Start?
34 #30 - Perguntas e Respostas
Notas iniciais
Depois do beijo, eu pensei que sabia o que ia acontecer. Iríamos nos arrepender, ou talvez só um de nós se arrependesse. Iríamos até o hotel num silêncio estranho e constrangido, hesitaríamos antes de entrar no quarto duplo que estavamos dividindo e antes de dormir alguém faria questão de deixar claro que “foi um impulso, não devia ter sido assim, vamos fingir que não aconteceu”. Num primeiro momento, pensei que essa seria eu. Já estava esperando uma tsunami de culpa me invadir por ter beijado meu parceiro, mas me surpreendi ao perceber que não foi tudo isso. Apesar de estar meio desconfortável com a situação, e me sentindo um pouco como se tivesse feito algo errado e precisasse me esconder, meu pensamento mais coerente era a vontade de esfregar na cara do Kid que eu fiquei com o Soul de propósito porque ele brigou comigo.
Além disso, estava meio difícil manter a coerência. A sensação de estar abraçada, de beijar Soul, ainda era recente demais. Eu quase podia sentir seus lábios nos meus, e o fato dele estar ao meu lado, andando perto o suficiente para que nossos braços roçassem, não ajudava muito. Tentei me acalmar mantendo em mente que, se não era eu a culpada ali, devia ser o Soul. Me incomodava que ele pudesse estar pensando na Liz depois daquele beijo, mas me parecia bem possível, ainda mais porque ele olhava fixamente para frente, para o chão, para a lua, para qualquer lugar que não fosse eu.
Ok. Eu sei lidar com isso.
Já estava abrindo a boca para a declaração de “isso foi um erro” – pelo menos eu sairia por cima, certo? – quando descobri que estava errada de novo.
– Maka?
A voz de Soul soou baixa e hesitante. Ergui a cabeça para encará-lo, curiosa, e foi engraçado ver aquela expressão quase constrangida nele.
– Sim?
– Não é nada. – Disse, após um momento de silêncio, se virando de volta para qualquer lugar que não fosse eu. – É só que... Sei lá. Sabe?
– Não. – Respondi, segurando para não rir.
Ele bufou, sem graça, e disse simplesmente:
– Foi bom.
Senti um sorriso se esgueirar suavemente pelo meu rosto, e acabei soltando um risinho involuntário. Soul me encarou, mas o ignorei, tentando focar em deixar meu rosto relaxado. Óbvio que não funcionou.
– Foi bom. – Repeti, e pelo olhar que Soul me lançou, ele sabia que eu não estava simplesmente imitando-o.
Ficamos nos encarando um pouco mais do que deveríamos. Ele sorriu de lado, eu ri de novo e abaixei a cabeça. Soul passou os braços por cima dos meus ombros, me trazendo para mais perto dele com um sorriso exageradamente orgulhoso no rosto. Tive vontade de zoar daquela cara, mas fiquei quieta. Falar significava pensar, e eu não queria fazer isso. O silêncio só durou até Soul começar a cantarolar uma musiquinha qualquer e eu perguntar qual era. Ele começou a falar sobre a banda, e sobre a música, e notas e tons e um milhão de coisas que eu não entendia direito, mas eu assentia e comentava algo que o fizesse continuar, porque era legal ouví-lo falando.
Quando chegamos no hotel que complicou um pouco. Fomos direto para o banheiro do quarto, eu e Soul, e ligamos para fazer o relatório da missão para o Shinigami-sama – e só então Soul se afastou um pouco mais de mim. Levamos uma bronca por não termos dado notícias ontem, já que aparentemente meu pai emtrou em desespero e ficou chorando pela escola toda, mas demos a desculpa que não queríamos dar notícias pela metade. Então contamos como tudo aconteceu. Deixamos de fora a parte do meu ataque de pânico, falamos apenas que preferimos recuar por estarmos cansados, e esperar para atacar no outro dia. E nem chegamos perto de falar nada sobre o beijo. Mas isso não nos impediu de corar e nos entreolhar quando o Shinigami-sama disse que éramos parceiros de verdade novamente.
