Stalker
44 Passividade
Notas iniciais

Anabelle percebeu que o seu novo amigo andava muito calado nos últimos dias, parecia distante e preocupado. Abordou ele quando este montava a árvore de Natal da loja junto com ela.
— Mio, percebi que anda voando em pensamentos ultimamente. Está com saudade de casa?—iniciou a conversa.
Ele a olhou meio surpreso com a pergunta de repente, mas resolveu desabafar.
— Um pouco, estou um pouco preocupado com minha mãe.
— Seus irmãos não estão com ela? Por que a preocupação?
— No Natal ela sempre costuma fazer uma ceia para a família e as namoradas dos meus irmãos as vezes aparece para jantar conosco, depois disso eles partem para as baladas e chegam outro dia ou dias depois. Ficávamos somente nós dois em casa, dessa vez será diferente, ela ficará sozinha.
—Por que então não liga para sua casa e diz que está bem, chama um de seus irmão e os intimida a passarem o Natal todo com ela, ao invés de saírem com as namoradas?
—Não é fácil como imagina. Primeiro que meus irmãos não são caras que ficam muito tempo em casa. Eles sempre foram independentes desde de cedo. O único preso lá, eu era. Duvido muito que abdiquem disso agora. E segundo, se eu ligo para lá, não me deixariam falar uma única palavra. Ouvirei sermões até cansar e desligar o telefone chateado.
— Mio, pare de ter medo de encarar seus irmãos. Não é mais um garotinho. Passaram-se quatro meses desde que veio morar comigo. E você continua com esse discurso chato que não vai conseguir, não é capaz... Será que não percebeu tudo que JÁ FEZ? Não está mais vivendo nas custas da sua família. Tem um novo emprego, um nova amiga, um novo local para morar. O passado que você tanto teme, agora não passa de meras lembranças do que foi um dia. Não deve ficar ai se remoendo com o que iram pensar. Muito pelo contrário. Deve mostrar a eles seu o novo "EU". O Mio mais corajoso e forte que pode fazer o que bem entender da sua vida. Está na hora de encarar seus irmãos! Mostre que não é mais um criança e que não podem fazer decisões por você. Já está na casa dos vinte! Não está mais trancado em um quarto vendo a vida dos vizinhos pela janela —deu ela risinho maldoso — Você não percebeu o quanto mudou? Assumiu-se gay para sua família corajosamente e os encarou.! Infelizmente não deu certo com o tal do Ian, então você continuou indo em frente e procurou um emprego. Adeus aulas particulares dentro de casa! Teve a oportunidade de conhecer outras pessoas de personalidades diferentes. Encontrou um novo romance, que infelizmente também não deu certo, mas são coisas da vida. Cara, você mudou e muito! Se um de seus parentes vier reclamar, pode interromper as reclamações deles quando quiser, basta falar. — terminou ela seu discurso motivacional.
Mio ficou parado olhando seu reflexo em uma das bolas de enfeite, pensando nas coisas que a amiga havia dito. Ele nunca tinha parado para analisar as mudanças pequenas, porém significativas que tinha feito todo esse tempo depois que conheceu Ian. Do que ele ainda tinha medo? Não tem mais nada para perder, já tomou suas decisões, as consequências agora eram mínimas diante dos obstáculos que foram ultrapassados.
— O que foi? Falei demais? —perguntou Anabê preocupada com a falta de reação dele.
—Não, não! Você fez uma retrospectiva da minha vida, fiquei assustado quando percebi as coisas que fiz, ainda não havia parado seriamente para analisar do que mais eu posso ter medo, depois de tudo que encarei?
— É! É exatamente ai que eu quero chegar! É normal quem está de fora, enxergar a situação melhor do que quem está participando dela, porém, tem coisas que só você sabe como é, porque é você que as sente. Acho que você ficou tão preso ao medo, e em agradar sua família que você não percebeu que aos poucos estava crescendo e tomando decisões por si só. A sua obediência cega as regras, condutas, e em não magoá-los aos poucos foram sendo colocadas como segunda opção, e seus desejos tomaram conta. Isso é novo para você, tem o direito de ficar assustado, mas não pode ficar parado por conta disso e deixar de continuar o seu progresso. Sua vida não acabou aqui em uma lojinha de plus size! Aqui é somente o começo do seu novo "eu", Mio.
— Pode ser, mas eu ainda não me sinto à vontade em encarar meu irmãos. De inicio, estava motivado pelo meu amor ao Ian, algo que não existe mais. Todo o gás que me movia a fazer todas essas coisas, foi se apagando aos poucos depois daquele dia. Agora é diferente, claro quero viver e ser feliz, mas por dois anos, a minha felicidade se resumia em três letras. Esse recomeço é bom, mas eu não sinto a atração pela vida como era antes, entende? Meu amor por Ian, minha fé que ele me amava também, era o que me dava coragem de encarar tudo e todos. Agora que não tenho mais ele, não me sobrou nada, é como se eu estivesse vazio.
