Stardust

2 II. A Estrela e a Donzela


Notas iniciais
antes de qualquer coisa, boa leitura! nos vemos lá embaixo :)

II

A ESTRELA E A DONZELA

No qual dois semelhantes pares de olhos avistam distintos brilhos, e a nossa história começa.

☠

Pouco antes de a estrela cruzar o céu de Konohagakure, Sasuke Uchiha se encontrava em uma bebedeira pecaminosa de três dias.

Não que ele tivesse um problema com bebida, veja bem, não mesmo. Mas vez ou outra tropeçava em algum pequeno e estúpido problema em algum deque de algum porto e acabava parando dentro de uma taberna suja e barulhenta, lotada de piratas igualmente sujos e barulhentos. Ele nunca permanecia por mais de uma noite, no entanto.

Mas fazia cinco anos desde que fora largado naquela ilha deserta, com nada além de uma garrafa de rum e uma pistola com apenas uma bala. A sentença pelo que fizera enquanto imediato da tripulação do Vingança de Susanoo, enquanto filho do Capitão. O temido maroon, no entanto, não fora nada perto das palavras duras de Fugaku, do olhar que o dera. Sasuke era mais que um traidor, um garoto sem honra, era um filho deserdado. E agora era também um homem perdido. Daquela vez, então, o problema foi um pouco pior que das outras. E agora, com o mundo girando ao seu redor e dentro de seu estômago, Sasuke desconfiava que o rum também estava mais forte, porque fazia três dias e três noites desde que entrara naquela taberna e não parecia capaz de sair com as próprias forças.

— Aqui, por conta da casa.

Sasuke ergueu a cabeça, que estivera enterrada nos braços cruzados sobre a mesa por horas, a tempo de ver a mulher de cabelos vermelhos largar um prato com sopa de batatas a sua frente. Karin era um dos piratas donos daquela taberna, sempre tão forte para a fúria e aparentemente fraca para os encantos de Sasuke. Quando ela retornou para trás do balcão, sem esperar resposta porque o conhecia bem o bastante, ele notou a careta infeliz que fez Suigetsu, o outro dono e também marido de Karin. Mas ambos seguiram com suas vidas, assim como todos no Taka’s, porque pirata algum se importava realmente com algo além de si mesmo.

E Sasuke não era diferente. Voltando para a própria miséria embriagada, puxou o prato de sopa para si e se permitiu atenuar a ressaca com algum nutriente, sem prestar atenção em nada mais ao seu redor.

Levava as últimas colheradas à boca, a coordenação vacilante, quando o objeto foi arremessado metros à sua frente, deixando-o apenas com a vista de uma espada apontada para o seu nariz. Ele sentiu o cheiro de flor-de-cerejeira que somente aquela lâmina tinha em todo o mundo. Sasuke sorriu, apesar do susto.

— Que tipo de pirata rouba uma amiga por causa de rum? — Sakura Haruno empunhava a espada com firmeza e certa severidade, de forma que um estranho não saberia se tratar de um amigo ou inimigo. Sua ira parecia não conhecer a diferença.

— O tipo mais comum de pirata.

— O tipo pior de pirata! — Sakura guardou a espada na cintura e sentou-se à sua frente. Olhou-o de cima a baixo e pela expressão do seu rosto parecia um tanto infeliz com a vista. — Você está horrível, Sasuke. — disse, esvaziando a garrafa de rum no chão da taberna.

Sasuke fez menção de protestar, mas o álcool em seu sangue e o olhar de Sakura o mantiveram em silêncio. Também se perguntou se estava tão horrível assim: fazia um bom tempo que não via o próprio reflexo. Mexeu nos cabelos, um pouco desconcertado, mas a movimentação à sua frente lhe tomou atenção. Sakura tirou algum pergaminho do bolso, os dedos adornados de anéis dourados cuidadosamente desenrolando a fita que o prendia, e então o jogou em sua direção.

— Ino retornou de Kirigakure, ela trouxe isso.