Depois que ele desligou, Soul saiu do banheiro, dizendo que ia começar a arrumar as coisas dele logo, e eu aproveitei para pegar minhas coisas e me aprontar para dormir. Teríamos que acordar cedo amanhã, e hoje foi uma longa noite. Peguei minhas coisas no quarto e me enfiei no banheiro, mas não demorei muito, dez minutos no máximo. Quando saí, devidamente vestida na minha roupa de dormir – um conjunto de moleton quentinho e folgado – Soul estava sentado no sofá, olhando para a tv desligada. Por um momento fiquei com vergonha daquelas roupas de velha, mas não era como se o Soul nunca tivesse me visto com aquele pijama, e isso me acalmou um pouco.
Quando ele notou que eu já havia saído do banheiro, deu um tapinha no lugar ao seu lado no sofá.
– Vem cá. Eu estava te esperando.
Ele parecia um pouco preocupado, então quando sentei ao seu lado, já estava começando a ficar preocupada também. Soul se aproximou mais de mim e colocou o braço no encosto do sofá, quase me tocando. Então me encarou, sério.
– Maka, quero que me prometa uma coisa.
Assenti, quase sem pensar a respeito. Soul suspirou e sua preocupação pareceu piorar.
– Me promete que mesmo se nada der certo, a gente não vai brigar de novo?
E foi então que eu percebi. Não era só preocupação, era confusão também. Eu tinha um monte de perguntas rodando pela minha cabeça, e estava tentando mantê-las sob controle desde que Soul me beijou. Algumas delas eram para ele, e outras eram para mim mesma, mas eu não fazia idéia da resposta. Ele estava se sentindo assim também. Eu quase podia ler as perguntas nos olhos deles, e eram parecidas com as minhas, mas ele sabia tanto quanto eu.
– Claro que eu prometo. – Garanti, sorrindo de leve, meio culpada e meio decepcionada ao mesmo tempo. – Não importa o que aconteça, vamos ficar bem.
Soul sorriu de leve para mim, e então se aproximou até nossos narizes se tocarem. Fechei os olhos e me concentrei em expulsar todas as perguntas e simplesmente deixar acontecer, como eu estava fazendo a noite toda. Eu não precisava pensar no futuro agora.
Quando ele me beijou, foi mais lento, mas de algum modo ainda havia a mesma impetuosidade de antes. Sua boca contra a minha era quente, firme. Ele moveu o braço que estava no encosto do sofá, me abraçando pelos ombros, e segurou meu queixo com a outra mão, me impedindo de me afastar. Como se eu quizesse ir. Segurei na parte da frente da sua camiseta, puxando-o para mais perto, até que estivéssemos quase colados, e então o abraçei, subindo mais no sofá para tentar ficar numa posição mais confortável. Soul aproveitou esse momento para enlaçar minha cintura e me puxar para ele, se virando um pouco, de modo que acabei sentada em sua coxa.
Suspirei, consciente demais das camadas de tecido que separavam minha pele da dele, e mordi seu lábio inferior, sugando-o suavemente. Senti o coração de Soul acelerar contra o meu peito. O beijo se tornou mais rápido, e as mão do meu parceiro desceram para a minha cintura, se esgueirando por dentro da minha blusa de frio até esbarrarem no fecho do meu sutiã. Isso me assustou, e acabei dando um pulo, saindo de seu colo e me pondo de pé. Por pouco não me desequilibrei e caí. Soul me encarou por um momento, parecendo meio confuso, até sua expressão se suavizar num sorriso sem graça.
– Fui muito rápido?
Apenas assenti, tão sem graça quanto ele.
– Desculpa, eu não queria te assustar.
– Sem problema.
Minha voz saiu meio estranha, e isso fez meu parceiro sorrir. Acabei rindo também, pegando uma almofada do sofá e jogando nele.
– Hey! Não me olha assim!
– Claro que não.
Mas continuou olhando do mesmo jeito, então revirei os olhos e anunciei:
– Ok, eu vou dormir. E você também deveria. Vamos ter que acordar cedo amanhã.
Ele apenas assentiu, me dando boa noite, então fui em direção ao meu quarto. Quando abri a porta, no entanto, Soul me chamou.
– Maka. Podemos ficar assim por um tempo, né?
Me virei para ele, sorrindo suavemente.
– Não vamos nos preocupar com isso agora.
E então finalmente entrei no meu quarto.
