Stop Calling Me Out

1 Capítulo 1: 'C'est La Vie...'


Manchete do jornal local (Columbine, Colorado), 21 de Abril de 1999.
Publicado às 5:00 AM:
"Dois alunos da Columbine High School abrem fogo em meio à uma sala de aula, matando 12 alunos e 1 professor na manhã de 20 de Abril. Alegando serem vítimas de bullying, o que motivou a chacina, ambos tiraram a própria vida após o incidente."

Manchete do jornal local (Virginia, EUA), 18 de Abril de 2007.
Publicado às 5:38 AM:
"Um jovem de 23 anos, identificado como Cho Seung-Hui, matou 32 duas pessoas e deixou mais 15 feridas na 'Virginia Polytechnic Institute and State University'. Portador de problemas psiquiátricos, que foram possivelmente agravados por bullying, rejeição e abandono da parte dos colegas de classe, segundo as autoridades, o rapaz suicidou-se após o massacre.

"Vocês vandalizaram o meu coração, rasgaram a minha alma e queimaram minha consciência. Vocês achavam que eu era um garoto patético que vocês estavam extinguindo. Graças a vocês, eu morri. Como Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas."

Esta é uma declaração de Cho para a câmara, no momento que enviou à NBC News."

Manchete do jornal local (Newtown, Connecticut), 15 de Dezembro de 2012.
Publicado às 6:01 AM:
"Um jovem de 20 anos mata 26 pessoas, entre elas, crianças de 5 à 10 anos, na manhã de 14 de Dezembro na 'Sand Hook Elementary School'. O irmão do atirador, Ryan Lanza, afirmou que acredita que seu irmão era portador de um transtorno de personalidade, provavelmente agravado por bullying nos tempos escolares, e tinha um "espectro autista.""

Manchete do jornal local (Boca Raton, Florida), 15 de Novembro de 2023. Publicado às 7:45 AM:

"Boca Raton acordou em cinzas na manhã desta segunda-feira. A tragédia iniciada na "Viv High School" aos poucos foi se movendo pelos arredores da cidade, no decorrer da madrugada. No local inicial do catastrófico incêndio, apesar de incerto, estima-se que mais de 333 pessoas ficaram feridas na chacina. A quantidade de mortes, em um todo, varia de 215 à 625.

As redes de Internet e telefone foram cortadas, tendo em vista que diversos postes foram derrubados e incendiados. O fogo atingiu mais de 70% das redes da cidade. É praticamente impossível se comunicar por mensagens de texto, ou por qualquer rede social no momento.

Não se sabe ao certo como tudo se iniciou, mas, segundo as autoridades que fazem a perícia no local, uma brincadeira entre colegas no baile escolar que acontecia no momento, teria saído do controle e ocasionado tal catástrofe."

15 de Novembro de 2023. 2:38 PM;
O plantão noticiário interrompe a programação principal para uma atualização urgente:

"Uma chuva de meteoritos acaba de atingir as ruínas de "Viv High School". Os peritos que realizavam a perícia do local com a ajuda dos bombeiros tiveram que sair as pressas, e alguns funcionários acabaram feridos.
Apesar de ser um tanto controverso de se dizer, o local aparenta estar no centro de algum tipo de maldição. Qualquer tipo de investigação está suspensa, já que o lugar está inacessível. Todos os hidratantes da cidade foram destruídos durante a madrugada, o que dificultou o trabalho dos bombeiros. A água que foi usada no combate às chamas vieram de cidades vizinhas. O fogo e as explosões que se arrastaram pela cidade dificultaram e ainda dificultam a locomoção das autoridades e de civis.
Estamos há cerca de de dez metros da escola, esse é o mais perto que conseguimos chegar da mesma, já que as bolas de fogo contribuíram para que a estrutura do prédio ficasse ainda mais precária; além das crateras que se abriram ao redor do local, devido ao impacto das dezenas de meteoritos.
Voltaremos assim que tivermos mais informações".