Sasuke abriu-o: era um cartaz de procurado, com seu nome e rosto desenhados, exceto que era um rosto um tanto mais jovem, fino, sem sinais de pêlos. Mas fora feito recentemente, a tinta ainda forte e o papel em boas condições não mentiam. Então eles sabem, pensou ele, ou pelo menos ouviram algo. E agora Sasuke precisava fazer algo antes que cópias daqueles cartazes chegassem em Konohagakure, caso contrário jamais poderia cumprir sua missão, não com piratas e mercenários lutando pela sua cabeça. Ele respirou fundo, cansado só em pensar nas possíveis perseguições. Mas o alto valor abaixo de seu nome completo lhe causou certo orgulho, não podia mentir; perguntava-se como o Capitão Fugaku decidira o quanto seu filho valia. Ou melhor, a sua morte.

— Aparentemente eles sabem que sobreviveu ao maroon. — Sakura externou seu pensamento, tomando de volta o cartaz. Amarrou-o e o escondeu dentro do labirinto de camisa e lenços que cobriam seus seios, onde Sasuke se perdeu apenas por um instante. — Ino falou que viu em alguns postes e tabernas de Kiri, mas não em Suna. Da prisão em que fugiu de Suna, todos confirmaram que você morreu naquela ilha. Em Kiri, alguns pareciam planejar vir atrás de você.

Sasuke entortou os lábios, sentindo seu sangue esquentar. Não que estivesse com medo de alguns piratas bêbados, não, o seu problema era o risco que aquilo tudo trazia ao segredo do seu paradeiro e, principalmente, ao seu plano. Como diabos eles sabiam?

— Sua imediata sabe demais, Haruno…

Sakura empunhou uma adaga sabe-se lá de onde, enterrando-a na mesa. Sasuke afastou as mãos de onde estava, levando-as para a própria adaga presa na cintura. Alguns olhares pararam por um instante, no meio das conversas e gritaria da taberna, atentos à mudança repentina.

— Nunca mais insinue qualquer coisa sobre Ino, Sasuke, ela é a minha Imediata, minha melhor amiga. E lhe fez o favor de trazer esse cartaz com o seu belo nome e rosto, fez o favor de matar o homem que o trazia no navio para cá. Entendido?

Sasuke suspirou, afastando as mãos de sua adaga. Sentia-se mais cansado que horas antes, quando estava mais bêbado.

— Me desculpe.

— Hum — Sakura retirou a lâmina da mesa e guardou. Os olhares se dispersaram e eles pareciam ter novamente certa privacidade. A pirata passou o dedo indicador pelo vinco que formara na madeira, um bico nos lábios. — Eu poderia ajudá-lo, se não tivesse me roubado todo o ouro do navio.

— Eu não roubei você, Sakura, eu peguei emprestado.

Antes que Sakura pudesse retrucar, Sasuke retirou um saco do tamanho de sua mão e jogou-o sobre a mesa. O barulho seco de moedas comprimidas entre si chamou a atenção da mulher, que o agarrou. Ela abriu, checando o conteúdo, e arregalou os olhos. Quando Sasuke chegara ao Taka’s, três dias antes, não tinha mais do que algumas pratas. Agora, depois de muitas partidas de jogos de azar contra todo tipo de pirata e mercenário, reunia uma quantia suficiente para comprar um navio decente. Mas não era de um navio que precisava.

— É seu.

— E o que quer em troca? — Sakura guardou o saco de moedas entre os seios, onde Sasuke novamente se perdeu por um momento. — Huh?

— Um favor.

— E qual seria?

— Eu ainda não sei.

— Quer que eu aceite um favor sem saber qual é?

— É a capitã mais confiável e brava que eu conheço, então eu entendo se não aceitar. Mas saiba que estamos no mesmo barco, eu realmente não sei o que me aguarda bem agora.

Apesar de não ser como os outros piratas, sempre acompanhados de mulheres, Sasuke definitivamente se considerava um conhecedor delas. Bom, pelo menos de algumas. Sakura Haruno, por exemplo, gostava quando reconheciam e elogiavam sua capitania. E Sasuke gostava quando não precisava mentir para conseguir o que queria.

— Então estaremos no mesmo navio! — Sakura disse, levantando-se.

…

Era o ápice da madrugada quando chegaram ao cais. O Diáspora, navio da Capitã Haruno, era o mais afastado de todos e estava atracado no final do píer, onde a praia não dava mais pé. Sentaram-se à beira da estrutura, de onde precisavam erguer a cabeça para olhar a figura de proa do navio e podiam balançar as pernas no ar sobre as águas escuras do mar. O cheiro de sal e algas se misturava ao rumor distante das ondas.

