Standing Above The Crowd
2 As Corridas
Nesse momento, você deve estar se perguntando...o que raios uma garota de dezesseis anos estava fazendo com uma garrafa de whisky na mão, andando pela cidade de Nova York junto com um magrelo cabeludo?
E como toda pergunta, tem que ter uma resposta, certo?
Bom...minha vida era a principal razão, mas existem outras que foram se acumulando durante os anos.
Mas isso não importava no momento, e espero que não importe no futuro.
— Charlie, vamos apostar uma corrida até...
— Não. – Interrompi Matt antes que ele prolongasse o assunto.
Matt era um dos meus amigos, não digo melhor amigo porque não tinha uma amizade tão grande assim...os únicos três amigos que tinha eram importantes, mas acho que não chegavam a esse nível.
— Caramba Charlie...é por isso que você não consegue se enturmar com mais ninguém. – Ele disse, passando a mão nos seus cabelos castanhos, enquanto observava tudo em volta com seus olhos verdes, que pareciam estar sempre ao efeito de cafeína, pois nunca paravam quietos.
Dei mais um gole na bebida.
— É exatamente por isso...e sabe de uma coisa? Eu não ligo! – Resmunguei.
Um silêncio pairou no ar, o que de certa forma, me agradou...
— Ah, merda! – Matt cochichou para mim.
— Que foi, droga? – Gritei e passei a garrafa para suas mãos.
— Olha quem está aqui...– Ele apontou para um grupo de garotos no outro lado da rua.
Olhei bem, e percebi um símbolo na jaqueta de um deles.
— Merda! – Coloquei o capuz.
— Você acha que eles vão participar da corrida? – Matt perguntou, abraçando a garrafa de whisky em seus braços.
— Se participarem, eu estraçalho eles.– Respondi, com firmeza e com uma certa raiva.
Os garotos do outro lado, pertenciam a um tipo de gangue, nós costumávamos chamá-los de Carniceiros, porque eles sempre querem o resto que alguém deixou. Eles nunca querem fazer algo por si mesmos, seja por preguiça ou do que quiser chamar, eles acham mais fácil pegar os restos.
A partir do momento em que outro dos meus amigos, Collin, sofreu uma tentativa de assalto de um deles, e o espancou em resposta, eles implicam conosco, e principalmente comigo, por ser a única garota do "grupo".
Sim, é uma história idiota, mas é a verdade.
— Devemos avisar o Collin? – Matt diz, com um certo desespero.
— Não! Eles vão arranjar briga de novo!
Apertamos o passo até chegarmos onde queríamos, tentando passar despercebidos. Andamos até uma esquina sem muita iluminação, e com pichações de vários "A" no muro alto de tijolos que a formava fazendo alusão a "anarquismo", indicando meu ponto de encontros preferido, com meu tipo de gente. Os punks.
Respirei fundo e senti o cheiro da borracha dos pneus sendo queimada, ouvi o barulho das motos, e rapidamente olhei para as pessoas que ali se encontravam...eu estava no meu lugar.
Essa era a área onde aconteciam nossas corridas de moto, você gostaria de ter alguma diversão? Ali seria o lugar. Várias pessoas em uma área grande de asfalto, sabíamos que a polícia não chegaria até nós, então poderíamos ficar em paz. Aquilo tudo me trazia ótimas lembranças.
Ao longe, conseguimos ver Collin e Mark acenando em meio à multidão.
— E aí gente? – disse chegando perto deles, mas logo meu olhar foi parar em outra coisa. – Caramba Mark, você deu um trato nela. – Falei montando na minha moto.
— É...o motor estava super-aquecendo, tive de trocar a válvula, agora ela tá perfeita pra correr.
— Valeu Mark, te pago tudo amanhã.
— Certo então...
Matt se aproximou e passou a mão no guidão da moto, assobiando.
Coloquei a mão no acelerador e o girei, fazendo a moto soltar um ronco, sorri enquanto ouvia o barulho maravilhoso que ela fazia.
Collin me passou um cigarro, o qual eu peguei e traguei longamente, e o passando para Matt.
Desliguei a moto e me sai de cima dela, me encostando na mesma.
Começamos a conversar, e a falar sobre coisas aleatórias e também sobre como Matt estava bêbado. Meus momentos com eles eram sempre divertidos, sempre me animavam quando eu estava de mau humor ou com qualquer outro grilo.
Enquanto falávamos o máximo de besteira que conseguíamos, nós dividíamos o resto da garrafa de whisky e um cigarro.
