Still Alive
42 Hoje, não
Notas iniciais
Tudo aconteceu tão rápido, que ela quase não conseguiu registrar o caos que se instalara em questão de segundos. Em um instante, sua mão pairava sobre a do Nikolai, e ela estava prestes a começar a cerimônia de um casamento forçado, e no seguinte, gritos, explosões, e confusão.
Tudo o que lembrava era que as janelas se estraçalharam, todas de uma vez, como se alguém tivesse pressionado as proteções contra o próprio castelo, e então homens pulavam para dentro do salão. Seu primeiro pensamento foi: como estão fazendo isso? E então isso foi varrido de sua mente quando algo gigante atravessou por entre a multidão, arrancando mais gritos desesperados. Uma enorme e vermelha Meteoro Chinês, furiosa com quem a havia aprisionado por tanto tempo. Aquilo arrancou todo o fôlego de Lis.
Enquanto isso, a parte instintiva de sua mente, captou o comportamento dos guardas. Os D'Noir, já avisados da possibilidade de algo, reagiram rapidamente, armas em punho, e defesa forte. Se eram contra ou a favor dos que chegavam, ela não sabia. Já os Pelletier reagiram exatamente como ela por um longo minuto; estáticos, embasbacados, vendo a confusão se desenrolar sem entender como aquilo havia acontecido.
Alguém puxou seu braço, e isso a despertou do transe. Alarme estampava no rosto de Nikolai, preocupado, tentando tirá-la dali. Lis resistiu, reconhecendo os rostos dos que entravam — todos haviam treinado ou cuidado dela em alguma parte de sua vida; eram todos amigos de Carlo — e o fez soltá-la, puxando o braço bruscamente. Traição brilhou nos olhos dele quando percebeu que ela não fugiria, e que poderia, muito bem, ser a causa daquilo tudo.
Mas ela não se importava. Seus únicos instintos eram localizar quem era importante. Seu avô, que lutava para se aproximar dela; seu pai, com a varinha já a postos e encarando-a com urgência; e Kaleen, a qual olhava tudo com educado espanto, como se não conseguisse esboçar uma expressão exagerada nem em tamanha destruição. Lis apenas agarrou o braço dela, com mais força do que Nikolai havia feito — era para situações como aquela que a exigira por perto — e a empurrou contra o irmão, que a abraçou.
— Vá! — Foi sua única ordem. Vá, vá, vá.
Ela observou os dois se afastarem, seguindo o mesmo caminho que a multidão, para a saída contrária onde ela havia entrado. Ela voltaria pela entrada então. Com pressa, tirou a varinha de onde havia escondido na faixa do corpete, e correu. Naquele momento, nenhum dos soldados havia percebido que ela não era aliada, que não precisava ser protegida por eles: era apenas uma bruxa se defendendo dos invasores, e não um potencial problema. Deveria ser fácil chegar até a porta. Em tese.
Acontece que não era tão simples ir contra tantas pessoas, que buscavam a outra saída. Volta e meia, algum guarda Pelletier a reconhecia, e tentava convencê-la a seguir com os outros. Alguns feitiços rápidos, não verbais, cuidavam deles rapidinho, mas alguma hora alguém perceberia.
Lis estava ciente da localização do seu avô, não muitos metros atrás dela, e do seu pai, que havia conseguido avançar mais que a garota com o vestido bufante e os saltos. Os dois a vigiavam, como uma escolta oficial, mas era inútil quando ela não conseguia avançar a droga de um metro sem ser interceptada. O vestido a marcava muito bem como a noiva.
Outro soldado a agarrou pelo braço, e ela grunhiu com impaciência. Ignorando a varinha na mão presa, acertou suas costelas com o cotovelo, e se pôs em posição dominante, usando todas as habilidades que havia aprendido desde criança. Poucos golpes mais tarde, e ele era apenas mais um corpo desacordado no caos. Lis guardou a varinha novamente; estava muita bagunça para ela conseguir garantir que não acertaria nenhum aliado. Sua magia elementar deveria bastar.
