Notas iniciais
FELIZ NATAL ATRASADO PRA TODO MUNDO!!! Como vocês estão? Espero que estejam bem. Aqui trago mais um capítulo desta história na qual ainda estou apostando. Espero sinceramente que gostem. Boa leitura!

Pelo menos o ladrão não roubara a chave de Lucius.

Bem, não havia por que ele fazer tal coisa.

Encharcado e com uma insaciável e indelével vontade de morrer, Lucius enfiou e girou a chave na fechadura. A porta de madeira se abriu com um quase inaudível rangido, revelando os escuros interiores da casa. Lenta e despreocupadamente, o homem, em sua desgraça, adentrou a residência.

As luzes já estavam acesas. Provavelmente a mulher de Lucius não se dera o trabalho de apagá-las quando reuniu seus bens e se retirou, de uma vez, da casa dele.

A casa do chefe dele deveria ser muito melhor, afinal.

Talvez fosse por isso que Lucius fora demitido.

A casa era linda, poder-se-ia dizer. Moderna, decorada, iluminada e bem limpa. Lucius e sua esposa sempre tiveram esse costume de deixar tudo bem limpo, livrando-se de qualquer fragmento de sujeira que pudessem encontrar. A sala de estar estava ali, onde sempre estivera, recepcionando-o calorosamente.

O olhar do homem se demorou no luxuoso sofá onde a esposa sempre se encontrava deitada quando ele chegava do trabalho. Agora não havia mais ninguém ali. E só haveria quando outra família se mudasse para aquela casa.

Porque Lucius não moraria mais ali.

Moraria num caixão daquele dia em diante.

Andando com a menor pressa do mundo, Lucius foi até seu quarto e acendeu as luzes. A cama de casal estava ali, formosa e arrumada, mas jamais seria preenchida por ele novamente. Lucius dirigiu-se ao criado-mudo ao lado da cama e abriu a gaveta tão devagar quanto um jabuti.

Estava ali. Nunca chegara a usá-lo antes, mas agora o faria. Um sorriso triste se formou em seu rosto empalidecido e distendido enquanto ele estendia a mão e agarrava o revólver.

Abriu o barril para checar se as balas estavam ali. Estavam. Que bom.

Ele não se incomodou em fazer uma cena. Não se importava do modo como achariam seu corpo depois daquilo. Ele apenas engatilhou o revólver, tocou a ponta de seu cano na têmpora e preparou-se para puxar o gatilho. Não hesitaria.

— Você vai mesmo fazer isso?

Ou será que hesitaria?

O revólver tinha cinco balas. Só bastava uma para se matar.

O resto ele poderia descarregar no desgraçado que invadira sua casa.

Virou-se com a rapidez de um relâmpago, a arma já apontada para o homem parado à porta.

Lucius disparou.

Ou pensou que tinha disparado.

Ouviu o estrondo do tiro, viu o clarão na ponta da arma quando a bala deixou o cano, viu um certo borrão metálico e reluzente no ar que durou milésimos, mas o homem, alto e extremamente bonito, com cabelos prateados na altura dos ombros, sequer se moveu.

Lucius procurou por algum sinal do projétil, mas não encontrou. O homem charmoso sorria para ele, intacto, impassível. Emitia uma certa... luminescência. Lucius não conseguia explicar muito bem, nem para si mesmo.

Então ele disparou de novo.

Dessa vez, ele viu faíscas luminosas e coloridas estalarem no ar antes da bala simplesmente desaparecer.

— Isso é inútil — disse o homem, mas Lucius não deu ouvidos.

Na cabeça, então.

Mais um estrondo ecoou. O bairro inteiro já devia ter chamado a polícia, mas Lucius não se importava.

As mesmas fagulhas luminosas sugiram e atingiram o projétil. E então não havia mais projétil.

— Já acabou?

Por que você não morre? — bradou Lucius, disparando uma quarta vez. O homem sorridente e formoso parado na soleira da porta mal fez uso das misteriosas faíscas dessa vez — apenas se esquivou para o lado, fazendo a bala perfurar a parede atrás dele, derrubando poeira no chão.

