Staring At Her, Alterior Girl
5 Holding on.
Narração Sofia
Os dias se passam, mesmo que dure uma eternidade, eles sempre passam. Até para mim, que a cada dia o desejo de querer sumir, desaparecer e fugir só aumenta. Nada é fácil, mas sempre tento agüentar firme, mesmo que às vezes não pareça.
Sim, eu queria muito morar sozinha, isso poderia ajudar de alguma forma. Assim eu poderia tentar me conhecer melhor, o que não é fácil. Sei que um dia conseguirei chegar a esse objetivo.
Esses dias na escola foram um saco como sempre. Aulas, provas, garotas irritantes que ficam correndo atrás dos garotos. E o Victor. Ah sim, tenho que citar o Victor também. Cada dia ele se torna mais insuportável, vigiando cada passo que dou. Quero saber qual o problema dele, afinal, ninguém nesse mundo se importa com uma drugs/sex/rock\'n\'roll e emo como eu.
Mas que seja, hoje acordei com dor de cabeça. Na verdade, muita dor de cabeça. Efeito das drogas. Foda-se, assim dormirei com mais facilidade na aula chata de História.
Tudo igual, pessoas me olhando, cochichando e tudo o mais. No intervalo não fiz questão de sair da sala. Mas talvez não tenha sido uma idéia tão genial, afinal o Victor veio falar comigo. Mas que saco, hein.
- Oi Sofia – Falou ele todo simpático.
- Oi e tchau. – Não quero mesmo falar, argh!
- Woow, qual é a sua garota? Sua mãe não te deu educação?
- Não. Na verdade ela nunca me deu atenção mesmo. – Droga, acho que falei demais.
Ele sentou ao meu lado, me olhando profundamente e falou:
- Você ta falando sério? Então é por isso que... você é sempre assim? Porque seus pais não te dão tanta atenção?
- Olha, Victor, eu tento me afastar das pessoas para justamente não ser mal educada. Mas você parece que não está ajudando. Então fique sabendo logo que NÃO gosto de falar nada sobre esse assunto, e faz o favor de esquecer o que eu te falei e VAI
EMBORA DAQUI! – Essa última frase eu gritei mesmo. Mas que porra, essas pessoas me tiram do sério, na moral!
- Mesmo você não pedindo com gentileza, eu saio. Mas um dia eu sei que saberei o que você tanto esconde, e eu sei que vou te ajudar.
- Não preciso da ajuda de ninguém.
- Eu sei que precisa. – Falou ele saindo da sala.
Que saco! Por que ele não é como os outros? Que passam por mim, alguns até fazem comentários, mas mesmo assim fingem que eu não existo e não vem perguntando qual o meu problema. Porra meu, eu não preciso de ninguém, muito menos do Victor.
Aulas se passaram normalmente, e o Victor algumas vezes olhava para mim, mas pelo menos não veio falar mais. Pelo jeito entendeu direitinho o recado.
Quando acabou, não fui para casa. Ah, não. Marquei de me encontrar com o Greg e o Vinícius. Você já deve saber o que fui fazer. Esse é a única solução que acho para esquecer os meus problemas, por mais que no outro dia eu sinta dor de cabeça ou algo do tipo. Foda-se, prefiro dor de cabeça a ter que ficar pensando nos meus problemas, que são enormes.
Narração Victor
Vê-la daquele jeito e não poder ajudar dói tanto em mim. Eu sei que ela precisa de alguém para confiar, eu sei que ela precisa de uma ajuda. Ela precisa mais do que nunca sair do mundo das drogas. E essa pessoa que irá ajudá-la será eu, nem que ela não queira. Não sei o que aquela garota estranha e antipática tem que me deixou fixado, mas só sei que agora não consigo nem pensar em encontrá-la se drogando com os amigos estranhos numa rua qualquer e perigosa. Mas que porra, o que é isso que estou sentindo?
Quando as aulas finalmente acabaram, decidi segui-la, mesmo sabendo que ela não iria gostar da idéia. Foda-se, irei nem que para isso tenham que me matar. Wow, acho que exagerei. Dane-se.
Segui-lá sem que ela me notasse foi fácil. Bem fácil, na verdade. Qual é, você acha que alguém que fuma o caminho (sabe-se lá pra onde) inteiro vai olhar para trás para ver se está sendo seguido? Nem fodendo. Falando em cigarro, acendi o meu ali mesmo. Porra, é um cigarrinho só. Não vai me matar ou algo do tipo. A Sofia faz muito pior e está viva. Ah, não está viva e bem, mas pelo menos viva. Deve ser o suficiente.