Tirou a espada do soldado, lamentando o quão grande era. Com aquele vestido, precisaria das duas mãos para manuseá-la direito, e ainda manter o equilíbrio. Ótimo, como se fosse isso que ela precisava. Foco, Lis. Você já treinou em situações piores. Com esse último encorajamento, se lançou de volta à correnteza de pessoas, determinada a apagar e cortar qualquer um que tentasse impedi-la. Infelizmente, aquilo não foi muito inteligente.
Aparentemente, a espada a marcava como inimiga, e não muito depois, ela se viu rodeada de alguns soldados que haviam reparado que a ruiva que corria para o lado errado não era uma garotinha inocente. Ela ouviu alguém gritando o seu nome quando uma espada quase a acertou na cabeça, mas foi mais rápida, desviando e derramando sua primeira gota de sangue naquele dia. A lâmina afiada deslizou facilmente pela fenda da armadura, perfurando, talvez, órgãos vitais. Ela não pensou muito nisso ao vê-lo sair de seu caminho.
Severo tentava voltar o caminho que vencera, para alcançá-la, apesar dos gritos dela para que não o fizesse. Maldita teimosia. Os olhos azuis e inteligentes encontraram um dos guardas D'Noir a apenas alguns metros de seu pai; algumas ordens gritadas e ela se fez entender. Momentos depois, a mulher já arrastava Severo Snape para fora do salão, enquanto Lis garantia ao pai que ficaria bem. Ela tentou não pensar na raiva e na mágoa no rosto dele.
Com duas de suas preocupações em segurança, pôde focar na sua própria. Derrubou mais dois soldados, e tentou avançar, mas eles foram substituídos por mais cinco, e logo ela se viu cercada por homens armados, no centro de um círculo. Muito bem, hora de mostrar para o que foi treinada.
Fingiu atacar o primeiro, mas acertou a espada no que se aproximou à sua direita, usando o impulso do golpe para que a espada do soldado acertasse o que estava ao seu lado. Ela viu o que vinha atrás, e quase sentiu o golpe certo que viria, mas nunca chegou.
A cabeça do homem rolou no chão de pedra, e atrás do corpo que desabava, Arcturo segurava uma espada com as duas mãos, os olhos brilhando em violência. Aqueles segundos pareceram demorar séculos, mas ele logo se recuperou, avançando contra o próximo homem. Logo, os dois lutavam e tentavam avançar, juntos, para a saída. Era uma sensação nova, lutar ao lado do avô. Uma coisa que ela nunca havia sentido antes.
Lis permitiu a euforia crescer em seu espírito. Sua espada cantava a cada metro vencido, os corpos caindo no chão, sua mente em uma dormência de batalha que ela dificilmente se permitia. Já estava bem perto da porta quando sentiu um golpe em suas costelas, e uma mão forte agarrando-a pelo braço.
A ruiva virou o corpo, pronta para contra atacar, mas sentiu algo pontudo em seu estômago. Os olhos duros de Cormand a encararam.
— Acho bom você soltar isso, milady, ou vai estragar esse belo vestido de sangue.
Ela soltou a lâmina, suspirando, e se deixou levar. Seu plano era perfeito, e agora, bem... Merda.
***
James paralisou ao ver aquele caos. As pessoas corriam em desespero, e os olhos dele, contra sua vontade, caçaram os cabelos ruivos na multidão, apenas para se encher de pavor ao vê-la sendo arrastada pelo Cormand para o lado oposto do Salão. Arcturo lutava com os guardas que apareciam para alcançá-la. Estava claro qual dos dois lados estava em menor número.
— Merda, merda! James! — Carlo o chamou — Pegue a Lis, agora!
Suas pernas funcionaram antes de seu cérebro, e a cobertura que Carlo e Aaron lhe davam aumentava sua velocidade, mas não o suficiente. Derrubou um soldado após o outro, sem se importar se estavam vivos. Seus olhos focavam a lady que, em um segundo fora de seu campo de visão, se soltara do lorde e roubara a espada de alguém.
Mas ela estava cansada, o vestido rodado a deixava lenta e pesada. Lis estava em pânico, pois era questão de tempo até ele vencer. Cormand percebeu isso, e sorriu. James apenas pensou que precisava chegar lá o mais rápido possível, mas como? A não ser…
Era loucura. Ele só havia conseguido fazer aquilo duas vezes, e se desse errado… Não daria, não podia dar. Decidido, largou a espada no chão, e disparou em uma corrida na direção dela, assustando as pessoas em seu caminho. Foi preciso apenas um aceno da varinha substituta e alguns segundos e, quando James saltou e aterrissou, não era mais ele mesmo.
