Still Alive

5 Está de volta!


Para Lis, a volta para casa era sempre muito rápida. Era sempre cedo demais que eles pegavam as carruagens puxadas por Testrálios (cavalos alados de aparência esquelética, que eram invisíveis à maioria das pessoas, e que assustaram a garota quando os vira no primeiro ano). Eram sempre velozes demais os ponteiros do relógio durante a viagem para Londres, no trem. E, cedo demais para seu gosto, ela estava em frente a uma casa em estilo vitoriano de cor azul claro, com pequenas flores brancas na entrada.

Protegida com magia para que ninguém além de pessoas autorizadas entrassem, bastou apenas que a menina tocasse na porta sem maçaneta para que ela se abrisse. E mal tinha colocado os pés em casa, foi recebida por um ser de orelhas bem grandes e pontudas, que era pouco mais alto que seus joelhos.

— Menina Snape! Está de volta! Está cansada, com fome? Vou preparar seu chocolate quente preferido.

Rindo, a menina impediu que a elfa doméstica saísse disparada em direção à cozinha.

— É bom te ver também, Nami. Sim, estou com fome, mas antes — se abaixou, pegando algo do malão que trazia consigo — trouxe sementes, para o jardim. Flores do campo.

Um sorriso e os olhos esbugalhados do tamanho de bolas de tênis formavam uma expressão de adoração e a elfa começou a agradecer algumas dezenas de vezes, parando apenas sob uma delicada ordem da menina, e um pedido de chocolate com biscoitos.

Soltando o gato preto da cesta que trouxe, Lis se permitiu parar para olhar a casa. Parecia uma casa de catálogo, super arrumada, sem fotos de crianças ou família. A maioria dos móveis estavam cobertos por panos brancos, a exceção de um piano de marfim no fundo da sala de estar, ignorado completamente quando a garota subiu a bela escada encarpetada, que dava em um longo corredor.

Na primeira porta à direita estava o quarto dela, decorado em tons suaves de verde e creme, flores recém cortadas em cima da mesinha de centro, sem qualquer indício de que pertencesse a uma adolescente.

Para Lis, entrar naquele quarto era como entrar numa suíte de hotel, apesar das lembranças de infância que mantinha do lugar. Entrou no banheiro e ligou a banheira com água morna e espuma de cheiro de rosas, favorito dela desde sempre, e esperou, se olhando no espelho.

Os cabelos ruivos já estavam na cintura, e o rosto, perdendo os traços infantis. O corpo tinha curvas que não estavam lá no ano anterior. Parecia mais mulher que menina, agora. Ela sabia que era bonita, e que por isso as garotas da Sonserina a perseguiam o tempo todo, provocando-a, procurando defeitos para pôr nela. Desistira de tentar amizade com elas há muito tempo, pois as únicas que se importavam o bastante para tentar uma conversa com ela, eram ameaçadas por Emílie Nott, uma garota desagradável do mesmo ano que ela, que seria bonita, se não se esforçasse tanto para parecer superior.

Após o banho restaurador, ela se enfiou em um pijama cuja camisa dizia "Sonserinos arrebentam", presente do padrinho, e desceu as escadas para a cozinha, onde uma mesa completa, cheia de comida, a esperava.

— Nami, eu pedi apenas chocolate com biscoitos, isso é um jantar para uma família inteira!

O sorriso da elfa murchou.

— Perdão, minha senhora. Está chateada? Eu posso tirar a mesa, eu posso...

A menina, que esquecera o quanto a criaturinha levava tudo a sério, se adiantou para dizer que estava tudo bem e se sentou para comer, servindo um bolo salgado ao invés dos biscoitos. Enquanto comia, seu pai entrou na cozinha, deixando um exemplar do Profeta Vespertino sobre a mesa.

— Lis, olhe isso.

A foto na folha era de uma mulher sorridente e Lis leu a matéria em voz baixa.

