Stan Febo - A Fênix do Olimpo
1 Capítulo 1 - A Deusa, A Semideusa e Eu
Notas iniciais
Dedicado a todos aqueles que tem sede de mitologia.
Toda minha vida fui calmo, nada demais acontecia comigo. Disse bem, acontecia. A história que irei contar a seguir é verdadeira, então, se ainda não estiver pronto para aceitar a verdade, feche o livro. Vamos, feche. Certo, você não fechou, continuemos. Preciso dizer que não tente fazer isso em casa, você pode acabar pulverizado por algum deus revoltado e sendo hóspede de honra da Casa de Hades. Antes de tudo, apresentações. Sou Stanley Seymour Febo, ou Stan Febo, professor de história, 20 anos. O que tem de interessante comigo? Nada a princípio, mas o que virá você está prestes a descobrir.
Mais um dia normal de aula, escuto o sino tocar e fico animado para ir a próxima turma. Sim, sou esse tipo de professor. No momento, estou indo ensinar o assunto favorito dos alunos (e meu também, oras): Mitologia Grega. Não sei o que, por que, como, mas as crianças amam falar sobre os antigos deuses dos mitos (não tão mito assim, hein?) gregos. Zeus, Poseidon e, claro, Hades. Sempre gostei das histórias dos deuses, principalmente depois da morte de minha mãe (que me criava sozinha), que tive que me afundar nos livros.
Um fato curioso é que no dia da morte de minha mãe, tinha um sujeito lá, digo, só vi o sujeito lá, porém consegui escutar mais vozes, tinha cinco anos. E até hoje, desde pequeno, quando leio ou falo alguma história dos deuses gregos e toda sua formosura, sempre imagino Apolo (o deus da Medicina, da morte súbita, e também, meu favorito, deus da música) com o rosto desse sujeito, não sei o porquê, mas sempre o imaginei assim.
Aqui estou eu fugindo do foco... bem, dia em que minha vida mudou. Esse dia começou bem estranho.
Estava chegando na escola onde dou aula, nada podia estar mais normal, daí passo pela Minerva. Minerva Gonçalves, professora de português e de artes (nunca entendi por que os dois, mas o.k). Secretamente, sempre tive uma queda por ela, desde o primeiro dia quando a diretora, Diana, nos apresentou na sala dos professores. Minhas mãos tremiam tanto que fiz chuva de café e festa de louça quebrada no chão. Passei por ela e a dei um “Oi”, o qual foi reciproco, e então, quando passei exatamente do lado dela, tudo pareceu diferente, minha visão de repente focou em uma menina, mais ou menos de oito anos, se balançando no parque esperando ás aulas, com um ar extremamente estranho. O pior, ela estava olhando para mim também. Parecia filme de terror.
Depois, quando olhei para a rua, podia jurar que vira um alazão, mais branco que minha meias, com asas maiores do que o carro a sua direta. Se não fosse alucinação, poderia jurar que tinha sido um Pégaso, mas claro, não podia ser verdade. Foi ai que o dia mais estranho da minha vida começou.
Sempre que nós vemos algo assim acontecer, por via de regra pensamos que é imaginação, por exemplo, como quando sua caneta inesperadamente desaparece e você nunca mais a encontra. É, eu concordo, essa comparação foi horrível, mas vamos continuar. Eu não se coloquei muito a pensar naquilo, fui direto para os meus alunos famintos por mitologia.
Cheguei na sala de aula. As crianças que iam dos 11 aos 13 anos, estavam ansiosas. Nossa escola era uma das poucas que ensinava mitologia grega na cidade, pelo menos com tanta profundidade no assunto. Os alunos gostavam, os pais gostavam. Não acho que foi à toa que o Rick fez tanto sucesso com sua saga de livros... Perdi o foco. É, de novo.
– Bom dia, professor. – as crianças falaram para mim em coro.
– Bom dia. Vamos começar o mais rápido possível, não é?
Todos acenaram com a cabeça que sim. Em poucos minutos estávamos com o projetor ligado e a aula correndo, e quando digo correndo quero dizer que estava passando rápido. No meio da exibição de Slides eu abri espaço para a pergunta da plateia.
– Sr. Stan, quem é aquela com a lança e o escudo? – perguntou Matheus, garotinho magro de cabelo preto.
– Atena, a deusa da sabedoria. Uma grande estrategista de guerra, ela ganhou do deus do mar em uma disputa a cidade que leva seu nome e onde residia o olimpo.
– Atenas? – ele afirmou com uma dúvida.
– Exatamente, Matheus.
– Residia professor? – uma garotinha de óculos estranhou, Joaquina o nome dela, é, eu sei, ela era um estereotipo de garotinhas.
