Star Trek 2 - Coletânea De Histórias
3 Indesejável - Parte III
Notas iniciais

Lyanna encontrava-se na cela, pensativa, enquanto fitava o teto.
Já havia passado quase que por completo o efeito do tranquilizante e mal conseguira tocar na comida, frente à situação em que se encontrava.
De fato, não tinha fome, pois somente preocupava-se com os demais a mercê de um planeta feroz e truculento, especialmente em certos períodos, mesmo que os tivesse ensinado a sobreviver naquele ambiente hostil.
Afinal, ela sempre os protegia dos perigos, graças a sua força e resistência Klingon, somado a certas habilidades, que a fizeram temida dentre as feras, embora sempre tivesse contado com a ajuda de seu inseparável amigo, Ryhan, que era mais como uma irmã para ela, porque também parecia ser capaz de ler seus pensamentos, além de conseguir compreender o que falava.
Inclusive, isso era algo não esperado de um ser, que poderia ser tido como um mero animal ou fera no quesito aparência do mesmo, que era, particularmente, intimidador quando desejava.
Além disso, ele era forte e poderoso, portanto, era capaz de protegê-los se assim fosse necessário. Mesmo assim, não deixava de se preocupar, apesar dos vulcanos terem conseguido fabricar algumas armas consideráveis graças ao seu intelecto, porque, mesmo não sendo de sangue e sim, uma família adotiva, o ideal para uma órfã como ela, ainda os considerava a sua única família e somente iria descansar, após conseguir resgata-los.
Tinha esperança que a nave estivesse em força de dobra para chegarem o quanto antes ao planeta. Antes do inevitável. Antes que fosse o fim, por completo, como visualizara em seus sonhos. Ou melhor, pesadelos.
Estava perdida em seus pensamentos e recordações, que não havia notado que Spock estava em frente à cela, observando-a atentamente, pois percebera que o comportamento dela não lembrava em nenhum momento de um klingon, tal como a crista na testa da mesma era sutil, quase que não aparecia, assim como os demais traços que eram suavizados em demasia, mesmo para os padrões de uma fêmea Klingon.
Estava absorto em pensamentos, quando Kirk chega, pondo-se a observa-la e notando que Lyanna estava também perdida em pensamentos e encontrava-se preocupado com ela, pois soube que a mesma estava comendo muito pouco, além de ficar só deitada, olhando para o teto, pensativa, como se tivesse alheia a tudo.
Se bem, que analisando a situação como um todo, não podia culpa-la.
Afinal, fora tratada muito mal, principalmente por McCoy, sendo que deveria ser tratada como uma hóspede e igual sobrevivente e não como uma prisioneira, presa por um crime inexistente, como estava sendo tratada nos últimos dias, além da hostilidade que quase todos demonstravam pela jovem presa na cela.
Porém, era uma reação compreensiva, pois, a Federação Unida dos planetas e os Klingons, sempre tiveram relações conturbadas e absurdamente tensas, até porque, sempre que as naves se enfrentavam, a federação experimentava baixas consideráveis, assim como o império da raça dela. Portanto, tal reação seria o esperado.
– Está pensativa, Lyanna?
Ela desperta de seus pensamentos e olha para Kirk e em seguida, para Spork, para depois tornar a olhar para o teto, falando em seguida:
– É o primeiro que conversa comigo de igual para igual e não com ódio ou com olhares frios, sendo somente o senhor, capitão e o senhor Spork que agem assim. Já, aquele médico e os demais seguranças, assim como a tripulação dessa nave estrelar, agem como se eu fosse algo abominável. E por mais que eu deteste, há certa lógica em tal tratamento, já que os Klingons são bem ruins e fazem atrocidades... Eu, pessoalmente, vi e testemunhei a maldade deles. Uma maldade que nunca esquecerei e que desejo nunca mais ver novamente.
– No que estava pensando? — Kirk pergunta curioso.
– Na minha família que ficou no planeta Lithium IV... Estou preocupada com eles. Eu sei sobreviver naquele planeta feroz e turbulento, graças ao meu sangue Klingon. Um sangue guerreiro. Já eles... Bem, eu os defendia e em troca tinha alguma companhia, já que até a chegada deles, vivia sozinha. Bem, tinha minha amiga Ryhan... Mesmo assim, nossa comunicação era um tanto “complicada”, digamos assim.
