Era um dia fechado, havia resquícios da chuva de neve durante a noite pelas ruas. Zoro vestia um casaco grosso com um cachecol azul e caminhava para sua escola. Assim que chegou na sua sala, pendurou a mochila no gancho da carteira e tirou as luvas. Foi até a janela, que dava para o portão da escola, e observou os alunos chegando aos poucos. Estranhamente nesse dia, Zoro fora o primeiro a chegar da sua turma, já que costumava chegar atrasado por conta de seu sono fora do normal.

— Ei, marimo... fecha essa janela se não quiser pegar uma pneumonia. — Disse uma voz maçante e Zoro olhou por cima do ombro, encontrando seu colega de classe Sanji e, sua sobrancelha enrolada, se acomodando na carteira ao lado da sua.

— Está preocupado comigo?

— Claro que não!! — Seu rosto corou. — Só acho que vai matar todos nós com isso aberto!

Zoro deu um sorriso petulante e fechou a janela, voltou pra sua carteira e se sentou. Subitamente, Sanji constatou algo e olhou as horas no celular.

— Como conseguiu acordar tão cedo?

— Apenas acordei.

Na verdade, Zoro tinha um motivo. Sentia medo dos resultados que sairiam nesse dia. Estava tão preocupado de levar bomba, que nem conseguira dormir. Sanji pendeu a cabeça para o lado e notou suas olheiras.

— Não me diga que não dormiu com medo de levar bomba? — O loiro riu caçoando do esverdeado, que fechou a cara na hora.

Zoro não respondeu, apenas estalou a língua. Se fosse um outro dia, ele teria avançado naquele idiota e começado uma discussão sem fim, mas estava cansado e sobretudo nervoso.

Mais alunos se juntavam a sala e o sinal tocou. As horas foram se passando e Zoro notou o céu se abrindo na janela, no primeiro horário tiveram aulas de geometria, biologia, química e geografia. Zoro bocejava nas duas primeiras e na terceira aula já se encontrava dormindo. Sanji, ao seu lado, suspirava e tentava acordá-lo com um cutucão, mas o marimo logo caia no sono novamente. O loiro pensou que se não fosse esse comportamento, Zoro até poderia ser um bom aluno. No entanto, resolveu deixar o idiota dormir, afinal, estava nem aí pra ele. Não tinha motivos pra se preocupar com um cara que nem amigo seu era.

O intervalo tocou, Sanji deu graças a Deus, porque finalmente poderia fumar e assim que deixava a sala, sentiu um peso no seu ombro. Era a mão do marimo pedindo para ele esperar.

— Vou passar o intervalo com você, sobrancelha enrolada.

O loiro parou e esperou o resto da turma ir embora. — Mas eu vou fumar. — Sussurrou para nenhuma autoridade ouvir. — Você sabe muito bem dos riscos, né? Se me pegarem, pegam você também.

— Essa não é a primeira vez que passo o intervalo contigo e, se você quiser, posso vigiar caso alguém suspeito apareça. — Zoro coçou os olhos com os dedos e Sanji pensou que ele não vigiaria coisa nenhuma.

— Você vai dormir!!!

— Ora, sobrancelha enrolada, por acaso tá preocupado de eu ir pra detenção?

— O caralho que tô!! — Esbravejou mais uma vez bem corado. — Faça como quiser!!

Zoro riu satisfeito, achava Sanji muito fácil de lidar ou talvez... de manipular.

Era a última aula e os boletins foram entregues. Sanji se saiu muito bem nas matérias com lógicas, mas recebera um F em química. Ele não tinha culpa por receber uma nota tão baixa, afinal, a professora era muito gostosa e não tinha como se concentrar. Resolveu olhar pro lado e viu o marimo mais branco que assombração.

— Como foi? — Perguntou.

— Só passei em educação física. — Lamentou e pousou a cabeça na mesa com seus braços em volta.

Dessa vez, Sanji não conseguiu rir do marimo, sentiu pena. Claramente receberia uma punição bem pesada de seus pais. Ele olhou para a janela e viu que nevava novamente, logo seria natal e Zoro viria com uma notícia horrível para dar aos seus pais.

— Bem... ainda tem a recuperação. — Inclinou para frente e pousou uma mão no ombro de Zoro, que ainda estava com o rosto escondido em seus braços na carteira. — Vai poder me ver nas aulas de química.

Sem reação.

Sanji olhou ao redor e notou que só faltavam os dois para deixarem a sala de aula. — Ei, marimo, levanta essa cabeça para pelo menos darmos o fora daqui.

— Você pode ir sozinho.

Isso era verdade. Por que estava esperando aquele cabeça de musgo para retornar pra casa? Ele não era seu amigo e nem nada, era só mais um colega da escola. O loiro respirou fundo e deixou sua carteira, mas parou quando sentiu algo puxar seu casaco. Olhou por cima do ombro e viu que era uma mão de Zoro.

— Acho que preciso de ajuda.

A neve havia cessado mais uma vez, e os dois rapazes caminhavam para o cinema da cidade. Sanji que tivera essa ideia, acreditava que um filme pudesse distrair a mente do marimo, mas quase perdeu as esperanças durante o caminho. Tentava puxar assunto, fazia muitas perguntas para Zoro, mas o idiota só ficava quieto num ar melancólico. Realmente sua situação não era nada boa, nada boa mesmo! A ponto de pedir ajuda logo para ele!

Os dois olhavam os cartazes dos filmes sendo exibidos.