– Sim, Joana – Eu a chamava assim (Isso é meio que um lembrete, odeio estereótipos, e eu não me importo que pareça preconceituoso) – Segundo algumas lendas o olimpo reside nos céus, escondido de todos.
– E o com o tridente e a barba é o Poseidon, não é senhor? – falou um menino de bigode.
Eu confirmei e eles continuaram assim por vários minutos, perguntando e eu respondendo. A aula terminou.
As crianças saíram para o recreio e eu continuei na sala, arrumei a bagunça que elas fizeram com as cadeiras e me direcionei para a porta. Quase esbarrei em alguém. Era a Minerva. Eu comecei a ficar vermelho, vergonha extrema. Ela era linda (você tinha que ver) cabelos ruivos (dignos de coloração para vinho de Dionísio), olhos azuis e a pele clara. O nariz dela era perfeito...
– Olá, Stan. – dava para ver que ela também estava envergonhada – Eu gostaria de falar com você um pouco.
Eu falei gaguejando:
– Éh... Éh..., E... E... Eu, claro!
Antes que eu continue a falar sobre o que aconteceu, preciso comentar isso com você. Por que diabos ela iria querer falar comigo? Não que eu não quisesse, de forma alguma, mas nós nunca havíamos dito mais que um “oi” um para o outro. Eu sempre quis dizer algo para ela, mas não era assim que funcionava. Bem, se fosse, eu já estaria casado com uma menina do ensino médio.
Voltando a história, ela saiu andando para o pátio, eu a acompanhei meio que no encalço dela, não queria ir na frente, nem ao lado. A segui. Chegamos lá num par de segundos, eu me sentei no banquinho, ela ficou em pé. Ela parecia nervosa agora.
– O que você sabe sobre os deuses gregos e os titãs? – ela falou apreensiva.
Eu relaxei, perdi a vergonha, me senti o dono da casa, o rei da parada.
– Bem. – falei com um sorriso – Eu sou um professor de história com PHD em mitologia grega, então eu sei bastante coisa. É, eu até sei o que vai me perguntar agora. “Como um cara com PHD está ensinando numa...”.
Ela me cortou no mesmo segundo. Quero dizer, ela me interrompeu, eu não quis insinuar que ela me cortou (se você sabe o que eu quero dizer). Mas enfim, ela me parou ali mesmo e disse:
– Não, eu não falo sobre o passado deles, eu falo sobre o agora, os dias de hoje. – ela parecia ainda mais apreensiva, ficava observando as coisas por entre as árvores do pátio e sempre virando a cabeça para os lados.
Eu respondi meio que estranhando, meio que entendendo o que ela queria dizer.
– Eu não sei bem. Se eles existissem, eles poderiam estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa. Essa pergunta é meio que uma pegadinha, se você entende o que eu quero dizer.
– Mas e se eu te dissesse que...
– Não, vá parando por aí. Eu não sou um Harry Potter ou um Percy Jackson, o.k.?
Eu estava pronto para continuar falando, mas eu vi novamente a criança. O alazão passou correndo, a menina baixou a cabeça num gesto de choro. Comecei a me aproximar. Cheguei onde ela estava. Ela continuou com a cabeça baixa, e eu perguntei:
– Precisa de alguma ajuda menina?
Ela olhou para o meu rosto. Ela estava triste.
– Meu Pégaso, minha família.
– Aquele alazão é seu?
– Sim, ele é.
– E o que aconteceu com a sua família?
Minerva veio andando em nossa direção.
– Minha deusa. – ela disse isso para a garotinha, e ela falou com confiança como se devesse respeito à ela.
Entenda uma coisa: você nunca vai saber a sensação de ver alguém que você gosta clamando uma criança de deusa. Você não vai entender como é ser insinuado que os deuses gregos realmente existem e estão por ai, a solta. E o mais difícil é entender isso tudo nas entrelinhas.
- Quem exatamente são vocês duas? – me senti ridículo logo depois que perguntei isso.
- Isso não é importante agora, só estamos aqui porque precisamos de você, agora mais que nunca. – falou Minerva.
- De mim? Por que eu?
- Você... menino – falou a garota se levantando do balanço – você é mais especial do que pensa.
E aqui acontece uma parte inevitável, clichê, mas quando isso está acontecendo contigo você não pensa no quão clichê é. Você só quer respostas. É impossível evitar a surpresa.
- Eu? Especial como?
- O descendente – continuou a menina – teve uma época que eu pensei que você era só um mito para colocar medo nos deuses a noite.
- Tenho muita certeza que se eu fosso colocar medo em alguém, não seria nenhum deus.
- Agora você, menina ... não me recordo de quem você é – falou a garota olhando para Minerva.
- Eu sou a enviada da Casa de Atena. – começou Minerva – minha mãe me enviou quando soube que você precisava de ajuda.