Sasuke girava a adaga entre os dedos, sem pressa, o metal frio contra a pele quente. O álcool em seu sangue enfraquecia pouco a pouco, mas a ressaca começava a subir pela nuca como uma maré traiçoeira. Sakura, ao seu lado, jogava pedrinhas no mar, o som breve do impacto perdido no barulho das ondas.

— E agora? — ela perguntou, sem olhá-lo.

Ele não respondeu de imediato. O cartaz de procurado ardia sob seus olhos, um presságio inquietante. Mas não era isso que o mantinha ali, ainda sentado sobre o píer gasto, os pés pairando acima da água.

Então, o céu mudou.

Sasuke percebeu no mesmo instante que Sakura ficou imóvel ao seu lado. O vento se alterou, carregando algo metálico, elétrico. As águas ao redor se tornaram mais escuras. Ele ergueu os olhos e viu. Uma luz, não uma estrela cadente comum. Um rasgo incandescente no breu. A princípio, era apenas um ponto trêmulo no firmamento, um brilho insistente contra o negrume. Mas cresceu. E continuou crescendo.

O céu inteiro pareceu estremecer.

O clarão se avolumou, arrastando uma trilha prateada, sua cauda de fogo e cinzas riscando a abóbada celeste como uma lâmina que desce para o golpe final. O brilho refletiu nos olhos de Sakura, mas Sasuke não viu a queda.

Ele estava em outro lugar.

A ilha era pequena, árida. A água salgada secava na pele, o sol castigava o chão rachado. A madeira do velho cais rangeu sob seus pés descalços. O navio ancorado à frente era imenso, o Susanoo. E à sua frente, a silhueta de um homem.

Fugaku.

Seu pai não gritava. Nunca gritava. Sua voz soava como lâmina afiada arrastada contra pedra.

— Você só volta ao Susanoo quando me trouxer o coração de uma estrela.

Sasuke segurou o fôlego. A pistola voou pelo ar, ele a pegou antes que caísse ao chão.

— Uma bala — disse Fugaku, sem emoção.

A garrafa de rum veio logo depois, batendo contra seu peito. Então, sem mais palavras, o pai virou-se e caminhou de volta ao navio.

Sasuke ficou onde estava, os dedos apertados ao redor da pistola. A ilha atrás de si, o oceano à sua frente. O Susanoo içou âncora.

O céu estava limpo naquela noite. Nenhuma estrela caiu.

Foi o som das ondas que o puxou de volta; o mar tremulava onde a estrela havia desaparecido. Longe, muito longe.

Sasuke ficou de pé. Sakura piscou, como se despertasse de um transe, e olhou para ele.

— Você viu isso? Sasuke, aquilo… Eu nunca vi algo-, lindo…

Ele não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram fixos no horizonte, como se tentasse capturar um vestígio do brilho que havia se apagado. Algo naquela visão havia se agarrado a ele, como se aquela chama queimasse alguma coisa dentro de si, reacendendo a fúria que o mantivera vivo até ali. Finalmente, murmurou:

— Preciso da sua tripulação.

Sakura franziu o cenho. Seu olhar avaliou Sasuke de cima a baixo, tentando discernir o que de oculto se passava.

— Para quê?

— Para onde ela caiu. — Sua voz era firme, sem hesitação.

A capitã permaneceu em silêncio, estudando-o. Sasuke não se moveu, mas a forma como sustentava o olhar indicava uma urgência nova, algo que Sakura jamais vira nele antes. Ela conhecia bem aquele tipo de brilho nos olhos de alguém: determinação absoluta, o fogo de quem está prestes a desafiar o impossível.

Era perigoso. Mas era tentador.

E Sasuke sabia que ela adorava uma aventura.

Sakura deu um longo suspiro e cruzou os braços, como se refletisse sobre as consequências da proposta. No entanto, um pequeno sorriso começou a se formar em seus lábios antes mesmo que ela falasse, enquanto se levantava.

— Bom, você me roubou todo o ouro, mas devolveu multiplicado… — ela disse, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado. Então estendeu a mão. — Eu disse que estaríamos no mesmo navio, Uchiha.