"Nesta manhã de segunda feira, foi relembrada a maior pesquisadora do século bruxo. Nossa renomada repórter Rita Skeeter (a que vos escreve) viu um tratador de dragões indo ao ministério registrar uma poção no nome de Clarissa D'Noir. Acontece, que essa renomada cientista sumiu há anos, sem deixar rastros e agora uma poção nova é registrada em seu nome por terceiros (certeza de que há algo muito estranho aí). O homem, Carlos Weasley (veja “Polêmicas com Weasley” na pág. 6) não quis prestar depoimento, declarando que 'não é da conta de vocês'. Quando questionados, funcionários do ministério garantem que não há com o que se preocupar e que o Weasley, segundo eles, 'não é um sequestrador em potencial e não exige um inquérito a respeito dele, pois tem autorização para portar e registrar a poção.' O que pode ser considerado duvidoso já que a atual Ministra da Magia é ninguém menos que Hermione Granger-Weasley, cunhada do Carlos Weasley. Será que o ministério anda nos escondendo algo?."

— Sumiu sem deixar rastros...

— Seu padrinho fez um bom trabalho.

— Acho que sim. Coitado do Carlinhos, foi dar de cara logo com a nojenta Skeeter — o pai riu.

— Amanhã eu vou conversar com a Granger, esclarecer as coisas.

— Ok. Pai?

— Sim?

— Vai passar quanto tempo em casa?

— Duas semanas, então irei para a Suíça. Virá comigo?

— Não... O casamento do Teddy é daqui há duas semanas, irei para a casa dos Potter.

O pai levantou as sobrancelhas e concordou com a cabeça, voltando sua atenção para a sopa que estava tomando.

— Pai.. — ele respondeu com um "hum" — vou precisar ir ao Beco Diagonal, comprar algumas coisas, sabe. Poderia me levar?

— Sim, irei pra lá alguns dias antes de viajar, está bom pra você?

— Está ótimo! Mas agora vou dormir, ok?

O homem acenou e ela deu um beijo em sua bochecha antes de ir para o quarto e se dirigir à sacada que dava para o fundo da casa, onde um jardim exalava o cheiro misto das várias flores, não visíveis no escuro e o terreno de sua família se estendia por uma longa distância. Com um suspiro profundo e um olhar para o céu estrelado, deixou a sacada e, entrando no quarto, fechou as pesadas cortinas que garantiam que seu quarto ficasse na mais completa escuridão, exceto por duas velas na cômoda ao lado da cama que, após se enrolar em lençóis e sentir seu gato, Kandle, subir na cama, ela apagou com um sopro.

***

O sol de verão queimava quando dois homens apareceram na esquina vazia de uma rua, ambos loiros, um muito mais jovem que o outro. Eles se dirigiram para uma casa com aparência engraça, colorida e que se destacava na rua. Esperando não conseguirem passar pelo cercado, se surpreenderam ao conseguirem chegar na porta e tocar a campainha sem impedimentos.

— Ah, Malfoy — disse em voz desinteressada — Olá Sr. Malfoy — seu tom era muito mais simpático.

— Oi, Rose, v-você aqui?

— É Escórpio, o Alvo é meu primo, eu venho para a casa dele nas férias. Sr. Malfoy, vai entrar?

— Sim, preciso falar com o Potter. Coisas do ministério.

— Entre, Sr. Malfoy. Ele está no segundo andar, terceira porta a esquerda.

Agradecendo, o homem mais velho subiu as escadas, deixando o filho e a menina ruiva sozinhos.

— Rose.

— Malfoy.

— Porquê não me trata pelo primeiro nome?

O coração do Escórpio perdeu um compasso quando a menina deu um sorriso de lado, e tentou disfarçá-lo dando as costas, jogando o cabelo (cheiroso, ele notou), com charme e dizendo para o garoto segui-la. Na sala seguinte, os irmãos Potter jogavam uma partida de bexigas, sendo assistidos pela irmã e o primo de 14 anos. Era nítida a vantagem de James pela presença bem maior de gosma no rosto e cabelos do irmão mais novo.

— Ei, Scorp! Quer jogar com a gente?

— Não Alvo — disse, meio rindo — tomei banho nesse instante, não quero ficar igual a você.

Então ele se sentou ao lado da Lily, que estava rindo dos irmãos e desviou o olhar para sorrir simpaticamente para ele.

— Hey, Malfoy. Legal você ter vindo aqui em casa — chegou mais perto dele, diminuindo o volume da voz — como vão as coisas com a cabeça dura ali?

Ambos deram um olhar furtivo à Rose, que olhava os primos jogando, sentada ao lado do irmão, Hugo.

— Acho que estou tendo um progresso. Quem sabe ela até me deixe dançar com ela no casamento — ambos riram com essa frase, e ele falou, com a voz mais alta — e o namorado, Lily, como vai? Ouvir dizer que ele foi passar as férias no Brasil.

