Em frente ao espelho, apertou sua gravata rubra. Seus óculos de armação prateados: impecáveis. Junto terno todo e seus calçados sociais marrons caríssimos faziam a imagem do gigante ruivo ainda mais respeitável.

Pegou apenas sua carteira e as chaves de seu carro. Só iria sair da mansão com isso.

Despediu-se como um pai indo trabalhar de todos lá dentro, pegou o elevador e chegou ao cassino.

Uma pequena inspeção e estava tudo perfeito. Acenou à distância para a sala de segurança, com Arthur e Marcus lá, acenando de volta.

Lá estava ele: Jonathan Johnson. Um switcher ancestral no corpo de um gigante escocês na casa dos quarenta anos. Ele já estava com esse corpo há muito tempo. Roubou-o quando o dono original ainda era adolescente. Cuidou bem dele desde então. E, apesar de na casa dos quarenta, nenhum fio branco sequer aparece em sua barba ou em seus cabelos rubros. Pouco se sabe de seu passado. Sequer se esse é seu nome mesmo. Uma das prioridades do clã que ele mesmo criou é privacidade. Ninguém precisa saber da vida de ninguém. Se alguém quiser desabafar, vá em frente. Mas ninguém irá pressionar.

Reconhecido por poucos, ele, um dos homens mais influentes e ricos de Neo Arcadia era olhado com respeito por alguns. Sua figura é pública, mas pouco interessa para o povo geral quem são as pessoas que controlam suas vidas.

Saiu do luxuoso Coruja de Ouro e seu carro esportivo cinza estava à sua espera. Cortesia de Marcus e Arthur, para que o velho não tivesse que ir até o estacionamento subterrâneo e escolher entre suas centenas de veículos.

O carro potente é caro, porém sutil. Abriu-o, sentou-se no possante, ligou os faróis a LED e deu partida.

Não estava com pressa. E não havia engarrafamento naquele dia com várias nuvens no céu e raios de Sol passando por elas.

Ao seu lado, no banco do passageiro, percebeu um objeto com um bilhete. Eram óculos escuros. Arthur os deixou lá com um post-it amarelo grudado escrito “Achei que iam ficar legais em você”. Leu o recado enquanto dirigia, riu um pouco com o canto de sua boca.

Chegou a seu destino. Estacionou na calçada. Saiu do carro com os óculos que Arthur sugeriu e os que estava usando antes, em seu bolso.

Uma cafeteria. Era esse seu destino. No lado rico da cidade, é pequena e com relativamente pouco tráfego de pessoas. Hellen’s Coffeshop era o palco uma reunião importantíssima.

Pediu um expresso e sentou-se numa das mesas. As paredes, algumas marrons e outras um branco beirando o cinza claro, deixavam o lugar calmo e suave. Não fora reconhecido, graças aos estilosos óculos escuros.

Esperou.

Começou a cair uma leve garoa do lado de fora, com tarde se esvaindo. Viu isso porque estava sentado perto do vidro da cafeteria.

Um carro antiquado estaciona na outra calçada. Dele, saem 4 pessoas.

— Por que estamos em Sodoma, mesmo? — perguntou a mulher loura de olhos verdes usando uma regata preta que não combinava com o dia levemente frio.

— Aqui não parece tão ruim assim. — o jovem de cabelos presos com uma camisa vermelha comentou.

— Porque estamos do lado rico da cidade, garoto. — a mulher retrucou.

— Isso é perigoso demais. — pensou preocupada a jovem de cabelos pretos, com uma maleta na mão.

— Isso é uma reunião importante. Se acalmem, pessoal. — o homem com terno branco que saiu do banco do passageiro disse.

O sino que indica que a porta de vidro da cafeteria se abriu tocou. Quase como em câmera lenta, os quatro entraram. Os Moonlight Lynx. Mark seguido de Tony, Lucas e Ayumi.

Assim que a porta de abriu, Jonathan trocou de volta para seus óculos normais e sinalizou com o braço para Mark em que mesa estava. Foram até a bancada da cafeteria, fizeram seus pedidos e sentaram todos à mesa de madeira, encarando Jonathan, com Mark frente-a-frente.

— Bom dia. — Jonathan cumprimentou.

— Bom dia. — Mark, Lucas e Ayumi responderam.

— E aí. — Tony disse, com sua “delicadeza”, balançando sua cabeça.

...

Uma explosão. Vidro voando para dentro do prédio. Homens armados entrando. O Coruja de Ouro estava sendo atacado. E logo pela entrada principal.

Homens armados com roupas pretas de operações táticas e fuzis de assalto entrando. Dezenas.