– Sempre fala de Ryhan... Quem é Ryhan? — Spock pergunta curioso.
– Ryhan é Ryhan... Bem... Não sei que raça ela é, sabe? Mas, seria julgada como um animal, já que fica sobre quatro patas e assemelha-se a uma fera. Mas, é inteligente e compreende as coisas... Quando cai com a pequena nave naquele planeta, ela estava presa nesse vaivém, embora fosse só um filhote naquela época, assim como eu era somente uma criança órfã, sendo que ambas estávamos à mercê da própria sorte em um planeta implacável e truculento. A união entre nós foi essencial para a nossa sobrevivência em um planeta tão inóspito.
– Então, foi assim que vocês se conheceram?
– Sim. Em virtude disso, nós crescemos, brincamos, comemos e caçamos, sempre procurando ficar juntas. Para mim, é como se fosse uma irmã e companheira de luta.
– E quanto aos demais sobreviventes no planeta? – Spock pergunta.
– Caíram há alguns anos atrás. Inicialmente, tivemos problemas, até por eu ser uma klingon e a nave deles havia sido abatida por uma nave de rapina dos klingons. Logo, como podem supor, a minha existência lá, no início, era um tanto “perturbadora”, pelo menos em relação às terráqueas que os acompanhavam. Afinal, deles, elas eram as únicas emotivas. Como os vulcanos são essencialmente lógicos, logo, não teve grande alarde em relação a eles, mesmo quando não sabiam se eu era uma ameaça ou não.
– Posso imaginar. – Kirk comenta pensativo.
– Bem, depois eles me aceitaram, sendo que a humana foi a última a me aceitar e com o tempo, nosso relacionamento “evoluiu”, digamos assim, ao ponto deles me considerarem como um membro de sua família e antes de ser capturada, ao detectamos a presença de outros klingons, pedi a Ryhan para que cuidasse deles. Porém, em algumas estações, o planeta torna-se ainda mais selvagem e inóspito, principalmente com a época da procriação das feras e justamente, quando fui retirada do planeta, essa época estava apenas começando... Não consigo comer, direito, pois estou preocupada com eles. — ela então faz uma pausa e olha para o capitão com os olhos úmidos e um olhar agoniado — Falta muito?
Lyanna tomara o devido cuidado de ocultar que tivera a intenção de ser capturada pelos klingons, porque não sabia como eles iriam reagir, frente às habilidades ocultas dela.
– Só algumas horas.
– Que bom. – ela sorri e suspira aliviada, pois, conseguiriam chegar a Lithium IV, mais cedo do que esperava.
– Voltando ao assunto anterior. Como assim, pediu? Disse que ela era uma fera.
Spock pergunta intrigado, sendo que momentos antes ficara surpreso com os orbes úmidos da mesma, assim como Kirk, ao testemunharem a genuína preocupação dela, ao ponto de se inclinarem para o fato de que ela falara a verdade.
– Simples. É uma fera e pode ser intimidadora quando ela quer, mas, desde que era filhote, era como se pudesse, de alguma maneira, prever as minhas reações, além de ser capaz de um raciocínio e compreensão inéditos, se for considera-la como um animal. Ela compreende o que falo, além de ser muito leal e corajosa. Não foram poucas as vezes que me salvou, assim como a salvei. Ela é a minha parceira.
– Prever as reações? – Kirk pergunta, admirado.
– Digamos, que antes de eu pedir algo, principalmente quando acabávamos envolvidos em uma luta contra outras feras, ela sabia o que eu ia pedir e assim, nos conseguíamos atacar de forma coordenada, auxiliando ainda mais a nossa batalha, se por acaso, estivéssemos contra múltiplos oponentes, algo que era consideravelmente usual.
– Incrível... De fato, Ryhan parece ser uma criatura fascinante.
– Eu também acho. Além disso, ela é a minha melhor amiga. Também me preocupo com ela, além da minha família adotiva.
– Vou confirmar se alguma nave com vulcanos e uma terráquea, desapareceu perto de Lithium IV. – Spock fala.
– Procure na data estrelar 2248.36.