O repórter em questão estava preparado para relaxar a postura, apesar de estar nos segundos finais da cobertura. O homem começou a ouvir sussurros repetidos, que passaram a ficar extremamente altos. "Vince, Vince, Vince". Os integrantes da equipe técnica pareciam também escutá-los, já que eles aparentavam procurar algo e tinham um semblante confuso e assustado.
A transmissão ainda não havia se encerrado, tudo acontecia em poucos segundos.

Estava nublado, porém abafado. O calor era intensificado pelas ruínas ainda ferventes da escola, apesar do fogo já ter sido controlado por grande parte. Restavam apenas pequenos focos.

O repórter Luke Morgan, de repente, começou a sentir uma extrema e repentina dor na cabeça. Começou a gemer de dor e levou as duas mãos para a cabeça. Fechou os olhos com força, caiu de joelhos no chão, largando o microfone, fazendo com que o objeto caísse sobre o asfalto, ocasionando um chiado, seguido de um barulho alto de microfonia na transmissão. Antes que pudesse fazer mais alguma coisa, teve sua cabeça estourada de forma, até então, inexplicável em rede nacional, como se fosse uma bexiga de ar que fora espetada por um alfinete.

O nome "Vince Afton" foi posto na mente de todos que assistiam a cena de forma imediata.
Era confuso, alguns sequer sabiam de sua existência, mas sabiam que foi ele quem fez aquilo; tudo aquilo. A escola, a cidade, o repórter... Sem explicação, sem porques; só sabiam.
Sejamos honestos, dezessete anos resumidos em dor, angústia, tristeza, agonia e raiva. Um poder não explorado, mas assim que descoberto, lhe foi útil e extremamente prazeroso quando usado. É injusto chamá-lo de monstro, ele era apenas um garoto. Uma vítima.

Vincent Clay Afton.

Na visão de Irma Afton, seu filho era o pior de seus pecados. Se questionava se era, e até torcia para que fosse um câncer, pois assim, poderia simplesmente morrer. Esse seria o preço a se pagar por ter deixado o mal ter lhe adentrar. Assim, poderia simplesmente ir para o céu após seu sacrifício.
Porém, após horas de dores, gritos e muito sangue, encarou o bebê que saiu do seu ventre. Chorava alto e estridente. Arregalou os olhos, incrédula.

Ela deu a luz sozinha. Paul provavelmente estava em algum boteco ao fim da cidade.

— Não, não, não...
Balançou a cabeça em negação.

— É o renascimento dele... — Sentiu a respiração começar a pesar e seus batimentos acelerarem. O mal está em casa. — Arranque-o. Arranque-o!

Esticou o braço até a gaveta da cabeceira da cama e a abriu. Retirou uma tesoura dali e a apontou para o bebê.

— Vamos, vamos, vamos... Não deixe o mal se instaurar.

Sussurrou para si mesma, tentando criar coragem para perfurar a criança.

O choro do bebê diminuiu de certa forma e ele encarava a mulher.
No fim, els não conseguiu matá-lo e apenas cortou o cordão-umbilical. Segurou o garotinho no colo e o aconchegou ali.

Para uma pessoa sã, era uma visão exagerada de se ter. No ponto de vista dela não. Ela continha tantos danos psicólogos, então, não era de se esperar algo muito diferente.
Era uma família fadada ao fracasso, definitivamente. Vincent foi fruto de uma relação abusiva e de um ato abusivo e repugnante. Irma tentou impedi-lo. Se rebateu, se esperneou, gritou; mas foi em vão.

Paul era um alcoólatra nato, portanto, seu destinado já estava traçado. No dia 06 de Fevereiro de 2007, com Vince nos braços, Irma foi agredida mais uma vez pelo homem. Mas aquela seria a última.
A mulher falava à Paul que ele era o culpado por Satanás estar os rondando, tendo em vista o seu estado alcoólico.

"Você bebe direto da fonte de Lúcifer" a mulher disse.

