Notas iniciais
A parte do finalzinho é uma espécie de flashback.

Corredores brancos. Como eu odeio esses corredores brancos.

Enquanto dizem que a cor branca representa pureza e paz, esses malditos corredores deturpavam esse significado considerado tão verdadeiro e imutável. Pureza sim, afinal é desta forma que um hospital precisa ser. Mas paz? Passa bem longe, se posso ser bem sincero.

Insegurança. Medo. Apreensão. Ausência de notícias, e às vezes, de esperança.

Alguém já parou para pensar que esta cor tão atraente também pode passar isso tudo?

Os únicos detalhes que fugiam desse padrão eram a estreita faixa azul no chão — que indicava os caminhos por esses corredores que pareciam formar mais um labirinto do que uma instituição de saúde — e a luz vermelha, acesa há quase meia hora, acima da porta dupla da sala de cirurgias número 2.

Engraçado, não? Eu odeio a sensação que esses corredores passam – ainda mais desertos do jeito que estão agora –; eu odeio ficar olhando para essa luz, lembrando que não posso entrar na sala; eu odeio seguir a faixa a faixa azul abaixo dos meus pés com os olhos, sabendo que ela não poderia me levar para nenhum outro lugar que não seja aquele no qual eu já me encontro, por nenhum caminho onde eu possa ser útil.

Odeio tudo isso.

E ainda assim sou médico.

Sempre tive medo de estar desse lado, sentado em uma dessas cadeiras ilusoriamente confortáveis, dominado pela ansiedade e preocupação pelo que poderia estar acontecendo dentro da, agora, inatingével sala cirúrgica; os batimentos acelerados a cada pequeno movimento ao redor, esperando ver as portas se abrirem, e a frustração com o relógio da parede que recusava-se a mover seus ponteiros, eram uma periodicidade no interminável ciclo da torturante espera.

Eu poderia estar lá dentro, participando da operação, fazendo algo, mas fui impedido. Impedido pelo meus colegas, pelo meu melhor amigo, que por acaso era o líder da cirurgia.

“Você está nervoso, deixe isso comigo. O seu envolvimento emocional com o caso é grande demais para você conseguir dar o seu melhor friamente”. Foi o que ele disse com a mão em meu ombro.

“Leo é a pessoa mais importante para você, eu sei bem disso. Por isso mesmo você não deve participar da operação, porque eu não quero, e você não deve, assistí-lo morrer em suas mãos. Ele tem pouquíssimas chances, e se o pior acontecer, é preferível que você odeie a mim, por tê-lo deixado morrer, e não a você mesmo”. Era o que estava claro em seus olhos sérios.

E, acima de tudo, fui impedido por mim mesmo.

Porque independente de onde eu estivesse, o que estivesse fazendo, eu iria me odiar. Odiar-me por ser tão inútil, por ser tão covarde, tão fraco, tão dependente de Leo. O único que me fazia sentir de verdade, o único que eu tinha sempre ao meu lado.

A diferença, é que pelo menos aqui, eu podeia implantar uma falsa e frágil esperança de que ficaria tudo bem; aqui, eu não precisaria presenciar a súbita queda de pressão, dos batimentos cardíacos já deficientes, a urgência dos enfermeiros, o silêncio perturbador que só seria interrompido quando um deles olhasse para o relógio e anunciasse a hora exata do ocorrido.

Porque infelizmente eu sabia, que não seria com um sorriso de alívio que meu amigo sairia daquela sala; eu sabia, que hoje eu ficaria a noite toda vagando pelas ruas, sem nenhum destino ou objetivo em mente, apenas sem forças suficientes para voltar ao apartamento vazio ou coragem de, naquele momento, encarar uma última vez o rosto que tanto amo. Toda vez que essas certezas invadiam minha mente, eu tratava de abafá-las com algum outro, mentiroso, o mais rápido possível. Mas eu sabia. E eu odiava saber.

E então finalmente as portas se abriram, e de lá meu amigo saiu, retirando as luvas e a máscara de modo lento, propositalmente. Ele não estava sorrindo.

— Julian, nós... – “tentamos todo o possível”, completei mentalmente a frase, já sabendo pela sua feição e tom de voz que não poderia ser outra senão esta. E como poderia não saber? Eu mesmo repetia essas mesmas palavras há anos, até mesmo uma vez ainda nesta semana. E agora eu tinha certeza: ouví-las doía muito mais do que dizê-las.

As pessoas pensam que por conviver mais de perto com mortes e sofrimentos alheios, por ter em mãos a responsabilidade por tantas vidas, os médicos aceitam mais naturalmente quando acontece algo relacionado à eles. Estão errados. Justamente graças a essa convivência, o temor de que isso nos alcance é algo constante e aterrorizante, algo que não conseguimos nos livrar.

