade, aquela sensação de dever, um sentido maior do que apenas bater o coração ou inspirar e expirar. Era natural que ela se forçasse novamente, contra qualquer força que a repelisse, ela só precisava usar toda a força de seu corpo naquele instante e então morreria satisfeita.
— De novo! – a parteira colocou a mão por baixo da cabeça da criança e Anezka obedeceu a seu comando. Mais uma vez, mais uma vez. – Cortem o cordão, rápido, eles vão se sufocar!
— Outro manto! Traga outro manto seu retardado!
— Pelos deuses, pelos deuses! É uma benção!
— Meus... – Vikta se ajoelhou do seu outro lado, e só então Anez percebeu que apertara a mão de sua tia até que ela estivesse com os dedos brancos. Mas a mulher não reclamou. Por outro lado, sorria e limpava o suor de seu rosto. – Meus filhos! Nossos filhos!
Filhos. Não são filhas, ao menos um dos bebês é um garoto. Isso é ótimo. Isso é perfeito. Anezka sorriu e tentou olhar para as formas humanas pequenas e cheias de sangue, viu o primeiro a nascer já envolto em sua manta. A criada abriu-a em frente aos seus olhos e mostro a barriga grande e o pulmão forte de um menino. Anezka o abraçou e entregou-lhe o seio instintivamente, pois sabia que era disso que ele precisava. O segundo foi limpo e a parteira o inspecionou antes de mostrá-lo, era tão grande quanto o irmão e tinha a mesma virilidade entre as pernas. Sim, agora sim ela acreditava em deuses e em destino.
— Precisa nomeá-los antes que o Estranho os veja – a parteira disse, uma antiga filosofia mantida apenas nas Terras Fluviais.
— Viteon e Darien, pois são fortes como o pai e o tio.
— Esses são os nomes mais ridículos que já ouvi – ela grunhiu e olhou para as criaturas em seus braços. Ela tinha certeza agora que mulheres tinham dois seios para fazer aquilo e nada mais, nada parecia melhor ou mais certo que alimentar seus dois garotos gordos. – Eles não terão os nomes de um covarde e de um tolo.
— Anezka? – Vikta se levantou, mas um dos guardas colocou a mão em seu ombro antes que ele pudesse tomar o bebê da mãe. – São bons nomes.
— Não. Não quero me lembrar de você quando olhar para o “Viteon”. – ela riu. – Maxilen é um nome forte. Será o meu primogênito, herdeiro das minhas terras, em Correrrio.
Coryna retraiu-se em seu lugar, mas nada disse.
— E para seu irmão, nada de inveja, darei Forte Pavor e todas as terras e seus vassalos no Norte. Chamar-se-á Benjen, pois esse é um nome nortenho.
— Tudo bem, esses nomes são bons também – Vikta deu de ombros – Solte-me, idiota.
Mas o guarda não o soltou, ele abriu a garganta do lorde com uma adaga simples e amolada naquela mesma noite. O corpo caiu no chão, mas ninguém se sentiu enojado por vê-lo. Dois meninos significava que Lorde Bolton era um homem dispensável e que a Senhora Anezka teria dezoito anos para criar os seus herdeiros.
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