Fedendo a uísque barato, Paul gritava versículos inventados, disseminava misoginia enquanto rasgava páginas da Bíblia e às colava na parede.
Desferiu socos e chutes em sua esposa, afirmando que a mesma continha uma alma fraca de mulher, e que por isso Satã à usou para que fosse seduzido por ele, e Lúcifer reencarnasse na criança que ela segurava nos braços.
Pelo incrível que pareça, ela ainda sentia algo que era próximo do amor. O que ela julgava ser amor. Na real, não era amor; era medo.

Paul saiu pela porta da frente e a mulher pôde respirar aliviada. Horas mais tarde, ouviu o barulho da campainha ecoar pela casa e assim foi até a porta da frente. Olhou para os dois lados, franzindo o cenho ao não vizualizar ninguém.
Abaixou o olhar. Soltou um grito, espantada. Ficou pálida e seus batimentos se aceleraram novamente.

Estirado no chão, os olhos de Paul pareciam ter sido vítimas de algum tipo de explosão. Dava para ver seu disco óptico. O rosto estava totalmente coberto por sangue e a garrafa de cerveja que tinha em mãos antes de morrer, tinha pontas quebradas e pontiagudas; agora atravessada em seu peito.

Apesar de a autópsia ter descrito a morte como um acidente infeliz de um homem bêbado, essa não era verdade; a verdade era Vincent. Várias questões à respeito dele são um tremendo mistério, até mesmo décadas depois da noite de 14 de Novembro de 2023, mas a grande questão, que responde diversas dúvidas à seu respeito, é que ele era telecinético.

Uma relação conturbada que ia de mal a pior, repreendendo ao extremo seus trejeitos e falas. O conceito relação abusiva parecia ser passada de geração em geração naquela família, já que essa descrição trata-se de Irma e Vincent.

Na escola, sua vida não é muito diferente. É complicado ser julgado por ser gay sem ao menos saber se realmente é. No final das contas, foi tirado do armário.
Tudo parecia ter sido feito para que a sua vida caísse em uma desgraça eterna. Nada dava certo. O rapaz de fato se descobriu gay, e quando tirado do armário, sua mãe obviamente descobriu, fazendo com que a mulher beirasse (mais ainda) a loucura:

— Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte. REPITA, HOMEM!!

A mulher ordenou, tendo uma Bíblia em uma das mãos, e com a outra, segurava o cabelo de Vince com toda a sua força, de forma bruta, o obrigando a olhar para si.

O loiro sentia uma forte dor na cabeça, e chorava desesperadamente, implorando por misericórdia.

— Para! Tá doendo muito! Por f-favor!

— Desgraça! Demônio! Peste! — Fechou o livro com força, largando o cabelo do garoto e simplesmente desferindo a capa dura do objeto contra o rosto de Vince. — Deus, tenha misericórdia deste pobre garotinho. O tire do caminho do pecado e jogue luz sobre essa alma fraca e pecadora.

A mulher juntou as mãos, olhando para cima, encarando o teto, enquanto seu filho emitia gemidos de dor, com soluços em meio à estes; deitado no chão, com a mão onde o livro lhe foi acertado.

Tudo doía para diabo. Os poros dos seus fios de cabelo pulsavam, seu rosto ardia e seu nariz se esvaia em sangue.

— Piedade, mamãe...

— Piedade?! — Gritou a mãe. Reuniu os copos de vidro que estavam sobre a mesa próxima, os jogando na direção do adolescente.

Os vidros que lhe eram acertados originavam cortes em seus braços, pernas e testa. A dor aumentava cada vez mais, porém, sequer se comparava a de seu coração. A impressão que dava, é que a mulher seria capaz de matá-lo ali e agora. Ela tinha isso em mente, no final das contas, mas não o fez. Ela enfrentaria o diabo.

— Mãe! Para! — Pediu novamente.
Foi em vão.

— Vá para o seu quartinho rezar!

Vince rapidamente balançou a cabeça em negação. Aquele maldito closet. O mesmo lhe dá arrepios só de vizualizá-lo em mente.

— Não!

