Staub Und aschen
8 Capítulo 7
O dia seguinte chegou carregado de uma atmosfera estranha para Schuldig. Ele se virou na cama pela enésima vez, depois de uma noite muito mal-dormida. As palavras do diplomata ruivo não paravam de se repetir na sua cabeça, e a simples idéia de que algo ou alguém pudesse arrancar Ken da proteção à qual ele estava submetido era...
O tenente cobriu a cabeça com o travesseiro. Nem ele entendia porque estava se sentindo daquela forma, tão superprotetor em relação ao hóspede que tinha na sua casa agora. Não havia nenhuma razão lógica e Ken claramente o odiava depois de ter sido preso por ele. Revirando-se na cama mais uma vez, ele não ouviu a porta do quarto ser aberta em silêncio, admitindo a figura do moreno. — Schuldig? A voz veio baixa e hesitante, como se ele tivesse medo de acordar o tenente. O oficial suspirou, virando-se de barriga para cima e sentando por fim na cama, suas mãos juntando todo o cabelo laranja que estava solto em um nó mais firme do que outra vez que Ken assistira a Schuldig manuseando suas longas mechas. — Ken... Bom dia. — Hey. — o outro sorriu, sentando-se na beirada da cama. Eles haviam comprado algumas roupas para o moreno, mas pijama era algo supérfluo do ponto de vista do policial de modo que Ken dormia com uma calça velha e quase sem elástico de Schuldig, também sem camisa. Primeiro porque o próprio jornalista disse não precisar de uma e em segundo lugar porque era uma visão e tanto — Você já está me chamando de Ken. A observação foi retribuída com um meio-sorriso do alemão. — Bom, já que você não vai nunca me endereçar como tenente, era a coisa mais justa a fazer. — o alemão replicou e inclinou-se para trás, apoiando o peso do seu corpo nos dois braços, esticando os músculos da parte superior do seu corpo enquanto isso — Precisa de alguma coisa? Pode ir fazer café, se quiser. — Ah, não. Não é café. — o moreno respondeu — É que o telefone tocou e como eu achei que você estava dormindo eu atendi. Era Ran... Ele queria saber se posso me encontrar com ele mais tarde. — Ran? — o outro mordeu o lábio inferior. Aquele cretino ruivo já estava rondando Ken novamente — Podemos vê-lo mais tarde. Que horas? — Anh... Schuldig. Ele frisou que não quer mais ninguém junto. Ele quer conversar comigo sozinho. Os olhos azuis do policial se arregalaram ante aquela clara demonstração de audácia do outro homem. Negando com a cabeça, o tenente desceu da cama com movimentos fluidos, abrindo seu guarda-roupa no escuro e observando o moreno pelo reflexo do mesmo em um espelho enquanto começava a se trocar. — Não, Ken. Nem pensar. — Mas por quê? — Porque você é uma testemunha. Eu tenho de acompanhá-lo para qualquer lugar que você for, pode ser perigoso. — Schuldig explicou em um tom de voz paciente, deixando a sua camiseta cair no chão do quarto e se virando para o jornalista — E como diabos ele tem meu telefone? — Não sei. Ele não me disse. A conversa morreu por alguns instantes enquanto o tenente fazia uma incrível jornada pelo seu guarda-roupa em busca de uma blusa limpa, mas logo Ken quebrou o silêncio: — Schuldig, eu acho que não teria problema. Afinal, eu conheço Ran há alguns anos, ele e a Aya-chan... Aquilo foi a gota d\'água para o já estressado policial. Quando Schuldig voltou a pensar com clareza, ele se encontrou sobre a sua cama, o corpo de Ken entre o colchão e ele mesmo. O jornalista parecia assustado com os movimentos repentinos que o outro havia executado, tendo seus pulsos presos contra a cama pelas mãos do tenente. -...Schu? A proximidade dos dois corpos, ambos sem camisa, perturbou ligeiramente o alemão. Ele sacudiu a cabeça e desceu de cima do outro, não sem notar antes que uma marca estranha estava presente na altura do ombro do outro, o oficial não se lembrando de ver nada assim quando Ken fizera a série de abdominais e flexões. — O quê é isso, Ken? — O quê? — o outro perguntou, seguindo os olhos cor de turquesa do policial até onde eles estavam fixados — Ah, uma cicatriz. Ela continua. Ken se levantou da cama e ficou de costas para o outro homem. De fato, as suas costas largas e bronzeadas eram permeadas de linhas levemente rosadas, que indicavam queimaduras já meio antigas. A luz que vinha de fora do quarto não era suficiente para Schuldig tecer mais pensamentos a respeito, de forma que ele perguntou: — Como isso aconteceu? — Faz tempo... — foi a resposta vaga do jornalista ao sentir, de repente, o dedo indicador de Schuldig traçando uma das linhas. Ele fez um barulho baixinho com o fundo da garganta, logo depois continuando a falar — Foi no colegial. O time da nossa escola havia goleado o de uma outra escola, e alguns garotos não gostaram. No final, eles fizeram um plano... Mais uma armadilha. Acabaram prendendo alguns de nós em um galpão do nosso colégio que não era utilizado e atearam fogo. — Mein Gott. — o tenente murmurou para si mesmo, chegando mais perto do outro enquanto ainda observava as cicatrizes — Pegaram os culpados? Alguém se feriu? Além de você, claro.
