Stalker
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Notas iniciais
Ida era uma criança crente em Deus.
Não em Jesus, não em Allah ou Brahma. Apenas numa força que criou esse mundo.
Sua vida nunca fora resumida a orações e idas a igreja semanalmente, porque não acreditava no mesmo que o crentes praticantes. Ela não esperava que Deus fosse atender seus pedidos, por isso, nunca pedia.
Para Ida, sua vida já era por si um pedido atendido, um presente, que ela acreditava estar usufruindo plenamente. Para Ida, não havia um Diabo, não havia Lúcifer, não havia nenhuma forma ruim rondando-lhe constantemente, pois, se Deus era bom, logo, não poderia criar coisas ruins, como o Diabo e o inferno. Nem seres nocivos, como fantasmas e demônios que assombraria as pessoas.
Ida era diferente da média.
Ela não acreditava nessas bobagens.
Até aquele momento...
Ele estava lá, mais uma vez, olhando insistentemente para a sua residência a meia-noite.
Um corpo esguio e magricelo, do outro lado da rua deserta, estático. Seus cabelos escuros e longos, que junto a sua camisa branca cobrindo sua cabeça, balançavam em sincronia com o vento. A máscara branca — meio coberta pelo boné preto — que encaixava perfeitamente em seu rosto, não tinha boca porém, no seu lugar fora costurado um sorriso falso e forçado. Já seus olhos, eram pequenos e fundos, talvez inexistentes. Mas mesmo se houvesse algo em meio aqueles buracos negros, Ida não conseguiria, de qualquer forma, saber a cor deles. Ele estava muito distante. E ela não seria louca de se aproximar.
Ida as vezes se perguntava o que havia por debaixo daquela máscara, e se ela realmente gostaria de saber.
Fazia muito frio naquela quinta-feira a noite, mas o Stalker (como fora nomeado pela jovem) não parecia sentir o mesmo, pois permanecia na mesma posição há mais de quinze minutos. Apenas seu pano e cabelo indo de um lado para o outro, nada mais. Talvez ele fosse um garoto idiota (como sua mãe adorava supor) ou talvez uma alucinação de sua mente fértil. Mas talvez ele não fosse nem... humano.
Quando sua mãe ligou para a policia naquela noite, mais uma vez, Ida sabia que nada seria resolvido. Nas últimas semanas, era frequente a visita do policial Mike e seu companheiro ao Distrito Leste tarde da noite, atendendo aos chamados de uma mãe preocupada.
Sempre o mesmo.
O Stalker nunca era pego, ele sempre desaparecia milagrosamente antes. Então os policias chegavam e ouviam relatos das mulheres da família Kindbell em silêncio por alguns minutos até irem embora deixando promessas, apenas promessas. Mike e seu companheiro apenas voltavam quando a próxima ligação era feita para que todo o processo se repetisse cansativamente.
— Faça alguma coisa! — Os gritos de sua mãe eram audíveis da cozinha espaçosa.
Ida correu até a mulher, segurando a água que havia acabado de pegar na geladeira numa mão. Toda aquela irritação da mãe, deixava a garota preocupada. Lisette só ficava assim quando ele ia a sua casa. Não o Stalker. Mike D'Valle.
Quando chegou a sala, encontrou os dois policiais levantados e sérios, frente a uma Lisette irritada e de braços cruzados, usando apenas seu robe rosa claro e os cabelos escuros molhando as suas costas e seios fartos.
Tanto quanto a filha, Lisette estava cansada de tudo aquilo e queria que aquele jovem levado fosse pego o mais rápido possível.
— Mamãe, se acalme — pediu a garota, se aproximando e entregando-lhe um copo de água morna — Está tudo bem, ele já foi.
Lisette olhou para a garota assustada ao seu lado e segurou o copo com as duas mãos.
