— POV DARYL –

Tudo aconteceu tão rápido... Não tive tempo de ter as reações certas nos momentos certos.

A única coisa que eu queria era um pouco de paz e sossego depois do dia tumultuado que tive. A cena daquela garota baixinha espremida contra o armário tentando se defender, não saía da minha cabeça. Mal ela sabia que era apenas um gatinho imaginando ser um leão. Com certeza ela não teria a menor chance de sobreviver sozinha lá fora. Pergunto-me como ela sobreviveu durante esses dois meses.

Sou praticamente arrancado de meus pensamentos com Andrea puxando-me pelo braço. Soltei-me com força. Quem ela pensava que era?

— O que você quer Andrea? — perguntei, começando a irritar-me.

— Preciso falar com você e Rick. Aqui e agora — disse ela decidida, irritando-me ainda mais, se possível.

Rick estava passando e foi puxado por Andrea da mesma forma que eu. O que havia com aquela mulher? TPM eterna?

Ela respirou fundo e sem o menor aviso explodiu sobre nós.

— Por que vocês a trouxeram pra cá? Já não temos pessoas demais aqui?! — Andrea gritou, e tenho certeza que o acampamento inteiro pôde ouvir.

— Calma Andrea, o que você queria? Que a deixássemos sozinha? Ela estava apavorada! — disse Rick, perdendo a paciência.

— Como você concordou com ele, Daryl? — ela virou-se para Daryl, ignorando o que Rick acabara de falar. — Nós estamos com os suprimentos contados, temos crianças, poucas armas... Vocês sequer sabem quem ela é! Por Deus, vocês mesmo disseram que ela estava apavorada, já temos pessoas demais para proteger aqui! — aquela mulher tinha perdido a noção do perigo? Ela praticamente estava enfiando o dedo na minha cara, como se tivesse o direito de exigir explicações.

Quando me preparo para responder tudo o que ela merecia ouvir, ouço alguém soluçando. Instintivamente me viro, e vejo Sarah parada nos observando. Ela chorava e era óbvio que tinha ouvido todas as baboseiras que Andrea disse. Rick estava virando-se na direção dela, provavelmente tentaria a acalmar, mas ela sequer percebeu, pois já estava correndo desesperada para dentro da floresta.

Preparei-me para segui-la, mas sinto Andrea me puxar novamente. Viro-me e dou de cara com a loira, ainda mais irritada que antes, se possível.

Meu sangue ferveu como nunca na minha vida. Não faço a mínima ideia de porque, mas queria arrancar a língua de Andrea por ter dito aquilo.

Respirei fundo, minhas mãos tremiam de puro ódio e me controlei para não pular no pescoço dela.

— Para sua sorte, uma das coisas que eu não faço ainda é bater em mulher, Andrea. Mas pode ter certeza de que se ela não voltar sã e salva dessa floresta, eu vou esquecer todo e qualquer princípio que ainda tenho — tentei ser o mais claro possível. Espero que ela esteja bem avisada. — Além do mais, os maiores fardos que temos no grupo são você e a catadora de cogumelos, que não servem nem para lavar a roupa — cuspi no chão a sua frente.

Ela pareceu chocada por alguns segundos, e logo já se preparava para fazer mais algum tipo de comentário inútil, porém um grito é ouvido vindo da floresta. Eu sabia quem era a dona daquela voz.

Rick, Shane e eu, corremos para a floresta. Antes que pudéssemos sequer entrar para ver o que estava se passando, vejo o objeto da minha preocupação se aproximando com um corte profundo na cabeça. Ele sangrava muito e o sangue caia sobre a fina blusa branca que ela usava.

Antes que Rick ou Shane conseguissem falar o que queriam, ela disse algo que nos deixou ainda mais chocados.

— Errantes. Pelo menos trinta. Estão vindo — e como confirmação, pudemos ouvir gemidos ao longe.

Sem pensar duas vezes, corro em direção à ela, e vejo que um Walker está a um passo de alcançá-la. Minha besta, que estava presa nas costas, foi retirada com uma velocidade incrível e consegui acertar em cheio a cabeça dele, que caiu aos pés de Sarah. Ela estava em choque, paralisada no lugar. Assim que a alcanço puxo-a, carregando-a em meus ombros em direção ao trailer. Pelo menos lá ela estaria segura.

