Adelina Amouteru.

Eu estava encolhida no canto do quarto, minha respiração entrecortada enquanto minhas lágrimas caiam uma a uma, a escuridão dentro de mim se agitou, as linhas cintilavam na minha frente, mas não me atrevia a tentar puxá-las, minhas mãos tremiam de desespero e ansiedade.

Queria destorcer a realidade, fazer tudo aqui ser destruído pelas minhas próprias mãos.

O fantasma de meu pai pairava ao meu redor, como um lembrete do que eu era de verdade, um mostro.

Assassina— podia sentir suas mãos em meu queixo tão fortes que doía, seus olhos mais duros que pedras — Até para um Malfetto você é desprezível.

Suas palavras eram como ácido pingando em feridas semi abertas.

E pelas a primeira vez eu não discordei de suas palavras, não importa o quanto eu o odiasse, ou o quanto ele era terrível, ele estava certo, eu era um monstro, uma aberração entre as aberrações.

E todos pagaram o preço por estarem perto de mim, Violetta sendo mantida prisioneira, meu pai morto pelas ilusões, Enzo...

Meu choro agora já não era silencioso, soluçava fortemente, o que eu tinha feito?

Entre todos por que logo Enzo?

"Dance comigo" — disse ele uma vez para mim, logo depois nós rodopiávamos pelo salão, seus braços em volta de mim, sua respiração colidindo com a minha, seus lábios nos meus em um singelo tocar.

Queria voltar aquela época, voltar enquanto todos os fatos me levavam para onde eu estou agora, mudar alguma coisa, para que não tivesse acontecendo, para que Enzo não tivesse morrido.

Para que valia continuar sem ele? Ele era o calor que aqueceu o meu inverno eterno, de um modo que nunca poderia voltar a ser como era antes.

Não conseguia e nem queria continuar.

A minha frente eu só via um manto de escuridão tão denso que eu me perguntava se alguma vez tivera luz, um futuro do qual eu não queria fazer parte.

Queria que alguém me tirasse desse sofrimento.

Por favor, alguém me ajude... — Implorei mentalmente, mas ninguém viria, eu merecia passar por tudo isso.

Teria sido melhor se eu tivesse morrido junto com a minha mãe, naquela época com a febre do sangue.

Tudo seria diferente, todos estariam bem, tudo seria melhor.

Com um estrondo escuto barulho da porta ser aberta, escutei passos entrando, mas não olhei na direção da pessoa, todo dia era assim, um guarda entrava colocava uma nova bandeja no chão a minha frete depois pegava a do dia anterior ia embora.

Não tinha mínima idéia de quanto tempo estava ali dentro, desde que vi Enzo cair morto em minha frente, minha mente tinha entrado em um torpor, sentia mãos me pegando e me arrastando.

A inquisição. — pensei, mas não lutei, só conseguia ver a cena em minha mente, só depois que Enzo estava saindo da minha visão que eu percebi.

Eu não o veria novamente, nunca mais, precisava vê-lo mais uma vez, apenas uma vez.

Fui tomada pela força, puxei os fios que consegui, duas formas pretas se ergueram do chão, com olhos vibrantes, e presas a mostra.

As mãos me soltaram, enquanto eles recuavam assustados pelas bestas, me impulsionei para frente, correndo o mais rápido o possível até Enzo.

Mas assim que o vi, meu mundo quebrou, sua pele bronzeada, agora estava com um tom doentio, e seus olhos pretos, ainda abertos, olhavam para mim desfocados e sem vida.

Minha culpa — pensei enquanto me encolhia mais ainda.

Depois disso deixei que me levassem, não adiantava lutar.

Eu estava fraca, nunca comia o que me traziam, não andava, só ficava naquele canto.

Como agora, me perguntei se estava mesmo viva,escutava a goteira pingar no chão de pedra.

Começei a contar.

Um, dois, três, quatro, cinco...

Meus olhos pesaram, tentei lutar contra, mas onde conseguir forças? Me deixei cair em um pesadelo.

Ele começou.

Sempre um único pesadelo.

Sempre o mesmo.