— É claro que ele já foi, ele sempre vai. Aquele covarde! — tosse, pondo uma mão sobre a boca. Estava frio lá fora, e quando a policia chegou, a mãe não se conteve e correra apenas de robe e sem suas pantufas para atendê-los no gramado regado pela chuva de horas atrás. As consequências de seus atos estavam chegando agora. E Lisette só esperava não acordar no dia seguinte indisposta. Não poderia faltar o trabalho, não mais — Tem um homem... Não! Tem um garoto, pois para fazer essas coisa, tem que ser um moleque idiota... — volta a tossir, dessa vez, com mais força.
— Beba um pouco de água, a senhora está muito nervosa — disse o policial alto e jovem, do qual Ida não sabia o nome. O que era estranho, pois ele sempre estava junto de Mike e tinha cabelos ruivos inesquecíveis.
Lisette, apesar de relutante, fez o que ele pediu, mesmo que a água não lhe trouxesse calma. Não quando o Stalker estivesse solto lá fora para assombrar sua criança.
— Tem um garoto brincando com minha família, vindo por várias noites vigiar nossa casa há semanas, e a unica coisa que vocês sabem fazer é isso? Pedir calma? — Seus dedos finos, tremulavam a água do vidro quase vazio. Vendo o estado da mãe, a jovem tirou-o de suas mãos antes que ela pudesse se machucar — Esse homem está assustando minha filha.
— Senhora, já fizemos todo o possível — diz o outro policial, Mike. Um homem grosseiro e infeliz que só trabalhava como policial pois fora isso que seu pai quisera, contara sua mãe num dia quente.
Lisette definitivamente não gostava nada dele. Pensou que nunca mais o veria novamente depois que concluiram o ensino, mas lá estava Mike, anos depois, de volta como um policial, um irritante policial.
— Não fizeram — Ida sentou-se no braço do sofá, vendo aquela discussão já quase rotineira. Mike e Lisette estavam sempre brigando, o que fazia a jovem se pergunta se havia algum sentimento reprimido ou se era apenas puro ódio reciproco — O aniversário de Ileda é em quatro dias — lembrou Lisette.
— Eu sei — Mike focou seus olhos grandes na jovem criança a poucos metros dele, e, pela primeira vez, ela viu Mike sorrir sem deboche ou ironia. Parecia que seu lado irritante era destinado apenas a sua ex-colega de classe — Parabéns, Ileda. Já é quase uma adulta.
O policial Mike brincou, coçando a cabeça quando não obteve uma resposta rápida da garota.
Ida poderia ter dito "obrigada", levantado e dado-lhe um abraço ou aberto um sorriso simpático. Mas ela não era esse tipo de pessoa, e apesar de não ter nada contra o policial, Ida não poderia ser muito agradável com o homem a quem sua mãe tinha completo asco. Seria quase uma traição, pensava. Por isso, a jovem apenas assentiu sem graça, abaixando o olhar para o colo onde suas mãos se encontravam entrelaçadas.
Ela não sabia como lidar com a situação. E tinha medo de interromper a mãe e acabar sendo alvo de sua fúria. Não que Lisette batesse na filha, ou se irritasse constantemente com ela. Pelo contrário. Era como se as duas fossem grandes amigas. Mas nos últimos dias sua mãe vinha ficando nervosa — principalmente na presença do policial — e Ida tinha medo que em algum momento toda aquela fúria também fosse direcionada a ela.
— Vocês poderiam deixar um policial aqui, vigiando minha casa, ao menos durante a noite — sugeriu a mãe, olhando para eles com sinceridade e suplica. Lisette nunca imaginou que acabaria pedindo algo assim, mas depois de tudo que vinha acontecendo, o medo da filha agora estava passando para a mãe. Sim, Lisette estava com muito medo do que aquele perseguidor poderia tentar contra sua família quando desistisse de ficar apenas vigiando-as — Por quatro dias, só por quatro dias.
Mike bufou, irritado com a persistência daquela mulher.