***
A viagem de volta para Death City foi tranquila, apesar de o pessoal da Shibusen ter marcado nosso vôo para as sete da manhã. Ou talvez esse seja o motivo, já que eu e Soul tivemos que acordar antes das cinco para dar tempo de chegar no aeroporto com uma hora de antecedência. Havíamos chegado da missão ontem pouco depois das onze da noite, e acordamos cedo demais, então passamos quase todo o vôo de quatro horas dormindo. Lembro de apagar pouco depois que a aeromoça acabou de dar as instruções de segurança, acordar por alguns momentos para dar uma olhada em volta, voltar a dormir e acordar de novo uns vinte minutos antes de chegarmos na cidade.
As coisas entre mim e Soul estavam tranquilas também. Nenhum de nós falava sobre o beijo, apenas agíamos normalmente, e aquilo me parecia tão estranho quanto era um alívio. Se ele me perguntasse algo, eu não saberia como responder, então eu secretamente agradecia por aquele silêncio sobre o assunto. Ao invés disso, conversamos sobre o que teríamos que botar em dia quando voltássemos para a Shibusen, sobre quando faríamos mais alguma missão e se Blair havia destruído a casa enquanto ficamos fora.
Só que pensar na Shibusen me lembrava demais do Kid.
Eu sabia que teria de encará-lo, e que isso aconteceria amanhã, no máximo. Não sabia se estava ansiosa ou nervosa. Não me arrependia de ter ficado com o Soul – não me arrependia mesmo – mas quando lembrava do Kid parecia que fiz algo terrivelmente errado. Não deveria, já que ele brigou comigo, disse que estava brincando com ele e terminou o que quer que houvesse entre nós. Mas era o Kid, e eu ainda assim me importava.
Então, depos que desci do avião e tive meu reencontro com Chairoo – ele ainda estava no estacionamento do aeroporto, no mesmo lugar que o deixei no dia que fomos para Detroit – eu comecei a me preocupar com isso. A conversa de Soul ajudou a distrair, mas não totalmente. Estava bem consciente do meu celular, ainda desligado, no bolso lateral da mochila, e das ligações que eu sabia que Kid havia feito para me procurar. Estava orgulhosa e com medo ao mesmo tempo.
Melhor não pensar demais nisso.
***
– Chegamos! – Anunciei, entrando no meu apartamento, super satisfeita em finalmente estar em casa. Soul veio atrás de mim e se jogou no sofá, deixando a mochila no meio da sala.
Abri a boca para mandar que não deixasse as coisas no meio da casa, mas não tive tempo. Quase imediatamente Blair apareceu, na forma humana, e pulou em cima de mim, me abraçando.
– Maka-chan! Eu estava com tanta saudade! – Choramingou, me apertando, enquanto eu a abraçava de volta, surpresa com a recepção calorosa. – Eu não sabia fazer nada! Tive que comer no cabaré esse tempo todo! – Ah. Entendi.
– Então não tem almoço? – Soul resmungou, sem se dar ao trabalho de levantar do sofá. Isso também me preocupou. Já era quase meio dia.
Blair fez que não com a cabeça, tristemente.
– Tem um resto de pizza que o Soul-kun comprou sábado. E peixe cru. – Acrescentou, como se fosse uma ótima notícia.
Suspirei, cansada.
– Melhor fazer o almoço.
– Não precisa. Pedi para o Black trazer. – Soul sorriu, jogando o celular em minha direção.
Consegui me desvencilhar de Blair a tempo de pegá-lo no ar. Soul havia mandado uma mensagem para Black avisando que já estávamos em casa e convidando ele e Tsubaki para virem almoçar e trazerem a comida. Encarei a tela, mordendo de leve o lábio inferior, em dúvida.
– Eu provavelmente deveria ter avisado a Tsubaki também...
– Ela vai te bater, Maka-chan! – Blair anunciou, batendo palmas.
– Não se preocupe. – Soul disse, com a voz baixa. – Eu te protejo.
Me virei e joguei o celular de volta para ele, lhe dando língua. Foi meio constrangedor porque ele o pegou depois olhou para a minha boca, mordendo o lábio inferior, e eu corei um pouco.
– Vou tomar banho. – Anunciei. – Soul, leva essa mochila para o quarto antes que os dois cheguem, ok?
– Claro, mamãe. – Ele riu.