— Hai. — a resposta de Ken foi quase um suspiro, fazendo com que o oficial tivesse que ficar quase sobre o ombro do outro para ouvir melhor. O moreno tinha fechado os olhos — Na hora que o fogo começou, dois garotos conseguiram escapar por uma janela, e correram para chamar ajuda... Mas eu, um zagueiro e dois centroavantes ficamos presos. Fui o último a ser resgatado e também o que sofreu maiores queimaduras, mas sobrevivi. — Isso explica... Porque seu pai não queria essa vida para você. Ele estava preocupado. O jornalista abriu os olhos e se virou para o policial, descobrindo a proximidade assustadora de ambos. Ele conseguia sentir o calor que a forma recém-descoberta de Schuldig radiava, e ele se encontrou abraçando o outro sem saber por que, chorando no ombro esquerdo do tenente. Com uma calma que ele não demonstrava desde que todo o incidente com Nakamura havia começado, o oficial usou uma das suas mãos para acariciar as costas do moreno, sentindo as cicatrizes enquanto fazia isso. Sua outra mão se concentrou no cabelo macio e cor de chocolate de Ken, o próprio alemão se surpreendendo quando beijou uma mecha castanha suavemente. Naquele momento, o jornalista se afastou dele, com um movimento brusco. O policial piscou, não entendendo direito o que ele havia acabado de fazer, mas nem de longe fingindo não entender a razão daquele súbito afastamento. — Schuldig! Eu lembrei! O tenente ergueu uma sobrancelha. — O quê? — Anos... Tinham anos que eu não pensava no dia daquele incêndio no colegial. Ah, eu não acredito. — Ken colocou as duas mãos nos ombros de Schuldig, apertando-o de leve — Lembra que eu disse que dois jogadores fugiram pela janela? Um deles, Schu... Um deles era Nakamura Hiroki. — Não quero que fique ligando na minha casa. — Que outro jeito propõe para que eu entre em contato com Hidaka-san, então? — Proponho não entrar em contato. — Espirituosa sua sugestão, tenente. Mas creio que já sabe que não a levarei em consideração. — Fujimiya, escute. Se quer conversar com Ken, deverá fazê-lo comigo presente. — Eu acho que isso infringe alguns direitos de Hidaka-san, tenente. — Meu país, minhas regras. — Meu cidadão. — Fujimiya... — Muito bem. Quais são os termos, então? — Eu escolho o local e eu estarei presente também, podendo ouvir a conversa. — Não é advogado, tenente. Não pode fazer isso. — Não tem o direito de pedir uma conversa privativa com Ken também. — Por que não pedimos para Ken-san decidir? -...Tudo bem. Estou mandando os detalhes do nosso encontro para o seu celular. Até mais tarde. Os olhos curiosos do jovem japonês foram invariavelmente atraídos pela vitrine iluminada de uma loja de produtos esportivos; Schuldig sorriu para si mesmo e foi atrás, observando a expressão fascinada no rosto do seu protegido. — Eu vi esses modelos de chuteiras sendo anunciados no Japão. Kami-sama, eles são bonitos. — E caros. — Eu não faço idéia de quanto seja isso. — Melhor continuar sem saber, Ken. — o tenente riu e deu dois tapinhas afetuosos no ombro do outro, que acabou sorrindo também — Embora eu deteste a idéia de ir encontrar aquele Fujimiya, nós estamos atrasados. — Tudo bem. E por que você escolheu um shopping center, Schuldig? Enquanto pegavam a escada rolante que os levaria para o piso superior, o tenente cruzou os braços, apoiado no corrimão que deslizava sozinho. — Mais gente. Muitas pessoas se encontram aqui, não atrairemos atenção por conversar em outra língua ou qualquer coisa. E também, quero evitar encontros próximos da minha casa. — o policial acrescentou, seu olhar meio severo — Não sei até agora quem passou meu endereço e telefone para Fujimiya. Pode