Stella
39 Fantasmas do passado
Notas iniciais
Adoramos mergulhar no mundo dos sonhos, e ficar imaginando como seria voltar no dia de ontem, ou até mesmo como seria poder voltar para uma época em que éramos mais felizes. O fato é que seria muito bom voltar para uma época em que não sofríamos e nem fazíamos ninguém sofrer. Em algum momento da vida, todo mundo desejou poder fazer isso. Alguns mudariam coisas pequenas, como um corte de cabelo, ou uma tatuagem esquisita feita em um lugar mais esquisito ainda. Mas a única coisa que Danny queria era ter o poder de voltar no tempo para mudar os acontecimentos daquela única noite, mas infelizmente é impossível voltar no tempo.
Os fantasmas do passado haviam retornado, mas dessa vez ele não cometeria o erro de tentar bater em retirada. Há muitos anos, uma pessoa muito querida disse que não adianta tentar fugir do passado, pois ele nos acompanha aonde quer que formos. Danny guardou esse conselho junto com as memórias que tinha da sua família, achou que algum dia pudesse vir a calhar. Esse momento havia finalmente chegado, e ele estava preparado para enfrentar todos aqueles malditos fantasmas.
Os sonhos são uma coisa muito curiosa, pois são basicamente uma mistura de muitas coisas. Freud afirmava que sonhos não passam da realização disfarçada de um desejo reprimido, e Danny concordava com ele. Os sonhos são nada mais do que uma terra mágica e completamente ilusória, através deles, podemos fazer coisas inimagináveis... até mesmo voltar no tempo, e era isso que ele estava fazendo naquele exato momento.
Anos atrás – Noite do incêndio (Pesadelo)
Aquela devia ser a milésima vez que a sua mãe brigava com ele exatamente pelo mesmo motivo. Sair para correr na hora do jantar. A matriarca da família era uma mulher tradicional e de valores arcaicos, e ele sempre odiou todo aquele tradicionalismo. Mesmo que sua mãe se esforçasse muito, a sua família não era nada parecida com aquelas famílias de comerciais de margarina. Eles eram uma das famílias mais famosas da cidade, mas estavam longe de serem um exemplo, mesmo assim ela ainda insistia para manter as aparências.
Patético.
Os seus olhos reviraram, estava cansado de ouvir a mesma ladainha todo santo dia, mas não tinha para onde correr. Ele recebeu um olhar de censura da mãe quando tirou um cigarro do bolso e acendeu. Ela odiava o cheiro do cigarro impregnado na casa e odiava ainda mais ver o filho fumando. A mulher não pensou duas vezes, uniu as pontas dos dedos e apagou o cigarro.
— Mãe!
— Nada de mãe, mocinho. Eu disse que não queria ninguém fumando nessa casa. – O seu tom era tão maternal, que aquilo nem parecia uma bronca. – E isso aí só serve para acabar com os pulmões.
O rapaz tornou a acender o cigarro.
— Com os meus pulmões.
— Daniel Messer. – Brandiu o dedo na altura do rosto do filho. – Será que terei que contar isso para o seu pai?
Ele ergueu as mãos.
— Sem drama. – Entregou a carteira de cigarro nas mãos dela. – Não precisa disso tudo. – Beijou a bochecha da mãe, que a limpou rapidamente com a mão direita. Odiava o cheiro do cigarro na sua pele. – É Danny, mamãe.
Mesmo que ela quisesse que fosse tudo perfeito, a vida não é um filme e as pessoas não são atores com um roteiro na ponta da língua. Quando o seu marido se levantou da cadeira e desceu um tapa no rosto do filho mais novo, Carly achou que as coisas não poderiam ficar piores, mas para a sua infelicidade, ela estava redondamente enganada.
— Está achando que a vida é um filme, seu moleque?! – David esbravejou, segurando o rosto do filho com muita força. – O que você pensa da vida, hein?
Danny não respondeu à pergunta do pai. Ele sabia que ele não queria uma resposta, só queria alguém em quem pudesse descontar toda a sua raiva.
— Eu acho que você sabe muito bem que isso vai manchar o nome da nossa família! – Apertou mais forte o rosto do rapaz. – Você não tem nem onde cair morto e quer ter filho? Quem vai te sustentar? Ou melhor, quem vai sustentar essa criança?
Os olhos do rapaz brilharam de raiva enquanto ele afastava a mão do pai do seu rosto.
— Mais do que as suas amantes mancharam? Não foram as drogas que fizeram isso? – Retrucou com os dentes cerrados. – Mas pelo menos eu sou homem o bastante para assumir o meu próprio filho, e você? Tem quantos espalhados por aí?
A mão do seu pai estava indo de encontro ao seu rosto como resposta, quando Daxton a segurou, saindo em defesa do irmão.
— Chega, pai. – Soltou a mão dele, dando um longo suspiro. – Só resta aceitar, não adianta nada bater nele.
Naquela noite, ele acabou se trancando no quarto com a barriga ainda vazia, estava com raiva demais para continuar olhando na cara do pai. A matriarca até tentou acalmar as coisas entre eles, mas não teve jeito.
— Cuzão. – Retirou um dos cigarros da sua gaveta de cuecas e acendeu. – Até parece que ele é perfeito...
