Stars On Ice
3 O passado dita o futuro
Estava sentada no fundo do restaurante bebendo e tentando me distrair. Minha cabeça rodava, e era como se tudo voltasse de novo as lembranças, a dor, o abandono, a decepção, então desisto de lutar contra. E todas as memorias me atingem como uma bala.
“ – Eu sei que você sente falta dela, eu também sinto. Mas eu tenho você e você pode contar comigo pro que der e vier. Eu te amo Abbe.”
“ – O que você pensava queridinha? Que ele está aqui por você? Se enganou completamente, ele era amante da sua mãe e agora que ela não está viva ele achou que poderia conseguir algo com a filha também. Eu tenho pena de você”
“ – Abbe... eu não te usei, juro que não confia em mim.
– Eu tenho que desliga.
– Não, não desliga eu... “
Tudo parecia querer de mais de mim. E quando o vejo sentar na minha frente resolvo adiantar as coisas.
– Pode começar a falar.
– Preciso saber o que aconteceu. Depois de tudo... você nem parece a mesma.
– Já pensou que é porque talvez eu não seja? Você acabou comigo, me tirou tudo o que tinha.
– Eu não obriguei sua mãe a nada Abbe. Só descobri tarde demais que não amava ela como pensava que amava. Não destruí sua família, ela já estava destruída bem antes de tudo acontecer.
– Cale a boca, você não tem o direito de falar assim dela.
– Pare de ser mimada, eu entendo meus erros sei que eu também não estou certo mas não consigo te ver assim. Me quebra por dentro ver sua felicidade artificial, eu não consigo ficar longe de você e mesmo quando eu venho pedir perdão você me quebra jogando tudo na minha cara. Eu preciso do seu perdão pra poder dormir em paz, e pode ser a hora errada pra pedir isso mas nós dois precisamos. Você não superou a morte da sua mãe e nem a do seu filho, mas o pior é que você vê o que eu vejo, foi por isso que aceitou estar aqui não foi? Você precisa tirar um peso das costas, eu não posso trazer sua mãe e nem seu filho de volta, não adianta. Me culpar não vai traze-los de volta.
– Foi culpa sua ele ter morrido naquele hospital, se você não tivesse aparecido ele talvez estivesse aqui. E isso eu não vou perdoar.
E vou embora sem o deixar falar mais nada.
– E foi isso! – digo olhando com os olhos cheios de lagrimas pra uma Carly preocupada.
– Não fique assim, vai passar você vai ver. Mas ele está certo em uma coisa Abbe, você não pode ficar tampando o sol com a peneira pra sempre.
– Eu... vou tentar. Mas não prometo nada.
– Tudo bem. – ela diz e me abraça.
– É melhor eu ir sabe, tenho que acordar cedo amanha.
Entro em casa jogando a bolsa de qualquer jeito no sofá da sala, então olho em volta. Tudo ali tinha sensação de falta algo. Pego as chaves e abro o terceiro quarto, o quarto que seria do meu menininho, vou até a cama e abraço um dos vários ursinhos de pelúcia me dentando como se fosse protege-lo com a minha vida e assim acabo dormindo.
* * * *
Três dias haviam se passado desde minha conversa com Henry, e ele agora parecia não ter vergonha de se esconder pelos cantos da faculdade. Eu realmente estava mais que abalada, não conseguia fazer nada direito, não comia o necessário, não dormia direito, mal me lembrava de ter tomado os suplementos, eu estava péssima.
Não que isso tenha me impedido de alguma coisa. Me encontrei com Carly depois de sair do ballet, iriamos para a faculdade juntas, nem ao menos tive tempo para um almoço. A primeira aula começaria em poucos minutos e eu já começava a sentir minha cabeça rodar, totalmente tonta tento me segurar a Carly que se assusta e me deixa cair no chão.
– Santo Deus, você está bem? – ela pergunta se agachando ao meu lado.
Balanço a cabeça em negação e as pessoas começam a se acumular ao redor. É impressionante como o ser humano ama assistir a desgraça alheia.