ser perigoso se essa informação se espalhar, afinal você está morando comigo. — Hmmm. Eu posso perguntar para ele. Talvez ele me diga a verdade. — Talvez... — o outro concordou com a cabeça, indo na direção de uma pequena praça dentro do shopping onde uma fonte ficava no meio de vários bancos. O diplomata ruivo já estava lá, sentado em um desses bancos e lendo o jornal do dia. Schuldig agradeceu aos céus pelo outro ter tido a decência de não aparecer de terno ou com um crachá proclamando a sua profissão; quanto mais discretos eles fossem, melhor. Cumprimentos foram trocados e dessa vez, Ken notou o óbvio desconforto entre Schuldig e Ran. Embora ele não entendesse direito o que acontecia entre os dois homens mais velhos, era evidente que nenhum deles desejava a presença do outro. O jornalista sentou-se rapidamente do lado do antigo conhecido, em seguida dizendo que não havia problema se o policial escutasse a conversa deles. O ruivo pareceu ligeiramente contrariado e Schuldig não escondeu um pequeno sorriso de triunfo, mas os termos eram aqueles. Ran começou a conversar sobre trivialidades com o repórter, o tenente notando a clássica estratégia para criar confiança naquele que se planeja interrogar ou então extrair informações vitais depois. Irritado com aquela abordagem, o alemão virou para o lado, seus olhos caindo na vitrine de uma grande loja de roupas. O tenente acirrou os olhos. Era impressão sua ou alguém havia acabado de se esconder atrás de um manequim ali dentro? Ran aproveitou a distração do policial e mudou do japonês oficial para um dialeto conhecido da província de Shizuoka. Entretido na conversa, Ken mudou o jeito de falar automaticamente, Schuldig só percebendo minutos depois que a conversa estava sendo travada de um jeito que lhe era mais estranho. Piscando e sem conseguir fazer com que a sensação de que estava sendo observado fosse embora, o tenente cutucou Ken suavemente. — Ken. — Schu? Os olhos violeta de Ran se alargaram ao notar aquela troca de palavras entre os outros dois homens; se Ken já estava chamando o policial por um apelido e o outro havia abandonado o uso do tradicional sobrenome, eles já haviam desenvolvido uma relação mais profunda do que o diplomata supusera inicialmente. E isso não era bom. — Eu ia perguntar sobre o misterioso dialeto de vocês, mas... Não desviem o olhar agora. — o tenente falou pausadamente, grato ao ver que os outros homens tinham obedecido a suas ordens — Acho que estamos sendo observados por alguém de dentro daquela loja de roupas. Um minuto tenso de silêncio se passou entre os três adultos, quebrado então por um riso seco e curto de Ran. O diplomata mexeu no seu cabelo rapidamente, um olhar zombeteiro pousando em Schuldig. — Francamente, tenente. Essa foi a desculpa mais criativa que eu já ouvi de alguém tentando interromper uma conversa. Meus parabéns. — Fujimiya, eu não estou brincando. — o outro respondeu, seu olhar azul novamente adquirindo um brilho que deixava Ken fascinado — Presumo que o treinamento de almofadinhas como você não inclua certas habilidades com a de saber quando se está sendo observado ou não. — O meu treinamento incluiu o que é necessário para um diplomata e não para alguém que patrulha ruas, tenente. Eu gostaria que parasse de denegrir a minha profissão, porque em momento algum eu faltei com respeito à sua. — Acontece que sua profissão é supérflua, senhor primeiro-secretário. — o alemão replicou com ferocidade, levantando-se do banco e pronto para levar Ken embora dali, ainda mais com aquela estranha sensação que não lhe deixava em paz — Acordos em salões suntuosos nunca salvaram a vida