Starved
5 Armageddon
Notas iniciais
Finalmente a chuva começou a cair, e ela purificava o ar. A poeira que pairava sobre a rua foi sendo neutralizada.
– Pensei que nunca mais veria uma chuva na minha vida! – Erick se entusiasmou com o fenômeno.
– Também, é bom que cobre qualquer rastro que deixamos. – disse Bruno enquanto sentava em um canto.
– Está tudo pronto. – disse Erick entrando no estabelecimento vazio que estávamos.
– Como iremos acender o fogo nessa chuva? E seja lá o que for, já molhou. – virei o rosto para o lado, parecendo uma criança birrenta.
– Michael ainda está lá? – Bruno fez sinal com a cabeça para o banheiro do estabelecimento, que não funcionava mais.
– Acho que sim. John, vê se ele sai de... – parei de falar, percebendo que havia citado o nome da pessoa que acabou de morrer. – Merda. Nunca vou me acostumar com isso. – bati com a palma da mão na parede.
– Não é fácil, Carl. – Emma falou, finamente mostrando sinal de vida.
– Mas ele era tão legal, quer dizer, ele era realmente uma boa pessoa. Agora eu perdi dois amigos para esse apocalipse maldito. Eu não quero perder mais ninguém. – Eu parecia uma garotinha, falando como se fosse totalmente dependente deles, e de fato eu era. Eles me salvaram algumas vezes, me apoiaram em outras. Mas sempre estavam ao meu lado. E agora eu percebo, eu tenho medo de estar só.
Depois de um tempo bastante deprimente e silencioso, a chuva passou. Bruno pegou um galão de gasolina que estava num canto, provavelmente ele trouxe da van. Então caminhamos até uma pilha grande de madeira, papel e outras coisas.
– Me sinto deprimida vendo esse funeral lastimável. – Emma falou, como se não fosse nada. Mas ela não o conhecia.
– Alguém quer dizer algo? – Erick pegou o galão da mão de Bruno e derramou na pilha de coisas em que o corpo de John estava.
– Só queria dizer que ele era um dos poucos que mantinha os padrões nesse mundo apocalíptico. Vai fazer muita falta. – disse Bruno, sua voz estava bastante melancólica.
– Eu... não sei o que dizer, ele foi tão importante para todos nós daqui. Apesar de severo, ele era gentil. – Meus olhos arderam e as lágrimas desceram involuntariamente.
– Ele sempre ficou ao meu lado, sempre me apoiou. O engraçado é que eu o tinha como um pai. – Michael deu uma pausa, soluçando. – Que merda... cara. Porque ele não atirou em mim em... vez de você? Eu não sei se consigo viver sem você. John, cara... me ajuda, não sei o que... fazer. – Todos lacrimejaram diante da cena. Nosso grupo agora tem um vazio, e nunca mais será preenchido. Meus olhos não aguentavam mais, então as lágrimas desceram de uma vez. Contraí a minha mão com força e abaixei a cabeça. Apenas pense em um lugar agradável, não é isso? Michael se aproximou da pilha e atirou um anel que estava em seu bolso.
– Então... agora é o adeus. – Erick queimou um pedaço de papel com um isqueiro e o jogou na pilha. O fogo se espalhou rapidamente e começou a consumir o corpo de John.
Todos entraram na construção novamente, porém Michael continuava do lado de fora, exceto Michael. Ele continuava parado ao lado das chamas que criou um rastro de fumaça.
– Precisamos ir, sério. – falou Bruno, constatando que estávamos sem comida.
– Estou morrendo de fome, tem quase 20 horas que não comemos nada. Daqui a pouco anoitece. – falei, olhando pela vitrine. Michael ainda estava lá. Eu não sabia o que ele pensava, nem o que faria agora.
Esperamos mais uns trinta minutos, planejando o que faríamos a seguir. Estávamos sem rumo e totalmente perdidos agora. Então, depois de um breve silêncio, Bruno levantou do chão.
– Agora precisamos realmente partir. – disse Bruno. Todos acenaram e se levantaram. O céu estava novamente escuro, mas não aparentava ser uma chuva.
– Vamos lá. Eu cuido do Michael. – falei enquanto caminhava até a porta. A abri e então fui em direção a ele.
– Até agora não entendo. – ele disse, sem tirar os olhos da pilha de coisas queimadas.
– Não foi culpa de ninguém, Michael. Tinha quatro alvos, ele escolheu um. – falei, colocando minha mão em seu ombro. – Precisamos ir, estamos sem comida. – falei, me afastando dele e caminhando até o grupo, que já estava fora do estabelecimento. Não passou alguns segundos e Michael veio atrás de nós.