E também, porque nós sabemos que essas palavras, “nós tentamos todo o possível”, são verdadeiras. E é tão difícil de aceitar...

— Julian... Eu sinto muito – dava para ver em seus olhos o quanto isso era sincero. Acho que não existem piores palavras para um amigo dizer ao outro...

-... – engoli uma vez, sentindo a aspereza de minha garganta, antes de conseguir produzir algum som – Eu também. Eu também...

E antes que eu não pudesse impedir, em uma batalha já perdida, as lágrimas de escaparem, virei de costas para ele e comecei a me embrenhar em um dos corredores desertos, longe da vista de qualquer um. Quando ela começaram a sair, parei e encostei na parede, como se apenas ela pudesse me servir de apoio neste momento. Não servia.

Elas caíam pesadas, silenciosas, vinda de uma fonte inesgotável de tristeza que havia sido aberto dentro de mim. Uma fonte, eu tinha certeza, que nunca se fecharia por completo, mesmo no dia que as lágrimas que a denunciava secassem.

Como eu poderia odiar o meu amigo? Ele, que apenas fez seu trabalho e tentou me poupar? Não poderia. Porque nada superava o ódio e o nojo que eu sentia de mim mesmo, por sequer ter estado dentro daquela sala na hora que ele se foi, por ser tão estupidamente covarde.

Leo estava morto.

E eu estava vivo para sentir essa dor.

...

Eu realmente odeio esses corredores brancos...

~x~x~x~x~x~

— Julian, quer parar com isso? Eu já disse que estou bem!

Mesmo tendo a intenção de parecer bravo ou irritado ao dizer isso, afastando as mãos que pela terceira vez verficavam se os batimentos cardíacos continuavam regulares, Leo não conseguiu reprimir a risada com todo aquele cuidado escessivo e exagerado do outro.

— Estou só conferindo – Julian bufou, deixando a aparelhagem de lado e puxando a cadeira ao lado da cama para sentar-se – É preocupante alguém de 29 anos ter um ataque cardíaco. Todo cuidado é pouco.

— Mas já fazem semanas! – Leo protestou, ainda com o sorriso firme no rosto com saúde já recuperada dos últimos acontecimentos – Eu vou ganhar alta amanhã, vou poder voltar pra casa e isso não vai mais acontecer – esticou a mão, sempre gelada, e segurou a do mais velho – Não se preocupe.

Julian resmungou algo indistinguível, com o rosto virado. Não se preocupar? Fácil falar. Claro que ele não diria nunca em voz alta o medo intenso que sentiu ao entrar no apartamento e encontrar o outro caído no chão da cozinha, com pedaços quebrados de pratos recém-lavados espalhados ao redor e sem pulsação. As semanas que se passaram após isso, mesmo que em companhia agora desperta de Leo, em visível recuperação, não serviram para apagar essa horrível sensação de Julian.

— Julian? – Leo chamou, a voz ligeiramente mais baixa. O médico virou de volta, apenas para encontrar os grandes olhos castanhos do mais novo, na expressão que ele sempre fazia quando queria algo – Me dá um beijo?

Julian piscou algumas vezes, processando a total mudança de tópico, e por fim riu. Realmente, Leo sabia exatamente como quebrar o clima de tensão que constantemente envolvia o médico. Inclinou-se e atendeu o pedido.

...

...

...

Algumas horas mais tarde, saindo de uma reunião de rotina com sua chefe, a diretora do hospital, Julian receberia uma mensagem dizendo que Leo tinha tido outro ataque e estava sendo levado para o centro cirúrgico. O por que de, tão próximo de receber alta, isso tinha acontecido, nenhum dos medicos soube explicar.

Algumas horas mais tarde, Julian estaria apoiado na parede de um dos corredores do hospital, chorando como não chorava há anos, pela perda daquele que há pouco tempo, ria da preocupação excessiva dele.

Algumas horas mais tarde, tudo o que Julian desejaria, talvez como única saída para suportar aquela dor, era lembrar da feição sorridente do outro, do último pedido que ele lhe havia feito antes de ser deixado sozinho no quarto. Tinha que se concentrar nisso, porque pensar que aquelas palavras, ditas com tanta certeza, “Isso não vai mais acontecer, eu estou bem”, não tiveram a chance de se concretizar, doía demais.

Como doía...

Notas finais
É esse o resultado de me deixarem mais de sete horas na sala de espera de um hospital...
E então? Alguém leu? Gostou? Odiou? Vai me deixar feliz deixando um comentário? :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!