Steal Your Heart AU
32 Delta
Notas iniciais
Marinette
— E aí a gente se beijou. – Kattie revela, corando e ficando toda envergonhada como só ela conseguia. Nós três nos entreolhamos e gritamos juntas que nem três malucas que nós realmente éramos.
Logo pela manhã quando eu acordei no quarto do Adrien eu decidi que era melhor fazer alguma coisa para esclarecer minhas ideias. Nós ficamos encarando as estrelas um bom tempo depois que ele me contara sua história do passado e em algum momento eu acabei pegando no sono. Quando acordei hoje de manhã eu estava deitada em sua cama aconchegante enquanto o loiro estava deitado alguns metros de distância num sofá que não parecia muito confortável aos meus olhos. Ele tinha me respeitado apesar de toda sua cafajestice. Fui até ele e me ajoelhei para ficar na altura de seu rosto. O quarto estava começando a ficar claro com o dia que começava a raiar lá fora, era quase impossível continuar dormindo com tanta luz no rosto. Toco seu rosto torcendo para que ele não estivesse despertando. Como uma pessoa podia ser tão bonita até enquanto dorme? Será que era tipo uma consequência de ser modelo? Ser lindo o tempo todo? O escuto resmungar alguma coisa e franzo a testa, tentando compreendê-lo. Ele resmunga mais uma vez e chego mais perto para ouvir, mas mesmo assim não consigo entender.
— Buu! – ele diz se levantando de supetão e me fazendo dar um grito assustado. Ele começa a dar risada da minha cara e eu jogo um travesseiro na sua cara. – Ei, assim você acorda a cabana toda garota.
— Seu idiota! – exclamo o mais baixo que consigo, irritada com ele. Me levanto e me afasto na direção de sua cama, para arrumar a bagunça que tinha feito. – Você me assustou Adrien. – reclamo, estendendo a coberta sobre sua cama enorme de casal.
De repente sinto suas mãos segurando meus ombros e lhes apertando levemente. Suspiro, ainda irritada. Como que ainda não satisfeito o loiro tira o cabelo que cobria minha nuca com um pequeno gesto e dá um beijinho no meu pescoço, me fazendo estremecer. Cruzo os braços e me viro para encará-lo nos olhos repetindo um discurso nada agradável na minha cabeça. Antes que pudesse dizer alguma coisa ele, no entanto, o mesmo segura meu rosto com suas mãos e me dá um pequeno beijo. Fico encarando sua íris verde-clara, me esquecendo completamente o que estava fazendo antes.
— Desculpe, não foi minha intenção. – ele diz, parecendo arrependido e divertido com tal fato. – Vamos começar de novo, sim? – acrescenta, voltando a tocar meus lábios nos seus com aquele sorriso torto que me fazia sorrir também. – Bom dia Cheng. Dormiu bem sem mim?
— Há-há, muito bem, por sinal Agreste. – respondo, deixando o mesmo me abraçar enquanto apoiava minhas mãos sobre o seu peito. – Falando nisso, onde você achou uma cama dessas hein? Me senti nas nuvens essa noite.
— Ué, sonhou comigo então. – Adrien brinca, me fazendo dar uma gargalhada. – Não sabia? Eu sou metade anjo também.
— Hum, mais uma das suas infindáveis qualidades não? – retruco, arqueando uma sobrancelha, entrando na sua brincadeira. Nossas risadas baixas ecoam pelo quarto e por um instante eu me encolho. – Não acha que eu devia sair daqui antes que os outros acordem, pra não passar a impressão de que dormimos juntos?
— E não foi isso que aconteceu? – pergunta, e dou tapa em seu peito. – Tecnicamente você dormiu no meu quarto.
— Você me entendeu garoto. – retruco, me afastando do mesmo e prendendo meu cabelo em um coque improvisado. O encaro com um sorriso enquanto termino de arrumar sua cama. – Veja pelo lado bom, pelo menos você vai aprender a como ser um homem funcional hoje. Vou te ensinar como fazer cookies de chocolate na cozinha lá embaixo.