A menina deu um sorriso constrangido e suas bochechas ganharam a cor dos seus cabelos. Ela namorava há três meses um lufano, chamado Darwin Thomas, e Escórpio sabia que ela ficava sem graça quando mencionavam isso, pois era uma das garotas mais cobiçadas pelos garotos que realmente valiam à pena em Hogwarts. Sabia, também, que o seu melhor amigo, Alvo, detestava que sua irmãzinha namorasse, e foi com imenso prazer que viu o rosto dele se fechar e tomar a mesma cor que o da irmã, só que de raiva.

— Escórpio, não fale desse babaca aqui em casa.

— Babaca, Sev? Ele é legal, sabia? Se você se desse o trabalho de conhecê-lo...

— Mas Lily, você tem apenas quatorze anos!

— Alvo Severo Potter, devo te lembrar das três meninas do ano passado, e das duas do retrasado? Uma delas era uma amiga do Darwin até, sabia? Você não pode falar nada. Ou vai dizer que eu não posso porque sou menina?

Preferindo ficar em silêncio, Alvo finalmente aceitou a derrota nas bexigas e foi para o banheiro do andar, se limpar, seguido pelo amigo.

— Alvo, nossos pais estão tratando de assuntos do trabalho. Imagina o que seja?

— Deve ser algo sobre minha tia. Ela assumiu o cargo de Ministra já há alguns dias e disse que já tinha uma surpresa que havia planejado com o Kingsley antes dele sair. E talvez tenha a ver com as cooperações internacionais, pra seu pai estar envolvido e porque alguns países não estão muito felizes com os decretos a favor dos trouxas. O ministro francês é de família puro-sangue, defensor da pureza da magia, ela deve estar tendo problemas com isso.

Quando voltaram à sala, encontraram os amigos muito concentrados com um baralho trouxa, jogando pôquer, ensinado pela mãe da Rose.

— Ei, Rose. Sabe o que sua mãe está tramando?

— Não, é surpresa, de qualquer forma ela prefere não levar trabalho para casa.

Os quatro continuaram jogando, enquanto Alvo e Escórpio conversavam e mandavam dicas de jogo pros amigos.

— Escórpio, acabei de perceber uma coisa.

— Ham.

— Depois de cinco anos, não sei quando é o aniversário da Lis — o Escórpio desviou o olhar, repentinamente interessado na decoração da mesa de centro — você sabe, não? Vive com ela desde sempre. Escórpio? — o garoto murmurou um "sei" e tentou mudar de assunto, mas o amigo continuou o importunando, até que ele suspirou, derrotado.

— 17 de junho.

Um estrondo foi ouvido. James havia batido todas as cartas na mesa, o rosto assustado.

— O aniversário dela é depois de amanhã?! E ela não nos chamou?

— Ela não comemora o aniversário.

Agora foi a vez do Alvo olhar, indignado.

— Mas como assim, não comemora? Ora, vamos fazer uma festa surpresa para ela!

Antes que tentasse dizer que talvez não fosse uma boa ideia, todos já haviam aceitado e planejavam a festa surpresa para a menina Snape.

***

Ele estava chamando-a. Ela sabia disso. Havia passado muito tempo naquela casa para saber que a magia impregnava até nas paredes. E ela conseguia ouvi-lo, o piano, tocando sozinho notas lentas de uma música há muito esquecida. Não havia exatamente uma proibição, mas ninguém encostava naquele piano há muitos anos.

Como que em transe, Lis foi se achegando ao piano marfim, que ainda implorava, de sua própria forma, por alguém que trouxesse a música de volta à sua existência monótona. A menina sentou-se no banco e dedilhou, hesitante, as notas daquela mesma música, como se tivesse medo de tocá-la. A melodia veio aos seus dedos com facilidade, e logo as notas hesitantes se tornaram um movimento confiante. A harmonia circundando a garota, contando uma história, como a haviam dito uma vez, de uma lua solitária, que aguardava a volta de alguém muito querido, que havia ido embora. História essa que embalava sua infância

E ela foi tocando, repetindo a melodia que trazia lágrimas aos seus olhos, e não perceberia a coruja no parapeito da janela ao seu lado se ela não a bicasse, puxando seu cabelo, e despertando-a do seu transe.

— Merlo! O Alvo me mandou uma mensagem? Mas.. é cedo demais, o casamento está longe...

