Stay High - Uma Mente em Conflito

2 O passado é um fardo que carregamos


Notas iniciais
Segundo capítulo no ar!! Espero que gostem, então desejo-lhes boa leitura!!

O PASSADO É UM FARDO QUE CARREGAMOS

Enquanto Anne e o rapaz se atracavam no chão, DJ se apressava para tentar amenizar a situação. Depois de várias tentativas, conseguiu puxar Anne para longe. O homem se levantou, batendo no terno e se recompondo.

– Anne, eu sei que está decepcionada comigo por eu não ter ido te visitar, mas... – ele tenta dizer, mas é interrompido.

– Você vive bem, né? Por que não pegou esse dinheiro de merda e foi me tirar daquele inferno? – Anne perguntou sem pensar. Ela ainda estava furiosa.

– Antes de você parar lá naquele lugar, esqueceu que não éramos tão ricos assim? Eu não podia ir te ver porque os seguranças não deixavam... – ele disse. Anne estranhou – e não era só por isso, Anne, era porque eu precisava de tempo para enriquecer e poder te dar a melhor vida possível depois que saísse de lá.

Anne manteve a postura raivosa. Foi até a lareira e colocou um pouco de tequila no copo. Depois bebeu um gole e disse:

– Você enriqueceu, Derek. Conseguiu enriquecer. Por que não pegou essa porcaria de dinheiro e foi me tirar de lá? – repetiu a pergunta.

DJ e Léo se entreolhavam aflitos, com remorso de Anne explodir de raiva novamente e eles não darem conta da briga. Ainda mais agora que ela estava bebendo.

– Eu fui, eu tentei. A juíza fez um decreto negativo quanto a isso, não tinha muito o que fazer. Era esperar ou esperar, e entre um e outro, escolhi esperar estudando muito para melhorar de vida.

O queixo de Anne tremia, e seus olhos começavam a lacrimejar.

– Nem... nem uma carta você... você escreveu... – ela falou, de cabeça baixa encarando a pouca tequila no copo. Pensou em servir mais, porém desistiu da ideia e depositou o copo em cima da lareira novamente.

A feição de Derek era puro espanto. Sua boca estava aberta, assustado.

– Eu te escrevi cartas, Anne, não minta para mim! – ele exclamou.

Anne levantou a cabeça e o fitou por uma longa pausa. Derek estudou Anne, com muita dúvida no olhar.

– Eu te escrevi, maninha. Te escrevi muitas. Elas não podem simplesmente se perderem no caminho. Ou foram roubadas ou sequer foram entregues.

– Malditos! – fungou Anne, dando um soco forte no granito. – Malditos, malditos – repetia, e então desabou em lágrimas. Chorou feito criança tendo seu doce roubado. Se sentou no chão, com as mãos sobre os joelhos, e soluçou. DJ fez menção em ajuda-la, mas foi barrado por Léo, que fez sinais para que Derek fosse ajudá-la. Derek então se encaminhou lentamente até o lado da irmã e se sentou encostado nela. Cruzou um braço sobre os ombros da moça e o outro pelo outro lado do corpo. E ficaram alguns segundos ali, abraçados assim.

– Desculpa, Anne, eu só queria te impressionar. – disse o rapaz, calmamente – e sobre as cartas, eu só...

– Eu te perdôo, Derek! – afirmou Anne, enquanto levantava a cabeça e encarava profundamente os olhos do irmão – eu te perdôo.

Dessa vez ela quem o abraçou, e forte. Derek se emocionou e ambos desataram a chorar novamente. DJ e Léo estavam sérios, mas deram uma recaída emocional, mesmo não tendo chorado.

– Eu não lembrei que seria hoje seu último dia naquele lugar, mas eu sabia. De certa forma, eu ganhei uma surpresa maravilhosa nesse dia! – disse Derek, depois que o abraço foi desfeito.

– A gente realmente precisa colocar as coisas em dia, irmão. – Anne disse, com a voz fraca.

– E vamos – respondeu Derek – e para isso preciso que venha morar comigo. Vamos fazer um jantar especial, que tal? – e olhou para DJ e Léo – e venham vocês jantar também, tenho certeza que será agradável.

Anne ficou calada, pensando nas possibilidades de morar com o irmão. Queria dizer que não, queria dizer que apesar de perdoá-lo não iria manter muito contato, mas ela estava errada. Ela queria contato, ainda mais com a única família que lhe restou.

Léo caminhou até a porta e segurou a maçaneta. Depois chamou DJ, que se apressou em segui-lo.

– Bom, vamos deixá-los a sós. Vocês têm muito o que conversar e também... – tentou finalizar Léo.

– De jeito nenhum! – Interrompeu Anne – no carro vocês disseram que tinham duas pessoas esperando por mim – então ela olhou para o irmão e depois voltou para Léo – parece que uma dessas pessoas já encontrei... quem é a outra?