— Uau, estou louco para aprender. – o escuto dizer com um tom malicioso e reviro os olhos, sem conseguir apagar aquele sorriso insistente. – Certo, vamos fazer o seguinte. Eu vejo o movimento no corredor enquanto você vai na frente, descendo as escadas e a gente se encontra na cozinha. Entendeu o plano?
Balanço a cabeça e o sigo para o corredor. Observo Adrien fechar a porta com o mínimo de barulho possível e fazer um sinal para eu ir andando. Dou passos silenciosos até a escada e juntos passamos pelo segundo andar, rumo ao corredor onde nossos amigos estavam hospedados na cabana. Estava quase chegando na outra escada que dava para a sala de estar lá embaixo quando escuto vozes saindo do quarto mais próximo. Sinto meu sangue gelar. Era a Alya. Olho assustada para o Agreste e ele faz um sinal para me apressar, com a mesma expressão no rosto. Corro a passos longos, porém assim que chego na metade das escadas paro ao ver a cena lá embaixo: Kattie e Louis dormindo abraçados no sofá de frente a televisão repetindo insistentemente a intro do filme “Os Incríveis”. Gente eles estavam tão fofinhos! Eu estava quase conseguindo focar a lente da câmera do meu celular quando DO NADA, um Adrien correndo tromba comigo e nós dois descemos as escadas rolando enrolados em nossos braços e pernas.
— Ai. – murmuro, quando aterrissamos no chão de madeira do térreo.
— Desculpa. – o loiro murmura de volta, se apoiando nos cotovelos e dando um risada da posição em que estamos. Reviro os olhos, sentindo meu rosto esquentar com aquela proximidade toda. – Que ideia foi essa de parar no meio da escada?
— Que ideia foi essa de você brotar correndo do nada na minha direção. – rebato, também dando risada. Minhas costas doíam, mas foi até que engraçado mesmo. Tanto esforço para nada. – Acho que nosso plano não deu muito certo no fim.
— É – Adrien devolve, me encarando. — acho que não.
— Ora, ora. – escuto a voz da Cesáire do que parecia estar do alto da escada e rapidamente empurro o Agreste de cima de mim para o lado. Assisto a morena ajeitar seus óculos com um sorrisinho enquanto intercalava seu olhar entre mim e a O’Green ainda se ajeitando no sofá, nós duas vermelhas que nem dois tomates. – Depois sou eu que apresso as coisas, né, suas safadas?
Algumas horas atrás nós três fomos convidadas para dar uma volta em um dos barcos dos Agreste no porto ali alguns metros de distância da cabana. Neste exato momento estamos quase chegando numa ilha perto da costa de Calanque— que por incrível que pareça, também era da família do Adrien. Os meninos pareciam bem entretidos, talvez até mais animados que nós, tirando apenas a presença da “Rainha da Escola” no meio deles. Chloé estava sozinha dessa vez, porque até onde eu havia entendido Alex não acordara nem um pouco bem naquela manhã. Vai ver o veneno daquela cobra loira artificial finalmente deu indícios no sangue do garoto. Sinceramente? Não sei como é que ele consegue ficar perto daquela filhinha de papai como a Bourgeios. Ela não parece do tipo que fica perto de todo mundo por vontade própria.
— Isso quer dizer que vocês estão namorando então? – pergunto para a ruiva e a observo enrolar uma mecha de seu cabelo em um dos dedos, parecendo pensativa.
— Eu não sei. – Kattie responde e posso enxergar que está tão perdida quanto eu. Como se lesse meus pensamentos a mesma me encara com uma sobrancelha arqueada. – Você e o Adrien estão juntos?
— Er... Eu... – balbucio, dando uma risada nervosa. Mexo nos óculos de sol no meu rosto e olho para a imensidão azul nos rodeando. – Eu também não faço ideia. Quer dizer, nós concordamos pela primeira vez em algo... Vamos ver se funciona antes de cantarmos vitória.
— Hum, e no que exatamente vocês dois concordaram? – Ay me indaga e eu balanço a cabeça. Tento ignorar a vergonha que a mesma nos fizera passar logo cedo.
— Em dar uma chance para nós. – respondo, voltando a olhar para minhas irmãs. – Digamos que eu cansei de esconder o que sinto por ele. É ódio? Sim, em grande parte é, mas... Sei lá, tem alguma coisa que me incomoda quando estou perto dele, algo bom. – confesso, estralando meus dedos. – Isso me assusta tanto quanto me impressiona.
