Assim que entraram no saguão do aeroporto de Narita, Ken e Ran foram cercados de repórteres ávidos por notícias. Os olhos ametistas de Ran deixaram claro que ele não precisava responder a tudo aquilo, ainda mais depois de um vôo cansativo, mas o moreno sacudiu a cabeça negativamente.

— Eu sei bem como é isso.

Sorrindo, Ran e Ken trocaram cumprimentos afetuosos e o ruivo se foi, deixando o outro em casa e no meio dos seus colegas. O jornalista esportivo respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas enquanto caminhava devagar para a saída do aeroporto, indo em direção ao local onde os táxis ficavam parados, esperando por clientes.

— Me desculpem, mas eu estou cansado depois de tudo e gostaria de ir para casa... Há alguma última pergunta?

— Sim! Hidaka-san, o senhor pretende realmente tomar esse táxi?

O moreno virou na direção da voz, reconhecendo-a de pronto mesmo depois de tantos dias sem ouvi-la. Sorrindo, ele foi na direção de Yuushi, abraçando o amigo com alegria incontida. O resto dos repórteres aproveitou para bater alguma foto ou então se retirar, comentando sobre as notícias que haviam tido Ken como destaque. Os dois amigos se separaram, Yuushi fazendo um gesto com a cabeça indicando um carro.

— Eu vim de carro, para buscá-lo. Depois de tudo que aconteceu, eu acho que você merece uma saída digna do aeroporto! É quase um herói nacional, Ken.

— E isso é tão estranho... — o outro respondeu, coçando a cabeça — Foi surreal.

— Eu acredito. — o herdeiro dos Honjou respondeu, abrindo a porta para o colega e depois sentando no lado do motorista — Kitada está positivamente preocupada com a hipótese de você nos deixar, depois da sua fama repentina.

— Não vou sair de lá. — Ken respondeu, sacudindo a cabeça — Quero levar minha vida como ela era antes... E depois, seria no mínimo rude com Kitada-san.

— Seria. Mas foi ela que te colocou nessa enrascada, certo?

— Mas não foi culpa dela e depois, Kitada-san tentou fazer todo o possível para reverter a situação. Um diplomata foi me ver... Fujimiya Ran, irmão mais velho de uma ex-namorada da minha época de colegial! Ele conhecia Kase também.

— Ran? Mas eu conheço ele! — Yuushi sorriu enquanto dirigia para a saída do aeroporto e de volta para a casa de Ken — Ele costumava ir nos jantares do meu pai, e como éramos da mesma idade, ficamos amigos. Ele já está recebendo missões desse calibre, huh?

— Ah, Yuushi. Não fala nada que me lembre armas, por favor.

Os dois riram calorosamente, embora a mente do jornalista esportivo ainda estivesse presa a um certo tenente.

— Kenken. Você deveria ter ido mais cedo para a Alemanha, eu nunca vi tantas garotas andando atrás de mim em tão curto tempo.

— Você está reconhecendo que perdeu parte do seu valor como ímã de mulheres, Yohji? — o moreno perguntou da sua posição no sofá, onde ele dobrava as roupas recém-lavadas que pertenceram a Schuldig; o sorriso que ele tinha no rosto quando fez a pergunta morreu ao lembrar do mesmo, dois meses depois de todo o incidente na Alemanha.

— Não, claro que não. É por isso que mesmo depois de todo esse tempo, elas ainda continuam vindo. — o loiro sorriu, acendendo um cigarro apesar dos protestos do outro, jogando-se no sofá ao lado do seu companheiro de apartamento — O engraçado é que eu não vi você se entender com nenhuma. Conheceu alguém na Alemanha, foi?

O jornalista detestava corar perto do seu colega, mas foi exatamente isso que aconteceu quando ouviu aquela pergunta. As gracinhas de Yohji nunca falhavam quando a idéia era deixá-lo embaraçado, de modo que ele só praguejou como de costume contra o fotógrafo, recolhendo as roupas e indo para seu quarto. Rindo sozinho, o loiro ouviu a campainha tocar, rolando os olhos quando percebeu que o jornalista não iria atender a porta de jeito algum.

Suspirando, Yohji abriu a porta e seus olhos verdes expressaram toda a confusão que ele sentia ao ver uma figura totalmente desconhecida e sem atributos que lhe interessavam. O uniforme do outro indicava que ele trabalhava para algo militar, embora o fotógrafo não tivesse certeza.