Sasuke desviou os olhos do mar para encará-la. A brisa noturna balançava seus cabelos desalinhados, mas ele não parecia sequer notar. Deu um passo à frente, apertando a mão da capitã. Tinham um acordo.

Por um momento, Sasuke não respondeu. Então, lentamente, um sorriso quase imperceptível cruzou seu rosto. Não era desdém, não era ironia. Era algo mais sutil, um reconhecimento silencioso de que, de alguma forma, estavam no mesmo barco agora — figurativa e literalmente.

— E é sério? Todo o ouro do navio? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— São tempos difíceis! — Sakura deu de ombros, já se virando em direção ao navio. — Mas nada que uma boa caça ao tesouro não resolva.

E ele nem havia feito um pedido à estrela cadente.

☠

O sol baixo iluminava o céu de Porto Real em tons de vermelho e laranja. Abaixo, o porto fervilhava num tumulto aguardado.

O calor do dia estava quase insuportável, mas a cidade parecia mais viva que nunca. A multidão se apertava ao redor da praça, ansiosa pela execução. Os gritos dos prisioneiros e dos espectadores começavam a se espalhar, misturados ao som dos grilhões em movimento e ao barulho do vento batendo nas velas dos barcos ancorados. Para os cidadãos, aquilo era um espetáculo de morte e punição. Para Itachi, não passava de uma distração.

Ele se manteve nas sombras, longe da agitação, o olhar fixo na praça. O que importava estava ali, como uma peça de um quebra-cabeça que finalmente começava a se encaixar. A filha do governador estava entre os guardas e dignitários. Ela era a peça mais importante, Itachi sabia disso. Todo o resto era apenas cenário.

Seu olhar se deteve nela. Estava límpida, com seu vestido bordado e o olhar altivo, como uma princesa em um conto de fadas. Para ele, no entanto, não passava de uma chave — uma chave para um propósito muito maior. E ele faria o que fosse necessário para completar o seu sacrifício de vingança.

Temari estava ao seu lado. Sua imediata não questionava suas ordens, sabia o que ele queria e isso era tudo o que importava. Sua postura era firme e vigilante, sempre calculando. Nada passava despercebido aos olhos de Temari, tornando-a uma aliada indispensável. Ela o olhou, mas não disse nada; Itachi nunca explicava demais. Não precisava.

— Preparada? — perguntou ele em voz baixa, ainda sem desviar o olhar do alvo.

— Sempre — Temari respondeu com um sorriso sutil.

O momento chegava. A execução estava em andamento, mas não era isso que importava. Itachi sabia que a distração seria perfeita. As cordas foram esticadas, os prisioneiros arrastados em direção a morte, e a multidão ficou em silêncio por um instante, tomada pela tensão. Era o silêncio que ele precisava.

Antes que a alavanca fosse puxada, um estrondo cortou o ar quente do porto. O silêncio se transformou em caos. A fumaça da explosão nas extremidades da praça começou a se espalhar. Era a sua chance.

O movimento foi rápido e preciso. Sem hesitação. Itachi saiu das sombras com a agilidade de um felino. Temari seguiu-o com a mesma destreza, como se fossem sombra um do outro. Ninguém os notou até que fosse tarde demais.

A filha do governador estava cercada por sua guarda pessoal. Estavam despreparados, demasiadamente confiantes na segurança da execução para se preocupar com qualquer outra ameaça. Mas Itachi estava lá, e a peça estava diante dele.

Os guardas reagiram tarde demais. Um deles tentou sacar a espada, mas Itachi já estava em movimento. Com precisão letal, desviou do golpe e deslizou a lâmina de sua adaga pelo pescoço do homem. O guarda caiu sem emitir um som. Os outros tentaram cercá-lo, mas Temari avançou como uma tempestade. O vento pareceu soprar ao seu favor quando ela desferiu um golpe certeiro, atirando um dos soldados contra um monumento da praça.

O terceiro guarda conseguiu erguer a espada e investiu contra Itachi, que bloqueou com a lâmina da adaga e um movimento rápido do pulso. A força do golpe fez faíscas saltarem entre o aço, mas Itachi já estava girando o corpo, desviando e atacando com velocidade fantasmagórica. Um chute preciso no joelho do guarda o fez vacilar, e um golpe certeiro na lateral do pescoço o deixou inconsciente antes que pudesse gritar.