– Abbe, olhe pra mim. – escuto a voz de Henry e procuro tentando me concentrar apenas em seu rosto. – Você tomou os remédios? Se sim balance a cabeça duas vezes, se não balance só uma.
Faço o que ele manda e logo sua bolsa está aberta e uma quantidade de comprimidos exagerada esta em suas mãos.
– Tudo bem, agora preste atenção eu preciso que se apoie em mim ok? Tente engolir todos de uma vez, vai te fazer bem.
Ele me ajuda a me sentar me apoiando com uma mão e me dando os remédios com a outra, enquanto Carly tentava ser útil me dando água de forma que eu não engasgasse muito.
– Você está se sentindo melhor? Acha que pode se levantar? – faço que sim para a primeira pergunta, mas nego para a segunda, minhas pernas pareciam de papel.
Então Henry passa sua mochila para Carly me levantando do chão como se não pesasse nada e as pessoas abrem caminho para que ele passe comigo. Apesar de não gostar da situação me rendo ao cansaço deitando com a cabeça no ombro de Henry. Resolvo abrir os olhos apenas quando sinto meu corpo ser colocado sobre algo macio.
Eu estava na enfermaria, um quarto totalmente branco com armarinhos lotados de remédios e anticépticos além de uma mesinha pequena com alguns papeis. Do outro lado da mesma estava Henry que agora eu podia observar melhor sem toda a aglomeração e tontura. Ele estava devidamente vestido com a jaqueta do time de hóquei por cima de uma regata branca, seus cabelos estavam totalmente revoltos e nos pés estavam um dos muitos tênis sociais que eu tinha absoluta certeza que faziam parte do seu guarda roupa. Na porta conversando com o mesmo estavam Carly – com seus lindos cabelos cor de mel presos em um coque – e uma senhora magra e vestida de branca que eu supunha ser a enfermeira. Resolvo então ignora-los e tirar um cochilo, afinal ninguém é de ferro.
Não sei quanto tempo fiquei, mas com toda certeza não foi muito já que um infeliz resolveu me acordar um infeliz com apelido de Dante.
– Temos que ir, Abbe. Você precisa comer algo, ande levante dai.
– Não vou com você a lugar nenhum. – digo com a voz rouca por conta da falta de uso.
– Okay, foi você quem pediu. – ele diz e depois sinto meu corpo ser levantado da maca.
– Me solta! – grito. – Dante me coloca na maca agora!
– Você fica tão fofinha gritando meu apelido por ai. Mas a chantagem não vai funcionar comigo.
– Eu te odeio.
– Também te amo querida. – ele diz me apoiando no ombro esquerdo enquanto pega as bolsas.
Eu sinceramente não sabia onde enfiar a cara, todos pareciam olhar pra cena bizarra, Henry não poupava esforço nenhum de me fazer passar vergonha e tudo não melhorou muito quanto atravessamos a sua e ele me coloca sentada em uma das cadeiras da cafeteria em frente à faculdade.
– O que vão pedir? – pergunta a garçonete sorrindo mais que abertamente para a coisa sentada a minha frente.
– Um cappuccino achocolatado e brownie de chocolate.
– O mesmo pra mim.
– Traz também seu numero querida, ele vai querer pra viagem. – digo sorrindo e a garçonete sorri e sai rebolando até o balcão.
– Máxime! – ele diz nervoso.
– Você deveria me agradecer, — digo olhando pra garçonete. – ela é gostosa.
– Eu não vou nem comentar sobre isso. Tenho que te mostrar uma coisa. – diz fuçando na mochila e tirando uma pasta branca como as de hospitais e me entregando.
– O que é isso?
– Abra, eu tive que subornar umas três enfermeiras pra conseguir isso.
– Não que você não tenha gostado. – digo com deboche e abro a pasta observando o conteúdo com cuidado:
"Registro de entrada para adoção"
"Conheça alguns termos usados no processo de adoção"
"Depois de entregar a criança à adoção, os pais biológicos não tem mais nenhum direito sobre ela, e também não podem se arrepender ou exigi-la de volta."
– Que merda é essa? Porque tem minha assinatura nisso? – eu digo olhando pro papel incrédula.
– Isso é o que você fez com o seu filho.
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