18 de Julho de 1890. Lyon, França.

Um arrepio estranho percorreu toda a extensão de sua espinha quando, por fim, conseguiu abrir os olhos. Notou a algum tempo que não estava sozinha, mesmo em meio ao inconsciente estado de sono que se encontrava instante atrás. Sentiu um perfume familiar quando respirou com mais intensidade (incenso de flor de lótus, aquele que sua mãe sempre queimava e depositava com cuidado ao lado de sua cama todas as noites), ao mesmo tempo em que movimentava os dedos dos pés e percebia um gosto amargo na boca. Piscou algumas vezes enquanto sua vista se habituava à claridade daquela manhã que adentrava pela janela, como uma tempestade de tons verdes luminosos.


Depois de um tempo, reconheceu o interior do esconderijo que costumavam usar. A parede branca e úmida manchada por um mofo escuro, a organização da mobília simples contrastando com a bagunça de seus pertences espalhados por todo o lugar. O ruído que a janela ao seu lado fazia quando era tocada pelo vento, junto de uma cortina suja e esvoaçante que nunca cessava o movimento.


Justine, a garota que despertava, também reconheceu quem estava ao seu lado. Era ele, um tanto longe de seu campo visual, mas perto o suficiente para sentir seu aroma de lótus e folhas secas. Justine chamou sua atenção, o chamou pelo seu nome, chamou Ernest, e não pode deixar de estranhar por um momento o tom rouco e fraco que escapara de sua garganta, mas não esperou muito até que aquele rosto pálido, emoldurado em preocupação e olheiras acentuadas se encontrasse com o seu próprio.


— Você dormiu por dois dias inteiros. – o rapaz estrangeiro de grandes olhos esverdeados constatou aflito. – Quarenta e oito horas inteiras sem ouvir você reclamar do meu cabelo.


A garota riu e sentiu seu corpo pesado enquanto buscava finalmente se esticar. Era como se tivesse apagado por semanas.


— Aposto que sentiu falta disso. – Justine provocou ainda sorrindo. Ela adorava aquele cabelo; ele era volumoso e de um dourado queimado pelo sol, completamente o oposto dos seus, castanhos e ralos, que ultrapassavam o comprimento da cintura quando soltos.


— Nem um pouco. – o rapaz brincou e beijou seu rosto com carinho. – Senti mais falta de você zombando o meu sotaque.


“O seu sotaque é incrível”, Justine quis dizer, mas mordeu a língua antes de deixar aquilo sair. O mais provável é que um comentário daquela espécie o deixaria cheio de si pelo resto da vida.


Mas às vezes a garota achava que se não houvesse sotaque, tudo poderia ser diferente e mais simples. Se Ernest tivesse nascido em seu país, eles não precisariam esconder o que sentiam um pelo outro. Não precisariam ter fugido para a capital e muito menos precisariam ganhar a vida roubando coisas.


— Como está o seu ombro? – a garota lembrou-se de perguntar. Da última vez que se lembrava, este estava coberto por uma camada fina de sangue escarlate que a deixara assustada, no momento antes de apagar por completa.


— Melhorando. Pelo visto a bala não se alojou em lugar algum. – Justine não se viu por satisfeita e foi logo se certificar. Examinou a atadura delicadamente, mas mesmo assim Ernest não reagiu bem ao seu toque. O loiro fez uma careta de reprovação e Justine se preocupou.


— Precisa de um doutor, Ernest.


Depois de um riso baixo, o rapaz simplesmente ignorou o seu alerta e foi buscar algo do outro lado do modesto quarto. — E você precisa ver como ele é incrível.


Justine quase havia esquecido o motivo que a levara dormir dois dias à exaustão. Esquecera por um momento de que não pregara os olhos por praticamente uma semana inteira para simplesmente ter todo aquele plano sob seu controle e se certificar de que nada daria errado.


E não dera.


Ernest retirou com cuidado de uma pequena sacola e manchada de vinho um relógio de bolso de borda dourada. Na sua abertura, havia a figura de um dragão de asas suntuosas e fogo brasoando de sua boca dentada, talhado em bronze. Por dentro os delicados ponteiros e números possuíam um brilho incomum, como se tivesse sido polido por detrás do fino vidro todos os dias incansavelmente. Estava frio quando tocou nas mãos de Justine, mas segundos depois parecia quente como brasa.


— Vê a forma curiosa com que os três ponteiros se movem? Não é um relógio comum. – o inglês explicava. – Ele não marca as horas, ele as avalia, as calcula.


Justine o observou melhor. O relógio não possuía doze números marcando as horas, como se era o esperado dos relógios regulares, mas sim treze. O ponteiro grande nunca completava uma volta completa. Antes disso ele começava a se mover no sentido anti-horário, em uma velocidade inconstante. Ora lento, ora veloz demais para seus olhos acompanharem. O ponteiro pequeno pareceu não sair do lugar durante todo o tempo que Justine o observava, mas em um piscar de olhos ele havia mudado estranhamente do número um para o oito. Já o ponteiro médio era o menos estranho, parecia se mover seguindo os segundos normais, mas Justine não tinha certeza. Definitivamente, aquele não era um relógio normal.


— Eu não o compreendo.


— E eu muito menos. – Ernest fez uma careta. – No entanto meu amor, o mais importante é deveras simples. Toda vez que os três ponteiros se encontram, Zai Long lhe concede um desejo. Esse é o seu cálculo, Justine. É para isso que ele serve. Estrita e unicamente para isso. – o rapaz sorria encantado enquanto contava, e ela não conseguia tirar os olhos do pequeno e valioso objeto.


— Aquele homem é um gênio. – Justine disse depois de muito tempo. — E isso deve valer uma fortuna.


— Valerá ainda mais quando também tivermos Zai Long.


— Se estivermos no rastro certo, será apenas uma questão de tempo. – Justine disse enquanto abraçava o rapaz inglês, tomando o máximo de cuidado com o ombro ferido, mas confortável o suficiente para se sentir aliviada e esperançosa. Tudo ficaria bem.


— Você não crê, não é? – Ernest a questionou, enquanto acariciava suas costas, desenhando pequenos círculos com a ponta dos dedos.


Justine arqueou uma sobrancelha.


— Nessa coisa de desejos. – ele tornou a explicar. – Não acredita.


— Eu acredito que conseguiremos vender essas peças por dinheiro o suficiente para sumirmos e sermos felizes pelo resto de nossas vidas.


— Mas e se for verdade? – Ernest insistiu. – Se tivesse direito a um desejo ao Dragão, o que você pediria?


A garota olhou o seu grande amor nos olhos e os observou com admiração. Ernest tinha os olhos mais lindos que Justine já vira em toda sua vida. Fora assim desde o começo. Apaixonara-se por aqueles olhos que deveria ignorar. Encantara-se por aquela pessoa com quem nunca deveria ter cruzado. Entretanto Justine nunca fora alguém de acordo com os rumos que seu destino traçava. Ela sempre dava um jeito de percorrer o caminho que lhe parecesse o mais correto a seguir. E ela sabia que agora estava no caminho certo, tinha toda a certeza que precisava para continuar a segui-lo.


— Eu pediria a ele para você nunca me deixasse. – confessou finalmente, fitando Ernest diretamente nos olhos.


E então no exato instante, com um abrupto estrondo a porta do pequeno esconderijo fora violentamente derrubada por uma silhueta magra que emanava terror.


Notas finais
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