Still Alive

27 Não quer saber onde está?


James andava de um lado a outro da Sala Precisa. Sua mente trabalhando mais rápido do que ele conseguia pensar, os murmúrios de seus amigos ignorados completamente. Fazia apenas meia-hora que sua namorada entrara no seu quarto, os olhos mortificados, e dissera em um fio de voz:

— James, eu sei quem sequestrou a Rose.

Ele demorou alguns segundos para processar a informação, e abriu o espaço na porta para que ela entrasse. Lis parecia alterada, quase desesperada, e ele lhe ofereceu uma xícara de chá, que foi recusada, antes de perguntar:

— Como assim, Lis? O que você viu? — ela respirou fundo antes de olhar nos olhos dele.

— Foi o Nikolai, Jay. Eu o vi, eu… eu lembrei — Lis pôs o rosto entre as mãos, enquanto sentava na beirada da cama — Eu não lembrava o que havia pensado quando fomos atacados, mas lembrei. Aqueles olhos eram familiares, James. Eram dourados. E eu vi o Nikolai e Kaleen indo para a Floresta Proibida.

— O que eles querem por lá?

— Meu palpite? Estão indo embora. Ele esperou até o torneio, pois não poderia faltar, e agora estão voltando para a França.

— Temos que avisar o meu pai.

— O quê? E ficar esperando eles tentarem fazer alguma negociação com os Pelletier? Não mesmo. Eu vou atrás deles — ele a encarou, não acreditando — Eu não aguento mais ficar parada, James. Assim que dissermos ao seu pai, eles vão reforçar a segurança de Hogwarts e sair daqui será impossível. É a nossa chance, Jay… Nossa chance de fazer alguma coisa.

Lis estava resignada, e James não poderia fazer nada a não ser ir com ela. Apesar dos protestos e insistência dos amigos, Lis foi firme ao estabelecer que apenas ela, Escórpio e James iriam para a França.

— Precisamos que nos dêem cobertura. James já não tem assistido às aulas, e esconder minha ausência e a do Escórpio é mais fácil do que esconder a de todos. É de suma importância que estejamos bem longe daqui quando descobrirem — James observou todos concordarem, e reservou um olhar a mais para sua irmã.

Desde que levaram seu primo, a Lily estava quieta demais e, ao contrário dos outros, não insistira em ir junto com eles. James quase não a reconhecia, mas achava que era melhor assim. Odiava pensar como seu pai, mas era realmente mais seguro. E três é sempre um bom número. Lis voltou a falar.

— Partimos ao amanhecer. Vou para a Sonserina arrumar as coisas. Se precisarem dormir, a hora é essa.

Com isso, partiu para as masmorras em passos decididos. Suas colegas de quarto já dormiam, e ela tirou a mochila magicamente expansível de onde a guardava no baú para viagens. Pegou todos os suprimentos que podia; ainda tinha comida no baú. Pegou os mapas franceses que examinara cuidadosamente enquanto formulava o plano de viagem, e suas roupas de couro e um saco de dormir. Também estavam guardados na bolsa a sua melhor coleção de facas de caça, adagas, sua espada e um arco e flecha com munição suficiente.

Lis sentou um pouco para respirar. Ela tinha um plano, havia pensado nele enquanto ia para o quarto do James, e enquanto contava tudo para os outros. Sair com James e Escórpio dificultava as coisas, mas ela não esperava que eles fossem simplesmente deixá-la ir sozinha. Então, somente algumas adaptações seriam necessárias. Rabiscou um bilhete que enviaria por sua coruja, e olhou o relógio na cômoda.

Pelas barbas de Merlin, ela estava exausta. Aqueles últimos dias dormindo tão pouco pesaram sobre seus ombros, então ela ajustou o despertador e se jogou sobre a cama, ainda de sapatos. Kandle pulou ao seu lado, ronronando.