As coisas passavam a mil ao meu redor. As pessoas gritavam e pude ver, pela minha visão periférica, Ed ser devorado por aquelas coisas. Joguei Sarah rápido demais para dentro do trailer. Juro que ouvi um estalo, mas não tive tempo de notar de onde veio. Fiquei na porta, derrubando todo o qualquer zumbi que ousasse se aproximar. Por volta de umas quatro horas da manhã, estava tudo acabado.

Assim que as coisas se acalmaram, ousei espiar para ver como ela estava. Arrependi-me de imediato. Ela estava desmaiada, e havia muito sangue em seu rosto em decorrência do corte, porém isso era de se esperar. O que mais me chocou foi seu braço. Na hora liguei os fatos: foi esse o estalo que ouvi. Ele havia se quebrado. A queda realmente havia sido forte. Meu Deus, como ela podia ser tão frágil?

Com o maior cuidado que pude, levantei-a e a coloquei lentamente sobre um dos sofás do trailer. Gritei por Dale, alguém precisava cuidar dela enquanto eu resolvia o problema que estava causando alvoroço do lado de fora. Mais do que rápido, ele se colocou ao lado dela, limpando seus ferimentos.

Assim que botei os olhos do lado de fora pude perceber as proporções do estrago. Muitos não haviam resistido. Carol chorava ao lado de Ed, e Andrea estava debruçada sobre o corpo inerte da irmã.

Respirei fundo e comecei a cuidar dos que haviam sido mordidos. Um por um, eu furei a cabeça com uma picareta, alheio a tudo o que estava ao meu redor. Eu sinceramente estava no piloto automático, nem sequer prestei atenção no que os outros falavam. Estavam comentando alguma baboseira sobre enterrar os nossos ao invés de queimar. Pouco me importava. Minha preocupação tinha nome, e metade do que ela estava passando tinha a ver comigo.

Resolvemos ficar mais três dias no acampamento e depois partir. O lugar já não era mais seguro. Entrei no trailer e a vi ali deitada, estava apenas coberta por um lençol. Pelo que eu entendi, Carol estava tentando tirar o sangue de suas roupas, já que eram as únicas que ela tinha.

Mesmo com aquele braço enfaixado e o grande curativo na testa, ela parecia uma boneca. A pele dela era branca como a neve, e isso estava ainda mais acentuado devido ao sangue que perdeu. Ela não tinha mais do que um metro e meio — o que a fazia ter um ar de criança — . Se não soubesse que ela tinha vinte anos — segundo contou aos outros ontem —, diria que ela tinha no máximo quinze. Seus cabelos castanhos caiam em cachos um pouco abaixo do ombro. Ela tinha uma boca tentadoramente delicada, e enormes olhos verdes, que desde ontem à noite permaneceram fechados.

Deus, quando foi que eu fiquei tão mole? Esses pensamentos novos estavam me confundindo. O que eu estava sentindo não fazia parte do Daryl Dixon que eu deveria ser.

Algo me puxava para perto daquela garota, desde a hora em que a encontrei como um gatinho assustado. Isso estava ficando estranhamente mais forte. Tudo nela gritava frágil. Sarah parecia ter sido feita de porcelana de tão quebrável, mas ao mesmo tempo tinha uma determinação e uma vontade de viver tão grandes... Acredito que foi isso que a manteve viva até agora.

Depois de vê-la assim tão indefesa, eu só tinha uma certeza: A protegeria a todo o custo, e jamais deixaria que nada machucasse aquela baixinha novamente. Pelo menos no que dependesse de mim.

Sim, eu estava me sentindo muito estranho. Estranho e preso a algo que não sabia denominar... Eu queria estar perto e protegê-la, queria vê-la bem, e isso era uma merda! Nunca precisei dessas coisas, nem com meu irmão. Por que isso agora?

Pelos comentários que ouvi, iríamos para o CCD, o que pouco me importava já que tinha prometido cuidar de Sarah, e no momento ela não podia responder por si só.

***

As coisas pioraram, ela começou a ter febre noite passada. Já estava na hora de partir, e agora além de buscar segurança naquele lugar, buscávamos remédios que pudessem aplacar a infecção que estava surgindo em Sarah.

Nos dividimos em grupos e seguimos nosso rumo. Fiquei ao lado dela o tempo todo. Prometi que a protegeria, e ali estava eu, cumprindo minhas promessas.