Step

1 Last minutes of Valentines Day


Notas iniciais
Mais um projeto short pra vocês, espero que gostem.

A garota mudou novamente de posição no sofá, o telefone movil ainda rodando nos dedos. O cotovelo apoiado em flexão no braço do acento com três lugares sustentava o queixo tensionado enquanto o olhar continuava fixo no aparelho.

Não era a primeira vez que Mandy, sua mãe, arranjava uma desculpa para passear pela sala mas precisava ver qual a situação da filha a cada dez minutos que passava; o coração apertado por perceber o olhar cada vez mais desapontado. Mas a menina não notou nem as passagens da mãe pelo ambiente, imagine suas intenções.

E agora vinha ela novamente, agora o olhar focado repreencivamente no marido.

Ricardo se assustou quando os braços da esposa foram cruzados sobre o busto, a face dura e a boca mexendo descontroladamente sem voz ao apontar para a filha cabisbaixa.

O homem abaixou o jornal entregue essa manhã, onde só teve tempo de ler agora, dando de ombros ao tentar constatar para a mulher suas tentativas de começo de conversa. Mas todas falhas.

Mandy suspirou com peso ao desistir do marido, sentando-se ao lado da garota.

- Ela deve estar aqui a qualquer minuto, querida. – a mãe acariciou a perna da filha, coberta pela calça jeans marrom. — Só se atrasou um pouco.

- Eu disse a você sobre esse tipo de pessoa. – Ricardo voltou novamente para as letras minúsculas impressas no papel reciclável, mas ainda sentiu a continuidade do olhar bravo da esposa, dando de ombros novamente como se não tivesse falado nada de errado. – Digo... vocês entenderam.

Ricardo era o único da casa ao continuar a “rejeitar” a escolha da sexualidade da filha. Explicando melhor, ele compreendeu a idéia inicial da filha mas quando descobriu que todas aquelas idas ao shopping com a prima não tinham nada com cinema o assunto começou a ficar delicado. Mandy sabia dos encontros da filha com a garota, mas mantinha o marido fora disso. Afinal, Ricardo foi criado em uma política difícil ditada pelo pai militar e esse era o motivo da esposa não exigir tanto dele; mas Selena não tinha nada a ver com sua criação, então as conversas apaixonadas que a filha tinha com a mãe ficavam trancadas como segredos no quarto da mais jovem.

Mas sempre tem uma hora que as coisas mudam e foi por descuido de Mandy não perceber quando.

Quando menos esperavam, Selena apareceu de mãos dadas a uma garota que, com o mesmo sorriso que a filha tinha descrito varias vezes para a mãe em detalhes, pediu permissão para namoro.

A esposa lembra até hoje do rosto chocado de Ricardo ficando cada vez mais roxo lutando contra a vontade de gritar em raiva. Isso não era para acontecer, em sua mente. Aquela garota desconhecida tinha entrado num terreno completamente despreparado para um ataque surpresa, o que a tornou inimiga aos olhos do proprietário.

Quando Selena expressou estar em duvida sobre a sexualidade o homem ignorou os comentários, afinal, a garota tinha quase dezessete anos e os hormônios corriam pela cabeça. Resumindo: era tudo uma fase.

Claro que Ricardo ia negar tudo. Todo o discurso da boca avermelhada da garota a sua frente era jogado quase totalmente fora, só capturando o que encontrava de necessário para complementar seu decidido “não”. A garota era um ano e meio mais velha que sua menininha, tinha um piercing nojento na língua muito evidente quando em fala, a tatuagem de um coração um tanto estranho no pulso no estilo de um símbolo do infinito e – então – algo interessante: não era da cidade.

Sua vida era praticamente baseada aqui; família, amigos, faculdade; mas morava e trabalhava na cidade vizinha. Foi ai que Ricardo tomou uma respiração profunda a pensar.