Abriu a janela do quarto, indo para fora, adorava observar as estrelas quando estava com raiva. Não demorou muito para ouvir batidas na porta, devia ser Daxton. Ele sempre vinha conversar com o irmão quando as coisas esquentavam.
— Eu posso entrar?
O outro colocou um sorrisinho no rosto.
— Você sabe muito bem que pode, irmão.
O rangido da porta se abrindo foi reconfortante, ele amava conversar com o irmão.
— Se a mamãe te pegar com isso... vai te fazer engolir o cigarro com carteira e tudo.
Os irmãos riram. Danny colocou a cabeça para dentro, convidando o outro para se juntar a ele no telhado.
— Mas é só você não contar.
Daxton passou os dedos nos lábios como se estivesse fechando um zíper.
— A minha boca é um túmulo.
Eles riram enquanto se abrigavam no telhado. O céu estava mais bonito do que nunca naquela noite, um lindo lembrete de que nem tudo era tão ruim.
— É bom mesmo... – Danny tragou o cigarro, fazendo uma pausa dramática. – Ou eu estaria morto.
Ele não estava preparado para o que aconteceu em seguida, e eu acho que ninguém nesse mundo estaria.
— Como eu? – Aquela sua risada esganiçada causou arrepios no outro, mas quando ele virou o rosto para olhá-lo, foi pior ainda. – Como eu? – O seu rosto estava completamente coberto por queimaduras, e algumas partes estavam derretidas como cera. O susto foi tão grande, que o rapaz ficou mudo, aquela era uma visão que com toda a certeza demoraria a sair da sua mente. – Me diz por que você mata tudo o que você ama? Por que temos que pagar pelos seus pecados? Por quê? Por quê?
Ele tapou os ouvidos e fechou os olhos, tentando ignorar o que estava acontecendo. Ao abrir os olhos novamente, percebeu que se encontrava deitado na sua cama, coberto de suor e quase sem fôlego. A sua visão estava meio embaçada, então ele começou a tatear a cabeceira da cama até encontrar os seus óculos. A surpresa seguinte foi ainda maior do que a primeira, e em questão de segundos ele se deparou com um incêndio ao seu redor. Agora tudo estava começando a fazer sentido, aquilo era um sonho... ou melhor, um pesadelo. Os fantasmas do passado estavam o punindo pelos seus pecados.
O incêndio acabou levando a sua família e a sua casa, tudo o que restou foi o primeiro andar e os móveis que lá estavam... mais nada. Os meses seguintes foram de puro arrependimento e dor, mas não havia mais nada que pudesse ser feito. A única coisa que o consolava era saber que em alguns meses teria uma nova família.
A parte mais difícil foi pedir a mão de Lindsay em casamento para o pai dela, mas ele sabia que aquilo era o certo. Ele nem se importou com a ameaça feita pelo pai da moça, estava muito feliz com a promessa de formar uma família nova ao lado da futura esposa e da futura filha. O nascimento da menina encheu a sua vida de luz, e por isso foi assim que ele a apelidou.
Fim do pesadelo
Enquanto ele enfrentava os fantasmas do seu passado, parecia que Stella finalmente havia feito as pazes com os seus. A vida da mulher estava novamente repleta de felicidade, como se ela estivesse vivendo no mundo dos seus mais lindos sonhos. Ela e o marido estavam esperando por aquele momento desde o dia em que Lily nasceu. A ansiedade para ver a filha dando os seus primeiros passos era enorme. O pai tinha uma câmera nas mãos, queria registrar cada segundo daquele momento único na vida da sua filhinha. Os dois se ajoelharam no carpete da sala e começaram a chamar o bebê, encorajando-a a se levantar.
Lily não estava entendendo nada, mas ria muito ao ver a animação no rosto dos pais. A menina demorou para ficar de pé, mas acabou conseguindo se levantar sozinha, cambaleando um pouco, mas parecia estar determinada a agradar os pais.
— Vem, querida. – Stella colocou um enorme sorriso no rosto e chamou a filha com as mãos.
— Vamos, meu amor. – Will também colocou um sorriso no rosto. – Você consegue.
— Papa. – A menina deu um gritinho, sorrindo para ele. – Mama. – Usou o dedinho para apontar para ela.
O sorriso da mulher se abriu ainda mais, aquela era a sua palavra favorita no mundo.
— É isso mesmo, meu bebê. Vem, vem. – Stella se animou, chamando a filha com as duas mãos. – Vem até a mamãe. Você consegue.
A criança deu um passinho para frente, depois outro e outro. E em questão de segundos, ela estava caminhando na direção deles com um enorme sorriso no rosto. Foi recebida com uma enxurrada de beijos e abraços. Stella a pegou no colo e se virou para o marido, dizendo para a câmera o dia e a hora em que a sua menina deu os seus primeiros passos.
Os dois estavam tão envolvidos naquele momento, que demorou um pouco para que ele percebesse que o seu celular estava tocando. Então colocou a câmera em cima da mesinha de centro, deu um beijinho na testa da filha e atendeu o celular.
— Taylor.
A voz do outro lado da linha fez o seu coração errar as batidas.
— Eu queria muito saber porque metade do seu esquadrão está no hospital. – Mark parecia mesmo estar bravo. – E onde o Danny está enfiado?
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