Ela desamarrou a carta da pata da ave e deu um afago em sua cabeça.

"Hey, Lis

Descobri que você mora perto da minha casa, por que nunca me contou? Enfim, quer sair comigo? Tem uma sorveteria perto daí. Não aceito não como resposta. Passo aí às 2h.

Com carinho,
Alvo"

Um sorriso estampou o rosto da menina, que só estava esperando uma desculpa para sair de casa. Olhou o relógio de cuco na parede, eram 1:30h. Subiu correndo as escadas e tomou um banho rápido de ducha, dispensando a banheira.

Tentou vestir as roupas de seu armário e percebeu que nenhum de seus vestidos servia mais, então foi obrigada a ir para o último quarto do corredor, um quarto decorado em tons leve de cinza, quase prata. Abriu o guarda-roupa de mogno e pegou um vestido azul marinho, decorado com flores. Passou um perfume francês e desceu ao primeiro andar no exato momento que a campainha foi tocada e ela mesma abriu a porta.

Alvo não conseguiu impedir o queixo de cair. Esperava que ela o recebesse com a habitual calça jeans com uma blusa básica ou com alguma frase engraçada, mas certamente não previu vê-la tão linda com aquele vestido e um sorriso no rosto.

— Ah.. oi.

Segunda surpresa: ela o abraçou e deu-lhe um beijo na bochecha.

— Olá. Onde é essa sorveteria? Estou doida por algo gelado.

Alvo não sabia, é claro, que não era pelo sorvete que ela ansiava, e sim por um momento longe de casa, onde não tinha exatamente nada para fazer, a não ser reler seus livros antigos ou tocar aquele piano que, por vezes, lhe dava arrepios. E ela não sabia que, naquele momento, seus amigos estavam atrás de uma casa ali perto, esperando os dois saírem dali.

E assim, ambos se dirigiram para uma sorveteria trouxa, conversando banalidades, Alvo, convenientemente, esquecendo de mencionar que o melhor amigo deles dois estava passando a semana na casa dele. Chegaram na sorveteria e encontraram um senhor simpático servindo os sorvetes.

— Olá, menina bonita. O que vai querer?

Lis, que estava olhando o cardápio de sabores, pareceu em dúvida por alguns segundos, mas logo se dirigiu a ele, sorrindo:

— Vou querer uma bola de chocolate com avelã e a cobertura de frutas vermelhas.

— Pra aqui ou pra viagem?

Lis olhou para o amigo, esperando a resposta.

— Viagem, aqui é um lugar bonito, você já viu?

Ela negou, e o senhor foi buscar o sorvete dela. Alvo pediu um de amendoim e ambos caminharam pelo parque. A temperatura estava agradável e o céu de um azul imaculado, o que tornou um passeio agradável, os gansos do lago tomavam banho de sol e os passarinhos chegavam perto das pessoas, dando voos rasantes que encantavam a menina. A conversa fluía com a normalidade de sempre, Alvo sempre consciente de que não poderia indicar que ele sabia que era aniversário dela.

— Lis, minha tia disse que tem uma surpresa planejada... Você tem ideia do que poderia ser?

A menina pareceu pensativa antes de responder.

— Olha, meu padrinho passou lá em casa, pedindo ajuda para contatar uma tia minha, lá da França, e pelo que eu sei, ela trabalha no Ministério da Magia de lá... Então, seja o que for, envolve a França. E já podemos excluir a Copa Mundial de Quadribol, já que todo o cronograma está organizado há meses.

— Entendi... Então eu não faço ideia do que seja.

— Eu até tenho um palpite, mas... Não vou dizer. Estragaria a surpresa se eu acertar. E eu quase sempre acerto.

— Afe, ok. Falar na Copa, você vai?

— Sim, meu padrinho conseguiu ingressos para a final e vai me levar com ele. Quem você acha que leva a taça?

— Cara — Lis levantou uma sobrancelha — perdão, menina, se fosse apostar, seria na Irlanda, pois o time tem estado muito bom, mas adoraria que a Inglaterra alcançasse um bom nível esse ano.

— É, na última copa foi lastimável.

Eles estavam perto demais da casa. Temendo que os amigos não tivessem terminado, ele a parou com a desculpa de olhar algumas flores e puxou conversa.

— Por que sua casa não é colorida como as outras casas bruxas?