Viu o olhar bobo e apaixonado de sua filha ao lado da garota e apertou a mão pálida engolindo em seco ao dizer palavras fúteis e clichês sobre a felicidade ser mais importante, mas no fundo, tinha um plano. Selena era linda, estudiosa e sabia atrair bastante rapazes e essa “namorada” não estaria presente em todos os momentos que um relacionamento precisa então estava tudo bem. Seria outra coisa passageira.

Agora ela viveria alguns beijos lésbicos, seria feliz por – ele dava menos de um mês – algum tempo e, num final breve, ele não seria o malvado e sim o de papel “eu te avisei”. Mas não há como fazer planos para essas coisas.

Um mês. Dois. Três. O aniversario de Selena. Cinco. Seis. Aniversario da namorada. Sete. E, provavelmente oito.

Ricardo já tinha perdido as esperanças que o motivo da separação fosse a distancia já que isso não impediu sete meses, só restava a consciência da filha gritar para a realidade quando a fase passar. E momentos como esse era o que deixava o pai de família esperançoso.

- Não ouça teu pai. – Mandy tentou uma tonalidade descontraída, mas Selena continuou neutra. – Olhe, não fique triste ok?

- Não estou triste. – a jovem apertou o botão principal do iPhone para iluminação da tela; 22:30. – Ela não atende o telefone.

- Ela pode estar chegando agora na cidade...

- Tudo bem, mãe. – sorriu sem vontade. – Ela deve ter saído mais tarde da faculdade hoje, mas é melhor que não venha que pegar a estrada cansada. É perigoso.

- Sinto muito, Lena. – Mandy soprou uma mexa do cabelo da filha.

- Só estou chateada por restar tão pouco do dia dos namorados e não poder passá-lo com a minha. – Selena virou a cabeça para a mãe, apoiando a bochecha na mão. – São quarenta minutos de ida, mas quarenta de volta eu entendo.

- Ela tem sorte de ter alguém como você. – confortou sua mãe. – Qualquer outra pessoa terminaria um relacionamento.

- Não consigo fazer isso, mãe. – sorriu novamente, cansada. – Vou subir, qualquer coisa estarei no meu quarto.

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- What doesn't kill you makes you stronger; Stand a little taller – cantarolou junto com o rápido, enquanto batia com ritmo no volante com proteção.

Seu coração batia forte com o pensamento que vinha junto dum sorriso. Pegou o celular no banco do motorista na tentativa de ver a hora, mas se distraiu demais com a foto divertida da garota ao fundo; sorrindo mais largo.

Prestou mais atenção a rodovia praticamente vazia.

Assustador, pensou.

Já era rotina fazer suas pequenas viagens de ida e volta por ela, mas a estrada ainda continuava sombria a noite. Por isso se distraia com musica alta; principalmente quando era Kelly Clarkson.

Respirou fundo quando passou correndo pela placa de boas vindas da cidade conhecida, abaixando a velocidade quando encontrou o centro.

Tudo parecia mais movimentado hoje. Os cinemas cheios, as praças apaixonadas, bexigas de gás Helio nas mãos de todas as garotas sorridentes para o namorado safado que contava os segundos para levá-la ao motel reservado a dias; talvez até naquela mesma rodovia que passara.

Homens.

Balançou negativamente a cabeça ao perceber o olhar pervertido de um namorado para o vestido curto da namorada. Tão rude.

Virou mais algumas ruas ao parar o dodge charger antigo na vaga de fora da garagem na família Gomez, não se incomodando em bloquear o portal de carros pelo horário.

Não hesitou em descer no carro, espremendo o Black Berry no bolso apertado do jeans preto um tanto grande para as pernas curtas, fazendo-o skinning até sobrar demais na canela; fechou a porta arrumando o cabelo negro de referencia no reflexo do vidro esfumaçado, ajeitando a velha camiseta da banda AC/DC.

Abriu a porta traseira do carro importado pegando com cuidado a caixa fina e comprida, implorando para o material ainda estar inteiro e confirmou com um suspiro de alivio ao tirar com cuidado a rosa branca sem espinhos que havia comprado de ultima hora com medo de murchar.

Jogou a pequena caixa de volta ao banco alarmando o veiculo.