— Vá!

— Por favor, mãe! Senta e conversa comigo! Eu não escolhi nascer assim!

— VÁ JÁ!

O pegou pelo pulso, em tempo de quebrá-lo. As mãos ásperas da mulher, com calos e cicatrizes apertara Vince com tanta força, que, mesmo por segundo, parou de sentir os dedos das mãos.
Parou na frente do pequeno closet, e abriu a porta.
Vince arregalou os olhos, tentando se soltar, encarando o closet, amedrontado.

A luz azul que piscava repetidas vezes, falhava em iluminar do cômodo; era frio e escuro. Sentiu um calafrio percorrer pelo seu corpo, seguido de um forte arrepio.

— Peça perdão, Vince! Pobre alma, pobre garoto. O mal está lhe tentando, pobrezinho. Não se renda, Vince, ele vai te possuir, assim como seu pai me possuiu.

Vince gritou e tapou os ouvidos.

As sobrancelhas franzindas em raiva se intensificaram no rosto da mulher, sentindo seu coração disparado, desesperada. O mal estava em sua casa, em seu filho. É o fim do mundo!
Empurrou Vince closet a dentro, o trancando ali.

O rapaz gritou mais, espancando a porta, chorando desesperadamente.

— Me deixe sair! Por favor!

Irma virou-se e escorou as costas na porta, fechando os olhos, ouvindo os gritos, levantando a mão, a levando até seu rosto, fincando as unhas em seu maxilar, arranhando a região. Sangrou. Ardeu.
Sorriu sadicamente, suspirando em satisfação.

— Ore e implore por perdão, garotinho. Ore.

— Mãe?!

Gritou, se esperneou. Uma hora parou de bater na porta.

— Mãe!!??
Sem resposta.

Bufou, frustrado; triste. Enfurecido.

— Maldito seja Cristo!

De repente, a porta se rachou. Não caiu e nem nada do tipo; "apenas" uma rachadura certeira, exatamente no centro do objeto surgiu. Vince encarou o que foi feito por ele (apesar de não saber), se assentando no chão e se encolhendo ali.

Irma deu um pulo, olhando para a porta, incrédula.

— Oh, céus. — Balançou a cabeça em negação, voltando a encarar o teto. — Deus, me salve. Me salve, me salve, me salve. — Sussurrou.

Vince se deitou no chão, encarando a grande caricatura presente naquele armário minúsculo. Se encolheu mais.
O que um dia já foi um dos mais lindos anjos, agora segurava um tridente e continha um um rabo pontiagudo. Os olhos negros encaravam as órbitas azuis do loiro, como se lessem sua alma.
Voltou a chorar, mas dessa vez, silenciosamente.
Apenas lhe foi permitido ver a luz do dia novamente dois dias e meio depois.

Mesmo nunca tendo se deitado, ou até beijado um homem sequer, Irma não admitia sequer a existência do seu
primogênito. O garoto, mesmo com tamanho abuso psicológico, com todas aquelas agressões, pressões e ameaças, sabia apenas amar a mais velha com todo seu coração, afinal, no final do dia, ela era a única com quem ele conversa. Obviamente, tinha muita raiva remoida dentro de si, mas era manipulado há tanto tempo e desde tão novo, que era difícil ter uma visão realista sobre a sua situação que se encontrava e ter a noção de que não era amor, ou sequer uma tentativa desesperada de uma mãe de salvar seu filho, cujo tanto ama. Era abuso. Puro e sórdido abuso.

Na escola, passava de cabeça baixa, querendo ao máximo não chamar a atenção dos demais alunos, pois sabia que as expressões de nojo, as risadas, os cochichos eram inevitáveis quando ele se mostrava presente nos corredores.
Um amigo é o que ele implora por, mas o que ele sempre ganha, são puxões de cabelo, empurrões e socos. Com um corpo beirando a desnutrição e o rosto espinhento, era inevitável a sua aparência não se tornar uma pauta; Tudo que o envolve acaba virando uma pauta, mas nunca de forma positiva. Seus olhos continham um azul cristal lindo e invejável, seu cabelo loiro tinham ondulações adoráveis e delicadas em seus fios, mas isso passava batido por todos, afinal, é sempre mais prazeroso apontar o que há de negativo nas coisas.