DJ e Léo foram pegos de surpresa, porque também tinham esquecido desse detalhe. Olharam em volta na esperança de encontrar mais alguém escondido embaixo dos móveis, mas nada. Léo olhou para Derek e fez uma pergunta com os olhos.

– Ah sim – disse Derek – a outra pessoa teve que ir embora. Vou convidá-lo para o jantar, podem deixam!

Anne dançava os olhos entre os três ali presentes. Decidiu não os questionar. No fundo, ela sabia quem poderia ser, mas não queria arriscar nenhum palpite.

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Magna, a empregada doméstica de Derek – e também a pessoa com quem ele desabafava frequentemente – serviu um frango assado no jantar. A sala de jantar tinha tamanho suficiente para acomodar uma mesa retangular de doze lugares mais algumas cristaleiras que davam um ar mais vivo para o ambiente. O lustre de cristais era satisfatório para iluminar todo o cômodo.

Derek se sentou em uma das pontas da mesa, com DJ e Léo em seu lado esquerdo, e Anne sozinha em seu lado direito.

Anne e Derek se resolveram de tal forma que só se ouvia sons animados de risadas e taças sendo brindadas. Derek contava para DJ e Léo sobre uma história passada de quando Anne conseguiu falsificar a assinatura da diretora do colégio só para sair mais cedo e garantir um lugar na arquibancada do jogo dos Kanvas – time de futebol americano na qual ela era totalmente fissurada.

– E ela chegou em casa vibrando com uma camisa dos Kanvas que ganhou de um dos jogadores, enquanto mamãe e papai se reviravam de fúria querendo dar umas palmadas nela – riu Derek – depois no dia seguinte ela descobriu que matou justamente a aula de matemática, e que teve a prova de recuperação valendo nota integral. Papai tomou a camisa dos Kanvas dela e disse que daria à professora como pedido para que ela deixasse Anne refazer a prova. Lembra como você chorava na sala?

– Não consigo esquecer – disse Anne, enquanto degustava uma coxa de frango.

– No fim das contas, Anne fez desesperadamente a prova achando que tinha perdido a camisa, depois que conseguiu nota boa papai devolveu para ela e ela se jogou na piscina para conter a felicidade. Foi parar na emergência porque não sabia nadar.

Todos riram. Fez-se uma curta pausa, enquanto todos se serviam.

– Com licença – disse Magna, entrando na sala de jantar – o rapaz está na porta. Deixo entrar?

– Claro – confirmou Derek, limpando a boca com um guardanapo.

Magna saiu e, em poucos segundos, uma nova figura surgiu à porta. Todos o olharam, mas o rapaz só conseguia fitar os olhos de Anne.

– Hans! – exclamou a moça, imediatamente se levantando.

– Vim assim que pude. Mês passado eu... – mas Hans foi interrompido por um abraço fortemente caloroso que Anne o deu.

Até o som dos garfos cessaram. Todos ficaram em silêncio esperando o momento de reencontro passar.

– Não teve um dia que não pensei em você lá dentro – Anne sussurrou no ouvido do rapaz.

– E não teve um dia que não pensei em você lá fora – Hans sussurrou de volta.

Anne não o beijou, e ele também não tentou. Era cedo demais, apesar da tal intimidade entre eles.

Anne se sentou novamente, dessa vez com Hans ao seu lado. Hans cumprimentou todos, e então começou a se explicar.

– Concluí meu curso de edição de vídeo há duas semanas. A Maine TV já prorrogou meu contrato, me deram um projeto muito bacana, que posso inclusive dar início aqui na Flórida. Como eu sabia que você sairia essa semana da detenção, logo peguei um vôo para cá.

Os olhos de Anne brilhavam. Ela não se importava de ver pessoas tendo sucesso profissional enquanto ela passava os dias dentro de um quarto como uma prisioneira. Deu um beijo curto na bochecha de Hans e o agradeceu por estar ali. Parece que, depois de tantos anos, finalmente chegou o dia em que seu coração vibrou de felicidade. Quer dizer, a felicidade mesmo Anne jamais conseguiria retomar, mas nesse caminho ela poderia salvar alguns cacos. O primeiro caco estava em suas mãos, e ela não podia quebrá-lo novamente.

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Léo e DJ foram embora. Hans se ofereceu para passar a noite com Anne, no sentido mais inocente da palavra. Juntos foram para o que seria o novo quarto de Anne, que, segundo Derek, deixou preparado para a volta dela desde que conseguiu comprar a casa.

Hans e Anne, já trajados para dormir, estavam aconchegados num sofá reclinável que tinha na sacada. Observavam as estrelas ao som dos grilos, enquanto conversavam em tom baixo sobre lembranças e momentos que jamais voltarão.

– Eu nunca tive a intenção de fazer o que fiz. Fiz por instinto, como um animal defendendo sua família de predadores. Não adiantou de nada, mas fui levada de cabeça erguida, apesar do ódio que passei durante os meses seguintes. – ela falava para Hans.