Os sons agonizantes e excitantes o atormentavam em altura torturante; o sangue era uma droga que impelia seus instintos recém adquiridos a querer matar e estraçalhar. As pessoas ao redor gritaram ainda mais, cheirando a medo, quando viram o lobo negro e gigante surgir do nada.
O próprio James nada registrava, a não ser a histeria provocada pela violência, o vermelho em sua retina, seus instintos clamando por sangue. Suas presas encontraram as jugulares de dois soldados roxos, algo no fundo de seu consciente sabendo que eram inimigos. Poderia facilmente ter se perdido naquele caos e êxtase, não fosse a voz que captou, carregada de raiva e medo.
— Que inferno! Me deixa ir! — a espada da Snape voou, e o lorde a agarrou, rasgando a manga de renda no processo.
— Você já me deu problemas demais, menina! Acho que vou gostar de saber quanto seu avô pagará para te ter de volta.
James não pensou. Não. Naquele momento, foi o lobo que tomou a atitude, rugindo para protegê-la. Em instantes, seus dentes estavam cravados no braço do lorde, arrancando um pedaço significante enquanto o obrigava a soltá-la.
Aconteceu tão rápido, que talvez ele não se lembrasse daquilo depois. Cormand gritava pelo braço mutilado, e o grito se tornou um gorgolejo engasgado, então ele não gritou mais. Na verdade, ele não fez mais nada. A espada de Conde Arcturo estava cravada em seu tórax, e o chão pintado com seu sangue.
Infelizmente, aquilo alertou todos os guardas próximos, e logo os três tinham vinte espadas apontadas em sua direção. O Lobo rosnou, e alguns deles recuaram ao ver os caninos enormes pingando baba e sangue. Os três se posicionaram em uma espécie de círculo, aguardando. Nenhum dos soldados havia tido coragem de tomar iniciativa.
— Lis, você tem que ir embora — a ruiva encarou o avô com espanto — Eu te dou cobertura.
— Mas vô…
— Nada de “mas”, menina — ele rosnou — Potter, tire-a daqui.
O Lobo grunhiu em resposta, e pareceu suficiente para o Conde, que avançou sobre os soldados com uma espada e um escudo, recebendo três de vez enquanto os outros atacaram os jovens. O Lobo estraçalhou braços e gargantas, enquanto faquinhas que ele nem imaginava de onde Lis havia tirado voavam, fosse por magia, ou pela mira impecável da ruiva, e encontravam seus lugares nas jugulares dos homens.
James liderou, consciente de que ela o seguia, sem perder o ritmo. Precisou derrubar alguns homens no caminho, mas não demorou muito para saírem do Salão. Ele identificou a mudança instantaneamente: todos os corredores a partir dali estavam fortemente vigiados por guardas da Noite, que reconheceram sua lady, apesar de toda a bagunça.
O Potter ia seguir pelo mesmo caminho que viera, mas a ruiva tinha outros planos, e ele não teve escolha a não ser ir com ela. O cheiro de sangue e os gritos que ainda ouvia atiçavam os instintos do lobo, pedindo para interromper a fuga e voltar para a carnificina que deixara para trás. Sua parte humana o forçava a se manter correndo, ora ao lado, ora atrás da Lis, focando no som alto dos seus saltos lilases batendo no chão, e das garras dele, que arranhavam a pedra polida.
O vestido dela não era branco, e o tecido prata estava salpicado de flores e manchas em vermelho vivo; a ruiva segurava a volumosa saia enquanto encontrava seu caminho por entre os corredores confusos. Não fosse o faro apurado, todas aquelas paredes pareceriam iguais para ele.
Após os longos minutos de incessante corrida, ela finalmente diminuiu a velocidade, inspecionando um papel de parede. James aproveitou a pausa para se transformar de volta, e só então reparou no quanto ela parecia frágil, quase desequilibrada. No entanto, parecia menos abalada do que naquela madrugada.
