Stardust - A ascensão de Lucius Craster
1 Desdita
Notas iniciais
— Sinto muito por ter que fazer isso com você, Lucius, de verdade.
— Tudo bem.
— Mas não podemos mais contar com seus serviços. Infelizmente, precisamos de novos funcionários, mais inovadores, e estamos demitindo todos aqueles que já não contribuem tanto para o desenvolvimento desta empresa. Todos os mais antigos que só permanecem na mesmice de sempre.
— Não, tudo bem.
— Nós o agradecemos por todos os anos em que trabalhou aqui. Apesar de não ser mais tão útil, você já foi, sim, o melhor funcionário desta empresa, mas, infelizmente, oportunidades melhores estão se mostrando a nós. Espero que entenda por que temos que te demitir. Não é nada pessoal, e você não é o único.
— Eu entendo.
— Te desejamos toda a sorte do mundo.
Foi uma curiosa coincidência começar a garoar assim que Lucius saiu, pela última vez, daquele prédio. E, dessa vez, não saiu com o pensamento de que voltaria no dia seguinte para perder mais algumas horas da sua vida e ganhar algum dinheiro. Bastante dinheiro, diga-se de passagem, que sustentava sua vida, seu bem-estar emocional e seus sonhos. Mas agora estava tudo desmoronado, caído por terra.
Lucius caminhava pela calçada, rumo ao seu lar, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro. Sentia as gotas de chuva caírem sobre seus cabelos e escorrer pelo seu rosto. E algumas delas se mesclaram com suas lágrimas inevitáveis; afinal, perder o emprego não era nada insignificante. Ao menos, ainda tinha sua esposa para ajudá-lo em tempos difíceis.
Sua esposa. Sim, ele precisava avisá-la. Poderia esperar até que ela chegasse em casa, mas estava angustiado demais para fazê-lo. O sol começava a se pôr, e a noite iminentemente chegava, trazendo consigo os perigos que sempre pareciam despertar com a ausência de luz solar.
Ah, se ele ao menos pudesse controlar o tempo.
Lucius pegou o celular do bolso, mal vendo por onde andava. Acabou esbarrando em um homem e se desculpou. Desbloqueou a tela do aparelho, acessou o contato da esposa e, quando estava prestes a começar a digitar a mensagem, viu que ela já o estava fazendo.
Por escolha própria, resolveu deixá-la falar primeiro. O sol já desaparecia atrás dos prédios, e as luzes dos postes já começavam a acender. Lucius olhou em volta, um tanto apreensivo — a rua estava deserta. Começou a andar mais rápido, dando passos mais largos.
A espera pela mensagem parecia interminável, mas, quando ele finalmente a recebeu, desejou nunca nem ter tido um celular na vida. Suas pernas congelaram, e ele se viu parado no meio da calçada escura e deserta, incapaz de se mover.
"Lucius, sua mãe não resistiu e faleceu no hospital. Sinto muito."
Lucius engoliu em seco. A agonia foi como um tiro no peito, e se mesclou ao sofrimento já angustiante de ter perdido o emprego, somando-se às toneladas de desolação que despencaram sobre ele como um meteoro. E sua esposa o chamara pelo nome. Nunca o fazia. Lucius sentiu que havia algo a mais que ela não o estava contando.
E foi isso que ele disse, mas não exatamente nessas palavras. Digitou e enviou uma mensagem que dizia, simplesmente: "Mais alguma coisa?". Não estava são o suficiente para tentar ter uma reação digna. Sua mãe já estava à beira de morrer, mas, mesmo assim... Se ele não tivesse sido demitido, talvez conseguisse lidar melhor com essa perda.
Mais alguns segundos, e então a mensagem derradeira.
"Te traí. Com o seu chefe."
É claro. Tudo fazia sentido agora. Sua esposa já estava agindo de forma estranhamente diferente nos últimos dias. Seca, indiferente. Lucius permitiu que o restante das lágrimas caísse, e até se permitiu rir. Nem acreditava. Havia como seu dia ficar pior? Ele só permaneceu ali, parado, chorando e rindo naquela rua vazia, segurando o celular, cuja tela já começava a molhar com a chuva cada vez mais forte.
E então aconteceu. Um borrão escuro no ar, um tapa em sua mão, e Lucius já não segurava mais o aparelho. Olhou desesperado e assustado para a frente. Quem o segurava agora era um homem todo de preto, apontando uma arma para ele. Incrédulo, Lucius não reagiu: só ficou observando o ladrão se afastar de costas, o dedo no gatilho e o celular de Lucius na outra mão, com a qual ele usava o indicador para sinalizar — ordenar —que ele permanecesse em silêncio.
Lucius nem mesmo tentou dialogar. Ele apenas deu meia-volta e seguiu por um caminho diferente, torcendo para que o ladrão atirasse nele pelas costas. Mas ele não o fez.
Da próxima vez, Lucius se lembraria de dar o primeiro passo do dia com o pé direito.
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