Caminhou lentamente até a porta branca decorada, fazendo o ritual de costume ao tocar a campainha; beijando a fina pulseira verde vibrante de látex, que brilhava no contraste com a pele de um pálido doente.

Não demorou a porta ser aberta e quando foi prendeu a respiração com a vista.

- Demetria? – a voz grossa do sogro veio em duvida.

- Boa noite, senhor. – cumprimentou gentilmente com um aceno mínimo de cabeça.

- O que faz aqui? – tornou a perguntar, limpando a garganta com a surpresa.

- Desculpe o horário, senhor, mas achei apropriado visitar Selena no dia dos namorados. – sorriu em justificativa, mostrando a rosa delicada em sua mão. – Provavelmente não vou demorar.

- Hm, ok. – respondeu dando de ombros; já havia desistido de lutar contra a futura nora. – Esta no quarto.

- Obrigada senhor. – puxou os cantos dos lábios num sorriso rápido.

Não queria chorar até porque Demi não tinha culpa de nada, mas não podia evitar se sentir triste.

Sete meses de namoro e se viam tão pouco na semana. A mais velha trabalhava todas as tardes numa loja de vídeo games e jogos, a noite tinha faculdade e em semana de provas não podia viajar. Então, justo no dia dos namorados, ela não podia ao menos responder uma chamada no telefone?

A luz estava apagada, o que ressaltava a iluminação do celular em seu rosto quando passou mais uma imagem no aplicativo de armazenamento, sorrindo para a foto do casal feliz; sempre via essa pasta quando tinha saudades, já que sabia não adiantar mandar mensagem.

Nem tinha se trocado por preguiça, só decidira ficar quieta para evitar mais uma conversa com sua mãe assim como havia saído da sala para não brigar com o pai.

Porque ele não aceitava seu sentimento obvio?

Ela amava Demi e Mandy era a única que sabia – alem da própria namorada – pois Ricardo não se importava. E nunca se importaria porque...

Selena piscou forte quando as luzes foram surpresamente acesas.

- Mãe... – começou na hipótese de repreensão, mas o começo de frase parou na garganta quando viu a figura na porta. – Aaaaah!

Sentiu as costas baterem contra o chão quando caiu da cama em susto.

- Deus, Selena. – ouviu a voz risonha correr para ajudá-la. – Tudo bem?

A mais velha não teve tempo de prestar socorro, já sentindo o corpo sento jogado contra o seu. As pernas de Selena se firmaram nas laterais do quadril de Demi, enquanto beijava a namorada com saudade.

Demi sentia as mordidas gostosas da namorada em seu lábio inferior, presumindo o sorriso bobo que se formaria nos segundos de inconsciência.

- Pensei que não vinha. – murmurou Selena, afastando-se pouco dos lábios ofegantes.

- Também. – sorriu ao firmar mais os braços na cintura da outra. – Mas, bem, hoje é dia dos namorados.

- Sabe que temos menos de uma hora desse dia, certo? – Selena questionou erguendo uma sobrancelha.

- Hm, sim, mas tinha que te dar um beijo. – respondeu. – E te dar isso, claro.

Sem deixar Selena se mover, trousse a flor entre os corpos colados sem dificuldade para manter a namorada fora do chão.

- Dem, é tão linda. – elogiou por não perceber antes a rosa nas mãos dela.

- Não tanto quanto você. – flertou a frase clichê que sabia fazer Selena corar, não sendo diferente de hoje. – Eu sei que rosas são comuns mas acho especiais e não quis trazer a vermelha, Ricardo podia me interpretar mal.

- Hm, você acha que ele levaria para o lado sexual? – a mais nova mordeu o lábio inferior inocentemente.

- Bem, ele é teu pai e você levou. – riu Demi. – Vamos ficar nessa posição?

- Eu estou confortável. – falou simplesmente.

- Não neguei estar também. – os dedos espertos deslizaram para os bolsos da calça jeans de Selena, apoiando com mais facilidade embora o tom pervertido acusasse a mais velha.