— Você diz se apaixonar? – a ruiva me indaga, incerta.
Abro minha boca para dizer alguma coisa, mas me interrompo rapidamente. Aquela sensação estranha mais uma vez. Sinto um frio na barriga que arrepia todos os pelos do meu corpo furiosamente. Desvio o olhar de minhas melhores amigas por um momento e olho ao redor, procurando por alguma coisa fora do comum. Tudo parecia calmo, porém meus instintos nunca me enganariam. Subitamente enxergo algo no horizonte que faz meu coração acelerar. Era um outro barco, há quilômetros de distância de onde estávamos, mas que foi suficiente para confirmar minhas suspeitas. Me levanto rapidamente correndo meus olhos até encontrar o irmão mais velho de Adrien, no convés, com uma camisa regata e lendo um livro com óculos escuros no rosto.
— Félix? – chamo, um pouco sem graça. – Tem um minuto?
O loiro me encara brevemente e volta a ler o livro em suas mãos. Respiro fundo e me aproximo de onde o mesmo estava, sem tirar os olhos do horizonte. Ele suspira, fechando o livro por um instante breve.
— Se o que você tem a me dizer é sobre a sua irmã saiba que não quero falar sobre isso. – ele avisa, parecendo um pouco impaciente. Bem, não tem como negar que é irmão mais velho de Adrien.
— Não, não tem nada a ver com Bridgette. – asseguro, respirando fundo para não parecer nenhuma maluca paranóica. – Eu só... Queria fazer uma pergunta.
— Sim, o idiota do Adrien tá realmente afim de você. – o mesmo responde, abrindo seu livro novamente e me fazendo revirar os olhos.
— Não é nada disso. – rebato, arrancando o livro de suas mãos, irritada. Aponto o barco á distância que agora começava a ficar relativamente perto das proximidades de onde estávamos. – Por acaso vocês compartilham a praia de vocês com mais alguns ricos de Paris?
Do mesmo jeito que Félix acabara de abrir a boca para lançar um comentário sarcástico ele a fechou. O observo se colocar de pé rapidamente e tirar os óculos escuros num movimento que não consegui acompanhar. De repente o loiro parecia mais pálido, perdendo totalmente o tom bronzeado que conquistara no período pequeno de sol que se expora. Eu já conseguia ouvir o barulho dos motores se aproximando enquanto todo meu corpo parecia apitar com um perigo possível. Um palavriado vindo do Agreste mais velho fora o suficiente para me fazer ter certeza que não tínhamos mais convidados.
— Temos que voltar. – ele solta, começando a correr para a proa do barco comigo em seus calcanhares. – Avise os outros que houve uma mudança de planos e chame Bridgette aqui agora.
— Bridg? – repito, confusa. — Acabou de dizer que não queria saber mais nada da minha irmã. – lhe acuso, fazendo uma careta questionadora.
— Marinette, todos vocês estão sobre minha resposabilidade e da sua irmã. Fui eu que consegui despistar o Gorila para que vinhéssemos até aqui, portanto sou eu que dito as regras. – ele rebate, entrando na cabine e ligando o que pareciam ser os motores. Por um momento seu olhar frio se torna preocupado e eu assinto levemente com a cabeça. – Vai. Agora.
Cambaleio para fora da cabine quando o loiro aciona os motores e o barco começa a ganhar velocidade com um movimento brusco. Antes que pudesse achar minha irmã ela é que me encontra, seus olhos arregalados procurando por uma resposta. Indico na direção da cabine com a cabeça e ela rapidamente se move para lá atrás do Agreste. Corro para perto de minhas amigas que agora estavam juntas da beirada do barco no convés, olhando para o suposto barco invasor de praias junto dos outros. Era um pequeno iate com um símbolo de triângulo inacabado gravado em preto na porta da cabine que me lembrava muito um delta sem fim. Sinto a mão de Adrien segurar a minha e a aperto levemente.
— Não deveria ter ninguém aqui. – ele murmura, sem entender. — Nossa praia é privada. Como esse cara conseguiu entrar sem ter a autorização da marinha?