— Eu preciso sair, ok? — ela sussurrou, enquanto acariciava seu pelo — Você não virá comigo — ele miou em protesto, mais inteligente do que um gato normal deveria ser — Fique com o Alvo. Estarei de volta logo — ele se aninhou, enrolando em seu longo cabelo — Teremos que dar um jeito nisso…

Lis acordou não com o despertador, mas com passos vindo para sua cama. A luz fraca do quarto refletiram em um cabelo ruivo, e olhos castanhos a encararam, decididos.

— Lily..? — ela murmurou, enquanto se sentava, esfregando os olhos.

— Escuta, aqui, Lis. Não importa o que você vai dizer, eu não vou ficar com minha bunda sentada na cadeira enquanto meu primo está lá fora. Eu vou com vocês, goste ou não — Lis franziu a testa. Tinha que dar crédito à menina. De fato, não seria tão ruim tê-la no grupo; quatro era um bom número caso precisassem se separar. Ela anuiu com a cabeça.

— Tudo bem… Mas tem uma condição — a garota levantou uma sobrancelha — o quão boa você é com uma tesoura?

***

James já esperava do lado de fora com Alvo, Escórpio e Maia, combinando as histórias que os dois contariam o resto do dia.

— Tudo bem, vamos ver se eu entendi. James está indisposto pela atividade física de ontem, e pediu para não ser incomodado. Lis está cuidando de você, e o Escórpio..?

— Eu peguei um resfriado ao ficar do lado de fora durante a noite, estou um pouco febril. Ninguém me viu sair da Sonserina.

— Lembrem-se de serem vistos perto do meu quarto e das cozinhas, para garantir o álibi de que estão levando comida para mim — James acrescentou, enquanto olhava para o castelo, nervoso. Lis pedira para que esperassem na orla da Floresta, mas ainda não havia aparecido. Ele não fazia ideia de como ela pretendia tirá-los do castelo. Quando perguntou, ela disse que já havia pensado nisso, e passou para outra parte do plano vago que havia formado. James não conseguia evitar a sensação de que estava sendo deixado de fora de alguma coisa.

— Onde está Lis? Já está quase na hora — de fato, o horizonte já começava a ficar mais claro com o alvorecer, e a ruiva não havia chegado.

Como se invocada por seu nome, um vulto, que só poderia ser ela, se aproximou. Um, não, dois. Lily estava ao seu lado, com uma mochila de viagem, e um sorriso resignado. Poderia ser um truque da luz, mas o cabelo de Lis parecia… mais curto? Sim, estava um pouco abaixo dos ombros agora, e ele ficou boquiaberto: Lis adorava aquele cabelo.

As duas estavam vestidas com algo que parecia medieval. Calças de couro maleável, camisas de algodão simples, um colete também de couro, quase um espartilho, que contornava a cintura e amarrava à frente, realçando os seios; capas de pele de lobo cobriam seus ombros, finalizadas com um capuz. Pareciam saídas de um filme de caçadores de bruxas. Lily era mais baixa e também era mais cheinha que Lis, mas não ficou desengonçada com as roupas; na verdade, parecia bem confortável.

— Ela vai com a gente. Sem discussões — ninguém era doido de contestar algo que ela dissesse com aquela energia. Os outros olharam para ele, esperando que ele pedisse instruções a ela, por medo de incomodar, talvez.

— Certo… Agora diz: como vamos sair daqui? — Lis inspirou e olhou para todos.

— Todos vocês precisam saber do plano de viagem, pelo menos para o caso de tudo dar errado, mas os que ficarem aqui não podem contar a ninguém, entendido? — quando todos concordaram, ela continuou — Nós iremos deixar Hogwarts com os trestrálios. Uma ou duas paradas devem nos deixar na França, então faremos o resto do caminho a pé, já que os territórios em que entraremos são magica e militarmente protegidos. Já entrei em contato com algumas pessoas que conheço, para facilitar nossa entrada e estadia por lá.