Anabella levantou-se do chão e foi até o balcão e tirou o telefone do gancho.
—O que vai fazer? —perguntou ele sem entender a atitude sem sentido da amiga.
— Estou olhando aqui na agenda o número que me deu de sua casa dizendo que iria telefonar para eles, mas nunca ligou. Como são os nomes deles mesmo?
— De quem? — perguntou aturdido.
— Dos seus irmãos, Mio!
— Ah... Hayato e Nan. Você não pensa em ligar para eles agora, né? Tipo, vai dizer o quê? — levantou ele indo para o lado dela, preocupado, assustado e ansioso.
Ela não respondeu, discou o número e ficou aguardando alguém atender, uma voz grave e masculina, atendeu o telefone.
— Casa dos Kimura, com quem falo?
— É o Nan ou o Hayato? — foi ela perguntando sem responder a pergunta dele.
— Quem liga é quem deve se apresentar primeiro. — reclamou o outro.
— Estou com pressa meu amigo, um desses dois estão em casa? Você é um deles?
— Quem é você e qual seu interesse em falar com um deles? Qual o motivo de sua ligação? Se me responder, eu te respondo.
Mio ficou curioso com quem ela estava discutindo.
— Eu tenho um recado importante do Mio, se nenhum dos dois estão em casa, então irei desligar. — falou ela ousadamente.
— Do MIO?! Espere! Você está falando com Hayato, irmão mais velho dele, o que sabe à respeito do Mio? Você o sequestrou e está ligando pedindo resgate?
Anabella começou a ri da suposição, Mio ficava confuso, tentando entender o que se passava na ligação, com quem ela estava falando.
— Não, não sou nenhuma sequestradora que pegou seu irmão — disse ela olhando rindo para Mio que ficou sem graça com a suposição — Eu sou a mais nova amiga dele e atualmente ele está sob os meus cuidados. Ele queria avisar que está bem, com saúde, e que vocês não precisam se preocupar com ele, quando ele estiver se sentindo mais à vontade para voltar para casa, ele irá da mesma forma que saiu. Quando ele quiser. — deu uma piscadinha para Mio, que só se perguntava com quem ela falava.
— De onde você está falando? Qual seu nome? Quanto tempo você conhece o Mio? Como irei saber se o que diz é verdade, já que não tens nenhuma prova sobre isso, e colocamos comunicado sobre ele nos jornais, pode perfeitamente ter pego algumas informações e está a criar brincadeiras comigo.
— Não estou atrás de sua aprovação, Sr. Hayato. Não me importo com ela. Estou somente repassando um recado, Mio não vai comparecer no natal deste ano. Ele quer que vocês, como irmãos mais velho, passem o dia integralmente com a mãe de vocês como ele sempre fazia. Não é para sair por aí em boates e largar a velha sozinha! — reclamava ela, Mio colocava a mão no rosto constrangido, imaginando que ela estava falando assim, logo com seu irmão mais esquentado.
— Eu não disse que acredito em você, talvez seja uma adolescente querendo chamar atenção. — continuava ele desconfiado na linha.
— Se eu fosse uma adolescente carente, não ligaria para deixá-los confortáveis, dizendo que seu irmão sumido está bem e saudável. Eu estaria enchendo você de medo, criando paranoias para ficarem preocupados. Então, me poupe de suas asneiras, estou a fazer uma boa ação aqui.
— Que garantias eu tenho de que você não está somente enrolando para chegar no finalmente e cobrar pela estadia e segurança dele em sua casa? Tenho certeza que isso é uma chantagem, não se identifica, fala que meu irmão está bem em sua casa, não prova nada... Tudo me cheira a golpe.
— Você é um cara insuportável, agora entendo porquê o Mio não queria telefonar, olha quanto tempo perdido somente para dar uma notícia, por conta de suas desconfianças? Se alguém liga para dizer que seu irmão desaparecido está bem, você tem que agradecer pela informação, não ficar criando suposições de sequestro ou golpe, você por acaso é rico e famoso para que eu perca meu santo tempo criando um modo de roubar o seu dinheiro? Você é muito panaca e presunçoso; pessoas assim devem ser insuportáveis realmente te conviver! Mio ...— disse ela olhando para o amigo — Te entendo perfeitamente agora. Esse Hayato é um mala!
Mio acenava nervoso, pedindo para ela não dizer aquelas coisas ao telefone para o irmão dele.
— O Mio está próximo à você? Se for verdade, passe o telefone para ele imediatamente!
— Você não manda em mim! Eu passo o telefone se ELE QUISER falar com você. Aqui, ele não é obrigado a nada, tem sua própria opinião porque ele é um homem adulto! Não alguém que sofre de uma doença mental e precisa ter sua vida decidida por outros. Mio, você quer falar com esse cara podre?
Mio ficou olhando para ela nervoso e indeciso, não queria ouvir as queixas que Hayato faria, mas precisava provar que estava bem para eles não ficarem tão preocupados. Pegou o telefone com a mão tremendo e colocou perto do ouvido. Demorou alguns minutos para falar alguma coisa, foi Hayato que puxou conversa dizendo a todo momento seu nome, para ver se ele iria respondê-lo.