Os dedos ágeis da ruiva buscaram algo na parede, e logo uma porta escondida se abriu, revelando uma passagem parecida com a que ele havia sido levada mais cedo. Ele não esperou para entrar, e Lis logo o seguiu, fechando a passagem atrás dos dois, o que cortou toda e qualquer fonte de luz do lugar. James apenas ouviu a respiração irregular da garota, enquanto ele acendia uma luz com a varinha.
Lis estava com os olhos fechados, tremendo com as costas contra a parede de pedra grosseira. O Potter lutou contra o ímpeto que, apesar da raiva pelos últimos dias, o fazia querer abraçá-a e protegê-la. Ele estava confuso com tudo aquilo, e ainda havia aquela dor de cabeça persistente… Ela tinha muito a lhe explicar.
— Lis…
— Shiu. Pode ficar calado? Por favor — ela nem abriu os olhos ao sussurrar no tom sarcástico que ele conhecia tão bem. Um pequeno momento se passou antes de alguém bater à porta, uma longa, três curtas, duas longas.
Aparentemente, aquele era um sinal, pois a ruiva abriu a porta, e James observou Carlo deslizar para a passagem e ser arrebatado em um abraço da sobrinha antes mesmo de fechar a porta. Lis soluçou em choro contido, e o homem sussurrou baixinho. Antes que o Potter se sentisse desconfortável, se afastaram. Lágrimas brilhavam nas bochechas coradas.
— Você conseguiu, Lizzie… Você está bem — Carlo enxugou as lágrimas e ela deu um sorriso aguado.
— Potter.
— Carlo — ambos inclinaram as cabeças em reconhecimento.
— Os aurores já chegaram, vocês têm que ir embora. Sabe onde é a saída, flor? — ela assentiu e ele sorriu — Sempre eficiente.
Ele tirou um pacote do bolso das vestes, entregando-o à sobrinha, e já ia sair quando ela o parou.
— Espera, Meu avô… — James não estava preparado para a preocupação que ela demonstrou pelo homem que sempre criticou. Carlo pôs a mão na bochecha dela, acariciando.
— Vou cuidar daquele velho teimoso, e do Jean também. E você, se cuida.
— Não morra, ok? — ela recebeu um beijo na testa.
— Está achando que vai se livrar de mim tão fácil? Hoje não, querida, hoje não.
Ditas essas palavras, ambos ficaram a sós de novo. Lis não esperou muito para arrancar as pulseiras, brincos e enfeites de cabelo, que tintilaram sonoramente ao cair no chão. James reparou que ela não tirou o colar, e então percebeu qual era o que ela estava usando. Lis virou de costas pra ele.
— Não consigo tirar isso sozinha.
De fato, o corselet era uma confusão de laços, e ele não perguntou antes de cortá-los com a espada. Lis não reclamou, tampouco. Apenas se afastou, e deixou a montanha de tecido, agora cheirando a ferro e sangue, deslizar para o chão, precisando pisar por cima para sair.
Por baixo, ela usava um vestido curto cor da pele, mas não permaneceu muito tempo com ele, tirando-o pela cabeça. James tentou não olhar, mas não pôde deixar de reparar em como ela havia emagrecido e, claramente, de uma forma nada saudável.
Finalmente, vestiu a calça que Carlo havia entregado, uma camisa branca e um colete com laços semelhantes ao corselet, mas que amarrava na frente. Parecia muito mais adequada agora, embora medieval. Lis conjurou dois lenços, e ofereceu um a James, indicando que devia se limpar. Limpou o rosto e as mãos, e Lis tirou o sangue e o resto da maquiagem, revelando as profundas olheiras e a pele mais pálida que de costume. Que diabos..?
— Vamos, vamos embora desse inferno — ela deixou a espada com ele, e permaneceu com a varinha em punho, iluminando o caminho. Então marchou pelo corredor com a propriedade de quem conhecia o caminho. James apressou o passo para acompanhá-la.
— Preciso fazer algumas perguntas — ele arriscou depois de algum tempo e três curvas, as quais Lis escolheu sem hesitar, de silêncio — Não estou entendendo muito bem o que está acontecendo — ela não respondeu, mas diminuiu o passo, o que o encorajou — nessa última semana eu vi o castelo se preparar para o casamento, vi você dançar e sorrir ao lado de Nikolai, e nos trair. Agora, aparece um esquadrão de resgate, cujo foco, secundário aparentemente, era nos salvar, e o primário, interromper a festa, como se você precisasse ser salva.