Lis fez uma pausa, como que para checar se todos estavam entendendo. James imaginou que os outros se sentiam exatamente como ele: deixados de fora dos planos dela; mas ele entendia, mais ou menos. Aquela era Lis, e ele confiaria sua vida a ela, assim como daria sua própria vida para salvá-la; se ela escondeu ou não contou algumas coisas, era por uma boa razão, talvez ela não tivesse maturado o plano ainda, afinal, não havia tido nem uma noite inteira para isso.

— É imprescindível que ninguém descubra que saímos antes de anoitecer. Precisamos estar o mais longe possível quando souberem, entenderam? — ela olhou para Alvo e Maia, que concordaram rapidamente.

Satisfeita, Lis tirou nacos de carne da mochila que trazia. James não viu nada acontecer, mas, aparentemente, Lily, Lis e Scorp, sim.

— Mana, você vê os testrálios?

— Sim, James. Eu fiquei com o vovô os hospital quando ele morreu, lembra?

E assim, Lis o guiou para montar no cavalo alado que ele nem enxergava. Era enervante. Os outros subiram nos seus e James não sabia se os invejava ou se comemorava nunca ter visto ninguém morrer. A ruiva o instruiu a como segurar e a não forçar o animal. Ele não precisaria guiar, os testrálios saberiam aonde ir.

Logo, os quatro estavam no ar, acenando para os que ficaram. James torcia para que conseguissem acobertá-los por tempo suficiente. O Potter observou os amigos diminuírem até que o castelo também se tornasse uma silhueta distante no horizonte. O sol nascia ao leste, atrás deles, e seu grupo seguia para a escuridão, onde o dia ainda não havia despontado.

Os cavalos voavam mais rápido do que ele imaginara, e ele observou, admirado, as florestas e estradas passarem rapidamente por eles. Um toque em seu ombro o trouxe de volta ao momento. O testrálio de Lis voava perto ao seu, ambos se provocando em tom de brincadeira. Ela lhe lançou um sorriso fraco, e ele lamentou a distância necessária entre eles.

— Você cortou o cabelo — o sorriso dela se abriu, e ela passou a mão por onde antes ficavam suas enormes madeixas.

— Não sabemos quanto tempo ficaremos fora, e andaremos por alguns dias. O cabelo muito longo só me atrapalharia.

— Está linda. Digo, ainda mais linda. Combina com você — ela deu de ombros e piscou os olhos, fazendo-o notar o quanto ela parecia cansada — durma um pouco, eu fico de vigia — ela acenou com a cabeça.

— Me acorde daqui a duas horas, vamos passar por terras trouxas, e não podemos ser vistos — ele concordou e ela se amarrou com um pano ao animal, que não reclamou; alguns segundos depois, James percebeu que ela já havia apagado.

Duas horas depois, ele teve pena de acordá-la, então fez ele mesmo os feitiços de proteção; ele tinha dezessete, era o único que não era rastreado pelo Ministério. Na verdade, esse fato o fez ficar curioso: se ele era o único não rastreado, como os outros fariam magia? Perguntaria a ela mais tarde. Protegidos, seguiram vôo até o sol ficar alto, seu relógio indicava que já eram dez horas, e foi quando Lis acordou, assustada.

— Ei, ei, não se preocupe, coloquei proteção em todos nós — ela pareceu mais relaxada, e então olhou para o céu.

— Vamos parar — ela avisou para todos — desçam naquela clareira a cem metros, perto do rio — todos desceram, e ela deixou os animais beberem a água. Ela mesma encostou no rio e tomou alguns goles. Ela parecia tão natural, como se tivesse bebido de rios muitas vezes na vida — vamos dar meia hora de descanso aos cavalos e então seguiremos cavalgando ou andando até o sol diminuir. Eles não são feitos para o sol forte, e podem se queimar. Nós também.

