Stalker
13 Prometa
Notas iniciais

Na segunda-feira bem cedo, Mio esperava seu irmão Nan em frente à livraria como combinado. Ian não estava com ele porque surgiu um imprevisto no seu trabalho e foi obrigado a ir um pouco mais cedo para a empresa, por conta disso a todo momento ele enviava mensagens para Mio perguntando se já estava em casa. Apesar de seu irmão não ser um sinônimo de pontualidade, Mio estranhou o tom de sua voz quando telefonou confirmando se ele estava à caminho. Parecia que ele queria dizer alguma coisa a ele, mas estava com dificuldades para isso. Quando o relógio deu dez e meia, um carro conhecido estacionou em frente à loja, buzinando para ele. Era Hayato e do lado dele sua mãe. Mio caminhou até o carro e entrou, seu irmão Nan estava sentado no banco de trás e evitava olhá-lo.
Logo ele percebeu o motivo da voz estranha de Nan, a mentira que haviam contado para a viagem fora descoberta, e pelas caras carrancudas de sua mãe e irmão mais velho, aquilo não era nada bom. Resolveu não se pronunciar até que eles dessem sua sentença. Todo caminho até a sua casa foi no mais absoluto silêncio, porém assim que chegaram no apartamento a gritaria começou:
— Tudo isso é sua culpa! Você deveria ser mais responsável! — gritava Hayato para o Nan.
— Minha culpa? Como esse tipo de coisa pode ser minha culpa? — defendia-se ele, mostrando-se ofendido pela acusação.
Em pé em frente à porta, Mio ficava calado vendo os dois irmãos se acusarem, porém tinha dúvidas do real motivo da briga.
— Do que estão falando? — perguntou tímido.
Rispidamente seu irmão mais velho se aproximou dele e arrancou de suas costas a mochila que trazia consigo, jogando bem longe na sala.
— DE VOCÊ!— esbravejou — Como você teve coragem de mentir para nós e passar o fim de semana com um desconhecido?
— Ian não é um desconhecido, a mãe conheceu ele. — esclareceu.
— Eu não conheço ninguém! — gritou a mãe do outro lado da sala — Somente uma vez fomos apresentados e nada mais! Você me pediu autorização para sair com ele uma noite e eu fui contra isso, mesmo assim você foi.
— Não irei discutir sobre isso, qual é o problema de ter passado o final de semana com ele?— questionou — Não é o que vocês fazem o tempo todo e ninguém reclama? Por que eu tenho que ficar me justificando?
— Nós fazemos isso o tempo todo? Quando você me viu saindo com um homem com fins amorosos? — perguntou Hayato irritado.
Furioso, ele encarou seu irmão Nan, que evitava encará-lo arrependido.
— Você de nós três foi o que mais recebeu amor, carinho e atenção da família. Como você faz uma coisa dessas a gente? Nos envergonhar desse jeito?!
Mio ficou ofendido com aquelas palavras, ele não conseguia entender como gostar de outra pessoa era algo tão ruim.
— Eu sempre fiz tudo que vocês me mandavam sem reclamar, sempre vi você e o Nan fazerem o que bem entendessem com suas vidas, sem me consultar. Vocês trocam de namoradas como se elas fossem peças de vestuário e nunca pararam para pensar que tipo de desonrar essa atitude traria para nossa família. Agora, se eu conheço o amor de verdade, coisa que vocês ainda não experimentaram, eu estou envergonhando minha família?!
— Ele é um HOMEM! Um HOMEM, Mio! — gritava Hayato em sua frente como se o irmão mais novo não entendesse o que significava aquela palavra.
— O homem que EU AMO! Entenda isso! Eu não gosto de garotas como vocês!
Hayato faiscava de fúria, com a mão suspensa no ar na enorme vontade de esbofeteá-lo, porém, não conseguia forças o suficiente para fazer aquilo em seu irmão, principalmente sendo encarado tão desafiadoramente como estava.
— O que você entende sobre gostar de garotas? — abaixou seu braço.— Você já namorou alguma garota? Que experiência você tem com elas? Você não sabe de nada! Nada que não seja o mundo dentro de seu quarto! Mal sabe sobre você mesmo, por isso esse gigolô está se aproveitando de você!
— Não compare Ian com você! — gritou Mio o empurrando com toda sua força fazendo ele cambalear para trás sendo amparado pelo sofá onde Nan estava sentado.
Depois dessa cena, correu rapidamente para seu quarto, trancando-se nele sob os gritos de sua mãe e irmão. Puxou a mesinha de livros colocando em frente à porta, impedindo assim que eles conseguissem abri-la. Quando se deitou na cama, lembrou que o seu celular estava dentro da mochila que seu irmão jogou no chão da sala. Ele queria muito falar com Ian naquele momento.