— Vocês viram o John? Do colégio? Nunca mais ele saiu com a gente. – Collin comentou.
— Eu acho que ele não aguentou nossos rolês...– Matt o respondeu, meio tonto por conta da bebida.
— Não! Não é por isso, ele curtia, mas ele virou a putinha dos amigos da namorada dele...– Eu falei, tragando o cigarro e fazendo eles rirem. – É sério! A garota o arrasta como um bichinho! E ele tá tentando de tudo pra ser popular...então fica lambendo até o cú dos amigos dela...– Completei e ofereci bebida à Mark, que apontou para o X desenhado na mão.
Revirei os olhos.
— Ah cara! Você continua com esses grilos? – Matt praticamente gritou, apontando para a mão dele.
Por sorte, Mark deu uma risada, o que normalmente não era a resposta dele pra esse tipo de coisa.
Mark era Straight Edge, o que explicava ele ser tão magrelo.
Traguei longamente o cigarro, enquanto sentia o olhar de Collin sobre mim...sorri de lado ao perceber isso.
— Alguém mais está com fome? – Mark perguntou, enquanto procurava com o olhar algum lugar que pudesse ter comida.
— É claro que você está com fome...a única coisa que você come no dia é tofu...– Falei, soltando a fumaça do cigarro em sua direção.
Ele olhou pra mim, com cara de tédio.
— Deixe eu e meus tofus em paz...– Resmungou.
Ri, passando o cigarro pra Collin.
— Ah, vem comigo comprar a droga da comida!– Ele puxou meu braço, me arrastando com ele.
— Calma que eu sei andar. – Esbravejei me livrando do braço dele.
Antes que nós nos déssemos conta, Collin e Matt ja estavam andando atras de nós.
Continuamos a andar até alcançar a rua novamente, toda vez que vínhamos às corridas isso acontecia...
Andamos nas ruas movimentadas de Nova York mais uma vez até acharmos um Food-Truck que sempre frequentávamos. Provavelmente o dono nos achava um grupo muito irritante...além de Matt estar bêbado toda vez que aparecíamos, Mark o atormentava fazendo um discurso do por que não podia comer carne ou qualquer outro derivado de animais, como queijos, ovos, etc...então ele sempre acabava fazendo uma salada que nem estava no cardápio para o maldito vegano.
Minha cabeça se esforçava para não prestar atenção em Mark explicando sua ideologia para o pobre cozinheiro e Matt tagarelando como uma maritaca sobre algo que eu não fazia idéia do que era. Sua língua estava tão enrolada que era quase impossível entender sobre o que ele dizia.
Enquanto assentia por reflexo para suas falas sem sentido, senti um braço se entrelaçando devagar no meu pescoço. Ao me virar, dei de cara com o rosto de Collin a centímetros do meu, seus olhos castanhos me encaravam, e sua boca desenhava um sorriso malandro, daqueles que uma criança dá quando está prestes a fazer uma travessura.
Eu sabia exatamente o que ele queria quando agia assim. Nossa relação era delicada, e era minha culpa te-la deixado desse jeito.
A alguns anos, eu e Collin ficamos pela primeira vez, e alguns dias depois desse acontecimento, ele confessou que queria ter algo sério comigo. Mas eu não gostava dele o bastante para isso, e muito menos desejava ter "algo sério" com alguém. No final, ele acabou se conformando com isso e continuamos ficando sem compromisso...mas eu tinha certeza que ele sentia algo, afinal, por qual outro motivo arrumaria brigas com outros garotos por mim, ou discutiria comigo por ciúmes sem nem mesmo ter o direito?
Com o canto dos olhos, puder ver o olhar de Matt e Mark sobre nós, e não tinham um semblante de felicidade, aliás, muito pelo contrário. Os dois sabiam bem que não deveriam comentar ou brincar com a situação se não quisessem arranjar briga.
Me afastei rapidamente de Collin tentando mudar o foco do grupo. Se tinha uma coisa que eu odiava era ser o centro das atenções por algo embaraçoso.
— Vamos lá, Mark. Você ja comeu sua salada? Já está quase na hora da corrida e precisamos ir. – Tentei soar o mais grossa possível.
— Calma docinho, eu ja comi os meus matos. – Ele me respondeu com sarcasmo.
— Então vamos.
E mais uma vez, para atordoar minha paciência, fizemos o caminho de volta para as Corridas.
