Still Alive

15 Ela sempre ganha


— James. Sirius. Potter.

Foi assim que o garoto ouviu seu nome, com um ponto no final de cada um. Ele paralisou, não conseguia acreditar, e não se moveu até que Lis balançasse seu braço, chamando-o.

— Jay, Jay, vai. É você, vai.

Ela o levantou e empurrou, e o moreno foi meio que tropeçando até a frente, seguido pelo som das palmas que vinham da maior parte das mesas. Minerva o recebeu, parabenizando-o com um sorriso de orgulho. James andou pela mesa, recebendo apertos de mão de todos os professores, um pouco tonto, sem notar os rostos, até que alguém o parou.

— Potter — era Snape — olhe para mim — ele olhou, a voz do professor era baixa e seu semblante era mascarado, para que não percebessem a bronca que daria — Você colocou o nome no cálice. Você foi escolhido. E vai entrar naquela sala como se sempre soubesse que seria o seu nome a sair daquelas chamas. Nós acreditamos em você, então não faça feio na frente dos outros, ok? — ele acenou com a cabeça — Respirou?

— Sim senhor.

Satisfeito, Severo o dispensou com dois tapas nas costas e ele foi para ser cumprimentado pelos ministros e pelos diretores das outras escolas, agora com a mente mais clara e uma postura mais segura, e então entrou pela porta que o aguardava ao final da mesa. Nikolai e Maia já esperavam sentados na sala, a garota se levantou quando o viu, sorrindo.

— Acho que ela ganhou a aposta, não é?

— Ela sempre ganha, nem sei porque ainda tento — um meio sorriso decorou seu rosto.

O francês, que observava, se levantou e andou em sua direção, oferecendo uma das mãos.

— Nikolai Pelletier — o Potter não retribuiu o cumprimento, deixando a mão do outro inútil, no ar.

— Eu sei, já fomos apresentados ontem.

— Ah, sim, James Potter, me esqueci completamente — o sorriso que ele deu era completamente malicioso — mas você não pode me culpar, estava ao lado daquela bela ruiva de olhos azuis.

— Sim, a Lis.

— Lis… A garota do nome delicado com os lábios de mel…

— Acredito que é extremamente relevante para o torneio saber como são os lábios dela, Sr. Pelletier — Snape estava atrás do garoto, os olhos tinham uma fúria gelada, e James agradeceu que não estivessem voltados para ele — tem algo mais a acrescentar?

O Potter viu o desafio naquele olhar dourado, mas os três diretores entraram junto aos ministros. Os dez minutos seguintes foram de regras e recomendações. A primeira prova seria no dia 24 de Novembro, e os campeões não poderiam receber dicas ou ajuda dos diretores ou professores para cumprir os desafios. Na semana seguinte, eles deveriam dar uma entrevista para a imprensa e fazer a pesagem das varinhas.

Draco olhava para James, de vez em quando, com diversão nos olhos, e Olívio parecia orgulhoso, afinal, havia sido capitão do time de Quadribol que seu pai participara em Hogwarts. Ambos faziam algumas considerações quando bateram à porta.

— Com licença — aquelas madeixas ruivas apareceram na porta — Diretora McGonagall, a senhora havia pedido os papéis para hoje.

— Oh, querida, entre.

Lis parecia tímida ao entrar, mas lançou um olhar divertido ao James.

— Sinto muito pela interrupção, Lis é minha secretária particular, cuida de coisas que não tenho tempo para resolver; gostaria de dizer que é uma garota prestativa, mas sei que apenas faz isso para ganhar privilégios estudantis e um fim de semana extra em Hogsmead — ela segurou uma risada, corando um pouco — mas fazer o quê? Não posso entregar os assuntos confidenciais a qualquer um, não é?

— E escolheu uma garota de dezesseis anos? — Armstrong parecia desconfiado.

— Uma garota de dezesseis mais competente e de confiança que muitos que conheço. Aliás, Lis, conhece os campeões das outras escolas?

— Sim — ela olhou para Maia e Nikolai com um ar educado — parabéns aos dois, espero que deem trabalho ao James para que a vitória seja ainda mais saborosa quando ele pisar em vocês durante as provas — seu olhar era afiado.