Ele sabia que assuntos tabus como homossexualidade não seria fácil de debater com sua família conservadora, só não esperava que fosse tão difícil lidar com a situação. Queria naquele momento o calor dos braços de Ian, pois perto dele sentia-se protegido, querido e amado. Pensou se o que estava passando agora, não foi exatamente o que Ian passou com seus pais, obrigando ele a sair de casa e mudar de país. Queria muito fazer o mesmo, abandonar aquela casa sufocante e ir morar com ele.
No entanto, ele sabia que as coisas não eram tão simples assim. Não queria tornar-se um peso nas costas de Ian que estava acostumado a morar sozinho. Ele precisava primeiramente ser independente, para contribuir nas despesas caso o outro aceitasse dividir seu apartamento com ele. Sua vida no momento estava uma bagunça, totalmente baseada em sua família. Sempre foi dependente deles, e precisava mudar essa realidade, só não sabia ainda como. Quem daria um emprego para alguém sem nenhuma experiência e ainda por cima doente? Todo o seu desespero transformou-se em lágrimas pela sensação de inutilidade e pelo medo que sua família destruir-se sua relação.
Ele também chorava por ter tratado o seu irmão daquele jeito, eles nunca haviam brigado antes. Hayato sempre foi como o pai da casa, assumiu a família muito cedo; conciliava estudos, família e seu trabalho de meio período. Graças aos seus esforços e de sua mãe, nunca faltou nada em sua casa. Muitas vezes quando era internado, mesmo cansado da rotina de trabalho e faculdade, ele passava às noites com Mio no hospital. Era por isso que Mio não desejava que as coisas continuassem daquele jeito, porém também não estava disposto abandonar seu amor caso seu irmão não mudasse de atitude. Se seus esforços não fossem considerados, ele estava decidido a romper o cordão umbilical entre eles e seguir em frente sem o apoio de sua família. Não fazia isso somente por Ian, mas pela necessidade que tinha de opinar sobre sua vida, fazer suas próprias escolhas; de tanto chorar pensando nas coisas ruins que estavam acontecendo pegou no sono.
Eram quase meia noite quando finalmente acordou, não ouvia barulhos vindo da sala, empurrou devagar a mesa do computador, que prendia a porta, e deu espiada no corredor. Parecia que seus irmãos não estavam mais em casa, então, sem fazer barulho, foi até a sala buscar suas coisas. Sua mãe dormia no sofá com a televisão ligada; rapidamente pegou sua mochila no chão e voltou depressa para o quarto.
Assim que pegou o celular, discou para a pessoa que mais desejava ouvir a voz no momento. Ian não demorou muito para atendê-lo.
— Oi, meu anjo.
— Ian... — voltou a chorar enquanto tentava contar o que havia acontecido — Eles não querem mais que eu veja você.
— Eu imaginei que alguma coisa tinha acontecido, pois liguei várias vezes para o seu celular e você não atendia, além que as cortinas do seu quarto ainda estavam fechadas. Eu quase liguei para o número fixo de sua casa, que bom que resolvi aguardar algum sinal seu. Sobre o seu problema, não chore, as coisas irão melhorar. — tentou acalmá-lo.
— Eu não quero deixar de te ver, ninguém me entende aqui.
— Sei como se sente no momento, evite tocar nesse assunto com eles por enquanto. Até chamaria você para morar comigo... — Ian parou de falar de repente, e Mio escutou um ruído muito barulhento, parecia muitas pessoas falando ao mesmo tempo.
— Ian? Ian? Está acontecendo alguma coisa? — perguntava esperando uma resposta, foi para frente da janela, mas as cortinas da casa dele estavam fechadas e as luzes apagadas. Mio jurava que Ian estava falando com ele de seu apartamento.
Alguns minutos se passaram e Mio estava ficando apreensivo com aquela situação, sabia que Ian ainda estava na linha, mas parecia estar abafando o som do aparelho enquanto discutia com alguém.
— Mio... — chamou Ian sua atenção — Mio, devemos nos afastar por um tempo.
— Como assim? É por causa da minha família? — os batimentos cardíacos de Mio aceleraram com aquelas palavras.
— Desculpe... eu não posso falar agora. Só peço que mantenha-se longe de mim e do meu apartamento. Me prometa isso! — o tom da voz de Ian parecia tenso e Mio estava ficando assustado.
— O que está acontecendo, Ian?
— Me prometa! — gritou ele exaltado.
— Você... se você não... — Mio tentava controlar as lágrimas — Se não quer me ve mais, eu prometo não te incomodar!
— Obrigado, Mio. Desculpe.— e desligou o telefone.
Mio ainda segurava o telefone escutando o som do fim da ligação, as luzes da casa de Ian acenderam-se e depois apagaram-se novamente. Naquele momento, as palavras de seu irmão dizendo que ele não sabia de nada sobre a vida, ecoaram em sua cabeça. Será que o Hayato tinha razão? O telefone começou a pesar em suas mãos, assim como seu corpo e o ar, Mio não se aguentava em pé.
Desmaiou em frente a janela.
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