— O que quer assistir? — Perguntou Sanji para Zoro.

— Um filme com carros turbinados e com muitas explosões.

— Ham? Você ainda tá no primário? Que gosto horrível é esse para filmes???

— Ham?! E por acaso tu entende dessa merda?

— Claro, eu amo os filmes franceses por exemplo.

— Não sei qual é essa sua tara por francês... — Resmungou Zoro, mas piscou os olhos ao entender algo. — Não me diga que fuma só pra se achar um francês idiota?

— Claro que não, marimo de merda!!! — E essa era a terceira vez que Sanji ficou corado, pois era verdade o que Zoro disse. — Bora ver esses filmes de carros turbinados e explosões mesmo!!!! — Passou a marchar para a sessão, mas Zoro o parou.

— Você não quer pipoca e coca-cola?

— Só se racharmos, não tenho dinheiro suficiente.

— Okay. Quanto você tem?

Sanji colocou as mãos no bolso. — 5 Bellies. — Suspirou por ser muito pouco. — E você?

Zoro colocou as mãos no bolso e tirou três moedas, o loiro já diria que não era nada do jeito nervoso que ele tinha, mas foi interrompido quando o marimo tirou um dos tênis e achou mais dinheiro por dentro dele. Sorria para o colega, que estava espantado e enojado ao mesmo tempo.

Durante o filme, Zoro dormiu mais uma vez. Mas Sanji não ficou puto nem nada, porque dormir fazia ele não pensar nas suas notas e nos seus pais. O loiro ficava feliz por ver que ele estava conseguindo relaxar, riu da cara dele mais cedo, mas na verdade ficou preocupado quando soube que o rapaz que sempre dormia passara a noite em claro. É claro que Zoro não pôs isso em palavras, mas suas olheiras denunciavam.

Quando saíram do cinema, o céu já estava escuro e Zoro pedia perdão a Sanji por ter dormido o filme inteiro. O loiro fingiu uma irritação, mas estava feliz por ver o colega com um semblante mais relaxado.

— E agora pra onde a gente vai? — Perguntou Sanji.

— Ainda quer andar comigo?

— Achei que quanto mais tarde você chegar em casa, melhor será.

— Tem razão. Mas não faço ideia pra onde ir.

— Eu to morrendo de vontade de fumar, a gente podia ir pra um lugar que eu costumo ir para fumar.

— Pode ser.

Os dois andavam agasalhados e com as mãos nos bolsos pelas ruas molhadas da cidade. Como já era noite, havia luzes natalinas espalhadas pelas lojas, postes, janelas e árvores. Zoro deu uma de suas três moedas, que sobrou, para três irmãs pedindo caridade na calçada.

— Gosta de natal? — Perguntou Zoro.

— Gosto sim. As pessoas estão sempre felizes e as tristes parecem ter um resquício de esperança.

Zoro observava o loiro sorrindo com seu nariz vermelho e com suas bochechas coradas. Sua pele era tão branca, que o vermelhidão era forte. Parecia até que alguém havia dado um tapa na cara dele.

— O que disse me pareceu bonito.

Sanji parou de rir e ficou constrangido. — Você quer dizer que é bem piegas, né?

— Não estou sendo irônico! Gostei de verdade!

Sanji encarou Zoro e viu seu nariz avermelhado. Céus! Se o do marimo estava vermelho daquele jeito, imagina o seu!! Diferente dele, a pele de Zoro era morena.

— Você não me convence...

— Meu Deus, não tô implicando contigo!!

Estavam na ponte da cidade na ala dos pedestres, Sanji finalmente fumava seu cigarro e Zoro observava a paisagem do rio escorado no parapeito.

— Toma cuidado, marimo, de não cair pro outro lado. A água do rio deve estar gelada.

— Tá se preocupando comigo?

— Tomara que você caia e morra pra parar de fazer essa pergunta idiota.

Zoro começou a rir por ver mais uma vez o rosto de Sanji tão rubro. — Mas você não está preocupado comigo?

— Eu? — Idagou num tom de incredulidade — Nunca estive!

— E por que então me levou pra passear? — A grade do parapeito rangeu com o peso de Zoro.

— Você virou cachorro agora? — Ouviu o ranger. — É sério, se afasta disso aí.

Zoro deu um sorriso, mas não saiu. — Acho que se eu morrer será melhor para todos.

— É claro que não! Tá dizendo isso porque quer fugir do esporro de seus pais! — Ouviu novamente o ranger. — Desencosta, marimo, não me deixa doido mais do que já estou.

Zoro parou de encarar a paisagem e passou a observar Sanji com sua aflição estampada na cara, ele nem ao menos estava fumando mais. Provavelmente iria dizer que já havia terminado e que era hora de voltar pra casa. — Se eu morrer você sentirá falta?

Mais uma vez o rosto do sobrancelha enrolada ficou rubro, mas dessa vez ficou totalmente vermelho e seu coração bateu mais forte. — Bem... se você morrer, talvez eu não precise mais me preocupar com alguém.

Fitava o chão com os punhos cerrados, não acreditava no que havia dito. Finalmente admitiu que estava preocupado e Sanji estava tão tenso que nem mais ouvia o barulho dos motores dos carros que passavam na ponte em certa velocidade.

Zoro finalmente se separou da grade e se aproximou do seu colega de classe, que nem sequer amigo era, mas o beijou mesmo assim.

— Obrigado pelo dia, sobrancelha enrolada.

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