O diretor de Ilvermorny gargalhou com vontade, o som era grave e reverberou, chamando atenção.

— O Sr. Potter com certeza tem uma torcida e tanto, hein — Lis o ignorou, sem perder a classe ou parecer mal educada (como ela conseguia fazer isso?) e virou para Severo.

— Pai — para o deleite de James, essa palavra fez o francês parecer surpreso e assustado — precisa ficar mais tempo? Ou pode descer comigo?

— Espere cinco minutos, sente aqui.

Ela tomou um lugar ao lado do pai, com a expressão mais neutra possível enquanto o padrinho terminava de falar coisas que James nem ao menos ouviu. Quando foram dispensados, Nikolai fez menção de ir falar com ela e, James não soube ao certo se a garota não o viu, ou se o ignorou, mas ela apenas seguiu em sua direção, surpreendendo-o com um abraço.

— Eu disse que seria você, não disse? Está me devendo.

— Posso pagar de outra forma? Dois galeões me parece pouco.

— Claro — o sorriso que ela lhe deu enviou arrepios por toda a coluna — preciso ir.

Com um beijo em sua bochecha e um aceno para Maia, ela deixou a sala, seguindo o pai. Em qualquer outro dia, o Potter teria medo do modo como o rapaz ignorado o olhava, mas naquele dia ele apenas voltou para o seu quarto, onde dormiu sorrindo.

As notícias corriam rápido. Na primeira manhã de novembro, James já havia recebido umas dez cartas que ele imaginava tratarem sobre o torneio. Lis estava ao seu lado e, animado, ele queria contar para ela sobre a correspondência, mas a encontrou fitando um pedaço de pergaminho, os ombros pesados e o rosto preocupado.

— Ruiva? Algum problema? — ela pareceu surpresa, o que durou um segundo, então a postura e o sorriso de costume voltaram.

— Não, claro que não — dobrou o papel e o guardou no bolso, dando um sorriso que a entregava; definitivamente estava escondendo algo, e ele a conhecia, sabia que viria uma pergunta para mudar de assunto no momento seguinte — É uma carta do seu pai?

— É… — James franziu as sobrancelhas, não convencido pelo súbito bem estar da menina — Alguém te escreveu? Quem foi?

— Ninguém, James. Vai me deixar ver a carta ou não? — seu tom era duro, e ele não entendeu nada. Por que tratá-lo tão bem no jantar e agora vir com essa grosseria? Os olhos azuis não tinham nada da calidez do dia anterior, parecendo gelo.

— Não.

— Ótimo.

Ela levantou de repente e deu as costas para ele, marchando em direção à mesa dos professores, no fundo do Salão. Chateado, James apenas seguiu para sua aula; tinha muito com o que se preocupar para ter que lidar com os caprichos daquela garota bipolar.

***

— Non acrredito nisso. Aquele traste fingide — a madame passara os últimos minutos lançando xingamentos que em nada combinavam com sua elegância.

— Calma, Maxime.

— Calma, Minerve? Calma?! Meus prreciosos alunos estón sendo maltrratados porr nón terrem sangue purro, e no lugarr em que deverriam estarr segurros. Eu deverria estar lá parra defendé-los.

— Madame, se me permite — Severo se aproximou — nenhum de nós poderia imaginar que um dos professores seria totalmente sem caráter, daria um golpe e tomaria a escola assim que se ausentasse — a menina sentiu os olhares sobre o pai, pesando o seu passado — Não é culpa sua.

— Madame… — Lis se sentou, pequena ao lado da mulher enorme, pegando uma das mãos bem cuidadas, que tremiam tanto quanto as suas — meu pai tem razão. Não é sua culpa, e agora não tem como a senhora voltar, mas… você tem alguém de confiança lá dentro? Alguém capaz de retomar a escola e protegê-la.

— Consigo pensarr em alguém sim.. Mas como comunicarr-me? Apostarria minhas jóias em como todas as correspondências estón sendo interceptadas.

— Disso eu cuido, mas escreva a carta com as instruções.

— Srta. Snape, desculpa a indiscrição, mas… — os olhos azuis voltaram para o diretor de Ilvermorny — como você conseguiu essas informações antes mesmo da própria diretora? E como manteria uma comunicação quando ninguém aqui consegue?