– Sem nos separar, não com aquele maluco atrás da gente. – Bruno falava enquanto olhava as placas de algumas lojas.
– Vou ver nesse beco. – falei, apontando para um caminho um pouco escuro.
– Certo, vê se não se perde nos escombros. – Erick disse, apontando a arma para os cantos. Os outros assentiram. Então caminhei cuidadosamente até o beco. Estava um pouco escuro, porém havia um brilho metálico vindo do fundo. Caminhei até o brilho desconhecido e percebi que era um carrinho de compras.
– Achei a sorte grande! – gritei para eles, todos se aproximaram de mim. O carrinho estava cheio de comida, de todo tipo. Nenhuma parecia vencida.
– Com certeza é de alguém. – falou Michael, depois de muito tempo sem abrir a boca.
– O que vocês estão fazendo com meu... – uma desconhecida adentrou o beco e Emma interrompeu ela com um tiro em seu peito. A estranha tombou no chão, então Emma atirou novamente em sua cabeça.
– O carrinho é nosso. – Emma se aproximou da gente.
– Sua maluca! – Bruno gritou para ela.
– A gente não precisava fazer isso! – disse Erick.
– Nós precisamos da comida! É tudo questão de vida ou morte aqui. Aprendam. Ela apontou o dedo do meio para todos e caminhou em direção ao carrinho.
Apesar da culpa, todos comemos do carrinho. Claro que entramos numa loja qualquer da rua. Na maior parte do tempo eu apenas pensava em Joana, sabia que sua condição era melhor que a nossa. Não passou mais de uma hora e então eu dormi.
–--
Já era dia, me levantei relutante e fui até a entrada da loja. Então vi uma menina que estava virada de costas.
– Joana! – eu sussurrei, totalmente animado. Porém ao virá-la percebi que tua face estava assustada.
– Corra, Carl. Ele está aqui. – sussurrou de volta, apontando para a rua que vinha depois da qual estávamos.
– Roberto? Ele está... me caçando? – perguntei, assustado.
– Se ele te encontrar... ele vai te matar, corra! Carl, corra! – ela me empurrou, então eu ouvi sons de passos se aproximando. Me virei e percebi que era Michael, Bruno, Erick e Emma.
– Corram! – sussurrei, me aproximando deles rapidamente. – Corram logo! Roberto... – falei, puxando Michael pelo braço. Todos entenderam e então continuamos a andar rapidamente na direção oposta.
Um disparo atingiu uma pedra ao lado de Emma, nós nos escondemos atrás de um muro. Todos tínhamos armas, assim como eles. O tempo estava quente, devia ser meio dia.
– Vamos resolver isso, ok? – disse Roberto enquanto caminhava em nossa direção, junto com uns 10 homens. Bruno atirou em seu peito, ele caiu no chão e então não levantou mais. Os seus subordinados continuaram avançando.
– Agora vocês! – Bruno continuou atirando, errando alguns disparos. Todos levantamos e atiramos neles. Os lunáticos imediatamente pegaram cobertura. Uma bala atingiu Bruno na testa. O seu corpo caiu rapidamente no chão, ele não esboçou reação alguma. Dois amigos em apenas três dias. Eu não aguentava mais, então fui tomado pela fúria.
– Façam uma supressão pesada, eu e Erick arrodeamos e então finalizamos eles! – sugeri, todos concordaram com a cabeça. Então o plano foi colocado em prática. Michael e Emma atiravam neles, enquanto Erick e eu pegamos a rua ao lado. Os disparos eram frenéticos e realmente audíveis. Seguindo com cautela, não demorou um minuto até chegarmos em suas costas. Então começou o plano final. Matá-los.
Atirei rapidamente em todos eles, porém só atingiu três. E Erick eliminou outros quatro, sobrando apenas um. Este atirou no ombro de Erick, que cambaleou e caiu no chão. Eu o ouvi se aproximar até a proteção que estava. Então saltei nele e ele me recebeu com um tiro que passou de raspão na minha cintura, então o soquei forte no rosto.
Ele tropeçou para trás e caiu, aproveitando a chance, me lancei em seu peito com os joelhos e comecei a espancá-lo. Não demorou muito até ele virar o jogo e começar a socar meu rosto com muita força. Nas primeiras pancadas eu tentei me defender. Depois perdi as forças e apenas senti cada pancada esmagando meus músculos e meu nariz. Os outros se aproximaram e derrubaram ele, tirando de cima de mim.