— Não podemos fazer isso....
— Então fiquem aqui até que ele apareça de novo, e vocês o prendam — interrompeu-o, pedindo novamente, mas só recebeu um revirar de olhos da parte do policial mais velho.
— Senhora Kindbell, temos mais coisas o que fazer do que servimos de seguranças temporário — Mike disse com delicadeza fingida, ao entrelaçar os braços malhados.
Lisette não sabia se aquela deveria ser a atitude de um policial, mas talvez ser o filho do delegado devia fazê-lo pensar ter mais liberdade e autoridade do que realmente tinha.
Ela abriu a boca, prestes a protestar, mas foi interrompida por um dedo levantado por ele.
— Além do mais, mesmo que esse cara apareça, não poderemos fazer nada — disse, ignorando o olhar incrédulo da mulher.
— Porque não? — levantou suas sobrancelhas bem feitas.
— Porque ele não cometeu nenhum crime — lembrou-lhe Mike, que ousadamente sentou no sofá oposto onde a jovem mãe se encontrava, cruzando as pernas. Seu subordinado, porém, permaneceu de pé. Não era tão abusado como D'Valle — Pensei já ter dito isso.
— Mas ele está vigiando minha casa — quis lembrá-lo do óbvio.
— E isso nunca foi um crime no Canadá — o policial mais velho sorriu com escárnio, passando a mão nos fios grisalhos de seu topete — Sem contar que estamos apenas acreditando na tua palavra. Quando entrevistamos seus vizinhos, todos afirmaram nunca terem visto nada parecido com um garoto mascarado parado na frente da sua residência, Senhora Kindbell.
— O que está insinuando? — perguntou, incomodada com a ousadia do policial em pensar coisas sobre ela — Que eu estou mentindo?
— Não sei — sorriu amarelo — Está?
E mais uma vez, naquela noite, Lisette sentiu um sentimento ruim crescer dentro de si. Ódio era um sentimento feio, mas era isso o que sentia por Mike. Aquele homem lhe tirava do sério, sem muito esforço. E a cada minuto que conversava com o mesmo, mais sentimentos ruins tinha por ele.
— Será que nosso perseguidor precisa entrar e esfaquear todos dessa casa, para vocês finalmente tirarem a bunda desse sofá e decidirem agir? — sua voz subiu três tons, enquanto levantou-se do sofá indo até Mike, que não moveu nenhum músculo sequer.
Ele não tinha medo de Lisette Kindbell. Talvez só de seu marido, mas este, felizmente estava a no mínimo sete palmos do chão.
— Não, nós só precisamos ter certeza de que fala a verdade — suspirou, ficando cara a cara com sua ex-colega de classe, quando cansou de permanecer sentado e se levantou. Em sua humilde opinião os sofás daquela casa não eram os mais confortáveis. Os de seu apartamento em Du Fleur eram bem melhores que aqueles — Mas posso fazer um esforço, e tentar chegar mais rápido da próxima vez.
— Melhore isso mesmo. As vezes pergunto o que o faz demorar quase meia hora para chegar na minha casa, se a delegacia fica há poucos quarteirões daqui.
— Eu tenho mais coisas a fazer, Senhora Kindbell.
— Tipo? — inclinou a cabeça, incentivo-o a continuar.
Mike levantou um dedo, começando a enumerá-los.
— Tipo comer alguns donuts, usar a privada, salvar gatinhos indefesos e cochilar. Aliás, antes de você nos ligar, meu parceiro e eu estávamos tirando um cochilo dentro do carro com vista para a Ponte Azul — Lisette revirou os olhos amendoados e soltou um risinho sem graça para acompanhar o de Mike. Ela esperava que ele não estivesse falando sério, ou ela seria presa naquela noite por matar um policial da segunda idade — Uma vista de tirar o fôlego, não acha?
