Stellar
3 Capítulo 2 - Sorte Grande! pt 1
Notas iniciais
O Festival de inverno era uma festa completamente desnecessária para algumas pessoas, em especial para o capitão da décima divisão. Mas no caso dos outros capitães, em especial Kyouraku e Hirako, era uma festa que deveria, não importavam as circunstâncias, acontecer todos os invernos.
Como a festa acontecia durante a noite, e o Gotei 13 era obrigado a estar presente, o capitão albino pensou em convidar sua melhor amiga como companhia, não que ele precisasse de uma, era que a presença de Hinamori poderia tornar aquela tortura mais agradável.
Hitsugaya passou o dia tentando ignorar a tenente que insistia na ideia do grande prêmio da rifa, mas ele era bom em ignorar. Mesmo assim, a loira não se contentou, e depois de algumas horas falando sem parar sobre como a Ilha Suta era especial, única e extremamente exclusiva, decidiu usar sua ultima arma.
— Bem, parece que você não está interessado capitão. – disse ao levantar-se de sua própria mesa, onde tinha, milagrosamente, assinado meia dúzia de papéis.
— Sério? – murmurou o capitão sarcástico.
— Vou contar a Hinamori, pobrezinha, esteve trabalhando sem parar e mesmo com o capitão Hirako de volta a carga dela ainda não está muito menor. – comentou ela quase que dissimuladamente – Aposto que ela vai adorar a ideia de uma semana de folga em uma ilha histórica e mágica. – e riu, mas o som foi quase desdenhoso – com um acompanhante.
Hitsugaya quase se deixou afetar, estava a ignorando tão bem que só agora quando o nome de Hinamori havia sido mencionado que havia prestado um pouco mais de atenção ao maldito prêmio.
— Termine o seu trabalho antes. – disse mecanicamente, sem tirar os olhos do formulário que preenchia.
Como ele não a havia escutado reclamar, julgou que tivesse partido antes mesmo de escutar o que dissera. De certa Hinamori participaria da maldita rifa, e não que a menina fosse azarada, mas Hinamori não era uma das pessoas mais sortudas do mundo.
Parou por um momento e olhou para a porta de onde alguns raios de sol eram ligeiramente encobertos por uma arvore que balançava ao vento.
Se Matsumoto estava tentando convencê-lo a participar, e com tanto esmero da parte dela, pois passara o dia todo falando do mesmo assunto, e até mesmo trabalhou por um breve instante para chamar a atenção do capitão, principalmente porque era repentino que voltasse de viagem com Hirako e viesse direto trabalhar...
Não seria a primeira vez em que aqueles dois armavam alguma coisa.
Levantou e pôs se a passos firmes em direção da quinta divisão. Hinamori não era uma menina sortuda, isso ele sabia, mas não se tratava de sorte desta vez. E se ela ganhasse? Quem ela levaria? Kira? Aquilo o fez apertar o passo, seria melhor que ele participasse e não ela.
–
Quando chegou ao barracão da quinta divisão, ouviu de um dos oficiais que a tenente não havia retornado desde cedo naquele mesmo dia, quando ele havia estado lá, e o capitão também não tinha aparecido no trabalho, na verdade, o oficial não havia sido informado sobre seu retorno.
Hitsugaya se sentiu irritado por alguns instantes, mas manteve seu autocontrole e respirou fundo. As encontraria de alguma forma, e o maldito festival era na noite do dia seguinte, tinha algum (pouco) tempo.
–
Começou sua procura pela reiatsu de Matsumoto, e estava bem fácil, mas no caminho, por pouco não fora atingido por um baú gigante que alguns shinigamis carregavam no andar de cima, mas não deu muita atenção pra isso, afinal de contas, tinha ótimos reflexos.
Coisas do tipo se repetiram algumas vezes antes de encontrar Matsumoto, e quando pela sexta vez teve que se esquivar de algo que iria atingi-lo, um pequeno fragmento de memória inútil passou por sua mente:
“Muitas coisas desagradáveis estão para acontecer, mas acredite, vai melhorar, nunca perca sua fé!”
Encontrou Hinamori e Matsumoto sentadas em pequenos bancos de bambu perto de algumas cerejeiras definhadas pelo frio, o sol já não brilhava mais, e escurecia aos poucos, o pôr-do-sol de inverno era um misto de cinza com tons claros e escuros, mas não era sombrio, e como se tivesse sido riscado com giz de cera, algumas tênues linhas alaranjadas cortavam a noite que estava por vir. Hitsugaya sempre gostou de observar o céu.