– Irei me focar nessa data.
Enquanto isso, Kirk pensava o quanto era diferente de um Klingon. Diferente demais, pois além das características emocionais, havia o físico. Ela parecia mais fraca e as cristas, assim como as características da raça eram bem sutis e adicionava-se o fato de que a sua pele era bem clara. Clara demais, além da voz ser consideravelmente mais feminina, pois, as mulheres klingons, tinham uma voz feminina mais rouca, além de serem consideravelmente fortes, já que pertenciam a uma raça tida como guerreira.
Pelo menos, segundo o que aprendera sobre a raça no bando de dados da Federação Unida dos Planetas.
Para ele, era uma klingon belíssima e igualmente exótica. Inclusive, confessava a si mesmo que se ela senão fosse prisioneira, a teria cortejado, já que a mesma estimulava seus instintos. E seus cabelos eram macios como seda, além de cacheados e não lisos, como era usualmente os cabelos dos membros da raça dela, mesmo as mulheres. Ele havia confirmado tal suposição, após acariciar as madeixas da mesma, quando ela estava dormindo.
Kirk acabou sentindo-se consideravelmente desconfortável e passou a procurar uma imagem mental desconcertante para acalmar-se, sobre as sobrancelhas arqueadas de Spock, que notou o tipo de olhar dele para com a jovem, além de já saber sobre a fama de mulherengo de seu amigo.
– Sua aparência física é diferente, mesmo para uma fêmea Klingon. Diria que é mais sutil, além do cabelo ser diferente, assim como, a cor da pele é mais clara, além do comportamento. – Spock comenta, conforme a analisava.
Lyanna senta e fala, após dar um sorriso discreto, para depois abanar a cabeça para os lados:
– De fato, é um Vulcano. Excelente análise. Não esperava nada menos do senhor e sei que irão interrogar-me perante os resultados dos exames feitos em mim, além de que, conheço a técnica vulcana de ler mentes. Portanto, não teria como evitar o acesso a minha, caso seja necessário mais informações. E presumo que irão realizar uma reunião para discutir o meu caso e que deverei considerar-me "convidada" a participar, digamos assim.
O capitão fica surpreso com a dedução dela e fala:
– Sim, já foi marcado. Portanto, será escoltada até a sala de reunião e embora discorde da opinião geral, que você é uma ameaça em potencial, porque percebi que o seu olhar era de genuína preocupação com os que ficaram em Lithium IV, além de seu desespero, tal como os seus olhos que mostram isso, pois não são os olhos usuais de um Klingon e sim, muito humanos, conforme algumas fotos no banco de dados da Federação Unida dos Planetas, não posso tratá-la como uma simples sobrevivente, como deveria ser... Infelizmente, sou obrigado a acalmar os demais e, portanto, sou obrigado a agir como se você fosse uma ameaça em potencial, dando o mesmo tratamento a você, que daríamos a um prisioneiro Klingon.
– Compreendo e não o culpo. Afinal, é o capitão da nave e tem seus deveres, assim como obrigação para com a sua tripulação e uma delas, é aplacar os temores da mesma... Além disso, sei que não tenho escolha, embora, deva considerar e aceitar, já que irão resgata-los. Frente a isso, a meu ver, seria um despautério não ser colaborativa com vocês. O mais lógico, é cooperar no que necessitarem.
– Pode ter certeza, que dei a ordem pessoalmente para que a nave se dirigisse até esse planeta, após ter que ouvir um sermão aborrecedor do senhor Scott, ao pedir velocidade de dobra, após ele ter restaurado o sistema de propulsão, pois, não desejava forçar a peça recém instalado, preferindo “amaciá-la”, antes de exigir o máximo da mesma, segundo a explicação dele.
Ele fala, enquanto que ficava admirado da eloquência na fala dela, assim como percebera, que seu amigo também estava surpreso, senão, fascinado pelo vocabulário demasiadamente polido, assim como considerações e igual, raciocínio.
Nisso, seis seguranças armados com o feixe em nível de tonteio, chegam e ficam em frente à cela, sem baixar as armas e após ser abaixado o campo de energia, ela é escoltada até a sala de reuniões, algemada, com Kirk e Spock logo atrás dos seguranças.