— Porque eu não morro — respondeu o homem, simplesmente, então começou a caminhar na direção de Lucius, que ainda mantinha a arma erguida com sua última bala pronta para ser disparada. — Escute, você...

A bala saiu do cano quando o dedo puxou o gatilho; o homem a viu, mas limitou-se a manter o sorriso inexorável no rosto e, simples e naturalmente, agarrá-la com os dedos.

Analisou o projétil quente que segurava entre o indicador e o polegar. Então gesticulou para Lucius com ele.

— Era sua última bala — disse. — Como pretende se matar agora?

Lucius engoliu em seco. Gritos na rua começavam a soar. Logo os policiais chegariam.

— Quem é você? — perguntou ele ao homem. — O que é você?

— Um anjo — respondeu o homem, sem rodeios. Um anjo? Que palhaçada. — Omniel é meu nome. — Seu rosto era tão jovem, tão belo e perfeito, percebeu Lucius, mesmo que não sentisse atração pelo mesmo sexo. Sua pele parecia porcelana, lisa e brilhante como uma pérola, e seus cabelos prateados pareciam seda, a mais pura das sedas.

— Anjo — repetiu Lucius, o rosto chocado, incrédulo, confuso e derrotado. — Anjo — disse mais uma vez.

— Anjo — confirmou Omniel.

— O que faz na minha casa, anjo? — perguntou o pobre humano. — Por que está na minha casa?

— Venho te observando há um tempo, Lucius. — Aquele anjo sabia o nome dele. — Há uns dias, para ser mais exato. Alguma coisa em você me chamou a atenção no momento em que te vi. Me atraiu, me encantou...

— Escuta, parceiro — Lucius se afastou de lado —, eu não curto muito a mesma fruta...

— ...e me fez saber que você deveria ser o escolhido.

O humano franziu o rosto inteiro.

— Escolhido?

— Eu sei pelo que você teve que passar hoje, homem — disse Omniel. — Perder o emprego, a mãe, a mulher e o celular no mesmo dia devastaria qualquer um. Até entendo por que você queria se matar. — Então ele estivera mesmo o observando: até dissera a ordem correta das perdas. — Mas vim aqui te oferecer algo. Algo que sei que pode mudar sua vida para o melhor.

— Em troca da minha alma, é? — falou Lucius em um tom um tanto irônico. — Esse papinho é velho. E que garantia eu tenho de que você é um anjo?

Omniel revirou os olhos, então relaxou a musculatura dos braços e se pôs de frente para Lucius.

Um par de asas saltou de suas costas. Asas enormes, plumadas, belas, magníficas, gloriosas, reluzentes e luminescentes. Elas se abriram graciosamente, abrangendo quase todo o espaço presente no quarto, e Lucius quase caiu sentado no chão, desnorteado.

— Okay, você é um anjo — disse ele, quase sussurrando. — Você é um anjo. Você é um... anjo. Você... é um anjo. Anjo. Você é mesmo um anjo.

— Sim — respondeu o anjo, recolhendo as asas de volta. Elas sumiram, como se tivessem entrado nas costas dele. — Diga-me, Lucius: você deseja a onipotência?

— ...um anjo. Você é a merda de um anjo. Um an...

— ONIPOTÊNCIA, Lucius, você a deseja?

Lucius recuperou a sanidade, permitindo-se pensar.

— Onipotência — ponderou. Mas sua conclusão veio rápido. — Nah, onipotência é um mito. Só uma questão de status. Não se pode ser completamente onipotente. Por exemplo, se você for onipotente, você pode criar uma pedra tão pesada que você não pode levantá-la, mas, se você não puder levantá-la, não é onipo...

— Não estamos falando de pedras pesadas, Lucius — disse Omniel. Então, de sua palma aberta, surgiu uma porção da coisa mais linda que Lucius já vira.

Era pó. Poeira. Um montinho de poeira com uma consistência similar à da areia. Mas não era uma simples poeira — era luminosa, cintilante e colorida, em tons de azul, roxo, rosa, dourado e até verde. Imediatamente ele sentiu um desejo tão forte de possuir aquela poeira que estendeu a mão sem pensar — mas o anjo cerrou o punho.

