Stella

48 Areia movediça


Notas iniciais
Bom dia!! O bom filho a casa torna... eu sei que passei quase três meses sem dar um sinal de vida, mas ainda estou com um tremendo bloqueio criativo... OBS: Ainda estou revisando os capítulos! Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

O horror estava estampado no rosto da mulher enquanto todos a encaravam com expressões que estavam muito além do choque. Aquele sentimento era sufocante, como se alguém tivesse roubado todo o oxigênio dos seus pulmões, ou como se estivesse imersa em areia movediça, mesmo que parasse de lutar, ainda não conseguia encontrar uma saída. Michelle achava que nada no mundo poderia ser pior do que ter o seu maior segredo revelado para todo o estado, mas vendo os olhos molhados da filha mais velha, sentiu o seu coração se partindo completamente.

— Eu disse que isso aqui tudo era só parte do plano de vingança de uma mulher que foi largada. – Hubbard continuava chamando toda a atenção da mídia enquanto mãe e filha se encaravam em um silêncio torturante para ambas. – Eu acho que todo mundo aqui sabe o inferno que é uma mulher desprezada. – Olhou direto para ela, que continuava olhando para a filha, vendo os olhos dela ficando cada vez mais molhados à medida que entendia que não era de fato filha do homem a quem chamava de pai. – A senhorita O’Rourke está me perseguindo e tentando me incriminar por assassinato por puro ego.

— Então está querendo dizer que foi o senhor quem colocou um ponto final nesse caso?

— É claro. – Um sorriso triunfantemente maldoso apareceu no seu rosto quando ele olhou para a sua oponente. – Mas acho que acabei me precipitando...

A jornalista também virou para ela, dando-lhe um direito de resposta.

— E a senhorita? – O microfone foi praticamente empurrado contra o seu rosto. – Então não quer mesmo dizer nada? O prefeito está mesmo falando a verdade? A senhorita dormiu com ele só para tentar conseguir um cargo melhor?

Michelle simplesmente umedeceu os lábios, afastou o microfone do rosto e olhou para a filha, que no momento estava maternalmente aninhada no colo de Stella, que a abraçava como se abraçasse a própria filha.

— Eu disse que sem comentários. – Engoliu em seco, sentindo a saliva apresentar uma certa dificuldade para passar por sua garganta. – Mas terei todo o prazer em responder qualquer pergunta que esteja ligada ao caso Hannah Knox.

Stella olhou para o marido como se realmente estivesse pedindo socorro, ele não demorou muito para entender o recado e também começar a fazer a sua parte.

— Eu acho que é melhor irmos lá fora um pouco, querida. – O homem ainda esfregava as costas da moça com muita delicadeza quando ela virou a cabeça para olhar para ele. – Eu acho que não é muito bom para você ficar aqui vendo isso.

Maeve saiu do abraço, secou os olhos com as costas das mãos e olhou bem para ele.

— E o que exatamente isso quer dizer?

— O meu marido só está tentando dizer que será muito mais fácil para a sua mãe lidar com isso se a filha dela não estiver aqui assistindo. – Stella explicou, erguendo o queixo dela com as pontas dos dedos. – Eu também sou mãe, entende?

— Mas eu tenho que ouvir... – Negou com a cabeça. – Eu quero conseguir defender ela quando os outros começarem a falar sobre isso.

— Eu sei, meu bem... – A mulher segurou as duas mãos dela, apertando-as com carinho. – Mas você não acha que também precisará de um pouco de espaço para lidar com tudo isso?

Ela olhou rapidamente para a mãe e assentiu.

— Eu acho que sim...

— Então tá bom. – O marido acariciou as suas costas uma última vez. – Então vamos, eu espero junto com você no estacionamento.

A moça sentiu uma certa dificuldade para desgrudar os olhos da mãe enquanto a detetive a abraçava pelos ombros e a conduzia para fora do escritório.