As aulas de educação física eram como o inferno. Sua exclusão ficava mais aparente que nunca. Sua falta de habilidade e a inexistência da sua imposição incomodava os demais que testeminhavam tal cena.

— Vamos, Vince!

Karen Colby, a professora de ginástica, leva o apito até a boca, tomando ar e o assoprando, fazendo com que o objeto emitisse um som fino e extremamente alto. Isto fez com que o Afton olhasse assustado para a mulher.

— Como você conseguiu passar de ano, hein? É uma questão que eu não consigo tirar da cabeça.

Deu passos largos e lentos em direção ao loiro, o encarando, fazendo com que ele recuasse por impulso.

— Desculpa. — Ele murmurou, abaixando o olhar, sentindo seu coração começar a palpitar mais rápido.

Um som de pum se fez presente no local, fazendo com que as risadas se tornassem presentes na quadra, que até então estava em completo silêncio, enquanto todos assistam os dois.

— Acorda para a vida! Estou sem paciência. Vamos, vamos! Chuta essa bola. — Ronnan Konded fala, sem sair da sua posição do jogo encarando Vince. — Eu sei que de bola você entende.

Ronnan Konded era como o espírito obsessor de Vince. Tinha cabelos lisos e os olhos verdes. Não era sarado, mas tinha músculos marcados e um tanquinho que faziam sucesso entre as garotas.

Parecia sentir um prazer quase que descomunal quando caçoava Vincent. Era seu passatempo preferido desde os primórdios da escola. Apesar de pegar no seu pé desde a primeira vez que o viu no jardim de infância. Fora Konded quem começou a onda de pescotapas em Afton no ano de 2013. Mais tarde, naquele mesmo ano, os pescotapas evoluíram para socos, em seguida chutes, e quando se deu conta, já lhe eram despejados tudo aquilo de uma vez. Eram raros os dias cujo Vince não sofresse um empurrão sequer.

O rapaz magro soltou um longo suspiro, posicionando a bola na sua frente, a encarando, limpando a testa, que estava completamente molhada com aquele suor insistente. Crispou os lábios, e chutou a bola, de um jeito completamente desajeitado, o objeto saindo do gramado, diversos murmúrios irritados surgindo, fazendo com que Vince sentisse seus batimentos ficarem mais intensos, extremamente envergonhado.

Olhava com medo para as pessoas, pois sabia que seria duramente criticado pela jogada. É sempre assim. Fechou os olhos com força, em um reflexo rápido. Ignorar, ou pelo menos tentar, de olhos fechados é mais fácil.
Porém, foi uma indecisão infeliz, já que sequer pode desviar da bola, que voltava com toda a força em sua direção e bateu contra a sua testa, o fazendo se desequilibrar e se escorar em uma das pilastras ali presentes, emitindo um grunhido de dor, levando as mãos para onde o objeto havia batido.

— Que merda, viu?!

Joseph, tomou a palavra. O rapaz bombado, de pele bronzeada e cabelos cacheados era lindo. Subcapitão do time, estava prestes à entrar para o exército. Tinha um futuro promissor. Intimidava a qualquer um que cruzasse.

Se aproximou de Vince e direcionou um cuspe na direção do rosto do mesmo.
Vince sentiu um enorme aperto se formar no seu peito, franzindo o nariz em uma expressão de nojo ao sentir a saliva alheia escorrer sobre o seu rosto, a limpando com a camisa.

— Você é um viadinho imprestável mesmo. Estranho.

Se afastou.

Aquelas palavras doíam tanto, ninguém parecia se importar com os seus sentimentos e com o quão mal aquilo tudo lhe fazia. Ninguém realmente se importava.

