Notas iniciais
Daenerys e sua frota navegam pelas águas ardentes do Mar Fumengante. Pela primeira vez em séculos, os Targaryen retornam para seu lar ancestral: Valíria.

As águas do Mar Fumegante eram demasiadas estreitas para que mil navios dessem a volta. Dany sabia disso perfeitamente bem, tal como toda a tripulação dos navios. A notícia espalhara-se rapidamente desde que o Capitão Grunjar anunciara onde estavam. Os Imaculados não temiam a morte, o frio ou o medo, e Dany sentiu-se aliviada quando viu que nenhum navio tentou dar meia-volta.

O sol estava no alto do céu e muito forte naquela manhã. Rhaego estava parado e toda a sua tripulação tinha se reunido no convés. Os Imaculados agruparam-se em um grupo de cem homens, imóveis como pedra e imunes ao calor. Dany os invejava por isso. A própria Dany estava à proa do navio, entre o Capitão Grunjar e Barristan Selmy.

O silêncio instaurou-se em todo Rhaego. Dany observou Irri e Jhiqui murmurando entre si, nervosas, e Missandei fitando quieta o mar ardente. Olhos negros a encararam, olhos azuis e olhos verdes, e Dany sentia-se sem coragem para olhá-los. Tinha os trazido até ali, e agora tinha de tirá-los.

O Capitão Grunjar ergueu a voz, com confiança, e disse:

– Muitos homens já navegaram as águas deste Mar Fumegante. – Ele apontou para a água fora do navio, que lançava pequenas nuvens de fumaça para o alto. – Homens corajosos vieram até aqui, e não é o que somos?

Dany sentiu um vento quente percorrer sua espinha. Não estamos lhe dando uma opção, pensou, enquanto o capitão falava. É isto ou a morte.

– A água quente apodrece a madeira, e a chuva ácida a corrói por cima. Velejaremos o mais depressa possível, às ordens de Vossa Graça. – O Capitão Grunjar deu um passo para trás.

Dany deu um passo para frente.

– Navegamos hoje onde antes erguia-se a Cidade Franca de Valíria – disse, lembrando-se das histórias que Viserys a contava na infância. – Nunca houve império mais glorioso no mundo. Cinco vezes a harpia lutara contra o dragão, e cinco vezes fora derrotada. Isso porque a Cidade Franca tinha dragões, e o Império Ghiscari não. E, mesmo assim, com todo seu esplendor de poder, Valíria foi destruída, queimada e consumida. Mesmo o mais forte possui uma brecha, uma miníma rachadura escondida por detrás da armadura. Não deixem que suas rachaduras fiquem expostas, meus bons amigos e servidores, e assim nunca serão destruídos.

Os companheiros de sangue foram os primeiros a se ajoelharem. Depois vieram as aias, todos os homens, mulheres e crianças, e os Imaculados soltaram suas lanças para a reverência. Dany sentiu-se ascendendo outra vez, tal como fizera na pira de fogo em que seus dragões chocaram.

O convés escureceu-se com uma sombra negra; três delas, sobrevoando a Frota de Fogo com asas que cobriam o mundo. Voaram em círculos nos céus da outrora Valíria, cuspindo fogo ao alto na mais magnífica dança dos dragões, e o ar da manhã encheu-se com uma sensação que Daenerys Targaryen jamais sentira.

Mais tarde, naquela noite, Dany refletiu sozinha, na cama de penas. Tinha mandado Irri e Jhiqui para outro aposento, e também dissera-as que se quisessem se deitar com outro homem, que poderiam. "Somos eternas esposas da nossa khaleesi", elas tinham lhe respondido, em coro.

Que rachadura tenho eu?, perguntou a si mesma, embalada pelas águas do Mar Fumegante. Fechou os olhos por um momento e foi o suficiente para adormecer.

De repente, viu-se caminhando por uma ponte de pedras, e quando olhou para baixo, assustou-se. A cerca de dez metros abaixo, o chão era repleto de espigões de ferro, com pontas escuras e negras. O brilho da lua banhava a fortaleza à frente de Dany, mas lá embaixo a escuridão encobria a visão da morte.

O cheiro que os corpos exalavam era bastante forte. Não havia outro lugar para além da fortaleza e nem atrás da ponte de pedra. Tentou não olhar para baixo; mas olhou. E viu rosas e leões espetados nas pontas afiadas, e em algum lugar um lobo uivou.

O chão abriu-se em fumaça e Dany, por um momento, sentiu que seria o dragão a decorar os espigões. Mas, quando abriu os olhos, estava em uma sala tão grandiosa quanto a fortaleza. Crânios de dragões do tamanho de navios estavam postos em ordem decrescente de ambos os lados de uma cadeira de ferro. Dany teve de olhar para o alto para ver o topo da cadeira, de um ferro tão afiado quanto os espiões.

No alto da cadeira havia uma coroa, e Dany adiantou-se para subir. Sentiu as sandálias ficarem molhadas, subitamente, e olhou para baixo. Um rio rubro descansava aos pés da cadeira da ferro em um silêncio mortal. Cabeças jaziam na água, cabeças de pessoas que Dany não conhecia, mas sabia de quem eram. São tantas, pensou Dany, olhando rapidamente para a extensão do rio.