Lis parou subitamente, e o encarou.
— Você ainda não entendeu que os casamentos aqui acontecem não por amor, mas por negociações. Sorrir para todos é apenas parte da minha convincente atuação.
— E o que você negociou? — os olhos dela ficaram obscuros, e ela segurou o colar que James havia lhe dado. Permanecia completamente negro.
— A liberdade de vocês pela minha. No momento que eu dissesse "sim", vocês seriam tirados do castelo — aquelas palavras o acertaram como uma espada no estômago.
— Mas... Tem algo errado. Eu- eu não entendo — ela deu um risinho.
— Vasculhe sua memória dos últimos dias. Aposto que tem dificuldade de lembrar tudo o que aconteceu.
James travou. Era verdade. Sua memória estava uma bagunça, como um quebra-cabeça faltando peças, e com outras em lugares errados. Só em pensar nisso, sua cabeça doía.
— Você modificou minha memória.
— Olha — ela retrucou em tom irônico — temos um gênio, aqui. Tenho que pedir ao Flitwick para incluir essa minha habilidade nos NIEM's, eu arrasei.
— Não está perfeito.
— Nunca quis que fosse duradouro — ela deu de ombros.
— Por quê? — ele perguntou depois de algum tempo em silêncio, e ela entendeu imediatamente sobre o que ele estava falando.
— Eu precisava que você me odiasse — sua voz estava rouca — eu precisava que fosse genuíno, ou meu papel ruiria. Nikolai percebeu no momento que te trouxeram ao castelo, era questão de tempo até que mais alguém reparasse.
— E como você o convenceu a fazer o acordo? — ela revirou os olhos. Merlin, mais lerdo, impossível.
— Ele quem sugeriu, na verdade. As motivações podem ter a ver com meus poderes veela. Eu apenas aceitei a oportunidade — o silêncio que se seguiu por parte de um dos corredores foi incômodo.
— Você realmente pretendia seguir até o fim..? — ela assentiu, meio triste — Nada de planos secundários, escondidos?
— Essa operação de resgate foi ideia do meu avô. Eu não faço ideia de como isso realmente funcionou — ela parou, virando a cabeça, como se escutasse algo — estamos chegando, dá pra ouvir a água corrente.
— Água?
— Todo castelo escoa o seu esgoto para um rio próximo. A vantagem dos castelos bruxos é que a magia purifica a água antes de ser descartada, então é apenas um grande canal saindo dos túneis. Tem barcos, como uma rota de fuga.
— Tipo no Fantasma da Ópera? — ela sorriu.
— É, tipo isso.
***
O barco de madeira gasta desceu pelo rio, e Lis só falou novamente para sinalizar quando haviam atravessado os limites do condado. A surpresa para ambos foi encontrar uma base completa às margens, onde aurores, curandeiros e soldados de roupas cinzentas aguardavam com todo o grupo: Lily, Scorp, Rose, Hugo, Maia e Alvo.
Seria um bom momento para pedir sua memória de volta, mas os dois foram engolfados pelos amigos, que pareciam preocupados e aliviados ao mesmo tempo. Lily e Maia contavam, afobadas, o que tinha acontecido nos últimos dias, explicando como quase todas as tropas de aurores estavam prontas quando a carta de Lis chegou, junto com cinco dragões que, aparentemente, foram libertados pela ruiva.
Alvo parecia tentar se convencer de que tudo estava bem, agora, e Lis o abraçava, sussurrando carinhosamente. James havia esquecido que os dois eram melhores amigos, com tudo o que mudara naquele ano. Era uma cena estranha e familiar.
Saídos Merlin sabia de onde, surgiram os pais deles: Hermione, Rony, Gina, Harry e, até, Snape. Seus tios choravam alto, sua mãe talhava e abraçava na mesma intensidade, seu pai lacrimejava ao puxá-lo para um abraço apertado, dizendo que estava orgulhoso e que sentia muito pelas coisas horríveis que dissera. James nunca se sentiu tão aquecido quanto naquele momento.
De repente, foi como se um feitiço silenciador tivesse sido lançado, e James sentiu o peso no ambiente antes de entender o que havia acontecido. Um grito cortou o ar, e Lis correu em direção aos homens que chegaram carregando um corpo inerte.