— Ah, minha mãe gostava de coisas trouxas e a casa lembrava os tempos dela em Beauxbatons, um toque francês e refinado, sabe?

***

— Isso não vai dar certo.

Escórpio estava com aquele peso na boca do estômago, aquela impressão de que tudo o que eles estavam fazendo iria dar terrivelmente errado. A sala estava com bexigas trouxas de ar, uma faixa de aniversário que brilhava com o nome da Lis e um bolo decorado, presente da Gina, mãe do Alvo.

— Escórpio, o que foi? — Rose parecia realmente preocupada, o que não passou despercebido dele — Você está ainda mais pálido do que de costume e fazendo uma careta a cada vez que tiramos o pano branco de um dos móveis.

— É que... Eu tenho certeza de que a Lis não vai gostar nada dessa história de aniversário surpresa.

— Então porque não nos falou isso?

— E vocês deixaram? Não, simplesmente saíram fazendo isso sem me ouvir, eu tentei! — o tom dele saiu mais grosseiro do que pretendia e a menina se afastou um pouco, a expressão se tornando distante.

— Bem... — começou, hesitante — imagino que o máximo que ela possa fazer é gritar com a gente, não é?

Ele acenou com a cabeça e então reparou no porta retrato nas mãos dela. Uma mulher ruiva, muito parecida com Lis jogava os cabelos e sorria para a câmera.

— Onde você achou isso?

— Debaixo de um dos panos... A Lis está realmente bonita nessa foto.

— Não é a Lis, é a mãe dela, mas dá pra confundir, é normal.

— Ah.. eu não conheço...

— É melhor guardar — ele a interrompeu, tentando ser gentil — não é comum ter fotos espalhadas pela casa.

— Por quê? É a casa deles, é normal ter fotos. Aliás, na verdade, essa foi a única foto que encontrei na casa toda, isso é estranho.

— Não, não é. Eles não passam muito tempo em casa. Tio Severo viaja durante o verão, trabalhando, as férias deles são umas duas semanas, entre um cliente e outro, no país em que ele estiver. E nesse meio tempo, a Lis não fica em casa: ou fica comigo, ou com o avô na França, ou então com o pai, em três países diferentes. Então as fotos mais importantes ficam em seus malões, são tiradas apenas quando eles param em algum lugar para dormir e Hogwarts, e as outras ficam guardadas, acho que no sótão. É melhor guardar essa naquele armário — apontou para a outra sala — deve servir por enquanto.

Terminada a organização da festa, todos os cinco sentaram nos sofás da sala que arrumaram. Se entreolharam percebendo que haviam cometido o erro de não especificar um tempo ou um sinal para que o Alvo soubesse quando voltar, e agora estavam sem ter noção de onde ele estaria com a Lis.

Lily e Hugo conversavam, entretidos, sobre Quadribol; James, Escórpio e Rose conversavam entre si sobre qualquer assunto que desse em suas cabeças. O Potter havia percebido a aproximação da Rose com o Malfoy, ambos estavam sentados, juntos, no mesmo sofá de dois lugares e pela primeira vez na vida ele via a prima confortável ao lado do garoto, quase como se não notasse que estava sentada, conversando amigavelmente, com o filho de um dos homens que seu pai mais odiava e a quem ela desprezou por mais de quatro anos. Se não soubesse como ele poderia prejudicar esse avanço, teria cantado alguma marchinha de casamento ou musiquinha provocativa, mas estava gostando demais de ver os dois juntos para atrapalhar isso.

Graças às orelhas-extensíveis-alarmantes, produto das Gemialidades Weasley, loja de seu tio, foi possível ouvir a voz do Alvo e da Lis se aproximando da porta, e então todos se esconderam para gritar o famoso "surpresa". E foi isso que eles fizeram, mas não foi como eles esperaram.

Com certeza esperavam alguma animação ou reação por parte da amiga. O Escórpio esperava alguma reação brava ou energética, certo de que ela odiaria tudo aquilo. Mas ela ficou parada, por uns bons trinta segundos, e só então se mexeu, olhando para todos, registrando seus sorrisos de expectativa se tornarem expressões de curiosidade e o Escórpio dando um sorriso amarelo, que implorava perdão.

Somente o Malfoy viu o olhar decepcionado e fuzilante que ela lhe lançou, mas todos viram as lágrimas que desceram em seu rosto antes dela se virar e subir correndo a escada.

— Mas o quê que deu nela, hein?