A ruiva apenas o encarou. Conseguia sentir a acusação nas palavras, a desconfiança. Não o culpava, ela era apenas uma garota intrometida que sabia demais, mas não tinha paciência para isso, com tudo o que estava acontecendo. Com o canto do olho, viu o pai se preparando ou para respondê-lo ou para dar um murro, ela não sabia, mas preferiu não arriscar.

— Olha, Sr. Armstrong, o Sr. não me conhece, e sei que é difícil acreditar na inocência das pessoas, mas eu nasci na França, me preocupo com aqueles alunos assim como me preocuparia se isso acontecesse aqui em Hogwarts — foi complicado manter o tom calmo e o sorriso afiado, mas ela respirou e apenas se dirigiu à chorosa Maxime — Eu preciso ir para a aula, mas escreva a sua carta e peça diretora McGonagall ou ao meu pai que me entregue, ok?

Sem se despedir, apenas saiu e correu para a aula de Aritmância, já havia perdido a de Herbologia, não poderia se dar o luxo de perder mais, ou as pessoas estranhariam, além do fato de, dependendo do desenrolar da situação, ela poderia ter que despender de tempo para cuidar daqueles assuntos e precisaria estar adiantada o máximo possível nas matérias se isso acontecesse.

A hora seguinte foi gasta tentando se concentrar em formação de maldições e sílabas contadas, ao invés de pensar naquelas crianças francesas que poderiam estar sendo torturadas ou pior enquanto ela estava em aula. Não conseguiu. Era maior do que ela, e Lis já havia visto o suficiente da corte que comandava o lugar para acreditar na piedade deles, e conhecia bem demais os instrumentos de tortura presentes naquelas masmorras.

O sinal tocou, finalmente, e como não teria aula até o almoço, resolveu pegar livros na biblioteca a fim de recuperar o tempo perdido antes mesmo que ele se perdesse. O lugar estava muito cheio, os alunos de Hogwarts, Beauxbatons e Ilvermorny estavam dividindo a mesma sala de estudos durante o horário letivo, então seria impossível se concentrar, e foi por isso que, minutos depois, estava pelos corredores com uma pilha de livros impedindo sua visão e procurando um lugar para ficar.

Deveria ser fácil. Os corredores estavam quase vazios por conta das aulas e ela conhecia aqueles caminhos como a palma da sua mão, não precisava vê-los para saber aonde ir, mas isso não alterou o fato de, ao virar uma esquina, terminar esbarrando em algo e ver todos os seus livros no chão.

Seus instintos foram de recolher seu material o mais rápido possível, então nem reparou na familiaridade da voz que repetia pedidos de desculpas e nem nas mãos que lhe ajudavam a colocar tudo em uma pilha novamente. Arrumados os livros, ela levantou os olhos para ver o que fora sua barreira e deu de cara com os conhecidos olhos dourados.

— Acredito que são muitos livros para carregar sozinha, não acha?

— Acho que sim — sua resposta foi apressada e ela se levantou com eles e se adiantou, pronta para seguir seu caminho.

— O que eu fiz? — a voz dele era quase um murmúrio, mas soou alta no vazio do corredor, e ela virou para olhá-lo, apesar do obstáculo em seus braços.

— Como?

— O que eu fiz, Lis? Desde que cheguei, você mal falou comigo, apenas foge de mim, me ignora, eu só queria saber se fiz algo para que me trate assim — ela não sabia dizer se era o tom de sua voz ou o seu olhar quase desolado, mas ela não conseguiu ser rude com ele.

— Nada, não fez nada. É só que… nada, esquece — as sobrancelhas se ergueram, como se não acreditasse, mas um canto se sua boca se ergueu em um meio sorriso.

— Então eu posso te ajudar com todo esse peso?

— Claro — respondera rápido demais e agora não tinha volta, mas talvez tivesse sido bom, não iria aguentar tudo aquilo por muito mais tempo. Ambos andaram pelo corredor, os livros divididos entre os dois.

— Então… Aonde estamos indo, Milady? — Ela não havia pensado nisso, então apenas o olhou.

— Você estava indo para onde antes de, sabe, me atropelar? — ele riu e ela se odiou por gostar tanto daquele som.