…
A moto em baixo de mim vibrava, e roncava enquanto eu girava levemente o acelerador, sentindo o cheiro de gasolina que liberava quando fazia isso. Meu pé no chão dava apoio, enquanto o outro já se encontrava encaixado no pedal, pronto para a arrancada que daria à largada. As pessoas ao meu lado faziam a mesma coisa, e se encontravam na mesma situação, nervosos.
Participar das corridas não era a coisa mais segura a se fazer, cada pessoa ali corria vários riscos, e apesar de às vezes não nos lembrarmos, muitos já perderam a vida dessa maneira. E pra piorar a minha situação, o carniceiro que havia brigado com Collin também participava da corrida, e não lançava um olhar de gentileza pra mim.
— Maravilha. – Cochichei para mim mesma.
As pessoas gritavam e se juntavam em volta da fileira de oito motoqueiros(as) que se preparavam. Se me concentrasse um pouco, podia ouvir os berros dos meus amigos atrás de mim "se você cair não passa do chão, Li!" "Perder nem sempre é ruim!" "Dessa vez você consegue ficar em sétimo!", e mais coisas incentivadoras como essas.
Os gritos e os roncos dos motores aumentaram ao surgir uma mulher segurando um lenço na frente das motos. Eu sabia que assim que ela soltasse aquele maldito lenço no chão, a porra ficaria séria. Todos começaram a contar "5, 4, 3, 2, 1…"
Assim qua a moça abriu os dedos para largar o lenço, as motos arrancaram, inclusive a minha. Me inclinei para frente e continuei a acelerar, sem medo, sentindo o vento rápido zunir nos meus ouvidos. Eu tinha de completar três voltas, sendo a terceira e ultima a definir minha posição final no racha.
Eu estava em quarto lugar até então, acelerando e fazendo curvas perigosas, das quais os meus joelhos passavam centímetros do chão. Mas tudo bem, aquilo era o que eu amava fazer.
Avistei o próximo motoqueiro, e acelerei um pouco mais, fazendo um esforço tremendo para ficar ao seu lado, e na segunda curva, o deixei para trás. Meu peito inflou de ego, aumentando ainda mais meus riscos pela imprudência.
Havia completado a primeira volta em terceiro lugar.
Eu sentia que meu corpo todo voava em cima daquela Iron 883 que eu conhecia tão bem quanto a mim mesma. Podia dizer até que era apaixonada literalmente pela minha Harley.
Ao fazer a primeira curva da segunda volta, vi o segundo corredor, e mais uma vez acelerei. A roda da minha moto estava quase o ultrapassando, e eu ia o fazer comer poeira. Em um ato desesperado de ganhar, o garoto que dirigia agarrou minha jaqueta com força, quase que cravando suas unhas no couro sintético. Eu tentava me soltar, temendo perder o controle, quando a segunda curva apareceu na hora certa. Virei bruscamente, o forçando a me largar.
— Meu Deus! – Gritei, sem acreditar que tinha saído dessa sem nenhum prejuízo.
Voltei minha atenção a corrida, percebendo que aquele garoto insistente continuava na minha cola. Me apressei a terminar a segunda volta, dando inicio a última.
Acelerei o máximo podia, em uma atitude besta, tentando alcançar a ultima moto que se encontrava a minha frente. Fizemos a primeira e segunda curva lado a lado, disputando arduamente o primeiro lugar.
Eu podia ver a linha de chegada, eu finalmente ganharia aquela merda de corrida.
Mas é claro, tinha de acontecer um imprevisto.
Pude ver o garoto que havia me agarrado ultrapassar a moto atrás de mim, e colocar sua moto colada com a minha.
— Eu vou te matar! Você e seu amigo! – Ele disse fazendo esforços para que eu escutasse.
Minha ficha só caiu que era o Carniceiro após ele ter dado um forte chute na lateral da minha moto, fazendo ela bambear quando eu tentei manter o controle, mas não pude. Eu e ela saímos derrapando pela linha de chegada, na frente de todos. Pude sentir minha perna, meus antebraços e mãos, e minha bochecha sendo ralados com a queda enquanto eu tentava me proteger, com medo de que a moto rolasse por cima de mim, ou de que as outras ainda na corrida me atropelassem.
Assim que parei de rolar pelo chão abri os olhos, pude ver o rosto de Mark, enquanto ele me ajudava a levantar, com pressa.
— Seu carniceiro asqueroso filho de uma puta!– Gritei violentamente ao terminar de levantar.
— Isso é maneira de uma mocinha falar?– Ele respondeu enquanto descia da moto vagarosamente.
Vi Matt e Collin saírem da multidão magicamente, e as outras motos iam parando em volta de nós enquanto chegavam, sem entender o que havia acontecido.
