Stone Girl - Uma garota incrível
1 Uma garota incrível
Estava cansada. Carregava em suas costas um peso enorme, que não suportava mais. Não aguentava mais ter de usar aqueles óculos escuros, que nada combinavam com ela. Só sentia-se confortável em casa, onde morava sozinha, e podia tirá-los, ver a luz. Mas ainda assim a culpa nunca a deixava. Seu coração despedaçava-se só por lembrar. Por suas contas, apenas no dia em que descobriu o que podia fazer, foram seis pessoas de uma vez. Alguns tratariam isso como uma benção, uma capacidade incrível. Mas ela odiava. Só uma palavra poderia descrever, em sua opinião: maldição.
Teve muitas dúvidas sobre o que deveria fazer, no início. Saiu de casa, pois não suportaria causar mal à sua família. Quase parou de estudar, mas depois optou pelos óculos. Algumas pessoas deviam achar que era cega.
-Vai ser uma garota incrível, Amaya. – sua mãe dizia quando era pequena.
Sempre que lembrava disso sentia uma angústia enorme, porque aconteceu exatamente o contrário. Não era nada incrível. Queria ser uma garota normal, com sonhos e aspirações, amigos fiéis, uma boa situação de vida. Nada disso era pedir demais. Só queria ser comum de novo. Nunca quis tanto se misturar a multidão sem destaques que é o mundo. Mas não podia.
Não saia para lugar nenhum, por medo de algo acontecer. Decorou todos os locais da escola onde haviam espelhos ou vidraças, somente para desviar-se deles. Não tinha nenhum amigo de verdade, talvez porque todos a achassem estranha e isolada. Era melhor assim.
Talvez Amaya nunca seria capaz de perdoar a si mesma. Desde que tudo mudou, dois anos atrás, sentia mais raiva de si até do que dela. Dominika. Não achou que era capaz de odiar alguém, até Dominika.
Nunca acreditou em magia, fantasmas, nem nada do tipo. Gostava de histórias, de pensar em outros mundos, outras criaturas. Mas jamais achou que fosse verdade. Tudo isso para ela resumia-se a livros e filmes. Gostaria de poder voltar à época em que tudo isso não era sua realidade.
Dominika mostrou-se gentil e amável. Aproximou-se de Amaya e sua família, logo conquistando Francis, sua mãe. Ela mesma gostou da mulher, que a levava livros e doces. Tinha 14 anos e já sabia identificar o que era bom e ruim, e Dominika parecia uma boa pessoa. Seus grandes olhos eram tão inocentes, seus gestos e sua postura corporal transmitiam tanta segurança. Amaya adorava o fato de Dominika só usar vestidos e botas de cano alto. Achava o máximo ter uma amiga mais velha, de 26 anos. Quando Francis disse que Amaya seria uma garota incrível na frente de Dominika e ela disse “Com certeza vai”, a menina não sentiu em suas palavras a ambição que reconhecia agora.
Sentia-se usada. Um projeto fracassado. Uma tentativa que não funcionou. Viu o desprezo nos olhos de Dominika quando a mulher percebeu que tinha dado errado. Depois, não havia mais nada para ver. Porque estava morta.
A primeira vítima.
Apesar de tudo, não se achava uma assassina. Nunca quis o mal de ninguém. Tentou evitar ao máximo ferir as pessoas. Mas algumas provocaram o destino, e as consequências chegaram.
-Nunca tira esses óculos, tem algum problema? Vamos, deixe-nos ver. Ou é tão horrível assim? – as garotas riam, e Amaya andava para trás, desnorteada. Que isso não esteja acontecendo, pensava ela.
Quando o muro mostrou-se, imponente, a suas costas, soube que não haveria saída.