— Aula de Adivinhação; na verdade, procurando alguém que pudesse me mostrar como chegar lá.

— Acho que encontrou a pessoa certa — outra risada, ela não conseguiu não ecoá-la — Sabe em que sala será?

— Disseram que é na padrão da escola. Aparentemente não há muitos horários preenchidos pela matéria e puderam cedê-la para nós.

— Óbvio, é uma matéria inútil.

— Temo ter que discordar, milady. É extremamente interessante descobrir as nuances do futuro através de estrelas e cartas, é claro que somente funciona para quem tem visão — ela teve, muito, que revirar os olhos ao ouvir isso e ele riu o resto do caminho, sem conseguir se recuperar da expressão dela.

O últimos metros até a torre de Astronomia foram de uma batalha interna dentro da garota, ponderando se deveria ou não dar uma chance ao rapaz sorridente ao seu lado que parecia mesmo se importar em estar com ela; é claro que ver James encostando uma lufana perto das escadas ajudou em sua escolha, mesmo que nunca fosse admitir, pois implicaria em também admitir outras coisas incômodas e inconvenientes.

A antecâmara da sala estava silenciosa o suficiente para que ela pudesse estudar como pretendia, então concordou em esperá-lo até que a aula acabasse e sentou e esperou. Parte de sua mente se esforçava para dar conta dos dois metros de pergaminho para a aula de feitiços, a outra parte tentava decidir sobre o rapaz na sala em frente, mas seu coração permanecia na França a cada batida.

Uma hora se passou, e o moreno saiu, sorrindo ao vê-la ainda lá, disse que não teria mais aulas, mas ela desconfiou que iria matá-las para ficar com ela por um tempo, então deixou que se sentasse no chão de pedra ao seu lado e passasse o tempo fazendo-a rir e tentando ler seu futuro na palma de sua mão, chegando à conclusão de que ela seria rica e casaria com um homem moreno e de olhos dourados que dançasse com ela em um grande baile.

Lis não havia esquecido de como era bom conversar com ele, e de como era proporcionalmente difícil evitar querer beijá-lo. Era quase impossível não desejar aquela boca bem desenhada e focar nos deveres em sua frente. Ele não sabia do que acontecia em sua escola, provavelmente, e ela resolveu não contar, permitindo que ele a distraísse daquilo durante aquele pequeno momento em que nada mais importava.

Era pouco antes do horário de almoço quando seu pai surgiu, sério, pelo portal da escada. Ela sabia do que se tratava e mal se despediu ao sair. Quase chegava ao pé da escada quando ele a puxou pelo braço pedindo para encontrá-la e passear com ela depois do jantar; cinco segundos foram o suficiente para que ela ponderasse e aceitasse, virando de volta para o seu caminho e deixando-o.

O corujal era uma bagunça de aves agitadas por conta da chuva que viria e Lis prendeu uma carta e um bilhete à pata de uma delas com agilidade quase treinada. Seu pai não a havia acompanhado, era melhor que não soubesse quem eram seus contatos, em tempos como aqueles, e deixou que enviasse a carta.

Uma carta para alguém sem nome e um bilhete para alguém que saberia esse nome. Estava cansada disso, mas era a única forma de ajudar. Sussurrou para coruja a quem ela deveria procurar e deixou que ela voasse, observando até que se tornasse um pequeno borrão cinzento, camuflada nas nuvens escuras.

Percebeu que estava chorando apenas quando uma das lágrimas pousou em seus lábios e deixou que caísse, dedicou o tempo às lágrimas, às crianças, e à esperança, pedindo, a quem quer que cuidasse do destino, que a carta chegasse a tempo. O céu pareceu ouvi-la e derramou suas lágrimas também, acompanhando-a em seu pranto. Lis decidiu que não tinha apetite e apenas observou a chuva e chorou.

***

Quarenta minutos. Era o necessário para chorar, se recuperar e esperar que o rosto desinchasse o suficiente para não levantar suspeitas, e Lis decidiu fazer o último a caminho do castelo. A chuva havia diminuído para uma leve garoa e ela desceu os muitos degraus da torre. Ela deveria ter muito, muito azar; deveria ter feito algo muito ruim, pois assim que chegou à porta para fora da torre, a chuva se tornou torrencial, em questão de milésimos de segundos. Os ombros dela caíram, e ela apenas encarou.