de ninguém como um bom... A conversa nada amistosa entre ambos foi interrompida pelo estampido de um revólver, os gritos de várias pessoas servindo como confirmação de que Schuldig não havia imaginado o tiro. O som veio da loja onde, minutos antes, o policial jurara ter visto alguém se escondendo. — Vamos sair daqui! O alemão urgiu os dois japoneses a se levantarem, ficando cada vez mais preocupado com a situação, em especial porque os tiros não haviam cessado. Ele empurrou os dois na direção de um corredor que levava a uma saída de emergência, em seguida retirando o seu próprio revólver de um bolso interno do seu casaco. Nenhum policial, nas circunstâncias em que Schuldig se encontrava, sairia de casa desarmado. Ficando rente a uma parede, ele observou os clientes do shopping jogados no chão, rastejando em busca de abrigo. Provavelmente a segurança já havia sido avisada, mas algo dentro do tenente continuava lhe dizendo que aquilo não era um mero assalto. Quando uma onda de silêncio momentânea se abateu sobre aquele local, Schuldig pensou que o assaltante estava sem munição ou então... Havia escapado da loja e agora estava em outro lugar. Arregalando os olhos depois dessa realização, ele correu de volta até onde os outros dois estavam, ofegando mais por causa do estresse do que por falta de oxigênio no sangue.
— Escutem, vocês dois... Desçam as escadas e sumam daqui. Me esperem na área de segurança do shopping, lá vocês estarão seguros. Ken. — ele parou, lançando um olhar indecifrável para o moreno — Eu quero que você... De repente, um novo tiro estilhaçou a vitrine de uma loja que estava praticamente ao lado da dupla de japoneses, Schuldig se virando em segundos para a direção de onde a bala havia vindo e atirando de volta. Ninguém suspeito parecia estar por ali, e quando o policial se voltou para observar as condições dos outros dois homens, encontrou Ken no chão, sua mão esquerda apertando alguma coisa no braço direito de onde sangue escorria. — Scheiße! Vamos sair daqui, agora! Deixando que o jornalista se escorasse nele, o alemão desceu as escadas com o moreno, Ran vindo logo atrás. O diplomata não perdeu o olhar estranhamente preocupado que Schuldig lançara minutos antes na direção do seu conterrâneo, e começava a entender cada vez mais a preocupação e a irritação do tenente em relação a ele. Schuldig havia se afeiçoado a Ken. Uma fraqueza imperdoável e que poderia ser explorada no momento oportuno. Quando os dois chegaram no térreo, Schuldig sentou Ken contra uma parede pediu para examinar o ferimento, grato quando percebeu que eram somente estilhaços de vidro que haviam entrado na carne do seu protegido. Xingando-se por ter permitido que o outro saísse de casa sem um casaco que o teria protegido melhor, o policial esqueceu da presença do diplomata até o momento em que ele falou: — Devemos ir para um hospital. — Não. — o outro respondeu, se levantando depois de ter examinado o problema de Ken — Vão nos procurar em um hospital próximo daqui, com certeza. — Mas ele precisa ser tratado! — o ruivo contra-atacou. — Concordo com você pela primeira vez. — Schuldig respondeu, levantando Ken do chão e pedindo a ajuda do ruivo — Você veio de carro? — Sim. — o outro replicou, notando que caminhavam na direção da saída. — Ótimo. Você dirige e eu explico o caminho. Vamos cuidar de Ken em um lugar calmo... E seguro. E não se preocupe com limites de velocidade, já que seu carro não pode ser multado mesmo... Essas malditas imunidades diplomáticas vieram a calhar. O primeiro-secretário sorriu por fim, concordando.Continua...
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