— Linda, não é? — disse Omniel, provocativamente. — Quer saber o que é?

Lucius, boquiaberto, apenas assentiu, sem palavras.

— Isto — ele abriu a mão novamente, revelando a poeira outra vez, mas Lucius se conteve — é o que chamamos de Stardust.

— Stardust?

— É poeira cósmica — explicou o anjo. — É o componente de tudo. Componente do universo. Compõe você, sua casa, a arma que você usou para tentar me matar, assim como suas balas. Compõe a rua onde você mora e os moradores dessa rua. Compõe seu bairro, sua cidade, seu país, seu continente e o oceano em volta dele. Compõe seu mundo, e os mundos que orbitam o Sol com ele, e o próprio sol. Compõe o universo, Lucius.

— É bonita — disse o humano, ainda vidrado na aparência espetacular da tal Stardust. — O que é?

Omniel soltou um longo suspiro. Então, a Stardust em sua mão começou a flutuar em volta dele até parar no chão entre ele e Lucius.

— Stardust é o princípio — disse ele, e os grãos da poeira cósmica começaram a moldar algo. Moldar uma... semente. Uma verdadeira semente, criada do nada. — É o que incentiva esse princípio a principiar. — Mais Stardust veio, transformando-se em água e caindo simbolicamente sobre a semente, de forma que não molhasse o chão. — É o desenvolvimento desse princípio — continuou, e a semente começou a se abrir, originando um caule verde —, e a continuidade do mesmo. — O caule começou a subir cada vez mais, então um bico fechado de folhas despontou de seu fim. — É vida — disse Omniel, e a flor desabrochou, uma linda flor de lótus negra —, e também é morte. — A flor murchou e tornou-se cinzenta e sem vida. — É o começo... e o fim de tudo. — A flor se desintegrou em mais Stardust, que voltou para a mão do anjo. — E é o recomeço.

Lucius, fascinado, bateu palmas.

— Excelente demonstração. Então eu posso fazer de tudo com esse pozinho aí?

A Stardust moldou-se em uma mão e estapeou o rosto de Lucius.

Tudo — respondeu Omniel, usando essa mesma mão formada para segurar o rosto de Lucius. — Você pode criar uma cidade nova. Não, você pode criar um planeta novo. Todo seu. E um universo novo para abrigar esse planeta. Pode criar habitantes para esse planeta; pode criar tantas, mas tantas mulheres que você mal se lembrará da sua esposa que o traiu. Pode ter uma nova vida, longe deste mundo imundo, uma vida perfeita e ideal, da forma que você quiser. Do jeito que você quiser, Lucius.

A resposta de Lucius já era definitiva. Contemplou a sorte que tinha — um anjo aparecendo para ele do nada e o oferecendo a onipotência de graça.

— Eu aceito — disse, encantado, olhando para o anjo.

— Mas, primeiro — começou Omniel, erguendo o dedo, e Lucius já começava a rever os conceitos de “de graça” —, terá que me provar que é digno.

— O que quer dizer?

As sirenes da polícia começaram a soar. Lucius se encolheu, mais assustado do que já estivera em anos, mas Omniel estendeu sua mão estranhamente feminina para ele.

— Venha comigo — disse —, vamos embarcar em uma aventura cósmica. Pelo espaço sideral. Você será desafiado, Lucius, testado além dos seus limites, mas, no fim, e eu sei que você será capaz de chegar nesse fim, você terá a Stardust só para você.

Mais rápido do que ele pensava que aconteceria, ele ouviu os policiais abrirem a porta que ele não trancou. Agora eles corriam pela casa em busca dele. O desespero o tomou por completo.

— O que me diz? — falou Omniel, o sorriso perfeito reluzindo.

Sem pensar, Lucius agarrou a mão do anjo.

Os policiais chegaram no quarto a tempo de ver um ofuscante clarão, como o de um relâmpago, tomar conta do quarto antes do mesmo se tornar um ambiente vazio, sem ninguém lá dentro.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Vejo vocês nos próximos capítulos, e não se esqueçam de ler minhas outras histórias também enquanto esta não é atualizada! :D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.