— Shiro-chan! – Hinamori o chamou quando se aproximou. Ela parecia animada com alguma coisa.
Com o canto dos olhos, o capitão notou a pequena reação de sua tenente.
— É capitão Hitsugaya, você sabe. – disse sem muita relevância.
Como que ignorando a importância do título tanto quanto ele, porque tinha coisas muito mais valiosas para se preocupar com, Hinamori sorriu e começou a falar sobre o que ele não queria ouvir:
— Eu e a Rangiku-san compramos números da rifa da festa inverno! – o sorriso inocente dela fazia aquilo parecer terrivelmente maldoso – Eu espero ganhar e ir para a ilha Suta... – e para a infelicidade do capitão, soou muito sonhador.
Pensou em repreender Matsumoto, mas ficaria muito suspeito, e acabaria por confundir a pequena Momo. Pensou em sorrir, mas pareceria ainda muito mais suspeito, e desde quando ele pensava em sorrir? Aquilo tinha que ter uma explicação, e era Hinamori Momo.
Ele deixou que elas falassem sem parar sobre como a viagem a ilha seria maravilhosamente fantástica, mas não estava realmente prestando atenção. Como que contra suas expectativas, a menção do acompanhante não veio.
–
O capitão não dormiu muito bem, preocupado com os planos absurdos de Matsumoto, e com Hinamori.
Passou metade da noite tentando realmente dormir, mas estava ansioso. Se sentia como quando Hinamori estava no hospital por sua culpa, apesar deste sentimento ser inigualável; Se sentia meio culpado, e queria resolver isso de alguma maneira.
Fez uma xícara de chá verde, bem amargo, do jeito que gostava; ainda não tinha amanhecido, e aquele frio, para algumas pessoas desconfortável, estava amparando-o, trazendo a ele o conforto que precisava para se sentir em paz por alguns instantes. Mesmo quando a vida havia lhe mostrado tantas coisas ruins (era difícil esquecê-las, e na verdade, ele nem queria fazer isso) havia raros momentos como aquele, em que sentia a autossatisfação de ter cometido os erros certos, mas sempre teria a brisa, aquela única brisa fria e cortante que poderia aterrorizar o capitão de gelo que traria a tona as terríveis consequências.
Quando amanheceu, se livrou de suas divagações e decidiu chegar (muito) cedo no trabalho.
–
Ao adentrar o ambiente de trabalho, encontrou outro bilhete como o do dia anterior, ridiculamente colorido e com os dizeres “Muita pouca sorte!” brilhando.
Sagitariano, entre em desespero!
Se sua semana já estava marcada para ser ruim, então ela pode agora ser a pior da história! Seria melhor que você repense a sua vida e não tome decisões precipitadas! Viagens precisam ser evitadas a todo custo!
Pela primeira vez em muito tempo Hitsugaya viu algo tão ridículo a ponto de lhe dar uma ínfima vontade de rir, e por pouco não o fez, lembrara que era tudo armação de Matsumoto, e fez uma nota mental para depois descobrir com quem estava mancomunada e puniria a todos ele mesmo.
Como esperado do dia do festival, fora feito um pedido formal do próprio Comandante para que Hitsugaya fizesse a escultura de gelo, não era uma ordem, pois o próprio Comandante sabia sobre a aversão do capitão ao festival, mas sabia que ele executaria a ‘tarefa’ assim mesmo. Para aquela noite, era esperado que nevasse pela primeira vez desde o inicio do inverno, e de fato, o capitão sabia que aconteceria desde a hora em que observou o nascer do dia e o céu lhe dizia que o clima seria salpicado de branco.
Encontrou com Hinamori enquanto ela ordenava alguns shinigamis que preparavam a grande fogueira do festival. Ela parecia cansada, como alguém que passava dia e noite a trabalhar, aquele reflexo de cansaço o deixava preocupado.
Depois de pronta a escultura, Hitsugaya se recolheu, uma vez que o expediente do dia do festival seria cortado ao meio para dar lugar ao ‘horário noturno’ que era quando o festival seria realizado, começava ao pôr do sol.