A filha do governador tentou recuar, os olhos arregalados pelo horror da cena, mas Itachi foi mais rápido. Um dos guardas ainda tentava erguer a arma, e o pirata o desarmou com um único golpe antes de pressionar os dedos contra a pele delicada da jovem.

Seus olhos se encontraram por um breve instante. Ela viu o reflexo do fogo nas íris escuras dele antes que uma estranha sensação começasse a tomar conta de seu corpo. O calor do ar pareceu se intensificar, mas ao mesmo tempo, uma névoa fria subiu de seus pés até sua cabeça. Hinata tentou falar, mas sua visão escureceu. As palavras de Itachi ecoaram em sua mente como um sussurro distante.

— Durma.

Seus olhos se fecharam e seu corpo amoleceu nos braços dele. A magia fora sutil, imperceptível para qualquer um que não estivesse prestando atenção. Não era algo que Itachi usava com frequência — era um resquício do pacto com Kaguya, um presente que ele não compreendia totalmente. Mas era útil.

Enquanto a cidade afundava no caos, Itachi não hesitou. Ele a ergueu e a puxou para longe, levando-a por ruas estreitas. Temari estava atrás deles, garantindo que nenhum soldado os interceptasse. O caminho era tortuoso, mas Itachi já havia planejado cada passo. O sol começava a se pôr. O Holandês Voador aguardava. O tempo se esgotava.

Quando chegaram à costa, o navio estava à vista. O Holandês Voador parecia surgir da neblina, sua silhueta monstruosa, imponente, recortada contra o céu já escuro. A figura do navio parecia quase sobrenatural, um espectro de velas negras que cortavam o vento como se o próprio oceano estivesse à sua mercê.

Itachi subiu a bordo com a jovem, Temari seguiu logo atrás. A tripulação do navio estava em movimento, como se soubessem exatamente o que fazer. Não havia palavras necessárias .A filha do governador foi trancada em uma cela, os olhos ainda arregalados de medo, mas impotente diante da realidade que agora a envolvia. O objetivo estava claro. Eles estavam a caminho de algo maior, de um destino que ultrapassava o que qualquer um ali poderia imaginar.

…

O navio se afastou da costa, cortando as ondas com uma velocidade surpreendente. O Holandês Voador parecia mais rápido do que qualquer navio comum, sua velocidade impossível de ser igualada por qualquer outra embarcação. A tripulação estava acostumada a navegar naquele ritmo sobrenatural, movendo-se como se fossem uma única entidade, sem necessidade de comandos ou ordens verbais. Itachi sabia que o navio tinha uma alma própria, amaldiçoada, mas obedecendo a um propósito que só ele compreendia.

O clima estava denso. A brisa salgada cortava a pele, e o céu acima estava sem estrelas. Itachi sabia que estava se aproximando do que seria o fim de sua jornada — ou o começo de algo ainda maior. A ilha distante estava à frente, um ponto invisível no horizonte que ele havia visualizado em seus sonhos por anos. Onde Kaguya poderia retornar à sua forma humana. O ritual estava próximo, e ele estava disposto a tudo para garantir que ela voltasse. Para garantir que a deusa do mar fosse restaurada.

Itachi havia se retirado para a cabine do capitão desde que embarcara novamente, sua mente em tumulto. Ele não podia permitir que a distração do mundo ao seu redor interferisse nos seus planos. Não agora, não quando ele estava tão perto de realizar seu destino. Dentro da cabine, as velas tremulavam, lançando sombras nas paredes. Ele olhou para a estatueta de Kaguya, forma de mulher, traços de sobrenatural. A brisa do mar adentrou pela escotilha um pouco mais forte, mas as velas em chamas altas não se dissiparam. Mesmo em silêncio, ele sentia a presença dela. Não precisava de palavras. Não precisava de nada além dessa ligação silenciosa.

O símbolo da deusa estava ali, diante dele, e ele sabia que ela estava ciente dos seus movimentos. Sentia sua energia vibrando, suave e silenciosa. Itachi segurou a estatueta, suas mãos calmas, mas firmes. A luz da vela refletia na superfície do objeto, criando um jogo de sombras que parecia dançar nas paredes.