Após alguns minutos chegam à sala devidamente preparada para a reunião e a jovem suspira deprimida, ao perceber que havia nada menos, do que outros sete seguranças dentro da sala, com os fasers apontados para ela, que toma o seu lugar e senta, percebendo que eles se encontravam um pouco longe dela, de propósito, como se quisessem dificultar os atos dela, caso ousasse atacá-los.
Ao olhar para frente e para os lados, percebe que todos os presentes possuíam o mesmo olhar para com ela, menos Spock e Kirk, embora pudesse discernir alguns olhares consideravelmente curiosos, provavelmente, por sua aparência ser consideravelmente diferente de um kligon.
Na sala encontravam-se também Scott, Chekov, Uhura, Sulu e o doutor McCoy.
Então, todos sentados e ligam o computador da mesa e Kirk fala.- Data estrelar 2258.99. Realizada reunião com a prisioneira Klingon, Lyanna, tendo eu, capitão James T. Kirk, comandante e Oficial de Ciências, senhor Spock, Tenente e oficial de ciências, doutora Carol Marcus, Tenente, Oficial de Comunicações e especialista em xeno-linguística, a tenente Nyota Uhura, piloto e piloto de armas, tenente Hikaru Sulu, Navegador e Oficial de Segurança e Tático, o alferes Pavel Chekov, Oficial Médico Chefe e Tenente-Comandante, Leonard McCoy e o Segundo Oficial e Engenheiro Chefe, Tenente-Comandante, Montgomery Scott
– Presumo que irão abrir a pauta dessa reunião por causa dos exames médicos. Afinal, é o lógico a se fazer. — ela fala calmamente, procurando não olhar para os olhares que eram acusadores e assustadoramente frios.
– Lógico... É um termo muito usado por vulcanos. — McCoy comenta.
– Bem, experimente viver em torno de oito anos com dois vulcanos e um meio vulcano, diariamente. Pode-se dizer que é um tanto difícil não pegar certos hábitos deles.
– Deus me livre de não ser influenciado pelos duendes de sangue verde. — o doutor comenta sarcástico como sempre.
– Veja como sorte, doutor, se for influenciado. Afinal, garanto que lhe daria conhecimentos incríveis e uma percepção lógica, algo que parece faltar, mais especificamente em você. — Spock comenta sem se alterar.
– Seu... ! — McCoy fica irritado, quando Kirk interrompe, ao mesmo tempo em que tentava aplicar os ânimos do seu amigo doutor.
– Cavalheiros... Acalmem-se. Computador. Retire as duas últimas falas do doutor McCoy e a última do senhor Spock, além deste.
– Afirmativo. Registros apagados do sistema.
– O que foi senhorita Uhura? — o doutor questiona um tanto aborrecido, ao ver o olhar, praticamente assassino que ela lhe dirigia. — Por acaso falei alguma mentira? Além disso, acabei sendo humilhado... Não precisa defendê-lo, porque ele é capaz de defender-se por si mesmo.
– E foi merecido. — ela fala sorrindo, fazendo o doutor cerrar os punhos.
– A sua sorte é que você é uma mulher e eu sou um cavalheiro. Pois, senão fosse...
Kirk suspira cansado, enquanto que os outros na mesa reviravam os olhos, menos Spock, Uhura e McCoy. Lyanna ficava olhando, boquiaberta e os seguranças fingiam, estoicamente, não perceber a pequena discussão;
– Por favor, senhoritas e senhores... Podemos voltar ao foco da reunião e cessar com as hostilidades? Computador. Apague os dois últimos comentários do doutor McCoy e o último comentário da Tenente Uhura, além deste.
– Afirmativo. Registros apagados do sistema.
– Ótimo. Agora podemos continuar. Confirme seu nome e raça ao computador, por favor. — Jim pede e a jovem consente.
– Lyanna, 'Ghatlh segatlh' sahichalpu'e', última sahichalpu'e' remanescente. Dezessete anos terrestres, senão me engano.
– O que é 'Ghatlh segatlh' sahichalpu'e', última sahichalpu'e'?! — Uhura pergunta — Não há uma tradução exata. Parece que elas foram usadas desordenadamente.
Fale com o autor