Depois que deixei a minha mochila no quarto, tomei um banho e coloquei um short jeans e uma camiseta confortável, não demorou muito para que Black e Tsu chegassem. Soul ainda ainda nem havia acabado seu banho quando Black entrou na minha sala, gritando que o grande eu estava presente para acabar com a nossa fome. Minha melhor amiga veio logo atrás, e me lançou um olhar maligno antes de deixar uma travessa de lasanha na bancada e começar a me acusar de ser uma péssima amiga por não dar notícias durante a missão. Me desculpei, e disse que não havia ligado o celular ainda desde o fim de semana. Ela me lançou um olhar estranho, e eu sabia o que estava pensando, mas nenhuma de nós falou nada.
Logo depois o Soul saiu do banheiro, deu um abraço emocionado no Black e nós cinco fomos almoçar. Soul contou a Black e a Blair como foi a nossa missão, e deles ele não escondeu nem o meu ataque de pânico. Enquanto isso a Tsubaki me contava como foram as aulas na Shibusen nesses três dias e me lançava olhares que diziam que ela não estava falando tudo que eu precisava saber. Até que de repente Soul me solta essa:
– Ah, e eu peguei a Maka.
A cozinha ficou em silêncio absoluto por alguns instantes, enquanto o pessoal olhava de mim para ele, sem acreditar direito. Lancei meu pior olhar de “você está morto” para o meu parceiro, mal acreditando no que ele havia dito, mas Soul só fez sorrir para mim, orgulhoso.
Foi Black que finalmente quebrou o silêncio, rindo enquanto dava tapinhas nas costas do amigo.
– Aê, cara, pensei que ia ficar na friendzone para sempre!
– Soul! – Reclamei, ultrajada, sentindo meu rosto pegar fogo.
Ele só deu de ombros.
– Eu ia contar para o Black e você ia contar pra Blair e pra Tsubaki. Qual o problema? Só estou simplificando as coisas.
– E como você não me contou isso, Maka? – Tsu disse, com a voz magoada.
– Pensei que fôssemos suas amigas! A gente tinha que saber na hora! – Blair completou, fazendo bico.
Lancei outra olhada pro Soul, tentando deixar bem claro que aquele era um dos problemas, e então tive que lidar com duas amigas chateadas por, segundo elas, “não saberem nada da minha vida”. Eu juro que o Soul não acorda amanhã.
Passamos o resto do almoço sendo zoados metade do tempo. A outra metade foi o Black falando de si mesmo, como sempre. Depois de almoçarmos, as meninas simplesmente me arrastaram para fora de casa, sob os olhares surpresos dos garotos, me enfiaram dentro do elevador e cruzaram os braços, me encarando, sérias.
– Ok, pode começar a falar. – Tsubaki intimou, estreitando os olhos, enquanto Blair clicava no botão do andar térreo. O elevador começou a descer.
Suspirei, sem graça, sem saber por onde começar. Desviei o olhar para o lado, tentando organizar os pensamentos, e dei de cara com a minha imagem no espelho. Eu estava tão vermelha que parecia um tomate, e meu rosto estava repuxado num sorrisinho. Tratei de desfazê-lo, me lembrando que deveria querer matar o Soul por ter soltado aquela pérola durante o almoço, e me virei de volta para as meninas.
– É uma história meio longa.
– Temos tempo. – Blair sorriu.
O elevador parou, e nós três saímos e fomos nos sentar nos degraus de entrada do prédio, longe o suficiente do porteiro para que ele não ouvisse nada. E então comecei a contar.
Foi estranho falar tudo aquilo em voz alta. Parecia que Detroit era outra dimensão, algo que se encaixava e não se encaixava em Death City ao mesmo tempo, um clima diferente. Foram estranhas também as reações das meninas. A cada palavra que eu dizia, Blair parecia mais feliz, a ponto de explodir, mas Tsubaki parecia mais confusa do que tudo. Eu não esperava aquilo. Quando acabei, Blair me abraçou, parecendo super satisfeita.
– Então vocês são amigos de novo!
Por um momento eu duvidei seriamente que ela houvesse escutado algo que falei.
– Bom, Blair, a gente meio que ficou...
– Mas vocês fizeram as pazes. E não estão namorando. Então são amigos, Maka-chan, e ponto final.
Achei melhor não questionar aquela lógica – ela não estava errada, afinal – então dei de ombros, assentindo com a cabeça.