Arthur estava na sala de segurança e com um pouco de paz. Apoiado nas paredes de vidro dela, como sempre. Até a explosão. Seus olhos arregalaram, pôs suas duas mãos no vidro e gritou um palavrão.

— PUTA QUE PARIU. — botou para fora impressionado e com raiva. — SEMPRE TEM QUE SER NO NOSSO TURNO?! — falou com pressa, pegando suas duas pistolas de alto calibre, duas facas de combate e uma escopeta, que colocou em suas costas. — E logo quando a gente tinha consertado esse maldito vidro... — correu em direção às paredes de vidro da sala e as quebrou. No ar, fazendo acrobacias, atirou nos homens entrando. Caiu ajoelhado e foi para a batalha.

Marcus pulou de seu acento pegou de novo seu rifle sniper para dar cobertura a seu amigo.

Mas antes, soou o alarme.

Um som estarrecedor preencheu toda a mansão e todas as luzes ficaram vermelhas. Os membros do clã sabiam o que isso significava.

Se prepararam, se armaram e todos foram o hall principal da mansão.

— Callie, Jesse, Richard, vocês vêm comigo. — Jeff ordenou, com seus óculos amarelos e colete à prova de balas.

— Certo! — disseram em um coro.

— Mas e a gente?! — Catherine perguntou, indignada.

— Vocês ficam aqui e protegem a mansão. — Jeff disse já indo para o elevador, com pressa.

— Você sabe o poder que a Vicious Switch tem! Eu sou tão capacitada quanto você pra acabar com essa invasão! — respondeu aos berros para ele e seus companheiros, que já entraram no elevador.

— Justamente. — retrucou. — O Ninho é mais importante. — com isso, a porta do elevador se fechou e os quatro switchers desceram.

Jeff estava com duas pistolas-metralhadoras e facas de arremesso. Já Jesse, com um fuzil de assalto em suas mãos e uma metralhadora em suas costas, usando uma camisa de manga longa e calça de malha. Richard estava apenas com duas katanas em suas costas e socos ingleses reforçados em suas mãos, usando uma regata branca folgada e shorts azuis. E já Calliope estava com um lança-granadas em suas mãos e uma escopeta em suas costas, com uma jaqueta curta preta cobrindo um colete à prova de balas e um jeans cinza. Todos estavam com cintos de munição e granadas.

— Se eu soubesse que isso ia acontecer, eu teria trocado de corpo. Olha que ridículo eu estou. — Jesse reclamou, prendendo seus cabelos louros.

— Acha que são os falcões? — Callie perguntou a Jeff.

— Tenho minhas dúvidas. Mas se fosse para apostar, diria que não.

— Por quê?

— Digamos que aconteceu uma coisa que eu mantive em segredo.

— Dane-se quem for! Estão nos atacando e vão sofrer retaliação! — Richard interrompeu.

Em menos de um minuto. O elevador chegou ao destino, o térreo. O Coruja de Ouro em completo caos. A porta se abriu.

— Vamos, corujas! — Jeff incentivou com um grito.

Os switchers entraram no combate.

...

Um gole no expresso e a sua atenção era total ao clã em sua frente.

— Nós viemos aqui porque estamos em um momento delicadíssimo. — Mark falou. — Queremos mais amigos que inimigos. Nós nos conhecemos há muito tempo. Não concordo com seus métodos e não diria que somos amigos, mas somos bons conhecidos. — explicou sério, gesticulando com suas mãos.

— Eu entendo. Digo mais ou menos a mesma coisa. Foi imprudência de vocês lutarem no estádio e — Jonathan foi interrompido.

— Já dissemos que foi uma armadilha! — Tony o interrompeu.

— Vocês sabem por quantas armadilhas nós já passamos? Superamos todas. — respondeu.

— Era impossível sair daquela situação, o Arquiteto — Ayumi tentou falar, mas Tony interrompeu de novo.

— E por que o seu clã todo não está aqui, huh? Não era pra ser uma reunião séria? — disse provocativo.

— Meu clã tem, incluindo eu, dez pessoas. Some com vocês, quatorze. Quatorze pessoas reunidas em uma cafeteria não é muita sutileza e nem muito seguro. E ainda mais, temos um negócio para tomar conta. — retrucou calmo.

— Tony, acalme-se. — Mark ordenou ao seu companheiro de clã que estava um paranoico. — Desculpe por ele. Desde o ocorrido, ele anda muito mais preocupado.

— Tudo bem, eu entendo. A paranoia subiu-me estes dias da mesma forma. Os clãs de Neo Arcadia entraram em caos desde o incidente. E aqui é já é bem mais perigoso que Neo Atlantis.

