Notas iniciais
Gente, sério. Estou muito emocionada de estar postando algo depois de, o quê?! Uns 6, 7 anos sem nem pisar aqui. Mas como esse site meio que me criou, resolvi postar algo que foi escrito há 6 ou 7 anos e reescrito agora, com muito carinho e com muito amor. Espero voltar mais vezes com muitas histórias novas.
Então, espero que gostem, aproveitem o capítulo!

O clima gelado do campo me convidava a dormir. Eu queria simplesmente ceder e aceitar seu convite, mas era impossível, meus olhos não conseguiam permanecer fechados por muito tempo.

Por um instante, pensei no que estava fazendo. Havia abandonado minha pobre Julieta ao fechar o livro e colocá-lo ao meu lado, no pequeno espaço vago entre o travesseiro e a parede. Tinha tanta cabeça para ler quanto tinha para acordar cedo no dia seguinte. A bateria do meu celular descia tão rapidamente que mais parecia uma contagem regressiva e a tomada ficava tão longe da cama que logo o perderia também — quem sabe, assim, eu seria capaz de dormir.

Para testar a teoria, levantei-me da cama — estremeci ao tocar o chão gelado sem meus chinelos — e coloquei o aparelho para carregar, deixando-o pendurado em um fio curto ligado à tomada alta. Era até engraçado.

Ao voltar para a cama, me dei conta de que o teto de madeira sobre minha cabeça nunca pareceu tão interessante, o que significava que eu não ia dormir, não naquela noite. E não era por falta de tentativa.

Derrotada, levantei-me novamente, dessa vez, calçando o chinelo. De que adiantaria ficar olhando para o teto durante uma noite inteira? Se olhasse demais, conseguiria achar formas que se pareciam com rostos, mas não era interessante o suficiente para me entreter durante uma noite inteira.

Fui até o meu armário e troquei meu pijama, do sexy, leve e fresco — uma péssima escolha para uma noite como essa — para calça e blusa moletom. Puxei meu celular do carregador, enfiando-o no bolso do casaco. Talvez fosse loucura, mas eu ia sair. Eu, meus 43% de bateria e minha garrafinha d’água saindo em uma aventura noturna.

Abri a porta, acreditando estar protegida, mas o vento frio me atingiu mais forte do que eu esperava. Apesar de estar toda agasalhada, permaneci apenas com meus chinelos de dedo. Destoava um pouco do meu modelito e deixava meu pé vulnerável ao sereno da noite e às possíveis aranhas venenosas que estariam escondidas naquele gramado, mas ficar resfriada e ser mordida por um animal venenoso eram riscos improváveis, mas que eu estava disposta a correr esta noite.

Ao sair pelo portão principal, segui pela estrada de chão íngreme, indo cada vez mais para cima. A brisa fria castigava o meu pescoço e a mão que segurava a garrafa de água gelada e fazia com que eu a trocasse de mão de dois em dois minutos. A paisagem era deserta, havia poucas casas em volta da nossa, um pequeno rio corrente, onde as pessoas se banhavam e diziam achar pepitas de ouro, e árvores… muitas árvores.

Assim que cheguei ao meu destino, respirei fundo o ar puro do campo, tão estranho aos meus pulmões acostumados à fumaça urbana. Era um penhasco gramado, onde o vento era um pouco mais violento. Olhando para a frente, era como olhar para uma grande floresta de cima, não conseguia ver nenhuma das poucas casas, todas haviam sido engolidas por árvores enormes. A vista abaixo era ordinária, mas suficientemente relaxante.

Tirei meu celular para olhar o horário. Não estava tarde como eu imaginei que estivesse, não chegava a ser nem duas da madrugada, o que significava que eu suportei ficar acordada sem fazer nada por menos tempo do que pensava ser capaz. Quando saí, não me importei em olhar as horas, talvez isso me impediria de fazê-lo. Talvez sair não fosse uma boa ideia. Mas talvez, fosse ainda pior ficar, permanecer deitada e cercada de pensamentos.

Essa amostra de insônia estava começando a me irritar. E eu praguejei, pois saí de casa buscando um pouco de conforto e algumas respostas. Talvez a vista abaixo dos meus pés deixasse a desejar. Mas quando se olhava para cima, o céu se estendia como um grande manto escuro, no qual a Lua se fazia protagonista, grande e brilhante, sendo admirada por mim e por outras milhões de estrelas. Era de tirar o fôlego. Aquelas estrelas pareciam capazes de preencher qualquer vazio, responder qualquer pergunta.