— Em que posso lhe ajudar?

— Eu gostaria de ver Hidaka-san. — o outro respondeu em japonês, surpreendendo o loiro; ele parecia estrangeiro mas não tinha problema algum com o idioma local.

— Dois minutos, ele foi para o quarto. Vou chamá-lo, fique à vontade enquanto isso. — respondeu Yohji, gesticulando na direção do sofá enquanto ele foi na direção do único aposento exclusivo do moreno, batendo na porta duas vezes — Kenken? Tem alguém aqui para vê-lo.

Silêncio se seguiu por alguns minutos, antes da voz do moreno vir do outro lado:

— Eu não quero que você fique me apresentando garotas, Yohji! — ele então abriu a porta, parecendo relativamente irritado — Eu já disse que não tenho interesse em nenhuma...

A voz do moreno morreu quando seus olhos caíram sobre o tenente que ocupava seu sofá. Piscando e esfregando os olhos, o moreno teve medo de que tudo fosse uma ilusão, mas não conteve um sorriso estonteante quando viu que se tratava da realidade:

— Schu!

O moreno correu para o sofá, quase se jogando no mesmo e sendo amparado pelos braços do alemão, que rapidamente ajudaram o jornalista a encontrar uma posição que permitisse a ambos trocar um longo e evidentemente apaixonado beijo. Yohji ficou parado, exatamente onde estava, seus olhos piscando por algumas vezes até ele murmurar:

— Então era por isso que ele não queria nenhuma garota...

O loiro acabou indo para o próprio quarto e deixando os outros dois à vontade na sala, que pareciam disputar uma competição para remover o ar dos pulmões um do outro. Quando finalmente se separaram, Ken tinha um brilho quase sonhador nos olhos, seus braços firmes ao redor do pescoço do tenente.

— Você... Veio?

— Ja. — o outro respondeu, afastando mechas cor de chocolate do rosto do seu ex-protegido, notando que elas estavam mais longas e escondendo parcialmente seus belos olhos azuis — Crawford me mandou para outro curso.

— Ah... — Ken respondeu, pensando que aquela felicidade seria momentânea — Por quanto tempo?

— Não sei, depende do meu empenho. Se eu me adaptar logo, eu termino o curso de adaptação em breve e sou efetivado.

Os olhos do jornalista se arregalaram:

— Você quer dizer que foi transferido para cá? Em caráter permanente?

— Hai. — o outro sorriu.

— Crawford abriu mão de você?

Schuldig fez uma expressão engraçada, como se tivesse sido insultado:

— Ele disse que eu serviria melhor no Japão do que na Alemanha, gastando o precioso tempo dele lá enquanto eu jogava Paciência no meu computador.

Ken irrompeu em risos.

— Você ficou jogando Paciência?

— Ele não me deixava fazer nada de muito perigoso por causa do ferimento, no começo. E depois... Foi porque eu simplesmente andava desatento e me forçou a trabalhar com papelada. Razão pela qual eu fiquei jogando Paciência. Campo Minado também, é bem viciante quando se descobre as regras.

O jornalista ria sem parar agora, imaginando a cena do tenente entediado em seu gabinete. Aproximando os rostos para que mais um beijo pudesse ser compartilhado entre eles, Ken então murmurou próximo dos lábios do tenente:

— Aishiteru.

A resposta do tenente veio em alemão:

— Ich liebe dich.

— Você fica sexy quando fala em alemão... — o jornalista murmurou com um sorriso próximo ao ouvido do outro, que corria uma das suas mãos por baixo da camisa de Ken.

— Hmmm... Eu acho que você ganha quando tenta falar em alemão. E falha miseravelmente.

— Schu! — o outro protestou contra as palavras do outro com um soco fraco no ombro do tenente, que fingiu sentir muita dor com tudo aquilo — Você não merecia aquelas trufas.

— Você não merecia ficar na minha casa e ficou.

Rindo, os dois continuaram a conversar e brincar, todos os momentos de angústia e terror para Ken esquecidos em um passado que embora não fosse distante, já parecia pertencer a uma outra vida para o moreno; uma vida que havia terminado em cinzas para permitir o renascimento de uma nova, com um futuro brilhante a espera dele e, obviamente, Schuldig.

FIM
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