— Isso não tá me cheirando bem. – Louis solta, dizendo exatamente o que eu estava pensando.
— Você acha que eles podem ser bandidos? – Alya pergunta, arrumando os óculos para enxergar melhor.
— Ora, por favor. – Chloé rebate, revirando os olhos com a pergunta de Ay. – Vocês acham mesmo que a marinha francesa, a maior segurança possível existente no nosso país, iria deixar passar despercebido assim um iate com um bando de ladrões maltrapilhos?
Enquanto ouço Alya rebater com uma resposta nenhum pouco agradável a porta da cabina intrusa se abre de repente, revelando uns três caras vestidos de preto armados que começavam a mirar bem na... Oh, meu Deus.
— Abaixem-se! – grito, empurrando Adrien e a Bourgeios para o chão no mesmo instante que nosso barco é atingido por vários tiros de armas de longo alcance. O grito estridente da loira me faz fazer uma careta, enquanto tentando me estender no chão o máximo que conseguia.
— Temos que sair daqui! – Louis berra, do outro lado do convés onde protegia Kattie o máximo que conseguia. – Acha que teríamos alguma chance se pegássemos os botes salva-vidas?
— Ah claro, tenho certeza que esses ladrões adorariam brincar de tiro ao alvo com um bote laranja florescente no meio do mar! – Nino berra em resposta, totalmente irônico e desesperado ao mesmo tempo. – Que grande ideia Louis. Alguma outra ideia genial?
— Eu não ouvi você dizendo nada até agora! – o moreno retruca, começando a discutir por cima do barulho dos tiros. Fecho meus olhos com força, tentando pensar em uma solução rápida que pudesse nos salvar.
Olho ao redor em busca de qualquer coisa que pudesse nos servir como proteção, suporte ou algo do gênero. Eu conseguia ouvir Nino e Louis discutindo entre si assim como conseguia identificar Bridgette tentando contatar a marinha local em uma emissão de pedido de socorro no rádio do nosso barco, entretanto minha atenção estava focada em apenas um ponto. Os botes. Eles realmente eram nossa melhor saída naquele momento. Conto mentalmente quantas chances minha ideia tinha para dar certo. Três. Três botes. A probabilidade de sermos fuzilados por um bando de piratas armados era de... Ah, que se dane as probabilidades.
— Louis tem razão! – grito para Adrien, emgatinhando até onde o mesmo estava abaixado. – Não podemos ficar aqui pra sempre. Duvido que a polícia irá chegar tão cedo!
— É arriscado demais! – o Agreste grita de volta para mim, visivelmente apavorado com o que estava acontecendo. Balanço a cabeça, com a adrenalina pulsando rapidamente nas minhas orelhas.
— É o único meio de sairmos vivos dessa! – devolvo, levantando levemente a cabeça quando a frequência de tiros diminui. Encaro minhas amigas do outro lado da parte de trás do barco da família do Adrien. – Escutem, precisamos de todos os botes possíveis que conseguirem pegar. A munição deles está acabando, devem precisar de alguns minutos para recarregar. Quero que peguem o que conseguirem e corram lá pra baixo. Entenderam? – grito, dando o sinal para serem rápidos no momento em que os tiros cessam. – Agora!
Adrien agarra minha mão com tanta força e rapidez que mal consigo encará-lo antes de dispararmos na direção do pequeno bote amarrado na grade de ferro e corrermos para a porta que dava para os pequenos cômodos confortáveis do interior do barco. Assim que ponho os pés nos primeiros degraus da escada consigo ver minhas melhores amigas chegarem logo em seguida, com outro pedaço laranja de esperança nas mãos trêmulas. As envolvo num abraço apertado, mas sem tirar os olhos do início da entrada para onde o loiro de olhos verdes havia acabado de correr. Arregalo os olhos quando ele volta segurando Nino um pouco ensanguentado com Louis para lhe ajudar.
— Ai meu Deus, Nino! – Ay grita, indo na direção do moreno e agarrando seu rosto com ambas as mãos. – O que aconteceu? Você foi ferido?
— Um tiro de raspão pegou o braço esquerdo dele. – Adrien explica, rasgando a manga da camisa que cobria parte do ferimento. Ele passa atrás de mim e abre um painel de dentro da parede onde havia alguns curativos. Vou até a janela analisar a perseguição que continuava a acontecer lá fora. – Ele vai ficar bem, pode confiar.