– Então você não sabe como vão ficar? – Tsubaki perguntou, finalmente.
– Não, a gente só... Vai deixar assim, por enquanto. – Respondi.
– Está seguindo a minha tática. – Blair declarou, orgulhosa, me abraçando por cima do ombro.
Tsubaki suspirou, entrelaçando as mãos em seu colo.
– É, você não ligou o celular mesmo...
Inclinei a cabeça em direção a ela, sem entender, e ao notar o meu olhar, ela perguntou:
– E o Kid?
Então era isso.
– Ele me deixou. – Disse, sem ter coragem de olhar para nenhuma delas. Ao invés disso, comecei a mexer na barra do meu short, para ter algo a fazer com as mãos. – Disse que eu estava brincando com ele e que não queria uma garota que nem mesmo sabe o que quer.
– Mas você não sabe. – Blair disse.
Lancei um olhar de advertência para ela, e acho que Tsubaki fez o mesmo ao meu lado, porque Blair olhou de uma para a outra e se virou para a rua, resmungando desculpas. Me virei também, observando os carros passarem.
– Ele terminou comigo, Tsubaki, eu não fiz nada de errado.
– Eu sei que não fez. – Concordou. – Achei legal você ter feito as pazes com o Soul, e pelo jeito, ele beija bem. – Acrescentou, sorrindo.
– Até fiquei curiosa. – Blair concordou, me dando um beijo estalado na bochecha para que eu soubesse que era brincadeira.
– É só que acho que o Kid não está muito feliz por estar longe de você. – Tsubaki continuou. – Ele estava com uma cara bem ruinzinha na escola esses dias, e estava morrendo de preocupação por causa de você. Ficou me pedindo notícias suas o tempo todo.
Meu coração se apertou e se encheu ao mesmo tempo. Preocupado comigo. Imaginei Kid sentado no seu lugar na sala, olhando para o professor sem realmente vê-lo, com a testa franzida e a mão no queixo, como ele costuma fazer. Um sorriso acabou me escapando, mas escondi-o rapidamente.
– Ele só deve estar se sentindo culpado por ter me ofendido.
– Sim, mas acho que não é só isso, Maka, e você sabe que não é.
– Tá, e o que você quer que eu diga? – Perguntei, encarando-a seriamente. – Que eu gostei de saber que ele está preocupado comigo? Gostei. Que eu queria que ele se arrependesse? Queria. Mas pra que ter esperança? Como a Blair disse, eu não sei o que quero. E assim que o Kid souber que fiquei com o Soul, ele definitivamente vai me odiar. Eu não quero ficar lembrando disso.
Mas ela já havia tocado no assunto, e agora eu não parava de pensar que Kid me olharia do mesmo modo que olhou quando brigamos. Mágoa, e decepção. E aquela expressão, como se não valesse a pena perder tempo comigo. Eu sabia que não passaria por aquilo de novo sem sentir nada, e não via motivo para antecipar isso. Eu não devia nem ter ficado feliz por ele ter me procurado enquanto eu estava fora, só tornaria tudo pior depois.
– Tudo bem, Maka, me desculpa... – Tsubaki pediu, meio culpada. – Não queria te chatear. É só que... Não sei. Ele pediu para perguntar se você tinha visto as mensagens dele, então acho que te mandou algo.
– Depois dou uma olhada. – Respondi, tentando não dar muita importância. – Não deve ser nada demais.
O problema é que eu tinha certeza que era.
Ficamos alguns momentos ali, nós três olhando para a rua, sem falar nada. Eu estava meio que pensando em Soul, e em Kid. Não queria realmente que o Kid ficasse com raiva de mim... Não queria que ele me deixasse. Mas provavelmente seria o que ia acontecer.
– Ah, acho que vocês vão gostar de ouvir uma coisa...
O tom de voz da Tsubaki saiu engraçado, como se ela estivesse se segurando, então eu e Blair nos viramos para ela. Tsubaki estava sorrindo, mordendo o lábio inferior, e meio vermelha. Ergui as sobrancelhas, sem entender, mas foi Blair quem perguntou:
– O que aconteceu?
Tsubaki sorriu, orgulhosa, antes de anunciar:
– A Maka não foi a única que fez algo... Diferente, com seu parceiro.
E pela próxima hora, o único garoto que ocupou o pensamento de nós três foi o Black*Star.
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