Ele ainda recordava vivamente de quando tudo ficara escuro. A escuridão da água envolvera sua visão, e ele podia sentir os últimos vestígios de sua consciência se esvaindo. Tudo se tornara turvo, até que uma presença surgiu nas profundezas. Não era humana. Era algo muito maior, algo que o chamava, que o guiava através da água gelada, iluminando o abissal do oceano.

Itachi acordara em um navio diferente, com uma tripulação diferente. O cheiro do salgado não vinha mais de um oceano implacável, mas de um mar com uma vontade própria, quase como se o navio fosse uma extensão de uma força ancestral. Ele olhara ao redor, sentindo a presença de algo mais, algo além de qualquer explicação humana. O capitão que o salvou tinha olhos vazios, mas uma aura que emanava do fundo das profundezas. A tripulação era como sombras que passavam sem ser vistas, mas sua fidelidade era inegável. Itachi soubera imediatamente que estava diante de algo impossível, algo que o próprio mar havia enviado para resgatá-lo.

Ele aprendera, com o tempo, que aquele navio era amaldiçoado, que sua tripulação estava destinada a navegar para sempre, sem descanso, sem terra firme. O navio, O Holandês Voador, não tinha porto, não tinha destino. Os homens que estavam a bordo estavam perdidos, condenados a servir o mar até o fim de seus dias. Mas Itachi também aprendeu algo mais, algo que fez seu coração bater mais rápido. Ele soubera que sua salvação não havia sido obra de uma simples tripulação, mas de algo muito mais grandioso.

O mar o havia escolhido. E a deusa, Kaguya, o havia trazido de volta à vida. Não era um resgate comum, era o próprio mar, com seus segredos e mistérios, que o havia trazido de volta dos portões da morte. Ele não tinha mais dúvidas. Kaguya, a deusa do mar, estava ligada a ele de maneira que ele não conseguia compreender completamente, mas a sensação de que ela o guiava e o chamava era inegável. Ele começaria sua busca por ela, uma jornada que o levaria a lugares que ele jamais imaginou. E no coração dessa busca estava uma verdade que ele demoraria anos para compreender: a filha de Kaguya. Ela nascera naquela mesma noite.

Mas dezenove anos haviam se passado. Itachi agora era o capitão d’O Holandês e a imagem da verdade pouco a pouco tornava-se mais nítida.

Repousou a estatueta sobre a superfície da escrivaninha, sua audição detectando um ruído que ameaçava surgir. A porta se abriu e Temari entrou, com sua postura habitual, firme e decidida. Manteve-se próxima da porta, observando seu capitão por um momento antes de falar.

— O que faremos com ela? — perguntou Temari, sem rodeios, como sempre. Embora toda a tripulação confiasse que ele tinha um plano, ninguém compreendia os detalhes.

Itachi olhou para ela, seus olhos profundos sem revelar qualquer emoção. Apenas a visão do símbolo à sua frente parecia trazer alguma tranquilidade ao caos interno.

— Ela é o que precisamos — respondeu, sua voz fria e controlada. — O mar nos revelará o resto.

Temari não questionou. Ela sabia que ele tinha seus próprios métodos, seus próprios objetivos, e não era seu papel interferir nisso. Ela respeitava a decisão, mesmo que não entendesse completamente. O destino deles estava entrelaçado e ela seguiria o capitão até o fim. O silêncio do capitão deixou claro que a conversa não se estenderia; Temari deixou a cabine.

Itachi voltou sua atenção para o símbolo mais uma vez. Ele sentiu algo mais forte em seu peito, como se estivesse prestes a alcançar algo muito além do que ele poderia imaginar. O Holandês Voador avançava, cortando as águas, e a ilha estava cada vez mais próxima. A verdade estava logo ali.

O navio não pararia até que a missão fosse cumprida. Nem a tripulação. Nem Itachi.

CONTINUA...

Notas finais
oi oi :) demorei mais do que esperava, pois primeiros capítulos/de introdução me apavoram, e eu continuo voltando neles mesmo depois de terminado e escrevendo outros. sinto muito. mas aqui estamos! agradeço aos favoritos/acompanhamentos e a @Coq123 que deixou um comentário (spirit). muito obrigada! axé! se chegou até aqui e se gostou, deixe-me saber! se pegou referências, se tem dúvidas, teorias, etc... também estou procurando amiguinhos, pois sou nova por aqui, hihi. até daqui a pouco :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.