Lily e Escórpio se dispersaram pela mata para, imaginava James, aliviar as necessidades. O Potter se aproximou da namorada, meio mancando e envergado pela dor no corpo; a prova do dia anterior, a noite mal dormida e as horas seguidas de cavalgada cobravam seu preço. A ruiva virou, e seu rosto tomou uma expressão preocupada.

— Você está com dor.

— Estou bem — ela viu a mentira no rosto dele, e ele sabia disso. Ela suspirou e foi para onde estavam as mochilas, ele seguiu logo atrás — Lis, vamos seguir logo?

— Não demoraremos muito. Vou aconselhar os meninos a irem andando para não cansarem os testrálios. Não faz muita diferença, mesmo. Mas você pode ir no meu, se estiver com muita dor.

— Por que o seu?

— É o que tem carregado menos peso. Sou a mais leve, e a única com uma mochila magicamente expansível — ela finalmente pareceu encontrar o que queria, e tirou um saco de dormir da mochila, desenrolando-o no chão — É para você. Durma um pouco.

— Mas…

— Nada de “mas”, você vai ser inútil se não conseguir andar — o tom dela era incisivo, e James achou melhor deitar, enquanto ela tirava um frasco da mochila e se ajoelhava ao lado dele, falando com um tom mais ameno — E eu estou preocupada com você, então, colabore. Aqui, um remédio, beba pouco, isso é tudo o que temos.

Ele bebeu, e quando ela estava prestes a levantar, James segurou o pulso dela.

— Eu sinto que você está me deixando fora de seus planos — ela deu um sorriso nervoso.

— Jay… você me conhece; se eu contasse todos as partes do meu plano, perderia a oportunidade de ver a cara de surpresa de vocês — ela deu um sorriso nervoso — Nós vamos tirar Rose e Hugo de lá, e não vou deixar nenhum de vocês se machucarem — James não deixou de reparar que ela não se incluía na frase, mas o remédio começara a fazer efeito, e sua voz lhe traiu — descanse, querido. Te chamo quando chegar a hora.

***

Já faziam três dias que Rose fora jogada naquela cela, ou pelo menos era o que ela inferira, contando as trocas de guardas. Eram três duplas no total, que se repetiam em ciclos que ela imaginou serem diários. As duas primeiras eram compostas por um soldado de uniforme púrpura, e outro de uniforme negro como a noite. As insígnias em suas capas eram tão diferentes que ela não sabia se eram de patentes diferentes ou se não serviam à mesma pessoa.

O terceiro turno, que ela imaginava ser o noturno, tinha apenas dois de uniforme preto. Suas insígnias eram uma Flor-de-Lis rodeada pelas fases da lua. Eles eram consideravelmente mais gentis que os roxos, que nem dirigiam o olhar a Rose; traziam comida boa, água fresca, e um balde extra para ela se lavar, além de, apesar de ela fingir não reparar, impedir que os outros soldados, que a olhavam de um jeito faminto, tocassem nela. Um deles, um homem negro e forte, que ela descobriu se chamar Jean, até mesmo tentava conversar com ela, falando sobre a esposa Marie, e a filhinha, que se chamava Louise. Rose não entendia o porquê daquilo, mas a naturalidade dele a acalmava, mesmo que ela não respondesse.

— Tem certeza de que não quer saber onde está? — essa frase chamou a atenção dela, e Rose se aproximou das barras.

— Onde?

— Castelo Pelletier. Nas masmorras pra ser mais exato — ele a encarou — conhece o nome Pelletier, garota? — ele deveria ter percebido a expressão dela.

— Conheço Nikolai e Kaleen Pelletier.

— Então sabe quem trouxe vocês para cá — Nikolai… ela já desconfiava. Tinha a vaga lembrança de ser transferida para um testrálio antes de apagar novamente. Mas, espera, ele disse “vocês”.

— Mais alguém veio comigo?

— Seu irmão. Deve estar em alguma cela próxima — os olhos dela se arregalaram em espanto.