Finalmente sentei-me de frente para o penhasco, um pouco afastada do precipício, sempre tive medo de que ele quebrasse enquanto eu estivesse em cima, pois, parecia um espaço pequeno e frágil demais comparado ao resto da montanha. Com o coração apertado, cheguei a pensar se um dia, talvez, eu me jogaria dali, mas esse sentimento rapidamente se esvaiu. Insônia e sentimentos embolados não eram motivo… Nada era motivo.

Tomei um gole da minha água que ainda estava gelada — acho que é impossível para ela esquentar numa noite como esta — soltando um suspiro longo ao molhar um pouco a garganta após uma longa caminhada.

Sentimentos embolados, pensei comigo mesma, será que esse era mesmo o termo correto a ser usado? Eles me pareciam bem diretos. Talvez eles só causasse uma bagunça dentro de mim ao me deixar sem reação às vezes, Se a sensação que me dava fosse uma letra, seria um garrancho ilegível de uma criança de três anos ou um adolescente muito relaxado.

Voltei minha atenção para as estrelas novamente. Procurei por constelações, mas não consegui encontrar nenhuma. Não porque não havia nada em um céu transbordando de estrelas, mas por eu não saber procurá-las. Lina saberia me dizer. Mas, infelizmente, eu a deixei para trás quando saí, como a menina egoísta que eu costumo ser.

Sendo incapaz de achar as constelações, tentei fazer o que os tolos costumavam fazer: perguntei para as estrelas que caminho tomar quanto aos meus sentimentos. Mas elas permaneceram caladas. Acho que eu precisava de uma ajuda mais profissional.

Com um suspiro cansado, peguei novamente meu celular do bolso, enquanto virava a garrafa mais uma vez. Disquei rapidamente o número e levei o celular ao ouvido. Só fui atendida nos últimos toques — não podia culpá-la — e por um “hmm” muito insatisfeito e sonolento, que me fazia acreditar que ela nem vira quem estava chamando.

— Você não pode fazer barulho agora. — Eu disse. — Então me atende quando eu te mandar mensagem. — Tudo saiu da minha boca muito rapidamente, para não gastar muito tempo, já que precisava dela agora.

Desliguei antes que ela fosse capaz de questionar o motivo da minha ligação sendo que deveria estar na cama ao lado da dela.

“Oi” Enviei por mensagem.

“Cadê você?” Ela me perguntou, sem responder minha saudação. Não conseguia ver seu rosto, mas parecia ter um tom sério e reprovador, ao mesmo tempo em que poderia estar preocupada. “Sabe que horas são? Eu vou te matar!”

“Sei, sei. Você pode vir aqui no penhasco fazer isso?”

“O quê?! Claro que não! Enlouqueceu?” De brinde, ainda recebi um emote vermelho muito zangado. “Esteja avisada, eu não vou cuidar de você quando estiver gripada.”

“Por favor!” Pedi. “Eu preciso de constelações e conselhos. Você é boa nisso. Será que você poderia fazer a gentileza de vir aqui?” Ao enviar, vi que ela imediatamente começou a digitar, mas não deixei que terminasse e me apressei para escrever outra mensagem. “Uma vez, eu fiz pizza para você às 4 horas da manhã! Você me deve.”

Pelo tempo em que ela ficou sem digitar, supus que ela tinha apagado tudo o que escrevera. Durante longos segundos, pensei ter ganho a discussão, mas ao mesmo tempo, desejei que ela se apressasse em escrever que viria. Afinal, minha franquia de dados não duraria muito tempo.

“Você não assou uma pizza para mim ao ar livre em um penhasco. Quer voltar para casa, por favor?” Foi a resposta dela à minha tentativa de chantagem. “Estou ficando preocupada, o que foi que deu em você?” Lina perguntou. Eu conseguia ouvir a voz dela, aflita, com a mão no peito, como sempre fazia. Ela era uma menina doce.

“Descobri que a minha vida é um grande ‘talvez’ e que as únicas certezas é de que sou idiota e perdi tempo demais.” Digitei quando minha coragem voltou. “Você não vai vir mesmo ajudar sua amiga em crise?” Ao lado da mensagem, enviei uma série de emotes chorando.