Duas opções surgiram: correr até o seco e talvez escorregar na grama molhada ou andar em ritmo normal e chegar em segurança. A ruiva era considerada aventureira, mas, saindo pela porta, escolheu a segunda opção. O choque foi instantâneo.

As gotas grossas caíam, ensopando suas vestes e fazendo seu cabelo grudar no rosto. A água estava muito fria, congelando-a até os ossos, e os passos eram difíceis por conta do vento forte que soprava. Conseguir enxergar mais que vinte centímetros era impossível, mas via a silhueta do castelo e conseguia manter seu caminho; apesar também dessa condição, conseguiu ver alguém esperando-a e uma segunda olhada revelou, surpreendentemente, que era o James.

A garota não teve tempo para pensar sobre isso, pois foi interrompida por mais um espanto: ele corria em sua direção. O moreno parou em frente a ela, a água fazendo o cabelo chegar abaixo de suas sobrancelhas. Lis imaginou que ele iria perguntar o que ela estava fazendo ali, mas ele, aparentemente, havia resolvido ser totalmente contra seus próprios padrões e tirou a própria capa, ainda seca e quente por dentro e a envolveu, com ela e com os braços, e a guiou para dentro da escola.

Quando chegaram, apenas passaram um minuto sem se olhar ou falar, e foi o James quem quebrou o silêncio.

— Não apareceu para o almoço hoje.

— Não estava com fome — sua voz era totalmente diferente da de manhã.

— O que estava fazendo na chuva?

— Queria andar um pouco, a chuva me pegou de surpresa.

— E por que não correu?

— Prefiro um resfriado a uma concussão — seu tom era leve e carregado do humor de sempre, e talvez tivesse sido por isso que o James riu.

Lis pegou a varinha no bolso interno da capa e secou os dois com apenas gestos, então devolveu a capa dele, agradecendo e avisando que teria que correr para a aula. Os garotos pareciam ter pegado a mania de chamá-la apenas quando ela estava longe, pois foi isso que ele fez.

— Ei, Lis — ele estava meio ofegante, indicando que correra, mas tentava parecer casual, como se estivesse sempre indo na mesma direção — eu e o pessoal, nós vamos fazer uma festinha lá na comunal, para comemorar eu ter sido escolhido como campeão, hoje depois do jantar, se quiser dar uma passada por lá… — ela inclinou a cabeça e deu um sorriso treinado, o mesmo que dava aos nobres da corte quando queriam tirá-la dos bailes para um lugar “mais reservado”.

— Desculpa, Jay, mas já tenho algo pra hoje. Outro dia a gente comemora, ok?

Uma parte distante de seu cérebro registrou os olhos desapontados e o sorriso triste, mas ela apenas girou e continuou o seu caminho.

O jantar estava delicioso, isso ela poderia dizer com certeza, pois havia comido pelo menos um pouco de cada prato servido, a fome reclamando por estar sem se alimentar desde o café da manhã. Ela serviu um pedaço de frango assado e de torta de abóbora e Escórpio, que já havia parado de comer, a olhou com espanto.

— E você estava aonde durante o almoço, mesmo? Nunca vi você comer tanto.

— Não estava com fome, e não tive tempo durante a tarde para passar nas cozinhas.

Ele a deu um tempo para que terminasse o prato e, logo em seguida, as sobremesas foram servidas. Ambos serviram um pudim com calda quente.

— Você vai para a festa na Grifinória hoje?

— Tenho um compromisso — ela o sentiu se virar bruscamente e não levantou o rosto, as bochechas corando.

— Um compromisso, tipo, um encontro? — ela encarou o doce — Liiiiis, fale.

— Sim, quase isso, eu acho — ela deu de ombros.

— Quando pretendia me contar isso?

— Amanhã…? — ela corou e desviou o olhar, mas sentiu o amigo enrijecer ao seu lado, então olhou para saber o motivo. Nikolai se aproximava, com um sorriso hesitante e Escórpio fechou o semblante. A menina deu um toque apaziguador em seu pulso e foi em direção ao outro.

— Oi, Nik. Eu vou à minha sala comunal trocar de roupa, ok? Me espera no corredor leste, sabe onde é?