— Oi... Hayato...
— Mio, é realmente você?! Aonde, está? Quem é essa maluca, me diz aonde está que irei te buscar agora! Ela está te mantendo como refém, ela quer dinheiro em troca de sua liberdade? Me diga a verdade que eu dou um jeito de providenciar tudo. — dizia o outro nervoso e exaltado.
— Hayato! — tentava ele acalmá-lo — Eu não estou em carcere privado, estou bem. Ela é minha amiga, e está me ajudando muito enquanto estou na cada dela.
— Ele ainda tá nesse papo de sequestradora? — perguntou Anabê incrédula, com a mão na cintura.
— Sua brincadeira inconsequente já não terminou Mio? Você sabe como a mamãe está exausta de tanta preocupação com você? Quatro meses sem noticias suas! Você não se importa nem com ela? Que te criou com tanto amor e carinho?
— Eu sinto muito por ter gerado tanta preocupação, mas não me arrependo de ter saído de casa. Deveria ter ligado antes, mas estava sem coragem e sem cabeça para enfrentá-los. Só liguei para informar que estou bem, seguro, e que não precisam me procurar. Quando eu achar que já posso voltar para casa, eu volto. Por enquanto, só queria que vocês passassem o Natal com a mamãe, já que esse ano eu não estarei presente. Cuidem dela, diga que a amo muito e que não precisa ficar mais preocupada comigo. Somente isso, adeus Hayato. — disse desligando o telefone.
— Terminou? O que ele te disse?
— Basicamente, deu atender que estarei morto quando voltar.
— Se quiser eu volto junto com você! E quero ver ele passar por cima de mim. — Anabê estava furiosa com Hayato.
— Será que eles vão rastrear sua ligação? — perguntou preocupado.
— Não, eu removi o identificador de chamada, fiz como anônima. Enfim, sabe, você não precisa voltar se não quiser. Pode morar aqui comigo, ou então mora por aqui por perto, tem algumas kitnets para alugar. Se quiser matar a saudade deles, pode ligar para eles, enviar cartas, mandar mensagem ou ir visitá-los um dia. Só tem que lembrar que você não é obrigado à nada! Você é o dono da sua vida. Eu entendo que o inicio não é fácil se desfazer do medo de tudo dar errado, já fui como você quando sai de casa. Mas, te garanto, isso passa com o tempo, você aprende que é muito melhor decidir as coisas por si mesmo.
— Sim, eu sei que irei me acostumar. É que eu sempre fui muito superprotegido em casa. O Hayato assumiu o lugar do meu pai, o Nan também, eu sempre dei trabalho por viver doente, sempre um deles tinham que faltar escola, curso, faculdade, para ficar comigo em casa, enquanto a mamãe trabalhava. Todos deram duro para comprar meus remédios, me dar tudo que eu precisava para viver confortavelmente dentro de casa. Eu me sinto em divida com eles, pelo tempo que eles perderam comigo, o quanto eu devo à eles. Hoje, eu consigo compreender melhor os motivos deles para reclamarem comigo, eles estão acostumados com a realidade, com as pessoas, eu sempre fui mantido longe de problemas. Eu assumi gostar de alguém do mesmo sexo, deve ter sido um choque e tanto para eles, eu que nunca namorei ou sair de casa, agora queria me aventurar com outro homem, mesmo que sofresse preconceito. Para pessoas acostumadas a me protegerem, obviamente isso não seria visto como algo certo e aceitável. — Mio começou a caminhar pela loja, deslisando seu dedos magros nas peças de roupas nos cabideiros— Eu entendo que deve ser difícil para eles aceitar que eu posso me machucar, ser enganado, por outras pessoas. Porque eles não esperam que essas coisas aconteçam comigo. Eu sai de casa porque estava envergonhado e chateado. Eu juntei toda minha coragem para assumir um risco e falhei. Fui enganado pelo Ian, depois pelo Kame, eu falhei duas vezes em minhas tentativas de ser adulto. — Olhou para Anabê no balcão e enxugou as lagrimas que caíam insistentemente de seus olhos — Eu não queria que eles soubessem que sou péssimo decidindo minha vida sozinho e acabar sendo um fardo para eles novamente.
— Ainn... — disse Anabê indo até ele e o abraçando — Desculpe, eu fui muito grossa com seu irmão e ele só estava preocupado com você. Acho que troquei as bolas e pensei na minha família e acabei descontando nele, desculpas Mio.
— Não se preocupe com isso, foi até um pouco divertindo ver alguém peitando dessa maneira o Hayato. Do jeito que conheço ele, deve tá se questionando até agora quem é a pessoa que o desafiou na linha.
— Ele mereceu! — disse ela rindo — Bom, vamos faturar se não, ficaremos sem ceia hoje!
— Vamos sim! Voltemos a decoração para abrir a loja logo.
Fale com o autor