“Eu te odeio…” Eu também odiaria, pensei. Apesar do que foi dito, estava escrito nas entrelinhas que ela viria. Quando ia guardar o celular, ele apitou novamente, com uma nova mensagem de Lina. “Me dê 20 minutos. Você me paga por essa.”

“Pago como você quiser.” Não resisti a enviar aquela carinha com um sorriso malicioso. Mas ela não respondeu mais.

Fiquei feliz de finalmente poder desligar meus dados móveis e voltei a encarar as estrelas que não me diziam nada e iam ficando mais escondidas com o passar da madrugada, deixando evidente que Lina não ia me apontar constelação nenhuma quando chegasse.

Felizmente, a lua continuava ali, linda e imponente, indicando que Lina tinha tempo e que não precisaríamos voltar logo. Enquanto ela não chegava, resolvi fechar os olhos, como se estivesse meditando, mas queria apenas sentir o vento em meu rosto, o mesmo que arrastou meu capuz cinzento para trás e revelou meus cabelos pretos que não dançavam conforme a vontade do ar pois permaneceram dentro do casaco.

Quando se fechava os olhos em um lugar amplo como este, tudo parecia ainda maior do que realmente era. Mas fui tomada dessa sensação ao sentir um dedo me cutucar na área das costelas, fazendo com que eu desse um pulo para frente e me aproximasse um pouco do precipício que eu tentei evitar a todo custo.

— Vai me infartar! — Repreendi Lina, enquanto me afastava da ponta com uma mão no peito, na tentativa de assegurar que o coração continuasse lá dentro.

— Tudo bem para mim. — Ela deu de ombros, levando sua mão na cintura. Era engraçado vê-la exatamente como foi dormir, de calça moletom rosa e repleta de corações e uma regata embaixo de seu casaco azul, até seus cabelos claros e curtos estavam amarrados naquelas chiquinhas pequeninas. Não conseguia acreditar que ela tinha vindo até mim de pantufa e meia. Talvez eu não fosse a mais louca entre nós. — Não tem nenhuma constelação aqui. — Ela olhou para cima por um instante, examinando o céu que estava começando a ganhar aquela coloração roxa que dava as boas-vindas ao amanhecer. — São apenas estrelas avulsas.

— Quando eu cheguei, o céu mais parecia uma casa decorada para o natal. — Sentei-me novamente, chamando Lina para se sentar ao meu lado na grama fria.

— Você está bem? — Ela me perguntou, tocando meu ombro. Apesar de todas as ameaças por mensagem, pessoalmente, Lina parecia preocupada, com olhos realmente curiosos para saber qual era o problema e ansiedade para resolvê-lo o mais rápido possível. Eu apenas acenei negativamente com a cabeça.

Com Lina, as coisas eram assim: rápidas e a base da honestidade. Não havia razão para mentir ou omitir algo dela. Eu poderia falar qualquer coisa com ela se isso me fizesse sentir bem, desde “vi uma aranha enorme e não consigo sair do banheiro” a “meu cachorro morreu”, não precisava privá-la de nenhum detalhe. E ela, como sempre, ouviria com toda atenção e estaria do meu lado até que a sensação ruim fosse embora. E eu sabia disso. Era por isso que a havia chamado. Mas, pela primeira vez em anos, eu estava hesitante.

— Você quer me contar o que está acontecendo? — Perguntou ela, quebrando o silêncio rápido que havia se tornado entre nós após a minha resposta. — Qual é o seu grande talvez? — Dessa vez, eu apenas assenti com a cabeça. Lina jogou os braços para cima e disse: — Eu não falo língua de sinais, minha filha! Pode abrir a boca que eu sei que você é tagarela.

— Meu Deus! Você não aguenta um suspense! — Revirei os olhos com um sorriso nervoso. — Queria saber… — Mais uma vez, hesitei. O coração que me esforcei tanto para manter em meu peito parecia querer pular para fora mais uma vez, batia violentamente contra minhas costelas. — Queria te perguntar se você acha esse lugar romântico. — Não era isso que eu queria perguntar.

— Ah, com umas velas, uma toalha para sentar e roupas mais casuais, claro que é um bom lugar. Principalmente durante o dia. — Ela ressaltou, levantando seu indicador. — Pode trazer seu paquera aqui. Qual era o nome dele mesmo? Marcelo?