— Sim, sei. Eu espero — seu tom tava estranho, mas ela o beijou na bochecha e deslizou para fora do salão.

Escolheu um suéter verde escuro e calça jeans simples. Precisava parecer que havia vestido a primeira coisa que viu, mesmo quando havia escolhido minuciosamente até o perfume de rosas após o banho. Sempre escondia doces e cerveja amanteigada no criado mudo, então pegou alguns e seguiu, a passos largos, para o corredor leste.

Nikolai estava do lado de uma janela, parecendo um vampiro das histórias trouxas, com a capa balançando no ar noturno. O uivar do vento era o único som que havia e algo dentro de Lis a impeliu para abraçá-lo pelas costas. Sentiu os seus músculos reagirem ao susto e então relaxarem ao notar quem era.

O rapaz girou ainda em seus braços, apoiando o queixo no topo da cabeça dela e quando se afastou, a menina reparou na tristeza em seus olhos, e algo estalou em sua mente, subitamente percebendo o motivo.

— Ei… — sua voz era pouco mais que um sussurro — O que houve?

— Beauxbatons foi tomada pela corte. Um dos professores expulsou o vice-diretor e ordenou que os alunos de sangue puro treinassem feitiços e maldições nos nascidos trouxas. Houve uma rebelião, os que defenderam os mais novos se pondo na frente e os que se recusaram a fazer, resistindo às ordens, foram presos nas masmorras, com aqueles homens podendo fazer o que quiserem com eles — uma sombra caiu em seus olhos, que pareciam ferro fundido no escuro — metade deles foi pega, os menores estão cativos em uma das salas comunais, aguardando… o que, eu não sei.

— É, eu… eu sabia de tudo isso, mais até do que você falou. Como está Kaleen com tudo isso?

— Não sei, a maioria dos que estão cativos são o mais próximo que ela tem de amigos, nenhum deles concordaria em fazer algo assim, mas sempre a poupei das coisas ruins da corte, então ela não sabe, concretamente, o que eles podem estar passando lá embaixo. E sinceramente, não culpo os que não recusaram, eles apenas sabem o iriam enfrentar ao cutucar a fera.

— É, eu sei, também não.

— O pior é que o líder do golpe foi meu tio, irmão da minha mãe — Roger Le Roux, ela sabia, que reconhecia o nome, era irmão da mãe dele, mas não havia feito a ligação — e você sabe como é o laço de família na corte, agora todos os alunos parecem estar com raiva de nós.

— Sinto muito…

O vento passou por eles, fazendo-a tremer, e ele a abraçou. Um minuto ou uma hora se passou, Lis não sabia, antes que ele dissesse alguma coisa.

— Não consegui comer no jantar, sabe onde conseguir comida?

Com um sorriso malicioso, ela tirou os doces e a cerveja da bolsa que havia trazido, recebendo um sorriso agradecido. A conversa se tornou mais leve, ambos rindo ao falar com a boca grudada de caramelo, mas a dor não saía daqueles olhos metálicos, o que a levava a entrelaçar seus dedos nos dele e acariciar, sentindo os calos de uma vida de treinos.

O sino tocou, anunciando a hora de se recolher. Nikolai desceu da janela e a segurou pela cintura, para ajudá-la, mas não soltou. Lis levantou o olhar, conseguia sentir sua respiração misturando com a dele enquanto encarava as pupilas se dilatando naquele mundo dourado. Ele suspirou, mas foi ela quem o puxou.

O beijo foi totalmente diferente do último. Foi calmo e melancólico, e nada tinha da selvageria que marcara o festival. O coração dele estava sincronizado com o dela, acelerado, e uma de suas mãos deixava pequenas carícias no pescoço branco como leite. Foi o rapaz quem interrompeu o beijo, escondendo o rosto na curva em que sua mão estava antes, aspirando o aroma de rosas. Lis senta a respiração irregular dele, fazendo cócegas em sua pele.

— Obrigado — ele sussurrou, então a beijou no pescoço, na bochecha e nos lábios, antes de sorrir e ir embora.

Lis não conseguiu se mover até que os sons dos passos sumissem ao longe, sobrepujados pelo próprio coração.