— Eu acho que todo mundo sabe exatamente o que está acontecendo aqui. – Michelle parecia estar muito mais confiante enquanto a multidão de jornalista empurrava os microfones no seu rosto. – Estou pensando no melhor para esse caso, e é exatamente por isso que me recuso a falar sobre isso...

— Entendo. – Um jornalista abriu um sorriso para ela, voltando a colocar o microfone na sua direção. – Mas a senhorita não acha que seria melhor renunciar ao cargo?

Maeve permanecia desolada enquanto a outra mulher passava a mão nas suas costas numa tentativa falha de amenizar toda aquela dor que ela estava sentindo. As lágrimas continuavam escorrendo por todo o seu rosto.

— Eu não acredito que aquele cretino disse que era amante da minha mãe e ela simplesmente ficou calada.

— Eu sei que não é isso que você quer ouvir agora... – Umedeceu os lábios, aproveitando para se aproximar um pouco mais dela. – Mas quando a política e a mídia se esbarram é melhor manter a boca fechada.

A moça fechou os olhos, dando um longo suspiro e virou para ela.

— Mas isso não está fazendo o menor sentido... – Apertou os lábios, levando a mão à testa. – Nada nesse mundo faria a minha mãe ficar parada ouvindo todos aqueles absurdos... ela faria de tudo para provar que isso é mentira, você sabe muito bem como ela é.

Stella riu, isso era verdade.

— É... – Ergueu o queixo dela com o indicador. – Mas eu também sei que ela é uma mulher muito inteligente. A sua mãe não é do tipo de mulher que deixa as emoções tomarem conta dela. E eu também não sei muita coisa sobre mim... se isso serve como consolo...

— É mesmo?

— É... – Abaixou a cabeça, aquele assunto ainda era muito doloroso para ela. – Eu nunca conheci a minha mãe e nem o meu pai... e o meu nome não é esse... esse é o nome da minha mãe. Eu nunca soube o meu verdadeiro nome... e acho que nunca saberei. Mas agora eu tenho um marido que me ama, tenho amigos que me amam e uma filhinha linda que é tudo para mim, então o meu passado não significa mais nada para mim... e também não deveria significar para você. O seu pai te ama muito, ele te deu o nome dele mesmo sabendo que você não era o sangue dele, é isso que importa, não?

— E quem é que garante que ele sabe mesmo? Eu só queria que a minha mãe não tivesse mentido...

— Há muito tempo eu aprendi que não podemos acreditar em tudo que sai da boca de um político. – Abriu um sorriso sereno. – Então eu quero que mantenha a cabeça erguida e que confie na sua mãe, tá?

Maeve assentiu, virando a cabeça para olhar para o táxi que havia acabado de chegar.

— Eu acho que esse é o meu táxi. – Sorriu. – Muito obrigada pelo conselho, tchau.

— Tchau.

No escritório, a mãe dela também estava tentando encontrar uma forma de contornar aquela situação em que o prefeito havia a metido. O nó em sua garganta aumentava a cada palavra que saía da sua boca, mas ela precisava encarar aquilo com muita coragem.

— O caso será devidamente acompanhado por outra arquivista e eu não terei mais nenhuma ligação com ele. – Os outros continuavam registrando e prestando atenção em tudo. – Essa será a única renúncia que farei... e isso é tudo.

O prefeito umedeceu os lábios, arqueando a sobrancelha.

— Eu tenho mais uma coisa para dizer.

— Eu tenho certeza que tem.

— Estou muito chocado com esses ataques e acusações feitas à minha pessoa. – Olhou para ela. – Eu sou inocente, e espero sinceramente receber um pedido de desculpas quando eu for inocentado.

— O show acabou, é hora de todo mundo voltar para casa. – Mark disse para os jornalistas, que foram conduzidos para a saída por um policial. – E o senhor está preso.

Michelle olhou para ele uma última vez e foi ao encontro de Will.