Meu pai aparecia, me dizia o quanto desprezível eu era, levantava a mão, prestes a me bater, como tantas vezes tinha feito no passado, mas logo depois não era mais meu pai e sim o rei, meus pulsos presos em correntes, a multidão em minha volta rugia furiosa, gritando xingamentos e ofensas para mim, o rei desembainhava a sua espada, a ponta metálica contra meu pescoço, meus ouvidos zuniam, mesmo no sonho eu tentava invocar o meu poder, usar toda a energia negativa que sentia em volta dentro de mim, mas nada era suficiente, nada adiantava.

— Você irá se juntar ao meu irmão no inferno – disse a rainha, meu único olho se voltou em sua direção, ela sorria cinicamente, como se não estivesse vendo uma execução bem na sua frente.

Ele era seu irmão! Como pode deixar que o matassem?— quis gritar, mas minha voz se perdeu antes que pudesse pronunciar a primeira palavra.

Então sem eu querer alcancei um único fio, puxando o inconscientemente, mas algo deu errado, ele se partiu, sua energia voltada para mim, com uma fúria desenfreada, mãos negras saiam do chão, em baixo dos meus pés.

É apenas ilusão— tentava me convencer, mas não era, os dedos se cravavam em minha pele me puxando para baixo, para a escuridão, então eu acordei.

Estava soando frio, com o choro na garganta, as lágrimas caiam livremente pelo meu rosto, os fios cada vez mais densos, o poder e o medo me sufocando.

—Não chore— disse a voz de Enzo, não era uma lembrança, eu estava escutando sua voz — Você é mais forte do que isso.

Fechei o olho com força.

Ele não está aqui, você sabe que não.— senti mãos pegarem no meu rosto, o levantando levemente, mas não quaisquer mãos, as mãos dele, sentia o calor da sua pele através de sua mão aveludada, queimando o meu rosto, mas não me atrevi a olhar, era ilusão, meu próprio poder se virou contra mim.

— Adelina – falou Enzo em um sussurro – abra os olhos.

Tremi ao escutar sua voz, o calor que emanava dele me embriagando, abri o olho.

Enzo.

Ele estava mesmo ali.

Em todo o seu resplendor, seus cabelos avermelhados presos como o de costume, ele estava tão perto, agora com ele ali o quarto parecia diferente, tudo estava diferente, me agarrei a ele, trêmula, não querendo que ele desaparecesse, seus braços me aninharam, podia sentir seu coração através do gibão e do linho, olhei em seus olhos negros, mais negros que a noite mais escura, transbordavam leveza e tranqüilidade, aquele era o meu Enzo, não o Ceifador que me treinava tão duramente para melhorar os meus poderes, era aquele que eu amava.

— Enzo... – sussurrei – Como? Como está aqui? – perguntei, mas não recebi resposta, seus lábios vieram de encontro aos meus, em um beijo desesperado, mas sentia a tristeza nele, como se fosse uma despedida.

— Adelina.... eu sinto muito — disse assim que se afastou, sentia a tristeza em sua voz, demorei para perceber o que significavam suas palavras, arfei.

Não por favor, não.

— Fique — implorei em um fio de voz, segurando-o mais forte contra mim — por favor, não vá, não me deixe.

— Eu tenho que ir.

— Por quê?

— Não posso ficar, lobinha — disse acariciando os meus cabelos, seus dedos roçando em minha pele.

— Então me leve com você — falei contra os seus lábios — eu irei, não tem nada aqui para mim.

— Você tem Violetta, não pode vir comigo, tem que ficar.

O rosto de Violetta veio a minha mente, seus olhos apavorados, mas mesmo assim com o seu rosto perfeito, tão parecida com a minha mãe, via toda inocência e bondade que ela carregava.

Ela não precisava de mim, nunca precisou, eu precisava dela, pois meu pai era um monstro, mas agora ele já estava morto, seu fantasma só atormentava a mim, não a ela e a única coisa que a atormentava era eu.

Ela ficaria melhor sem mim.

— Você sabe que não, ela nunca precisou de mim, não tenho motivos para que eu fique — falei verdadeiramente, ele me olhou por longos minutos, avaliando o quanto as minhas palavras eram verídicas, eu não desviei o olhar, queria que ele visse o quanto queria aquilo.

Por favor, me leve com você.

Novamente nos beijamos, mas dessa vez não era uma despedida, não havia tristeza, só felicidade, eu ficaria com ele e ele comigo.

Não importava onde, eu tinha o meu sol novamente e não o deixaria ir, nunca mais.

Fim.

Notas finais
Obrigada por quem leu ♥!!
Comentem e recomendem, Bjs!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!