- Você não veio pedir ajuda? Para que precisa de ajuda?
- Por que vocês acham que não pedimos ajuda até agora – começou a menina, revoltada – os deuses são orgulhosos!
- E que mal isso poderia fazer?
- Aquele! – apontou a menina para sua frente.
Á frente da menina podíamos ver um cão enorme, bravo, com um pelo mais negro que a noite (sem racismo canino)
- Só pode ter sido Ares – revoltou-se a menina – Malditos egocêntricos!
- Deixe que eu o derrubo, senhora – falou Minerva sacando do seu bolso a base de uma espada, sem lâmina, que, na mesma hora que exposta a nós, cresceu de imediato.
A menina olhou com raiva para o cão e disse:
- Deixe eu mostrar com acontece quando se mexe com uma deusa – a menina, numa fração de segundos, se tornou uma enorme adulta com uma espada na mão, e uma bola de fogo na outra. – Não pense menos de mim só porque não sou mais uma Olimpiana, cachorrinho.
- Você quer me dizer que ... – comecei
- Sim, esta é Héstia, a deusa da lareira.
Por um instante fiquei só encarando a mulher em minha frente, boquiaberto.
- Desde quando ela faz esse negócio com o fogo? – perguntei
- Novidade para mim também. – disse Minerva
- Isso faz três de nós – falou a deusa, sorridente.
O cão pulou para cima de nós. Me escondi atrás de uma árvore, bem inteligente. Tem um cachorro infernal diante de mim e, claro, ele evitaria de matar porque estou escondido atrás de uma árvore mágica.
Héstia jogou o fogo no canino que desviou com um pulo, em nossa direção. Minerva o atingiu com a espada, mas isso não pareceu ser suficiente. Héstia agora tinha soltado a espada e focado em enviar bolas de fogo contra o animal, não parecia funcionar.
- Será que o neto é capaz de realizar feitos do vovô? – perguntou Héstia
- Só tem uma maneira de descobrir!
As duas recuaram, pararam de atacar o monstro, vieram atrás da árvore e me jogaram na direção dele. Simples assim. Se esconderam no meu lugar e me deixaram aos leões. Ou melhor, ao cachorro.
- Por que os deuses fariam algo assim mesmo? – perguntou Minerva
- Retaliação. Eles não aceitam que tenhamos que pedir ajuda ao jovem guerreiro.
As duas olharam para mim fugindo de tentativas frustradas do cachorro em me acertar. Acho que ele errava algumas de propósito, de pena de mim. Isso, com certeza, não levantou muito minha moral.
- Stan – gritou Héstia por trás da árvore – use seu interior, pegue o poder, o abrace e use
- Você conhece, Stan – Minerva falou.
Isso com certeza me deu mais forças para lutar. Uma hora ela só troca “oi’s” comigo, na outra me chama pelo apelido e diz que tenho chances de ganhar uma luta contra um cachorro demoníaco? Ela tá tão na minha.
Pensei em como ganhar essa luta, pensei em como a suposta deusa dissera para usar meu poder, possivelmente, localizado no interior. Interior de onde? Foquei minha mente em me lembrar de momentos que me dão raiva. Me lembrei do dia em que minha mãe morreu, me lembrei do sujeito com a cara de Apolo (ou será que Apolo tem a cara do sujeito) olhando para mim. Me lembrei de como meus avós pediam para eu parar de ler e interagir com as outras crianças “seja “normal” “. Isso sim era motivacional. Quando menos percebi, meu corpo estava cheio de raiva. Tinha para dar e vender. O meu corpo ficou frio, senti o sangue correndo mais pesado nas minhas veias. O ambiente tinha ficado correto para um briga.
O cachorro continuava tentando me atacar, mas meu treinamento intenso correndo de bullies quando era mais novo o impediu de me acertar facilmente. O cachorro foi ficando mais lento e fui precisando e correndo menos e menos. Teve um momento em que ele nem mais corria, só se movimentava, devagar, quase parando. Quando notei era tarde. Não era só meu corpo que estava frio, e sim o ambiente todo. Olhei em volta e todos estavam congelando em frio. Meu Deus, no meio do alvoroço nem parei para pensar em como as crianças estavam reagindo a tudo isso. Digo, no momento elas reagiam com frio. Olhei para trás da árvore e Minerva e Héstia se encolhiam em frio.
- O que está acontecendo – disse Minerva
- O show está começando, querida – respondeu Héstia com um sorriso no rosto que quase escondia o frio.
No meio de tanto pensamento meu, o cachorro do demônio conseguiu voltar a correr e estava ficando com raiva. O que quer que eu tinha feito acontecer, eu tinha que fazer de novo, mas como fazer isso agora se o inimigo ficou extremamente mais furioso e violento?