Ela parou em uma rua bizarra ao lado de dois garotos. Mas que porra, são aqueles garotos. Aqueles que quase acabaram comigo quando eu fui impedi-la de ficar ainda mais doidona um dia desses. Decidi ficar só espiando. Se eu desse as caras por lá, eles passariam do quase a acabariam mesmo comigo.
Fiquei um tempo só prestando atenção na Sofia. Porra, mesmo com cara de drogada ela era bonita. Nesse tempo, não pude escutar nada e nem olhar para os outros caras. Eu estava mesmo fixado naquela garota.
Depois de meio que acordar, decidi parar de olhá-la. Evitar deixar meu olhar sobra ela talvez me ajudasse a esquecê-la. Ou a fazê-la sair de minha mente por um milésimo de segundo.
— Qual é, Greg! Para com isso, porra. — Sofia tentava se desfazer do abraço do amigo, que estava mais para um agarrão do que pra um abraço, viu. — Porra, Gregório, saaaaaaaaai daqui! Você está bêbado e drogado, pô. Tá fedendo.
— Ah, Sofs! Você também tá, po. — O outro garoto riu assim que o tal do Greg falou isso. O outro garoto parecia o mais consciente dos três alí.
Não sei bem, mas aquela situação parecia meio que constante. Eu digo, o tal garoto agarrando a Sofia. Certamente ela ainda andava com ele porque no dia seguinte não
devia se lembrar de muita coisa. Mas se fosse eu agarrando ela, ah, ela ia espernear, me bater, me... Matar. E eu não estou sendo exagerado. Não duvido dela não, pô.
Ela se levantou depois de se despedir dos garotos. Acho que ia pra casa. Fui atrás dela.
No caminho ela tava bebendo alguma porra. Vodka, eu acho. E fumando. Perguntei-me se a mãe dela não ficaria brava se ela chegasse em casa daquele jeito. Foi quando eu me lembrei que ela me disse que sua mãe não lhe dava atenção. Nossa, como eu queria saber mais sobre isso! Ok, isso soou meio gay. Que se foda.
Ela atravessou a rua e tirou uma chave do bolso. Foi abrindo a porta e acho que eu me aproximei demais e...
— VICTOR? MAS QUE PORRA É ESSA? — Gritou comigo. Não que eu não esteja acostumado que gritem comigo, mas é sempre ruim. Especialmente quando é ela que está gritando.
- Calma, é, eu posso explicar! — Que idiota. Só quem não sabe explicar diz isso. Merda, ela abriu a boca. Vai gritar mais, eu acho.
— Menino, por que você precisa me seguir? Por que você está tentando se aproximar? Não precisa ter pena e nem nada assim. Eu me viro muito bem sozinha, Victor. — Falou relativamente calma e eu fiquei surpreso por não ter morrido. Qual é, ela ainda tava bêbada.
Aproveitei o clima -mesmo que superficial ou falso- de paz e me arrisquei um pouco mais.
— Sofia, posso entrar?
— Não! — Wow, que rápido.
— Por favor, vai. – Insisti.
— Lógico que não. O que você pretende fazer lá dentro?
— Te entender.
— Não. Não vai conseguir. Nem se entrasse na minha mente.
- Não. Não vai conseguir. Nem se entrasse na minha mente.
— Não precisa. Eu vou entrar mesmo é na sua casa. — Empurrei a porta com força, puxei Sofia e bati a porta atrás de nós. — Pronto, agora estou feliz.
— Argh. Eu acho que te odeio. — E sorriu de leve. Espera, sorriu de leve? Ok, por essa eu não esperava.
Ri baixo e cheguei bem perto de seu rosto:
— Eu não acho. — Pude sentir Sofia arrepiar. Sorri. — Aliás, eu não te odeio.
Sorriu e murmurou:
— Eu não perguntei. — E subiu as escadas correndo. Entendi que era para eu subir atrás dela. Não sei bem, eu nunca entendia se ela estava me zoando, sendo irônica ou falando sério. Ou agindo sério. Que seja. Subi o primeiro degrau e percebi que ela tinha deixado a garrafa de Vodka pela metade no canto da escada. Ri comigo mesmo pensando em que eu estava me metendo.
- Fecha a porta depois que entrar. — Foi o que eu ouvi ao chegar ao andar de cima.
Sofia estava sentada em sua cama. Fumando. Obedeci e sentei-me ao seu lado.