— Não! Não, não, não! — a voz dela saía arranhada pelas lágrimas, e James reconheceu o rosto ensanguentado. Conde Arcturo estava morto.
Todos os soldados se puderam em posição de honra, as mãos direitas sobre o coração. Carlo precisou tirar a sobrinha de cima do corpo do avô, e ela escondeu o rosto no peito dele, soluçando. Ambos choravam. A cena pareceu íntima demais para os de fora da Corte.
Jean encabeçou o movimento e, logo, todos os que carregavam a insígnia D'Noir também desembainharam suas espadas e as fincaram no chão, enquanto se ajoelhavam. Carlo sussurrou algo para Lis, e ela olhou para os soldados com os olhos arregalados, uma das mãos cobrindo a boca.
— Loyauté que nous donnons au Comté et la Comtesse D'Noir.
Carlo levou dois dedos ao coração, e então na direção das pessoas ajoelhadas.
— Mon cœur est à toi. Ma protection est à toi. Ma loyauté est avec toi.
O som deles batendo contra seus peitos, em resposta, era surreal. E James viu Lis repetir o gesto do tio.
— Mon cœur est à toi. Ma protection est à toi. Ma loyauté est avec toi.
James não sabia o que aquele ritual significava, mas sabia que nada, nunca mais, seria o mesmo.
O Potter tinha a intenção de falar com a ruiva, mas o imediato de seu pai chegou com notícias. Haviam encontrado boa parte dos responsáveis pela guerra, além de Nikolai e Kaleen Pelletier, que estavam sob custódia dos aurores. Cormand Pelletier estava morto (essa ele sabia). James ouviu as outras notícias antes de ser puxado por sua mãe.
— Vá falar com ela, James Sirius. A família D'Noir está partindo.
James a procurou na multidão, e encontrou o cabelo ruivo no meio de tantas roupas negras. Alguns soldados aparatavam. O próprio Carlo, com Aaron, partiu enquanto ele observava. Lis segurava o braço do Jean enquanto conversava com o pai; estava se preparando para fazer o mesmo. James correu, gritando por cima das outras vozes.
— Lis, Lis! — ela ergueu os olhos para ele, e soltou os braços do homem como se tivesse sido queimada. Então sussurrou algo para ele e correu na direção do Grifinório, que não havia diminuído o passo. Os dois pararam antes que seus corpos se encontrassem, um espaço constrangedor entre eles. O rosto dela estava marcado pelas lágrimas.
— Sinto muito pelo seu avô — ela balançou a cabeça, aceitando — e fico feliz que os outros estejam bem — ela assentiu de novo, mas sorrindo um pouco dessa vez — Aonde vocês estão indo?
— Para casa.
— Hogwarts? — ela suspirou pesado.
— Não, Jay. A nossa casa. O condado, o castelo. Com meu avô morto... Teremos uma boa bagunça para arrumar — era como se o chão tivesse sido tirado dele, mas a mão de Lis na sua, macia, quente, familiar, o fez se recuperar. Ela encostou a testa na dele, aproximando seus corpos, e ele não resistiu a enlaçar sua cintura fina — Eu volto logo. Não sei quando, mas vou voltar. Ok?
Ele respirou fundo, e concordou. Então os braços dela envolveram seu pescoço em um abraço que o fez sentir como se o mundo tivesse, finalmente, voltado aos eixos. Ela cheirava a suor, sangue e lágrimas. Nada seria mais real que aquilo. Já estava quase pronto para deixá-la ir quando ela o beijou.
O gesto não foi muito longo, mas ele não reparou nisso, pois assim que seus lábios se tocaram, as memórias dele voltaram como um soco forte no estômago. A fuga, a viagem, a pequena casa com a menininha loira, a última noite deles juntos, e então, o último momento antes do feitiço, a última frase que ela disse antes de obliviá-lo: "Eu te amo, James, te amo muito".
James acordou no chão, com uma Lily desesperada perguntando o que havia acontecido. Lis já havia partido, e havia deixado o colar com ele, um dourado vibrante fixo nele, inalterável, o que significava que ela aprendera a modificá-lo. Ela também lera a tabela das cores, e aquela significava saudade.
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