— Manuel. — Corrigi. Mas não conseguia deixar de sentir uma pontada de raiva. Dizem que quando a gente se apaixona, consegue ver apenas as qualidades. Quando comecei a gostar dele, passei a ver todos os defeitos que ele tinha e peguei nojo aos poucos. Então, era bem inapropriado da parte dela mencionar ele num momento como esse. — Não gosto mais dele. Você sabe que a paixonite de escola nunca dura. Pelo menos não para mim.

— Tudo bem. Então o que prende você neste grande talvez? — Lina levantou suas mãos e fez um sinal de explosão, para indicar a grandeza de meu talvez. E quando eu não respondi, ela tocou os meus cabelos e fez aquele carinho leve. — Então?

— Vou te mostrar! — Enfiei a mão em meu bolso do casaco, mesmo que não tivesse nada lá além do meu celular quase descarregado. — Você vai achar idiota, então, tem que fechar os olhos. — Após um breve protesto, ela cedeu e fechou os olhos, colocando os dedos de unhas curtas e esmalte vermelho lascado sobre os mesmos, para me passar ainda mais segurança de que ela não espiaria.

Agora, eu já tinha feito. Minha mão estava em meu bolso, fingindo estar buscando algo de extrema importância e ela estava de olhos fechados, esperando pela surpresa. Talvez eu não devesse ter feito isso. Talvez meu plano arruinaria tudo. Talvez ficar em casa e olhar para o teto sem perturbá-la no meio da madrugada fosse a melhor opção. Talvez… Talvez… Respirei fundo e contei até cinco, pois já tinha demorado demais para contar até dez.

Toquei sua bochecha com minhas duas mãos e senti Lina estremecer ao meu toque gelado. Fechei meus olhos e selei os nossos lábios num beijinho tímido. Quando me afastei dela, suas mãos já não cobriam os olhos e ela olhava para mim, pasma. Meu grande talvez havia se tornado em uma pequena certeza: ela me odiava agora. Senti o rosto ruborizar e apesar do medo de sua reação, não quebrei nosso contato visual.

— Eu pensei… — Lina começou, sem perder sua expressão de espanto. — Que você não gostasse de garotas… — A voz dela parecia falhar e eu estava entrando em pânico.

— Não gosto. — Foi o que eu consegui responder. — Nem de garotos. — Minha voz sumiu por um momento, quando me toquei de que isso fazia muito pouco sentido. — Gosto de você, sabe? Só de você. Talvez… — Mais um talvez. — Eu seja “Linassexual”? — Ri, sentindo meu nervosismo aumentar e um nó se formar em minha garganta. Ela estava em viagem comigo e minha família, ainda teria de olhá-la pela manhã. — Desculpe. Eu não devia ter feito isso… Sinto muito. Vamos voltar para casa.

Levantei-me do chão e limpei a parte de trás da minha calça. Peguei minha garrafinha e tomei coragem para oferecer minha mão para ajudar a Lina a levantar. Ela aceitou e, quando estava de pé, buscou meu olhar novamente. Não parecia mais tão pasma. Prevendo que eu estava pronta para me desculpar mais uma vez, Lina colocou o indicador sobre meus lábios, como se pedisse que eu ficasse quieta. Assim o fiz.

— Eu te desculpo. Se fizer três coisas por mim. — Ela começou, fazendo meu coração apertar. — Me levar de volta, pois já são quase cinco horas da manhã, a gente vai estar foente demais para as férias amanhã de manhã. — Lina levantou um dos dedos, e assim por diante a medida que fazia seus três desejos. — Se acalmar. Pelo amor de Deus. — Ela chegou a levantar os braços para o céu enquanto ria do meu desespero. — E, se me prometer que Linassexual quer dizer que você gosta só de mim, e não de outras Linas. — Sorriu e tocou-me na cintura, aproximando nossos corpos. Finalmente estava tranquila. Eu retribuí o sorriso dela e ela retribuiu o abraço apertado que eu dei assim que ela terminou de falar.

De fato, tudo aquilo tinha sido uma má ideia, péssima, na verdade. Não há quem consiga enganar dizendo que era boa. Mas acabou com a minha crise dos talvez. E beijá-la mais uma vez, ter esse beijo retribuído, foi como se tudo brilhasse um pouco mais.

Notas finais
Você, que chegou até o final, muito obrigada por ler! Espero, de todo o coração, que tenha gostado.
E em nome de apoiar uma escritora que acabou de voltar, que tal deixar um review?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!