— Tsc... Sodoma. — Tony cochichou.

— Tony! — Mark chamou atenção de novo.

— Okay, okay... Vou ficar quieto.

— Bom, como eu ia dizendo — Jonathan continuou sua linha de pensamento — Foi imprudente, mas não tenho rixas com vocês por conta disso. De fato, fomos sempre bons conhecidos. Da mesma forma que vocês não precisam de mais inimigos, nós também não precisamos. Se é um pacto de aliança que vocês querem, nós corujas ficaríamos felizes em concordar com tal pacto. — concluiu.

— Eu não diria aliança, mas sim estabilidade e paz. — Mark disse, pensativo. — Como eu disse, nossos métodos não batem. Vocês são muito desprovidos de regras e moralidade. Mas também não nos faz querer criar rixas.

— Moralidade... — riu baixinho. — Vocês já leram Nietzsche?

— ... Sim — Ayumi respondeu.

— Quem você acha que são os ubermensch? — fez outra pergunta.

— Você conheceu Nietzsche?! — Ayumi ficou impressionada.

— Sim, conversei com ele. Expliquei como eu trato das coisas. Assim como expliquei pra ele sobre nós switchers. Era uma mente genial. Nós, em tese, deveríamos ser ubermenschs. Não somos meros humanos e não precisamos ficar aprisionados às morais deles. O clã vem acima de tudo e pronto. — explicou, batendo seu dedo indicador na mesa. — Claro que assassinato sem motivo é patético e gratuito. Nós não promovemos isso. Mas roubar corpos é completamente normal. Está embutido em nossos seres, Mark. Assim como o instinto de sobrevivência que nos faz querer eliminar os outros.

— Tenho que discordar, mas você de fato tem argumentos bons. — falou, balançando a cabeça.

— E não pense que eu saio roubando corpos. Muito pelo contrário, tenho este há décadas.

— Então por que dizem que você é um switcher tão forte assim, se você não sai roubando corpos? — Tony perguntou.

— Eu não sei quais livros e referências vocês têm sobre estudo dos poderes e anatomia switcher. Eu vou revelar isso para vocês, porém vocês não podem dizer isso ao meu clã. Nos meus livros, constam alguns nomes: kind switch, uber switch...

— M-m-mi-mirror... — Lucas balbuciou. — Mirror switch.

— Esse é novo. Gostei. Quem o nomeou?

— Minha mãe... Ela também tinha essa habilidade... — disse, cabisbaixo.

— Meus pêsames, garoto.

— Como você sab — foi interrompido.

— Nós podemos trocar de corpos quantas vezes quisermos, mas nossos olhos permanecem os mesmos. Nunca mentem. São a entrada para a nossa alma. Da mesma forma que nós estamos acostumados com perdas. Sei reconhecer muito bem um switcher que já passou por perdas.

— Entendo...

— Tome cuidado. É tentadora, porém perigosa. Eu já perdi minha cabeça várias vezes.

— Já explicamos isso pra ele. — Mark disse.

— Falando em habilidades... antes do pacto, acordo ou seja lá o que for: qual a opinião de vocês sobre a vicious switch? — Jonathan perguntou sério.

— Estupidamente ameaçadora, mas não temos preconceitos. Por quê? — Tony respondeu.

— Uma membra do meu clã a possui. Tenho tolerância zero com pessoas com preconceito a essa habilidade. O que infelizmente é algo comum no nosso submundo.

— De fato... — Mark disse, bebendo seu café.

— Também, você havia falado nas nossas videoconferências sobre esse tal de Arquiteto. Acha que ele tem influência aqui em Neo Arcadia?

— Não sei direito, mas diria que é possível.

— Bom, eu certamente não quero alguém manipulando as coisas na minha cidade sem eu saber.

— Então, é oficial?

— Um pacto de paz e estabilidade. Oficializado. — Jonathan disse, estendendo sua mão.

— Oficializado. — Mark segurou e apertou a mão de Jonathan.

— Agora, recomendo que saiam de Neo Arcadia o mais rápido o possível. Há mais clãs hostis que pacíficos por aqui. — Jonathan aconselhou.

— Verdade. Até uma próxima vez. — Mark disse, se levantando.

— E vocês mal tocaram em suas bebidas, que desperdício... — Jonathan observou.

— É a paranoia. Haha. Mas pode ficar com elas, se quiser. — Mark respondeu.

— E vou. Nunca recuso café e seus derivado. Até mais, Linces.

Todos puseram suas bebidas na mesa, se despediram e foram embora. Jonathan ficou mais um tempo lá sentado, bebendo o que faltava e olhando pelo vidro da cafeteria a garoa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.