Stormborn?
1 I
Notas iniciais
Daenerys Targaryen estava novamente sobre o convés de um navio. Havia estado em lugares como aquele por anos de sua vida, viajando de cidade em cidade na sua infância perturbada. Naqueles tempos Dany costumava velejar escondida nos porões, junto ao irmão Viserys, acuada e escondida. Velejava como uma fugitiva e uma exilada, mas dessa vez era uma rainha à frente de mil navios.
Quando partiram de Meereen, há duas semanas, Dany sentiu que estava deixando para trás mais uma parte de sua vida. A mesma sensação que sentira quando fora levada da casa de porta vermelha, e novamente em Pentos e em Vaes Dothrak. Buscara sempre por um lugar que pudesse chamar de casa, um lar que nunca teve. Mas sempre que estava próximo disso, era arrancada sem cerimônias para mais uma jornada sem destino.
O que Viserys pensaria disso?, Dany perguntou a si mesma. Quando virou-se para contemplar a sua conquista o vento salgado provocou-lhe arrepios. Os mil navios deslizavam atrás do Balerion, lotados de sete mil Imaculados que trouxera consigo. O restante fora deixado para defender Meereen e os escravos que Dany tinha libertado. Barba-Branca insistira que seu exército não poderia ser diminuído, mas Dany libertara os escravos, e agora tinha de protege-los. Ela era suamhysa.
De repente, o ar ficou frio e o sol foi coberto por uma sombra negra. Drogon pairava sobre eles, centenas de metros acima, agitando suas asas no céu de verão. Dany nunca tinha pensado que cresceriam tanto. Viserys tinha contado, certa vez, que os últimos dragões eram fracos e doentes, mas mais uma vez o irmão tinha se enganado. Seus filhos eram a maior maravilha do mundo, e eles eram seus.
Os dragões estavam nervosos desde a partida de Meereen. Queriam voar e voar o mais depressa possível, mas os navios eram muitos e avançavam devagar. Dany voara no dorso de Drogon diversas vezes, afastando-se do exército de navios até não poder enxerga-los mais. O mundo era tão grande lá de cima. Em algum lugar no Mar Estreito os Sete Reinos a aguardavam. Pedra do Dragão e Porto Real, o Vale e a Campina. Territórios erguidos pelos dragões, e Dany os pegaria de volta. Sempre estiveram a meio mundo de distância, um sonho que ela não podia alcançar. Mas agora, a cada vento que soprava, Dany sentia-os mais perto.
– Pensa o mesmo que eu? – Dany não o viu surgir e teve que olhar para baixo para encontrar a voz. – Porto Real.
– Não só Porto Real, mas todos os Sete Reinos.
Tyrion Lannister sorriu.
– Você pensa grande para uma garota. – O anão tinha uma língua muito afiada para o gosto de Dany.
– Deveria me tratar com mais respeito ou não terei piedade aos Lannister. Sou sua rainha – disse Dany, mirando-o com seus olhos violeta.
Tyrion bamboleou-se e subiu as escadas até junto dela. Pousou as mãos no casco negro do navio e observou o horizonte desconhecido. Tyrion enxergava apenas um palmo acima da borda e sua cabeça ficava a altura da barriga de Dany.
– Certa vez, ouvi um garoto que brincava com uma coroa dizer algo parecido – disse Tyrion solenemente. – Deixei-o para vir até você. Espero que não cometa o mesmo erro.
Quem?,pensou Dany.O garoto Lannister?
– Desde o dia que fugi de Pedra do Dragão com Viserys eu vi pessoas terríveis – contou Dany. – Os altos senhores e seus jogos de poder, suas manipulações e suas traições. Eu vivi sonhando em ser alguém que os pudesse impedir.
– Tem um coração gentil, Daenerys. Entendo você. Olhe para mim. Vivi cercado por leões e veados, e outros animais também. Olhava ao redor e via que ninguém realmente se parecia comigo. Nem o dragão – respondeu Tyrion.
Dany suspirou e observou Drogon mergulhar no mar azul. Espirros de vinte metros de altura jorraram para o alto e caíram estrondosamente de volta para a água.
– Lobos e leões, e quem mais aparecer. O dragão os devora todos. Sempre foi assim, não foi? O fogo queima o gelo – disse Dany, imaginando a si própria sobrevoando uma Fortaleza Vermelha de várias torres.
Tyrion Lannister riu:
– Um coração gentil e fervoroso. Talvez sonhe alto demais. É uma rainha, sim, mas onde está o seu reino?
Dany apertou os olhos para o mar.
– Tenho sete em Westeros e mais Meereen.
– Você realmente acha que os tem, Daenerys? – questionou Tyrion.
Dany pensou sobre aquilo por alguns momentos.Sim, eu tenho, e terei mais.
– Você viu em Meereen. Viu os escravos serem libertos e me aclamarem, e viu os Imaculados que deixei para proteger a cidade.
– O que vi foi fogo e destruição. Você os libertou, e então os deixou. Por que têm os Imaculados de defenderem algo por alguém que não está lá?
– Porque eles são meus – respondeu Dany.
– Pensei que não fossem mais escravos.
Dany se irritou e abriu a boca para defender-se, mas Tyrion a interrompeu antes que pudesse falar.
– Deixou os Imaculados para que alguém capaz vai lá e os comande. Deixou os escravos para que alguém poderoso os escravize outra vez. Deixará o povo de Westeros quando estes de oporem à loucura dos Targaryen?
– Se pensa assim, Tyrion Lannister, então por que dança com os dragões?
O Duende sorriu.
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