- Hey. – riu a adolescente apaixonada, batendo divertidamente no ombro da outra.

- Agora fale a verdade. – começou brincalhona. – Isso não te excita?

O riso se transformou em gargalhada na boca de Selena que, depois de mais alguns segundos se recuperando, tirou as pernas da namorada voltando para o chão. As mãos de Demi ainda em seus bolsos traseiros.

Tentou esconder o sorriso maléfico de vingança ao morder o ponto sexy no queixo da de pele alva, passando a língua como tortura até a lateral do pescoço não resistindo ao chupar com as mãos de apoio na nuca da namorada. Sentindo a respiração aumentar em seu ouvido, terminou o movimento com um beijo suave da região vermelha – mais tarde provavelmente roxa – se aproximando da boca da outra.

- Agora fale a verdade. – repetiu as palavras. – Isso não te excita?

- Oooh, seu pai não faz idéia do monstro devorador que criou, não mesmo. – falou abobalhadamente arrancando mais risadas de Selena. – Sério, olha o que você faz comigo.

- Porque eu te amo. – justificou-se sorrindo.

- Eu sei. – acenou positivamente com a cabeça ao prolongar um selinho. – E eu te amo.

- Obvio. – deu de ombros revirando os olhos divertidamente.

- Da pra sentir sua humildade, sabia? – Demi estreitou os olhos a fala retórica.

Só Demi fazia Selena sorrir como agora e não importava o quanto ela via as pessoas em reprovação, porque embora ela tente igualar seu pensamento ao delas vendo que talvez não seria bom namorar alguém com essas dificuldades, ainda mais de locomoção... a resposta para tudo era uma risada irônica quando estava com ela.

- E então? – as garotas pararam as seguidas trocas de beijos rápidos para a voz animada na porta. – Qual a resposta?

- Hm? – Selena estranhou sua mãe a porta, ainda mais confusa pela pergunta.

- Eu, hm, ainda não perguntei. – a mais velha sorriu sem graça para a sogra, quando manteve algum espaço da namorada; por respeito.

- Ooh, desculpe estragar a surpresa. – desculpou sinceramente colocando a mão na testa.

Com uma despedida silenciosa bateu a porta gentilmente, deixando-as sozinhas de novo.

Selena focou a namorada cruzando os braços.

- Surpresa? – questionou. – Outra?

- Hm, não é muito uma surpresa só um convite. – falou a outra, coçando a nuca nervosamente. – Nem precisa aceitar.

- E o que é?

Demi focou a pulseira verde.

Aquele objeto era de muito valor para ela e a justificativa era por ser simplesmente a cor preferida da namorada. As pessoas geralmente rolavam os olhos ao escutar o porque, mas não tinham idéia o quanto significava para a garota.

Já havia arrebentado mais tantas outras e nunca sabia como fazia, afinal, era de látex resistente e sempre quando acontecia corria comprar outra. Claro que levava algum tempo a se acostumar com idéia de ser nova e sem muitos momentos especiais, mas era só chegar na casa de Selena que as futuras lembranças começavam a aparecer.

A adolescente sorriu ao ver a namorada brincar com o objeto, começando a ficar mais curiosa.

- Ia perguntar se, você sabe, nessa sexta feira eu não tenho faculdade e nem planos para o final de semana – começou com um suspiro ao encarar novamente a mais nova sorridente. –, então pensei te convidar pra ficar no meu apartamento. Vai ser complicado convencer seu pai, mas faz tempo que não me visita lá e só quero assistir alguns filmes.

- Dormir na sua casa? – mordeu o lábio inferior. – Pensei que nunca perguntaria.

- O quê? – confundiu-se Demi.

Selena riu da feição fofa da namorada.

- Faz sete meses que namoramos e você nunca me pediu para dormir na sua casa, só eu que tenho de insistir e ainda receber um “não” quando imploro pra ficar.

- Então estava esperando isso?

- Claro! – falou obviamente. – Só que esta certa sobre meu pai.

- Eu sei; Deus, isso vai dar trabalho.

Notas finais
Reviews são muito bem vindos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.