— Meu irmão está aqui? Eu quero vê-lo — ela gritou — Onde ele está?

— Sinto muito — ele pareceu realmente sentir — mas não posso te levar para ele — ela respirou. Certo, arrancaria mais informações dele, então.

—Você serve a eles? Os Pelletier? — ele contraiu os lábios, em desprezo e respondeu, com visível orgulho.

— Não. Sirvo aos D’Noir. — aquele não era o sobrenome da Lis?

— D’Noir? Como Lis D’Noir? — ele pareceu surpreso.

— Você conhece Lady D’Noir?

— Ela é… — não sabia se devia dizer a verdade — uma amiga. A melhor amiga dos meus primos — ele abriu um sorriso de dentes perfeitamente brancos, quase rindo. Pareceu que ia falar algo, mas ficou subitamente sério quando o som de um portão se abrindo soou.

Um senhor, de certa idade, mas em perfeita forma, entrou pelo portal de pedra. Ele era alto, e tinha uma composição maciça por debaixo das finas vestes bruxas, mas parecia cansado, embora não menos imponente. O que mais lhe chamou a atenção foi o longo cabelo grisalho, que ele deixava à altura dos ombros, e soltos, como Prof. Snape também fazia. O soldado se pôs em uma posição militar de honra.

— Olá, mocinha. Jean — ele reconheceu o homem com um aceno de cabeça e o soldado relaxou — Creio que não fomos apresentados adequadamente — ele falava pausada e lentamente, como se saboreasse as palavras, mas Rose imaginava que fosse para evitar o sotaque no inglês — Sou Horace D’Noir. E você, Rose Weasley. Soube que veio de Hogwarts, então deve conhecer minha neta, Lis.

Rose se surpreendeu com a fala dele, mas respondeu positivamente.

— Imaginei… Imagino, também, que esta cela seja por demasiado desconfortável, não? — ela concordou, de novo, hesitante — Conversei com o Lorde Pelletier, e ele por fim concordou que esta não é a melhor forma de tratar uma convidada, ainda mais se ela é um instrumento de negociação, estou errado? — dessa vez ela não respondeu — Vim tirá-la daqui, mas… o que mais posso fazer por ti, menina?

Rose estava pronta para cuspir que não queria nada que viesse dele, mas se lembrou de Hugo.

— Me disseram que meu irmão está aqui também — (Ah, sim, certamente) — Quero ficar com ele.

— Um quarto para dois? Já me fizeram pedidos mais difíceis. Jean, pode soltá-la. Claude — o outro soldado se sobressaltou — vá buscar o menino.

O homem saiu da antessala, e o outro destrancou o portão, deixando-a sair. O Conde se aproximou dela e sussurrou com uma voz suave, mas grave:

— Nem pense em tentar fugir. Esse não é meu castelo, e os soldados roxos não são tão gentis quanto os meus, os Nocturnos — ela reparou a ênfase dele para o uniforme mencionados, como se para que ela percebesse com quem podia ou não contar. Dito isso, ele se afastou, com um gesto para que o seguisse, e o Jean permaneceu logo atrás. Em uma súbita consciência, ela reparou que o Sr. D’Noir tratava os seus pelo primeiro nome, enquanto os outros se tratavam com patentes e sobrenomes.

Do outro corredor, Hugo apareceu, e correu em sua direção. O irmão havia crescido de salto no último verão, e já estava quase maior que ela, mas pareceu muito pequeno quando ela o envolveu em um abraço. Ele não parecia machucado, e ela percebeu que dois soldados com roupas negras o escoltavam. Aquele homem, o avô da Lis, os estava protegendo, mas por quê?

O grupo não esperou muito e voltaram a impelir os irmãos, agora abraçados, a prosseguirem escada acima. Por fim, abandonaram os corredores de pedra gasta e passaram para uma parte realmente deslumbrante. Tudo parecia brilhar em dourado e lilás, as formas finas e leves. Criados passavam pelo caminho, claramente procurando ficar invisíveis. E o soldado mais jovem, ao lado deles, um rapaz de cabelos caramelados, falou baixinho.