Ida mesmo muito jovem, já sabia que aquela discussão estava indo longe demais, e que faltava pouco para que os dois caíssem rolando e se estapeando pelo carpete marrom. Apesar de Lisette não ser adepta da violência, ela se tornava bastante explosiva na presença do policial, o que significava que quando os dois estavam juntos, tudo poderia acontecer, inclusive uma guerra sangrenta no chão da sala.
— As vezes penso que você, Mike D'Valle, é tão incompetente para o cargo que ocupa — cuspiu a mãe, sem se importar com olhar assassino que recebera do policial ao fim da frase.
— Desculpe se não pareço competente o suficiente, mas é apenas isso que podemos fazer — sua voz não era sincera, na verdade, ele estava muito longe de realmente querer se desculpar — Mas se não gosta do meu trabalho, posso deixar outro policial cuidar do seu caso...
— Séria ótima — interrompeu-o, sorrindo com breve alegria. Se ele fizesse o que dissera, isso seria de grande ajuda. Talvez outro policial mais dedicado pudesse ajudá-la, já que Mike parecia disposto a fazer quase nada por ela.
— Mas saiba que esse fará muito menos pela senhora do que eu — voltou a provocá-la, com fingido carinho — Além do que, eu nem cobro pela gasolina e tempo de vida perdido.
— Seu...
—Tudo, Lisette, tudo em nome da nossa amizade. Você deveria valorizar mais isso.
E aquela fora a gota d'água.
Amizade? Não havia amizade entre Lisette Kindbell e Mike D'Valle. Nunca.
E como um vulcão, que não tem hora marcada para entrar em erupção, Ida mais uma vez naquele dia viu uma Lisette furiosa. Por um momento, a garota pensou que a mãe iria pular no pescoço do policial e arrancar sua carne com as unhas. No entanto, ela foi mais rápida e segurou o braço da mãe para que não fizesse alguma loucura na qual pudesse se arrepender mais tarde.
Mike estava sendo tolerante ao deixá-la gritar com ele todo esse tempo. Mas mesmo sendo tão jovem, Ida sabia que se a mãe tentasse atacá-lo, ele poderia não tolerar mais e prende-la por desacatar e agredir uma autoridade.
— Saia da minha casa! — gritou, apontando para a porta meio aberta, fazendo os pelos de todos naquela sala se arrepiarem. Ida deu um salto do sofá e quase caiu para trás. O policial mais jovem se encolheu próximo ao mais velho, como um veado ferido. E mesmo Mike, arregalou os enormes olhos castanhos com a repentina mudança de tom da jovem mãe. Ele não imaginou que ela reagiria tão mal a suas provocações — Agora!
Quando eles foram embora naquela noite, finalmente a tensão no ar se desfez. Ida nem sabia que o ar estava tão pesado, até que seus ombros se curvaram e um suspiro deixou seus lábios secos. Ela estava... cansada.
A mamãe então jogou-se no sofá novamente, onde a mesma estava sentada e cobriu o rosto, pensativa.
Lisette acreditava que o Stalker era um mero garoto idiota sem nada de melhor para fazer, ou pelo menos, era nisso que ela queria acreditar.
Não sabia ela que imaginação da filha ia muito além.
— Desculpe, pelo susto — suspirou, abaixando as mãos e observando a garota de pijama rosa ao seu lado.
— Tudo bem — a filha respondeu em meio a um bocejo.
— Suba, Ida — pediu, de olhos fechados e dedos na têmpora — Amanhã tem aula e você precisa descansar.
E como uma ordem, Ida a cumpriu.
Subiu as escadas rapidamente e se trancou no escuro quarto do segundo andar. Mesmo com um pequeno medo de encontrar o Stalker escondido sob sua cama, mesmo com medo de acordar no meio da noite e encontrá-lo lhe observando com seus olhos inexistentes na parte mais escura do quarto. Mesmo com medo, Ida adormeceu.
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