— Dá.
— O que? — Me olhou com a maior cara de dúvida que podia.
— O cú. Tsc. Dá o cigarro, porra. Você vai desabafar como com a boca ocupada? — Falei com a maior naturalidade, mas eu estava é me mordendo de medo.
— Eu não vou desabafar e por isso não vou te dar o cigarro.
— Tem mais de onde veio esse?
— O que? — De novo a cara de dúvida.
- Cigarro.
Sofia riu. Riu como uma bêbada. Como uma louca. Como uma não-humana. Porra, ela riu como se ela fosse a Sofia mesmo, hm.
- O que é, poxa? Eu gosto de rir também. — Bufei depois de uns dois minutos olhando-a rir.
— É que... É que...VOCÊ fuma? HAHAHAHAHAHA, não acredito! Você ta tentando tirar o cigarro da minha boca e você fuma? Ah ta. — E parou de rir. Assim, do nada. Bem típico de Sofia.
— Fumo quando dá vontade, Sofia. Quando eu sinto o cheiro, por exemplo. Tipo, hoje mais cedo quando eu te segui e você tava fumando eu fumei também. — Droga, falei demais.
— Você ta me seguindo desde que a gente saiu da escola? — Falou calma. Calma até demais.
Engoli saliva e afirmei com a cabeça, olhando para meus pés.
— Você deve ter um motivo, Victor.
Virei de frente para ela e coloquei meus pés em cima de sua cama.
— Me conta.
— Ah, Victor, mas eu... — A interrompi colocando minha mão em seu rosto e sussurrei:
— Por favor.
Sofia olhou para baixo, visivelmente incomodada com a proximidade repentina. Tirei a mão de seu rosto e esperei.
— Não vou ficar me lamentando, Victor. Mas minha vida é meio... Complicada. Minha mãe é a pessoa em quem eu mais confio, a pessoa mais linda de todo esse mundo. Pena que ela conheceu meu pai algum dia. Pena que ela me teve. Eu só trago desgosto e tristeza para ela, sabe? E ela não merece. Eu só não consigo parar. Parar de me drogar, parar de ser estranha ou parar de me vestir como eu me visto. Não consigo parar de ser quem eu sou. E eu não quero parar, na verdade, porque eu gosto disso. Eu gosto de ser estranha, de ser diferente. Mas é que... Argh. Você não sabe como é nunca ter amigos, como é nunca se encaixar. Você não sabe como é quando você poderia ser como as outras pessoas, mas não quer. Sabe, eu poderia me passar maquiagem e colocar uma calça colorida. E iam me achar legal ou descolada. Mas eu não quero. Não quero porque eu preciso me expressar. Mesmo que não em palavras, porque elas assustam, mas em roupas, gestos e modo de agir. Por isso eu sou chata com você, cara. Desculpa — Abaixou a cabeça e riu-, mas eu sou... Assim.
Parou de falar e eu senti que precisava ouvir muito mais. Aquilo era uma introdução perto do que viria por aí. Eu podia sentir Sofia aliviada. Pelo menos em parte.
Eu a abracei. Sim, sem mais, sem menos e sem pensar. Mas não sem motivo. Porra, aquela menina precisava de mim assim como eu estava começando a precisar dela.
Sofia pareceu hesitar por um instante, mas depois entrelaçou seus braços finos em minha cintura, colocou sua cabeça em meu ombro e chorou. Não chorou como um bebê ou algo do tipo. Estava mais para um choro tímido, como se ela não quisesse chorar. Como se chorar fosse sua última alternativa, seu plano B.
Me largou e olhou em meus olhos com aqueles grandes olhos azuis brilhando.
- Desculpa. Mas é que você não tinha que ter perguntado, né. A culpa é toda sua. — Achei que ela estivesse brincando, mas como não riu, julguei que estava falando sério. Mas não fazia sentido ela se sentir culpada por ter falado algumas frases. Bem, nada fazia muito sentido vindo de Sofia.
— Tsc, para com isso. Eu é que perguntei mesmo. — Não sabia o que mais responder, só isso.
Silêncio. Hm, não gosto de silêncio e vou quebrá-lo. Sou gay.
— Viu, eu consegui. — Fiz minha melhor cara de criança.
— Conseguiu o que, idiota? — Limpou uma lágrima e olhou para mim.
— Te entender.
Sorriu. Simplesmente. E parecia que tudo estava bem, tudo estava compreendido e tudo estava absolutamente certo.
Dei um beijo em sua testa e sai.
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