A resposta me atingiu. Literalmente. Dos ares, a altura da minha cabeça, um cavalo veio voando em minha direção, bateu os cacos acidentalmente no meu cocuruto, o que eu relevei, quando ele se ofereceu para ajudar.
- Suba nele, rápido – disse uma das meninas, a esse ponto, não prestei atenção quem.
Subi no pégasos e ele decolou. Fomos direto e demos a volta, acertando o cachorro na cabeça. O ambiente ficou frio novamente, agora, invés de tristeza eu sentia a adrenalina do momento. Sentia como se pudesse fazer qualquer coisa. O pégasos começou a voar em círculos em torno do cachorro. Minha adrenalina aumentava, o frio aumentava.
- O que está acontecendo agora – perguntou Minerva, trêmula
- O garoto está usando seus poderes, deixe de ser chata – falou Héstia como se nem sentisse o frio causado por, aparentemente, eu.
O cavalo deu várias voltas ao ponto de adrenalina começar a se transformar em enjoo. Numa última volta, parou no chão ao lado da árvore.
- Como vocês estão? – perguntei as garotas – E o que aconteceu?
- Olhe para atrás, rapaz – disse a deusa
Quando eu olhei, me espantei. O cachorro estava congelado, na minha frente. Mostrava seus dentes e ostentava suas patas numa tentativa de assustar as garotas.
- Acho que isso mostra pros deuses que – começou Héstia, que agora olhava pra o céu – não mexam com o menino!
- Quer dizer que quem fez isso foi...
- Você – falou Minerva tocando no meu ombro com um sorriso enorme, confesso que fiquei mais vermelho que um pimentão.
Encaramos a imagem do cachorro demoníaco congelado e imaginamos o que poderia ter acontecido se ele não tivesse congelado.
- Como, exatamente, eu fiz isso?
- Ainda não é sabido – falou Minerva, olhando para Héstia como se precisasse de aprovação no que disse.
- Você liberou seus poderes, criança, está no seu sangue. – começou a deusa – Não literalmente, eu espero.
- Para aonde agora, senhora? – perguntou Minerva
— Vamos para a tua morada e lá veremos para onde ir depois... quem está cuidando da casa agora, garota?
- Minha irmã, Anna.
- Entre em contato com ela, agora.
Minerva pegou o celular do seu bolso e discou um número, segurou o aparelho como se estivesse no viva voz. Bem, vivo estava. Do celular, sai uma espécie de holograma e de lá pude ver uma menina de cabelos loiros trançados com olhos verdes que poderia avistar de uma esquina distante.
- O que aconteceu com o garotinh... ah, olá, senhora – falou a menina, Anna, ao ver Héstia.
- Algo para nós ai?
- Chegou um recado para vocês. Lacrado. Só o descendente pode abrir.
- Acho que temos o cara certo – falou Héstia sorrindo. Minerva aparentava muito querer rir e fazer parte do senso de humor de Héstia, mas era perceptível que ela estava assustada com a presença da divindade.
- Bem, estou mandando Artista e Estratégico para vocês. Esperem.
Podia ficar calado, mas tenho que deixar claro que nesse momento não falava nada porque estava boiando. Eu acho que estava literalmente olhando para a menina, boquiaberto, sem expressão nenhuma. Pensei em milhões de perguntas com nexo e bem formuladas para a ocasião, porém, o máximo que cheguei foi:
- Artista e Estratégico?
- Na Casa de Atena temos três Pégasos exímios, devido a seus talentos e prestação de serviço satisfatória, foram nomeados por características da nossa deusa mãe.
A Deusa da sabedoria, inteligências, artes e estratégia.
- Onde está o terceiro exímio?
- Quem você acha que te levou em círculos pelo cachorro? – falou Minerva me olhando, um pouco irritada, eu acho. – Diga oi para Sábio.
De repente, o céu ficou escuro. Não era o céu, eram dois cavalos enormes acima de nossas cabeças. Pousaram como cavalheiros ... ou madames, não parei para olhar. Tentei montar um dos dois que chegaram, porém, Sábio começou a guinchar e negar a deusa que o tentara montar.
- Ele quer que você vá com ele, Stanley. – Falou Minerva alisando o cavalo em que estava, provavelmente Estratégico. Por que ela não falara meu apelido? Nossa intimidade mal começara e já tinha terminado? Queria poder dizer que esse era o relacionamento mais rápido que já tive.
Montei Sábio e alisei seu escalpo.
- Podemos ir, senhoras e senhores? – falou Héstia animada, montando Artista.
- Sim, vamos, Estratégico – começou Minerva olhando para o horizonte.
– Vamos para A Casa de Atena.
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