— Ao contrário de nós se não conseguirmos sair daqui. – digo, voltando a encarar meus amigos e a Bourgeios. – Meu plano é o seguinte: se conseguirmos fazer com que eles pensem que não tem ninguém nos botes, não há razão para atirarem e gastarem balas á toa. Vão continuar mirando no nosso barco. – explico, gesticulando para os botes nas mãos de Kattie e na minha. – Só precisamos de uma pequena distração e bam, vocês cinco estão liberados.
— Espera, como assim “vocês cinco”? – a ruiva questiona, arregalando os olhos. – Você vai com a gente também, nem pense em se sacrificar pela gente Marinette Dupain-Cheng.
— Eu não vou abandonar a minha irmã. – afirmo, com convicção. – Bridgette pode ser qualquer coisa, menos desleal. Não serei eu quem irá deixá-la para trás numa loucura dessas.
— Não, está fora de cogitação. – Alya retruca, balançando a cabeça com força. – Somos melhores amigas. Não vamos deixar você aqui pra morrer.
— Dizemos o mesmo. – Louis continua, dividindo o olhar entre mim e seu primo. – Adrien, não.
— Gente, ninguém aqui tem escolha alguma. – o mesmo rebate, sério. – Não há botes o suficiente para todos nós, e mesmo que tivessem nossas chances de chegar até a praia para pedir ajuda só iriam diminuir. Nós quatro aqui dentro conseguimos ganhar tempo para vocês conseguirem ajuda da polícia de Calanque.
— Isso sem contar que, enquanto estamos aqui embaixo, mais capagangas desses caras que querem fazer queijo de nós podem chegar e nossa probabilidade de fuga diminui. – argumento, apontando para a janela em movimento.
— Não podemos levar o Adrien e deixar apenas a Dupain-Cheng para morrer aqui? – Chloé indaga, analisando as unhas. O olhar de todos nós recai sobre ela, que dá ombros. – Eu tentei.
Reviro os olhos, me segurando na parede ao meu lado enquanto nossa embarcação era atingida novamente por mais um punhado de tiros, nos sacudindo com força, juntamente com as manobras que Félix estava fazendo para tentar se desviar dos nossos perseguidores lá encima. Respiro fundo, suplicando as minhas melhores amigas que me obedecessem daquela vez com o olhar. Ambas se entreolham e dirigem seus olhares para Nino, com o braço agora enfaixado. Ele apenas assente com a cabeça, simples o suficiente para me fazer pensar que vi coisas.
— O seu plano também tem garantia de seguro de vida pra você? – Ay me indaga com um mínimo tom de brincadeira na pergunta séria. Sinto meu estômago dar um nó e meu sorriso sai amarelo.
— Claro, senão eu não me chamaria Dupain-Cheng. – respondo, mordendo o lábio e apertando o bote nas minhas mãos. – Certo, o plano é o seguinte: os três botes serão jogados ao mar como uma distração. Enquanto isso vocês entrarão nos barquinhos de pesca que ficam próximos da cabine de controle, do lado esquerdo. Eu e Adrien vamos cortar as cordas e logo depois vamos fazer esse barco dar a volta para vocês terem tempo de chegar à Guarda Costeira e pedir socorro. Entenderam?
— Isso parece arriscado. – o moreno de olhos castanhos comenta, segurando uma das mãos da O’Green.
— Imagine uma versão mais light do Titanic, mas que de preferência ninguém morra no fim. – Adrien tenta brincar, mas assim que olho para seu rosto posso vê-lo tão preocupado quanto eu. – Ok, péssimo exemplo.
— Entenderam? – questiono mais uma vez, observando todos assentirem levemente. Respiro fundo. – Mãos à obra.