A pequena gangue dos mau caráter se juntou, como um bando de urubus.
Antes que eu pudesse piscar, Collin pulou no meio deles, como um leão, agarrando o garoto desgraçado pelo pescoço e o enchendo de socos. Os outros se amontoaram em volta dele, e logo só o que se podia ver era seu moicano verde no meio deles.
As pessoas começaram a se afastar, e alguns tentaram ajudar a separar a briga. Mas Mark e Matt se juntaram a ela, dando uma baita surra nos outros meninos, e se esforçando para os tirar de cima de Collin.
Eu empurrava as pessoas, tentando chegar até eles, ou pelo menos ver o que acontecia, mas alguém, que eu nem sabia quem, estava me segurando dizendo que eu não poderia ir até lá.
— Seu covarde! Vagabundo do caralho! Se você ousar pensar encostar nela ou nos meus amigos de novo, eu termino o serviço! – Ouvi Collin berrar.
Mark e Matt faziam esforço para segura-lo.
— Deixem seu cachorrinho vir pra cima de nós! Não se garantem? – O outro menino disse se levantando do chão com o rosto ensanguentado.
Mark pegou minha moto, que estava caída no chão assistindo de camarote a briga, e os três passaram voando ao meu lado e me arrastando junto, com pressa para sair daquele lugar.
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As costas de Collin estava toda roxa e machucada, parecia que tinha sofrido um açoite. Os hematomas cobriam das costas até as costelas e roxos estavam praticamente pretos, sem contar os cortes, que estavam em toda parte e não paravam de sangrar. Seus machucados estavam horríveis, e aparentemente, estavam doendo muito.
Mark estava com o lábio cortado e inchado, parecia até uma cirurgia plástica que deu muito errado. Tirando a parte de que parecia uma torneira aberta, de tanto sangue que escorria, é claro.
Matt possuía um corte enorme no supercílio, e estava com o maior olho roxo que eu ja vi na minha vida. Estava muito inchado, e o suposto "roxo" tinha virado preto.
E por fim, eu, que não estava numa situação muito melhor. Já que praticamente meu corpo todo se cobria de machucados e ralados.
Nós ocupávamos a esquina na frente da minha casa, e assistíamos o começo do nascer do sol. Minha casa era num bairro nobre de Nova York, cheio de casarões bonitos e canteiros cheios de flores perfumadas e árvores, de maioria frutífera. E isso não fazia a menor diferença, já que estávamos rindo loucamente do enorme olho roxo de Matt.
— Ai, ai...– Mark suspirou após a longa risada. – Eu vou pra casa gente, vou descansar um pouco pra ter forças pra sair mais tarde.
Ele se despediu de nós e seguiu seu rumo.
— Eu também vou indo. – Matt completou, se despediu, e seguiu na direção contrária de Mark.
Collin não se moveu.
— Você quer ficar aqui? Estou sozinha em casa, e tenho quartos sobrando.
Ele sorriu de lado e passou a mão no seu moicano. Ele ja previa o que ia acontecer.
— Já que você ofereceu, eu aceito. Preciso de alguém pra limpar meus machucados. – Ele fez uma pausa – E você dos seus...
Eu dei de ombros, enquanto fazia o curto caminho da esquina, pelo jardim, até chegar a porta da enorme casa branca, de três andares com telhado de madeira e cheia de janelas em que eu morava. Coloquei as mãos nos bolsos em busca da chave, e a peguei, abrindo a porta devagar. Collin não aparentava ter a mesma calma para entrar.
— Você já conhece a casa. – Eu disse, dando espaço para ele entrar.
E ele fez isso, mas de uma maneira totalmente inesperada. Ao pisar na entrada da casa, me puxou pela cintura, colando meu corpo ao seu, o que doeu um pouco pelos machucados, mas consegui ignorar.
Ele fechou a porta com impaciência, me encurralando ao fecha-la.
Eu sorri com essa atitude, eu gostava desses momentos surpresas que ele me dava.
Ao ver minha reação, ele se inclinou em direção ao meu pescoço e o beijou, pressionando ainda mais minha cintura contra seu corpo.
Logo, seus lábios alcançaram minha boca, me dando um beijo rápido e urgente enquanto deslizava as mãos pelo meu corpo. Ao sentir sua pressa, tirei sua camisa e o empurrei para o enorme sofá de canto da sala, sentando em seu colo logo depois, deixando que ele me despisse.
Essa era a melhor maneira de terminar uma noite.
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