Novamente corajosa, Dany avançou um passo. Não havia ponte para cruzar o rio, tampouco um barco. Colocou um pé sobre a primeira cabeça e depois a outra. Seus rostos estavam escuros de podridão, e os olhos eram órbitas vazias. Um súbito arrepio percorreu a espinha da Daenerys. Será o caminho assim tão cruel até a cadeira de ferro?

Acordou pensando quantas cabeças mais encheriam o rio até que pudesse atravessá-lo até o Trono de Ferro.

Ouviu o barulho de água pingando em água, e em seguida um pano frio sobre a testa. Abriu os olhos para ver Irri assutada e de joelhos junto à cama de Dany. Sua cabeça latejava.

Foi acordar novamente dois dias mais tarde, segundo dizia Missandei.

– Vossa Graça dormiu em sono profundo, mas esta cuidou bem da senhora. – Missandei tinha os olhos calorosos e um jeito tímido de falar.

Nós cuidamos – disse Irri em seu nome e no de Jhiqui.

As aias sufocavam-na. Dany já não mais se sentia febril, ao menos, mas o estômago roncava de fome. Sem pedir, as aias já tinham lhe preparado uma sopa especial. Dany não queria ajuda para comer. Precisava se mostrar forte mesmo quando não era.

Dany sentou-se na cama para comer.

Khaleesi, não, está fraca. – Ouviu Jhiqui dizer.

– Vossa Graça precisa descansar – concordou Missandei.

Dany estava farta.

– Descanso por dias, já é mais que hora de me pôr de pé.

Depois de tomar a sopa com legumes e cebolas, Dany vestiu-se para ver o mundo lá fora. Precisava de sol e do vento nos cabelos.

Capitão Grunjar adiantou-se quando viu Dany no convés. Quando olhou ao redor, Dany viu que estavam em um arquipélago repleto de ilhotas. As passagens eram estreitas de uma ilha para outra, impossibilitando que toda a frota atravessasse junta. O Capitão saudou-a com gracejos.

– Alivia-me que esteja bem, Vossa Graça. Esteve dormindo por um bom tempo.

Dany não conseguia tirar o olhar das ilhas. Eram, em sua maior parte, negras ou cinzentas, sem plantas ou árvores. A água ao redor das ilhas era escura também, devido ao solo carbonizado que despedaçava-se e afundava para o Mar Fumegante.

– Estou bastante bem agora. Agradeço sua cortesia – disse Dany. – Mas, diga-me, o que há?

O Capitão Grunjar recuou um passo e alisou sua barba grisalha. Estudou Dany por um breve momento antes de dizer:

– Não conhecemos as terras adiante, Vossa Graça. Precisamos verificar antes de avançar, ou toda a frota pode ficar presa.

Dany compreendeu o que deveria fazer. E mesmo com os perigos, sentiu-se grata por ter de desempenhar a tarefa.

– É muito perigoso para a senhora que faça isto sozinha. Dê-me permissão para que mande um de meus homens de confiança, talvez?

– Não – respondeu Dany de imediato. – Eu faço.

Momentos mais tarde, Daenerys tinha chamado por seus dragões e estes vieram sem demora, agitando o ar em uma breve ventania. Os tripulantes do Rhaego tinham se reunido no convés para assistir a partida de Dany em uma aglomeração de cem pessoas. Barristan ajudara-a a montar em Drogon enquanto o Capitão Grunjar lhe indicava o caminho que Dany deveria verificar.

Na multidão, bamboleando-se, escapou Tyrion Lannister. Dany poucas vezes tinha visto o homem desde Meereen. Sabia que ele gostava de ler, e passava quase (ou todo) o dia em seu aposento. O anão fez uma longa reverência quando chegou junto de Dany.

– Esteve febril, então? – ele disse. – Fogo não pode matar um dragão.

Dany sorriu e concordou com a cabeça. Tyrion mostrou-se muito interessado nos dragões.

– Vejo que irá voar. Lembro-me de quando era criança em Rochedo Casterly, mais deformado de que sou hoje, correndo pelos corredores de pedra gritando "eu sou um dragão!". Meistre Cleptan dissera-me meia centena de vezes que os dragões já não eram tão fortes, e os que ainda viviam eram fracos e enfermos. – Tyrion olhou para Drogon com um sorriso nos lábios. – Bom, vejo três grandes e fortes aqui.

Dany olhou para o barco encostado no Rhaego, com Viserion e Rhaegal deitados no convés. Tinham crescido tanto desde o Deserto Vermelho...

– Suplico-lhe, Vossa Graça, permita-me ir com a senhora.

O peito de Dany encheu-se de um sentimento estranho. Uma parte de si negava o pedido. Ele é Lannister. Quem garante que não fugirá?, enquanto a outra repetia: ele é leal.

– Barristan, ajude nosso Duende de Lannister a montar. Viserion é o menor deles – disse Dany, subitamente.

A boca de Tyrion Lannister abriu-se em dentes tortos, e sua feia cicatriz enrugara-se no nariz

Dany olhou para o Duende antes dar um leve toque na barriga de Drogon, como fazia-se a cavalo, para que o dragão levantasse voo.

– Mas digo-lhe: tente não cair. Se o fizer, espero que os leões saibam nadar.

Notas finais
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