— Tome cuidado com o que falam por aqui, até as paredes têm ouvidos, e os criados não são leais a ninguém além deles mesmos — ele pareceu realmente enojado ao dizer aquilo.

— No castelo D’Noir — ela começou, baixinho — as coisas também são assim, também?

— Não. Lá, as pessoas têm a lealdade bem definida. Ao nosso conde e sua família, e entre eles. Nós, criados e soldados e camponeses somos uma família, mexeu com um, mexeu com todos.

Jean pigarreou e o garoto se calou, mas ficou por perto, como se dissesse que podia perguntar mais, mas mudasse de assunto. Naquele momento, Rose viu alguns homens com roupas cinzentas em frente a uma grande porta.

— Quem são aqueles?

— São nossos. Cinza para os não mágicos, preto para os bruxos, as estrelas nas insígnias são dos guardas pessoais do Conde — ele diminuiu ainda mais a voz ao falar — Jean é um deles, mas há sempre sete onde quer que Vossa Excelência vá. Entendeu?

Ela concordou, e o agradeceu, baixinho. Não era burra de questionar a relevância daquilo tudo, quanto mais informação, melhor. Ela tinha sorte de eles parecerem querer protegê-la, e o fato de guardarem um asco especial pelos Pelletier certamente ajudava. Virando um corredor (ela havia contado e mapeado o caminho até lá), chegaram a uma porta grande, que os soldados abriram, revelando o maior quarto individual que ela já vira. Na verdade, havia duas camas, mas a segunda claramente não pertencia ao lugar, não combinava.

— Vocês irão ficar aqui. Criados virão com roupas novas e comida, mais tarde. Lembrem-se, ainda é uma prisão, apesar de tudo. Soldados estarão nas portas e janelas.

Com essa última frase, os irmãos foram deixados sozinhos. Rose se banhou, vestiu uma camisola de algodão que uma criada trouxe e, enquanto esperava por Hugo, olhava pela janela. Era tarde, diferente do que ela previra. O quarto era muito alto, e guardas estavam no jardim, logo abaixo, os uniformes roxos. Eram Pelletier, então. Com um suspiro, ela olhou para a bandeja com a comida que chegara momentos antes, e mordiscou um pedaço de pão antes de deixá-lo de lado e afundar na cama macia demais.

Hugo saiu do banheiro com uma calça de algodão, o peito sardento à mostra, o semblante frágil. Eles sempre brincavam que Lily era que mandava e controlava ele, pois sempre foi mais durona, e mais segura. Ele, no entanto, sempre fora mais sensível e um pouco atrapalhado. Era tão nerd quanto a mãe e a irmã, mas não adquirira a mesma segurança, talvez por viver sempre escondido atrás da prima. Ele deitou ao lado da irmã, e ela acariciou os cabelos macios dele, que eram lisos, como os do pai, enquanto os dela fossem cacheados como o da mãe.

— Quanto tempo ficaremos aqui?

— Não sei, Hugo… mas mamãe e tio Harry logo irão descobrir onde estão nos mantendo.

— Estamos na França, não estamos?

— Sim.

— Será que aquela menina, Lis, vai saber onde estamos? Será que James virá nos buscar? Como o Tio Harry fazia pelos amigos dele anos atrás?

— Acho difícil, Hugo. Se alguém vai nos encontrar, será nosso tio, ele é o melhor auror de todos, lembra?

Ele concordou com a cabeça e logo adormeceu, se sentindo mais seguro ao estar com a irmã. Rose, no entanto, não dormiu. Sua cabeça repassava planos para escapar, mas todos tinham um grande problema: ela não conhecia a saída. Suspirando, se rendeu e afundou no travesseiro, abraçando o irmão. Só esperava que não demorassem muito para achá-los...