-Veja, não dá mais pra correr! – exclamou a outra, com um sorriso cínico nos lábios. Antes que pudesse prever, esquivar-se, qualquer coisa, já estavam em cima dela, arrancando a armação de seu rosto. Fechou os olhos imediatamente. –Então agora vai fechar os olhos? Sabe, podemos esperar. Uma hora terá de abrí-los.
-Acabe logo com isso, tenho que ir para casa. – disse alguém.
Então, cutucaram seus olhos, apertando-os. Resistiu, mas doía. Forçaram mais, e Amaya não aguentou. Teve de abrir os olhos, e assim que o fez, sentiu a decepção das garotas por verem que não tinha nada demais neles. Porém, quando perceberam, já era tarde demais. Não sobrou ninguém para contar a história.
O pior de tudo era livrar-se de suas vítimas. Mal podia olhar, então como as moveria e as levaria para longe, para que ninguém visse? Mas era necessário. Nunca se acostumaria, mas se fizesse o que planejava, não teria de se acostumar mesmo.
Não haveria ninguém para encontrá-la. Onde vivia, nenhuma pessoa ia. Buscou o local mais distante possível de tudo e todos. O que mais a incomodava era perguntar-se como sua mão ficaria. Conversavam pouco, nunca mais se viram. Ligava às vezes, dizia que estava bem, e sentia que Francis acreditava. Estava feliz pela filha, que para ela, tinha mesmo se tornado uma garota incrível. Talvez devesse dizer que ia sumir por uns tempos, ir para um trabalho voluntário, em algum lugar remoto onde não poderia entrar em contato com a mãe. Mas algum dia, ela saberia. E sofreria.
No fundo, Amaya sentia que sofrer agora ou depois seria ruim, de qualquer forma. E que, mais que qualquer um, sua mãe sempre estaria a seu lado. Então escreveu uma carta, contando tudo. Cada detalhe. Saiu e a enviou pelo correio.
Indo de volta para casa, observou as pessoas na rua. Algumas sorridentes, ao lado de amigos e namorados, outras caminhando calmamente, tocando a vida. Soube que também deveria fazer isso: seguir com vida, e permitir que todos os outros seguissem com a deles também.
Subiu as escadas, passando direto pela porta do quarto e entrando na despensa. Cheirava a mofo e estava escuro, mas viu o brilho do que procurava saindo pela pequena parte descoberta pelo pano, como se o objeto a chamasse. Pegou-o, com cuidado, como se fosse algo contagioso.
Colocou aquilo em cima da penteadeira. Abriu a janela de metal, deixando a luz do sol entrar, assim como a brisa leve do fim de tarde. Seus cabelos lisos voavam um pouco quando se postou de frente à penteadeira. Sentiu alívio pelo que ia fazer, mas também tristeza. Tristeza pelas coisas que iria deixar para trás. Tristeza pelo que aconteceu. Lembrou-se mais uma vez de Dominika, prendendo-a naquela maca e inserindo todas aquelas substâncias nela, entoando cânticos e fazendo suas mãos brilharem com uma luz azul. Sentiu o mesmo medo que sentira naquele dia. Lembrou-se de sua mãe sorrindo, e pensou também nas lágrimas que ela derramaria ao ler sua carta. Lágrimas que agora corriam por sua própria face. Suspirou. Puxou o pano que cobria o objeto e de repente estava se encarando no espelho.
Tanto tempo que não sabia mais como era. Apreciou seus traços, seu rosto, seus olhos castanhos aparentemente insignificantes. Então começou a sentir, vindo debaixo. Mais lágrimas escorreram, a brisa tornou-se um vento, seus cabelos voando.
“Adeus”
Despediu-se de si mesma, certa de que tudo ficaria bem.
“Vai ser uma garota incrível”
Agora, era mesmo incrível.
Quem ali entrasse, veria uma estátua chorosa. Quem ali entrasse, veria o quão linda havia sido Amaya, a garota de pedra, e mesmo que não soubesse o que ocorreu, apreciaria seu sacrifício.
“Adeus”
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