***
Bridgette
Tudo aconteceu muito rápido. Num momento estava relaxando de boas dentro daquele barco gigantesco, tomando um gole de água de côco, bem longe das perguntas da minha irmã e mais ainda do olhar furioso de Félix... E aqui estava eu agora, dirigindo aquele mesmo barco para fugir de ladrões atiradores que estavam prontos para fazer confete de todos nós por todo aquele mar que parecia não ter fim. Eu estava com o coração quase saindo pela boca, zigue-zagueando pra todo lado tentando evitar aqueles tiros de longa distância e salvar minha família que estava a bordo, mas quando eu vi Marinette e o resto de seus amigos brotarem do nada na frente da cabine aos berros quase tive um ataque cardíaco ali mesmo.
— O que raios vocês estão fazendo? – berro para qualquer um que pudesse me ouvir com toda aquela confusão. – Saiam daí agora!
— É a nossa chance, rápido! – consigo escutar minha irmã gritando e no mesmo instante se colocando entre mim e Félix dentro da cabine. – Vocês precisam dar a volta, agora.
— Ah claro, fazer o retorno e bater de cara com o barco dos caras que querem nos matar. Vai facilitar muito o trabalho deles garota. – o Agreste se manifesta, revirando os olhos e tentando tirar nós duas de lá.
— Estou falando sério, eu fiz as contas, vai dar certo. – Mari assegura, tocando minha mão e ignorando o olhar fuzilante do loiro a sua frente. – Por favor Bridg, se eles não forem a Guarda Costeira nunca chegará aqui a tempo.
— Isso é suicídio Marinette. – Félix rebate rapidamente, olhando para mim com um olhar reprovador. – Bridgette, se você fizer isso irá matar todos nós. Nós e eles tentando fugir.
— Você por acaso tem uma ideia melhor? – a mestiça devolve, indicando para o comunicador do rádio em uma das mãos do mesmo. – Adrien e eu já tentamos contatar a Guarda lá embaixo com o outro rádio e até agora não conseguimos retorno. A menos que você tenha superpoderes para fazer uma sinalização de SOS nossa melhor opção é arriscar essa tentativa. – ela volta a olhar pra mim juntamente do homem que quebrara meu coração e continuava na minha vida. – Bridg, sim.
— Bridgette, não. – Félix pede, num embate que eu estaria assistindo se não precisasse salvar nossas peles.
Suspiro, observando os tiros cessarem mais uma vez. No mínimo 3 minutos, no máximo 6 para recarregarem totalmente. Aperto a direção do barco abaixo das minhas mãos com força e aceno brutamente na direção onde todos já embarcavam nos dois barcos de pesca, já prontos para arriscarem suas vidas.
Tudo isso só está acontecendo por minha culpa.
Preparo a direção para dar a volta no mesmo momento que Adrien e minha irmã conseguem cortar as cordas, jogando o que pareciam ser botes laranjas em alto mar. Caio com força no chão instável abaixo de mim quando Félix bruscamente me empurra para o outro lado da cabine que dividíamos, assumindo o controle outra vez. Ele rapidamente desvia nossa embarcação na direção contrária a linha reta que estávamos, fazendo com que fôssemos atingidos por mais outra rajada de balas cortando o ar na direção onde nossos amigos começavam a avançar em direção a praia rapidamente. Ele havia os salvado, mesmo que não tivéssemos o obedecido. Antes que pudesse cantar vitória ele me lança um olhar gélido que quase me faz congelar onde caíra.
— Tem um sinalizador nos compartimentos lá embaixo, meu irmão sabe onde está. – conta, voltando rapidamente seus olhos para o oceano a frente. – Seja rápida e todos nós sobreviveremos a idiotice que você provocou.
— Eu... Jamais quis que isso... – balbucio, sendo calada dessa vez por um palavrão vindo do Agreste.
— Esse é o problema Bridgette, você nunca quer que algo ruim aconteça, mas você nunca mede as consequências que você mesma comete. – Félix argumenta amargamente, fazendo meu coração doer por dentro. As mesmas cicatrizes que pensei já ter me acostumado á dor me surpreendem novamente. – Anda logo antes que esses infelizes consigam fazer o que mandaram! Vai!