— Onde está a Maeve?

— A minha mulher a levou para pegar um táxi.

— Muito obrigada. – Murmurou, passando as mãos no rosto. – Isso é ótimo. Agora a minha filha me odeia, e eu acho que acabei de cometer suicídio profissional.

— O relatório da necropsia dela é muito claro. – Olhou na direção do prefeito. – A morte da Hannah não foi um acidente, foi um assassinato e todas as pistas apontam para o prefeito.

O clima no escritório ainda estava pesado quando a mulher voltou do estacionamento.

— Essa acusação é muito injusta e você sabe disso. – AJ murmurou no ouvido de Mark enquanto um policial o segurava pelo braço esquerdo. – Eu não matei a Hannah... e posso até ser exonerado por causa dessa prisão, mas eu prometo que farei de tudo para que você fique desempregado pelo resto da sua vida.

— A sua mulher pagou a sua fiança. – Mark respondeu secamente enquanto terminava de organizar alguns papéis. – O seu advogado está te esperando na sala de interrogatório, e eu vou organizar a papelada para te liberar. – Saiu.

Michelle e AJ ficaram se encarando, até que o policial o puxou pelo braço e os dois seguiram rumo a sala de interrogatório. A arquivista respirou fundo e tomou o caminho oposto, indo direto até os amigos.

— Eu quero que me digam tudo o que sabem sobre isso.

— O meu marido e eu chegamos a duas conclusões. – Stella olhou direto nos olhos dele, que abriu um sorriso carinhoso para ela. – A primeira é que tudo pode mesmo ter acontecido exatamente como o prefeito disse, e a segunda é que achamos que ele ainda está escondendo alguma coisa.

— Então vocês também acham que o Hubbard está mesmo escondendo alguma coisa?

— Isso é unanimidade, não é?

O homem assentiu.

— É o que parecia... para mim, para a Stella e para a Olívia.

Michelle assentiu, olhando para o chão.

— Então eu suponho que... estão se perguntando se o que o prefeito disse é mesmo verdade...

— Michelle... – Stella tentou encontrar as palavras certas enquanto olhava freneticamente do marido para ela. – Isso não é da...

— Eu nunca fui amante dele... – Sacudiu a cabeça para arrumar os fios que caíam sobre os seus olhos. – Foi uma noite... e foi na mesma noite em que encontrei o meu primeiro marido transando com a minha irmã, então foi... uma coisa muito estúpida...

Will colocou a mão no ombro dela, abrindo um sorriso compreensivo.

— Essas coisas acontecem...

— Eu realmente espero que a minha filha também pense assim...

Maeve achava que a mãe havia traído a sua confiança e não estava nem um pouco disposta a enxergar as coisas com outros olhos. Ela deixou um longo suspiro escapar quando olhou para a foto de família que ficava na mesinha ao lado do sofá, então a pegou e a deitou com o vidro virado para baixo.

— O meu dia hoje foi muito corrido, eu achei que nunca fosse sair de lá... – Axton entrou pela porta da frente tirando um celular do bolso e se sentando no outro sofá.

— Eu acho que todo mundo aqui teve um dia corrido. – Arrumou o cabelo. – Mas o que te deixou tão chateado?

— Nada. – Olhou para ela com um sorriso orgulhoso. – Eu comprei um carro novo.

— Que ótimo. – Apertou os lábios. – E o que está comemorando?

— Eu acho que é o fato de ter conseguido sobreviver ao ano passado. – Sorriu. – É sério mesmo... eu achei que não conseguiria...

Ela ofereceu a tigela de doces que estava em cima da mesinha para ele.

— Eu fico muito feliz por você.

Ele pegou alguns doces e comeu.

— Mas ainda bem que você me ligou, eu fico muito feliz em falar com alguém que não tem nada a ver com aquele laboratório.