– A gente não precisa falar sobre isso, trazer de volta momentos horríveis do passado. – Hans concluiu, em vão.

– O passado... – Anne refletiu, encarando uma estrela que brilhava forte no céu – o passado, Hans, é algo que jamais pode ser esquecido, por mais que tentemos. Nossas marcas estão lá, nossas escolhas estão lá, e é por elas que estamos aqui. Eu posso renegá-lo, mas ele nunca vai deixar te ter pertencido a mim, esse é o nosso fardo.

– Você pagou pelos seus erros do passado – Hans respondeu – então acredito que já tenha descarregado seu fardo.

– Eu te pergunto: pagar penitência apaga seus erros? Será mesmo? – e Hans percebeu que era uma pergunta retórica – Eu posso ter ficado quatro anos jogada lá dentro daquele inferno, posso estar livre agora e, segundo as pessoas, “com a ficha limpa e com os erros pagos”, mas não é verdade. As pessoas não pagam pelos seus erros, elas são punidas por eles. Os erros nunca vão ser apagados de nossas memórias. Fiquei todo esse tempo presa, mas minhas atitudes erradas não deixaram de existir, me entende?

Hans assentiu. Juntos, encararam a mesma estrela forte que se destacava no céu escuro e limpo. Então Hans se levantou sem dizer nada, e em poucos segundos retornou com um retrato em mãos. Não disse ainda nada, apenas o entregou para Anne.

– Meu Deus, Hans, onde conseguiu isso? – ela disse, encarando a foto que nele estava.

– Estava em cima do criado-mudo, achei que tivesse notado. Por isso pensei que não queria trazer à tona assuntos do passado...

A foto dos pais de Anne era antiga, mas dava para vê-los nitidamente. A mãe dela era uma moça bela, com cabelos longos e castanhos, e sorria abraçada ao lado de um homem, o pai de Anne. Já ele tinha cabelos negros, uma aparência muito saudável e sorria tanto quanto a esposa ao seu lado.

O vidro do retrato logo se encheu de lágrimas. Anne desviou o olhar para enxugar os olhos, e ficou de cabeça baixa para evitar o contato visual com Hans. Já o rapaz percebeu a intimidade e tentou sair, mas Anne o segurou pelos braços e pediu que ficasse.

– Fica! – falou – Eu que preciso espairecer. Quem sabe falar com meu irmão. Ele me pegou de surpresa com essa foto.

E se levantou do sofá, ainda com os olhos vermelhos e o retrato na mão. Caminhou até a porta e deixou o quarto. Parou no lado de fora, encarou o corredor e seguiu caminhando, lentamente. O quarto de Derek ficava justamente no final do corredor, que por sinal era razoavelmente grande.

Andou em silêncio, ainda encarando a foto de seus pais. Sua vontade era abraçar Derek, chorar no ombro dele e se desculpar por tudo que fez. Se aproximando do quarto, ouviu a voz do irmão ecoando de dentro do quarto. Parou em frente a porta, que estava fechada.

A princípio pensou que ele estivesse acompanhado, mas então concluiu que estava apenas no telefone. Pensou em voltar outra hora, mas deu meia volta quando ouviu Derek dizer seu nome. Aproximou o ouvido da porta para ter uma audição mais nítida.

– ...primeira noite na casa – disse Derek, continuando uma frase que Anne não conseguiu entender. – Isso, Dr., estou guardando todos no meu cofre, exatamente para não correr o risco de ela descobrir, ou pelo menos desconfiar.

Anne sobressaltou as sobrancelhas.

– Claro, pode deixar. Amanhã logo no café já uso o primeiro. Quanto tempo mais ou menos para que.... Isso, isso. É um tempo razoável, mas creio que valerá a pena. Ok, obrigado, Dr. Passar bem. – finalizou Derek.

E o silêncio tomou conta do quarto de Derek. Anne estava espantada. Segurou firme o retrato em suas mãos e deu meia volta. Não conseguiria falar com o irmão, ainda mais de ouvi-lo em uma conversa suspeita. Entrou no quarto e parou atrás da porta, ainda com espanto no olhar. De todos os pensamentos que poderiam lhe ocorrer, ela só conseguia focar na ideia de ter um irmão que a odeia.

Se convenceu de que essa era uma possiblidade descartável, então desfez de sua mente a imagem ruim de seu irmão. De qualquer forma, só conseguiria comprovar alguma coisa no dia seguinte, descobrindo o que Derek usaria no café, como ele mesmo disse que faria.

Colocou o retrato numa cômoda e se jogou na cama, deixando também Hans na mão.

Notas finais
Gostaram? Se não, tudo bem. Façam uma opinião sobre a história, eu deixo ser destrutiva também hahaha Obrigado aos que estão acompanhando, vejo vocês semana que vem!! Beijão!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.