–
Em casa, o capitão ficou inquieto, pensou em Hinamori e no que estaria fazendo, será que tinha se dado folga ou ainda estava trabalhando? Era culpa de Hirako que a pobrezinha trabalhasse tanto.
No escritório pessoal, rabiscou alguns versos de algum livro que lera recentemente, e acabou por cair no sono, o que não costumava acontecer muito, no entanto por consequência de não ter dormido totalmente na noite anterior, o capitão se sentia cansado.
Acordou com o escândalo de sua tenente, e com piadas sobre como ele andava ‘cochilando por aí’.
— Não é ‘por aí’ quando eu estou dentro da minha própria casa. – resmungou.
— Sim, sim capitão. – disse a ‘compassiva’ Matsumoto – Agora vá se arrumar ou vai se atrasar para o sorteio do grande prêmio.
Hitsugaya a ignorou completamente, mas foi se arrumar, sem nem uma palavra; Quase parecia uma criança fazendo birra. Mas Matsumoto não ousou pôr esse pensamento em palavras.
–
O festival era barulhento, cheio de shinigamis que adoram a ideia de poder juntar trabalho a vadiagem de uma maneira legal e oficial. Hitsugaya cumprimentou alguns dos companheiros e voltou-se a um canto frio afastado da balbúrdia dos outros. Procurou Hinamori com os olhos, mas dentre tantas pessoas, não era muito fácil.
— Não é excitante? – disse a voz da pessoa que procurava.
O capitão se assustou por um instante, não esperava que ela o encontrasse.
– Não entendo como. – respondeu em sintonia com clima gelado.
Os primeiros flocos de neve caíam, e o tempo se tornara muito frio, as pessoas começavam a se reunir em torno da grande fogueira.
— Você parece cansada. – comentou ele. Ela permaneceu em silêncio, mas ele sabia que ela sorria mesmo sem olhá-la.
– O sorteio será daqui a pouco. – ela disse após algum tempo. E foi a vez dele de não se posicionar.
Ela sorriu um pouco mais.
— Shiro-chan, eu não sou mais tão boba. – e ela pode jurar que tinha escutado um muxoxo de escárnio dele – Eu sei que isso é um plano da Rangiku-san e do meu capitão.
Ele permaneceu apenas como ouvinte.
— Ele tentou me convencer a participar algumas vezes, e depois que declinei todas as vezes, Rangiku-san me levou até o barracão da segunda divisão e me fez comprar um número junto com ela. – ela riu levemente. – Ela me disse para levar o Kira comigo caso você se recuse a ir.
As bochechas do capitão foram tingidas de um leve rosa, e ele não sabia qual seria o motivo do rubor.
— Até parece que eu deixaria isso acontecer. – resmungou.
O tumulto foi diminuindo aos poucos conforme a capitã da segunda divisão tomou seu lugar no palco.
— Como representante da segunda divisão – começou ela, rígida como sempre – e guardiã da família Shihouin, vou anunciar qual foi o número vencedor da rifa que sorteará uma viagem a ilha sagrada de Suta, propriedade da honrosa família Shihouin. – não era novidade que a capitã Soi Fon nutria uma pequena admiração (e ainda assim seria pouca ironia para o tamanho do sentimento) pela família Shihouin, qual servira.
Mas antes que Soi Fon pudesse pegar papel com o número sorteado de dentro do envelope, um gato preto deitou-se preguiçosamente sobre o palanque de onde ela falava, e atraindo todas as atrações a mulher bronzeada retornou a sua forma humanoide, dessa vez vestida.
– Boa noite! – gritou e recebeu alguns vivas em resposta – Eu assumo daqui, capitã. – disse para Soi Fon, que com uma reverencia respeitosa afastou-se.
— Eu que farei o sorteio! – e colocou a mão dentro do saco, embora Hitsugaya e Hinamori soubessem que havia provavelmente um truque ali. – Número 456!
Hisagi levantou num salto e gritou animado.
— Opa, pequeno erro, é 459. – e riu.
O pobre Hisagi sentou-se novamente, infeliz com a própria sorte.
Hinamori sorriu para Hitsugaya e se aproximou da multidão.
— Sou eu. – disse ela e Yoruichi Shihouin lhe deu uma piscadela.
— Parabéns menina! Você tirou a sorte grande!
Fale com o autor