Corro abaixada até a porta que dava a escada do interior do barco, me surpreendendo com a visão que vejo por um instante: Marinette e Adrien juntos! Se não estivéssemos em uma situação de vida ou morte igual aquela, juro, eu juro, que iria gritar de emoção por ver o meu shipp e das meninas acontecendo. Eles estavam ofegantes – seria por ter acabdo de rolar uma sessão daqueles beijos desesperados de tirar todo o ar dos pulmões ou da corridinha pra não morrer de lá fora pra cá pra dentro? – e o loiro abraçava minha irmã com força, murmurando alguma coisa que eu não conseguia ouvir. Pigarreio, me repreendendo mentalmente por estragar aquele momento tão romântico, mas almejando sobreviver mais um pouco. Ambos se separam com rapidez, parecendo um pouco assustados – ou envergonhados, não sei dizer – comigo surgindo ali do nada.
— Félix falou de um sinalizador aqui embaixo. – explico, gesticulando também um pouco ofegante. Em dois minutos observo o loiro esticando a mão na minha direção com quatro cilindros que se assemelhavam muito com bombinhas. – Ótimo, vamos precisar chamar bastante atenção da marinha. – divido meu olhar entre ambos – Vamos.
— Damas primeiro. – Adrien solta, com um gesto de cavalheiro em direção a porta de entrada no topo da escada.
Porém, antes que consigamos subir algum degrau da escada um estrondo de repente faz o barco cambalear e quase nos desequilibramos de onde estávamos. Haviam acertado nossa lateral, abrindo um verdadeiro buraco do em algum lugar lá fora e bloqueando a saída da escada para o convés. Arquejo, indo pra cima da porta atravessada junto do casalzinho de pombos apaixonados e tentamos empurrar a mesma de volta pro seu lugar. Nada. Tentamos mais uma vez, com mais força daquela vez. Não se moveu nem um centímetro. Grunho, apertando os punhos enquanto o chão abaixo de nós começava a encher de água salgada. O último ataque deveria mesmo ter feito um estrago.
— Rápido, pela porta de emergência. – Adrien grita, adentrando ainda mais para o interior daquela coisa flutuante comigo e Mari em seus calcanhares.
A água começava a subir cada vez mais rápido, já chegando na altura dos meus joelhos quando finalmente chegamos numa segunda saída para o convés: uma porta de ferro muito parecida com as saídas de escape de um submarino. Enquanto o Agreste e Marinette forçavam a maçaneta um barulho chama a minha atenção. Uma sirene. Alta e estridente. Uma sirene insuportavelmente inconfundível. Suspiro, agradecendo aos céus por Plagg ter me importunado tantas vezes com aquele apito anos atrás.
— Não abre. – Marinette constata, esfregando as mãos já vermelhas. – Está emperrada.
— O que nós vamos fazer? – o loiro de olhos verdes me questiona, encostado na parede. – A única outra saída que tem nesse estilo de barco era essa.
— Que tipo de barco é esse? – indago, olhando ao redor. – Um Iate, certo? – assisto o loiro balançando a cabeça e arregalo os olhos. – Vamos precisar quebrar uma janela.
Entramos em um dos compartimentos com a água na altura da nossa cintura e a primeira coisa que vejo é que o Iate em que estávamos começava a afundar cada vez mais rápido, e se não saíssêmos logo dali iríamos virar novos tripulantes de um Titanic II. Pego a primeira coisa que enxergo na minha frente e jogo com toda a minha força no vidro a minha frente: uma escultura de decoração de ferro. A janela se estilhaça em milhares de cacos e faz mais água começar a entrar pelo novo buraco. Aquela era a nossa chance. O tempo começava a correr contra nós enquanto mais aquela cabine-dormitório começava a ser cheia do oceano.
— Certo, eu vou na frente para chamar a atenção da Guarda Costeira e espero vocês lá encima. – digo, entregando dois óculos de natação para cada um e colocando o meu em seguida. Entrego dois sinalizadores para Mari e os amarro em sua cintura com um improviso. – Não tive tempo para achar algo mais agradável, então não questionem e vamos ser rápidos. Não estou a fim de morrer afogada hoje.
Olho uma última vez para ambos e respiro fundo, passando pela janela recém-destruída e começando a nadar em direção a superfície.
***
Marinette
— Sua vez. – o loiro a minha frente diz, agarrando minha mão e me puxando levemente até a abertura que jorrava água e sal na nossa direção. Balanço a cabeça.