— É... mas pelo menos você não descobriu que a sua vida inteira é uma grande mentira.

— Opa! – Exclamou, comendo mais um pouco. – Eu acho que alguém aqui está com um problemão.

— Eu simplesmente acabei de descobrir que a minha mãe não é tão santinha assim. – Arrumou a postura no sofá, colocando uma almofada em cima das pernas. – Ela simplesmente teve um caso com aquele nojento do prefeito, eu provavelmente sou o fruto disso e o maldito está espalhando essa historinha para o mundo inteiro.

— Eu não acredito. – Passou as mãos no rosto. – Mas o que exatamente ele está falando?

— Ele disse que a minha mãe o acusou por assassinato porque ele a largou. O mundo inteiro está descobrindo que a minha mãe é uma vagabunda. Olha... sendo muito sincera... – Levantou, indo até o outro lado da sala. – A minha mãe tem duas filhas de dois homens diferentes, e eu não sabia quem era o meu verdadeiro pai até agora... então acho que essa é uma grande prova de que ela dorme com qualquer um que tenha um pênis no meio das pernas. – O ressentimento estava impresso em cada palavra. – Então por que tanta surpresa em descobrir que ela também foi amante do prefeito?

O rapaz deu de ombros.

— Eu acho que é porque ele é um idiota. – Abriu um sorriso constrangido enquanto ela colocava o porta-retrato na posição original. – É muita informação...

— É mesmo. – Um sorriso desgostoso apareceu no seu rosto. – Eu sinto muito por ter vomitado tudo isso em cima de você. – Voltou para o sofá. – Outra coisa que eu acho muito engraçada é o fato dela ter passado a vida inteira me dizendo que temos que ser decentes, e agora a vida sexual dela é o assunto do momento. – Encolheu os ombros, respirando fundo. – Os meus amigos devem estar sabendo...

— É... – Murmurou. – Isso é uma merda. Eu sinto muito...

— Será que você pode me dar um tiro agora? – A pergunta foi tão impulsiva, que ela só percebeu o que tinha dito quando ele olhou para a arma na sua cintura. – Me desculpa... – Os dois riram. – Eu acho que perguntei para a pessoa errada.

Eles ainda estavam rindo, quando ouviram o barulho da porta se abrindo e olharam para Michelle, que engoliu em seco e entrou na casa em completo silêncio.

— Eu não estava esperando encontrar ele aqui.

— É melhor nem começar, mãe. – A moça fechou a cara. – No momento você é a última pessoa do mundo que pode me dizer com quem eu posso ou não sair. O mundo inteiro sabe que você não é uma santa.

O escritório estava muito mais calmo e vazio quando o homem chegou entregando o testemunho para que eles assinassem.

— Eu acho que isso é tudo. – Mark explicou enquanto eles assinavam. – Eu ainda vou precisar que vocês testemunhem.

— Sem problemas. – Will entregou o papel para ele.

— Eu estou muito orgulhoso. – Esperou a mulher terminar de assinar e também pegou os papéis das suas mãos. – Vocês fizeram um excelente trabalho. – Saiu.

— É isso mesmo que eu ouvi? Ele acabou de elogiar o nosso trabalho? – O homem virou para conseguir olhar melhor para o rosto da mulher, mas ela estava tão pensativa que nem ouviu nada. – Você ainda está aqui comigo?

— O quê? – Balançou a cabeça. – É claro...

— O que foi?

— Eu não sei... – Colocou as mãos na cintura, abrindo um sorriso confuso. – Eu achei... achei que me sentiria muito melhor quando finalmente conseguisse colocar um ponto final nessa história toda... mas...

— É... eu sei...

— O prefeito não é exatamente um exemplo de ser humano, mas será que ele é mesmo um assassino?

— Eu acho que tudo é muito único nesse caso...

— Eu acho que outra pessoa pode ter matado a Hannah...

Notas finais
Eita... será? Até o próximo!