Michael agora perto, tocou meu rosto, sua mão estava trêmula. Eu não conseguia enxergar direito, mas sabia que acabou. Tudo acabou, esse era o fim deles.
– Mais um não, por favor... Carl. – ele chorava, nem tentava esconder nada. Apenas chorava e tremia.
– Eu estou bem. – menti para ele, sentia cada pedaço do meu rosto pulsar, e meu nariz queimava.
– Graças a Deus... Cara... – ele estava rindo de alívio, passou a mão no rosto e então sentou ao meu lado. Emma devia estar cuidando de Erick, então eu vi Joana. Ela se aproximou de mim e segurou a minha mão, dando um beijo nela.
– Seria no rosto se ele não estivesse esfolado. – ela disse, sem sorrir.
– Você continua uma peça. – sorri para ela. Emma veio até nós. Erick estava apoiado em seus ombros, mancando.
–--
Fazia três horas que tudo estava bem. Nós tínhamos comida, um teto, e o melhor de tudo era que estávamos unidos. Tudo parecia bem.
– Joana! Apareça! – A voz distinta e familiar ecoou pela rua, Roberto.
– Seu filho da mãe! Saia daqui! – Michael gritou para ele, porém estava sem balas na sua arma. Todos estávamos descarregados.
– Saiam daqui. – falei para o grupo, então abri a porta e me aproximei de Roberto, que estava com a arma apontada para mim.
– Quero ter o prazer de cravar uma pedra em seu crânio. – ele falou.
– Antes me diga uma coisa, porque queimar pessoas e roubá-los em nome de Deus? – perguntei, com minha arma apontada, mesmo descarregada, ela ainda surtia medo.
– Simples, quando as pessoas estão desoladas e assustadas, elas fazem tudo. Elas foram minhas marionetes, tudo porque aceitaram uma religião falsa em meio ao desespero.
– Você é esperto, mas não tanto. – falei, cortando a conversa e me aproximando dele. Roberto jogou sua pistola em meu braço, o ferro estalou em meu pulso. Com a dor, me distraí e então ele me socou no rosto. Eu tinha certeza que isso não iria sarar.
Ao atacá-lo, percebi que ele estava de colete. Minhas mãos doeram com o impacto no kevlar. Então ele me socou mais e mais. Eu me senti indignado com toda essa reviravolta. Me levantei com uma pedra na mão e a esmaguei em sua face. Senti cada osso de minha mão estralar, e seus ossos do rosto também.
Ele me xingou e então pegou sua pistola do chão enquanto eu me recuperava da pancada. Roberto tentou atirar em mim e então errou o primeiro disparo. Me joguei no chão e segurei uma barra de ferro com uma ponta afiada
– Não usa faca em briga de arma. – disse ele, atirando em minha perna. Com um último impulso eu me atirei em seu corpo e estaquei o ferro em sua garganta. O sangue jorrou em minha roupa e ofuscou minha visão. Ele levantou a mão e atirou em mim. Senti os disparos seguidos, um, dois, três. Então apenas caí no chão e não conseguia me mover.
Todos saíram da casa ao me ver caído. Eles se aproximaram de mim e se ajoelharam ao meu lado. Joana e Michael choravam.
– Emma e Erick fugiram. Como eles disseram antes. – disse Michael.
– Carl, não morra... – ela disse. Apoiando sua cabeça em meu peito. Nessa hora senti toda a dor do mundo, mas eu não liguei.
– Eu sempre estarei com você. Mas agora... tente o campo, as cidades estão ficando vazias e hostis. – falei, a minha voz estava falha e bastante baixa.
– Adeus, Carl. – Joana chorava, então ela levantou e começou a chorar de costas para mim, como se não aguentasse ver meu estado.
– Adeus, cara. – Michael se aproximou de mim e me deu um breve abraço.
Eu sorri para ele. Michael realmente era um amigo. Um dos melhores, eu o considerava demais.
– Quer que eu... – ele apontou para a pistola. Eu neguei com a cabeça.
– Quero passar o último momento... – minha voz falhou de vez, não conseguia falar mais nada. Michael sinalizou Joana, então ambos me olharam nos olhos. Eu não podia morrer, eles eram tão importantes para mim, e eu ia deixá-los nesse mundo.
Minha visão foi escurecendo até que eu não vi mais nada. Apenas escutei uma frase, que ambos disseram:
– Eu te amo.
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