— Não, eu não vou te deixar aqui Adrien. – me recuso, vendo o ar se tornando cada vez menos no espaço entre nós dois. Tento manter minha cabeça acima da superfície, mas tal ação se tornava cada vez mais difícil. – Ninguém fica pra trás.
— Isso não é um pedido – o loiro retruca, segurando minha nuca e me dando um leve selinho. – é uma ordem.
— Eu... – engasgo com a quantidade de água que eu quase engulo de vez. – não posso.
— Pode sim. – Adrien responde, me suplicando com o olhar. Aquele olhar que me provocara tantas vezes e que agora, naquele momento, eu não aceitava parar de encarar. – Nos encontramos lá em cima. – nossos olhares se cruzam e por um momento meu coração falha. — Eu prometo.
Engolindo meu orgulho, respiro o mais fundo que consigo e começo a nadar em direção a janela praticamente já submersa na escuridão gelada. Assim que passo para o lado de fora consigo ouvir o som abafado de uma sirene próximo de onde eu estava e acelero meus movimentos o máximo que consigo. Nunca fora uma exímia nadadora, mas quando você precisa sobreviver você consegue aprender de tudo um pouco. Meus pulmões já começavam a arder quando finalmente ultrapasso a fina camada de areia e sal para a superfície, arquejando desesperadamente por ar puro. Minha garganta arde quando respiro fundo pela boca mesmo e olho em volta procurando pelo socorro. Porém, assim que dois segundos passam desde que emergira o pânico começa a me dominar mais uma vez. O Iate da família Agreste estava totalmente imerso e não havia nem um sinal de Félix, Bridg ou qualquer outra pessoa que estivesse comigo poucos minutos atrás.
Pior. Nenhum sinal de Adrien.
— Não. – murmuro para mim mesma, enchendo meus pulmões de água novamente e mergulhando na mesma direção de que viera.
Por mais lindas que fossem as águas de Calanque elas ainda não eram claras o suficiente. Aos poucos a luminosidade começava a diminuir e quando finalmente consegui encontrar o barco dos irmãos loiros quase não conseguia enxergar nada a minha frente. Solto um pouco do ar que estava segurando e nado mais rápido na direção da enorme cratera que minha irmã havia feito no desespero da nossa fuga, identificando para certo alívio a cabeleira clara de Adrien, preso a alguma coisa que não o permitia emergir. Vou até o mesmo e começo a puxá-lo com o máximo de força que consigo para cima. Seu pé está sendo pressionado por alguma coisa de dentro da cabine-dormitório. Me desvencilho dele por um momento e tento enxergar qual é o problema – sem sucesso. Apoio meus pés no resto da estrutura do barco e puxo sua perna para trás.
Sua mão toca meu ombro e eu me viro rapidamente para trás. Seu ar estava acabando. Balanço a cabeça e continuo a fazer força, mas sua mão novamente aperta meu ombro. Sinto meus olhos lacrimejarem quando o mesmo gesticula um beijo na minha direção e aquele idiota solta bolhas de ar, o último ar que lhe restava, e eu as observo subirem como um raio sem tirar os olhos de seu rosto.
Trinco os dentes e dessa vez desconto toda minha fúria chutando aquela coisa velha, puxando aquele estúpido na direção contrária com toda a força que me restava depois de cinco minutos debaixo d’água. A carcaça destruída do Iate faz um barulho alto, se movendo ainda mais para o fundo do oceano, mas dessa vez libertando as amarras do loiro em meus braços enquanto tentava subir novamente até a superfície com um último esforço. Meus batimentos começam a ficar mais lentos e minha mente começa a gritar para meus pulmões que não há oxigênio suficiente chegando no meu cérebro.
Meu corpo começa a ficar mais pesado e a luz cada vez mais distante. Meus olhos ameaçam fechar mesmo que eu lute para deixá-los abertos. Talvez fosse isso mesmo: eu morreria ali, tentando salvar o cara que eu mais havia odiado desde que entrara no François Dupont e agora havia confundido totalmente a minha cabeça e o meu coração.
Bem, ao menos eu tentei ser a heroína daquele babaca ao invés dele ser sempre o meu super-herói imperfeito. Eu cumpri minha palavra.
Ninguém fica pra trás, penso, soltando meu último suspiro.
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