O barulho do sinal se fez presente, indicando o fim da aula, os alunos começando a sair irritados do campo, mas não sem desferir tapas e arranhões em Vince à medida que passavam por este.

— Para, por favor!

Ele pediu, em um tom amedrontado, escondendo o rosto com as mãos, na tentativa de se proteger.

— Regra! Regra! RE-GRA!

A professora exclamou, parando ao lado do estudante, dando um tapa estalado na parede, que ocasionou um baralho alto, que ecoou pelo local, fazendo com que Vince se assustasse.
Recuou mais.

— D-Desculpa, professora. — Murmurou novamente. — Eu não... Queria estressar a senhora.

— Tanto faz. Saia logo. Você vai se atrasar pra próxima aula.

Vince prontamente a obedeceu e caminhou em passos rápidos para fora dali.

Essa é a sua vida. Até os professores lhe odeiam, fazendo com que o garoto se questionasse o que ele fez de tão errado; O que ele fez? Ele tenta a todo custo passar despercebido, já que, à essa altura, é impossível fazer uma mínima amizade.
Não é fácil. Imagina só não ter com quem desabafar, não ter alguém para abraçar. Um mísero abraço genuíno é o que ele clamava por; mas ao invés disso, ele recebia cuspes e surras, tanto dos seus companheiros de escola, tanto de sua mãe.

Depoimento de Any John ao 'Comitê Afton' (05 de Janeiro de 2024):
— Senhorita John, antes de começarmos, lhe dou os meus sentimentos, sei que perdera muitos amigos próximos e que trata-se de um momento extremamente difícil... Mas gostaria de pedir que se mantesse fiel ao que presenciou na noite de 14 de Novembro de 2023.

A garota levantou o olhar e colocou uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Suspirou e assentiu.
Pigarreou.

— Sou toda ouvidos, meritíssimo.

— Declare o seu nome, por favor.

— Any John.

— Any John, você era colega de classe de Vince Afton, certo? — Assentiu. — Eram próximos?

— Até certo ponto.

— Explique, por favor.

Piscou, analisando o tribunal. Suspirou novamente.

— Não éramos super melhores amigos, éramos colegas próximos. Vince não tinha amigos.

— Mas sabia que ele tinha problemas com a mãe, certo?

— Ah... Sabia. Claro que sabia. Nunca fui até a casa dos Aftons, mas já aconselhei Vince algumas vezes em relação à sua mãe. — Fez uma pausa. — Sobre a escola também.

O juiz arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Caramba, sem papas na língua. Qual era a situação? Qual foi seu conselho?

Any cruzou os braços e apoiou as costas no descanso da cadeira.

— Bom, tem uma hora que a gente cansa de ver alguém apanhar à toa. Falei à ele que tinha que se impor.

— E surgiu algum efeito?

— Estamos aqui agora, não estamos? Um dia ele se impôs.

O juiz Blake Presner piscou os olhos e ajeitou a postura, encarando a garota.
Ficou alguns segundos em silêncio.

— Sabe o que significa "conspirar", Any?

— Sei. É quando planjemos fazer algo sem que alguém em específico saiba.

— Conspirou a favor da tragédia de 14 de Novembro?

Any piscou, incrédula.

— O senhor realmente me fez essa pergunta? Tem noção do quão ridícula é essa pergunta?

— Por favor, responda, senhorita John. A senhora está em um tribunal.

— "Ora, ora, sei que é um momento de difícil" e blá-blá-blá. Você acabou de me perguntar se fui a favor da morte de amigos meus. É claro que não.

Murmuros começaram a se fazer presentes no local, fazendo com que o juiz batesse seu malhe.
Todos se calaram.

— Por favor, tente se conter um pouco, senhorita John. Estamos apenas visando todas possibilidades, tendo em vista os relatos pré-baile.

— Uma briga com meu namorado não faz com que eu deseje a morte de todos ao meu redor.

— Entendo, senhorita John. — Suspirou. — Mas voltando à Vince Afton, poderia nos dizer qual foi o pivô para a aproximação de vocês?

[...]