Stalker

28 Esperança


O relógio marcava três da manhã e Ian não conseguia pegar no sono. Depois da ligação de Rafael contando o modo como Mio encarou a notícia, não parecia nada esperançoso. Tinha medo que aquilo o fizesse desistir de vez, a única forma de estarem, nem que fosse um pouco, juntos no mesmo local era Mio aceitar as condições impostas. Ian não queria perder aquela oportunidade, porém essa decisão não caberia a ele.

Ian pensou nas palavras de Rafael, sobre Mio ter amadurecido depois que eles terminaram e, como seria perigoso manter-se perto dele. Se fosse a decisão de Mio sair da empresa para nunca mais vê-lo, Ian estava disposto aceitar. O deixaria em paz e sumiria pelo mundo para não ser encontrado por Natally nunca mais, cortando relações com todos que conheciam para sempre. Para alguém que achava patético quando seus amigos diziam que estavam morrendo de amores por alguém, hoje ele sentia na pele a realidade dessas palavras. Mio deu vida aos seus dias, cada vez que conhecia seu coração puro, mais encantado ficava com ele, perto de Mio, Ian era feliz como não era em muitos anos.

Queria tanto ficar com Mio para sempre, mas se esse decidisse que seguiria uma vida casando-se com uma mulher e criando uma família com filhos, não o impediria, mas sofreria muito pela sua decisão. Ele sonhava em montar uma família com Mio, se ele quisesse filhos, adotariam, ou alugaria uma barriga de aluguel para gerar filhos com os genes de Mio. Imagina como seria lindo uma criança com o rosto meigo e angelical dele.

Não conseguindo dormir por conta desses pensamentos, inúmeras vezes mexia-se na cama, quase acordando Natally que dormia junto com ele, agarrada em sua cintura. Conseguindo se desfazer das algemas que eram os braços delas, levantou da cama e foi para o sofá da sala, ficou por lá sentado com a mão cobrindo o rosto. Seu cabelo estava maior do que antes, e usava somente uma cueca box, já que por causa de Natally, ele parou de dormir nu. Olhou para cueca de estampa de bicho ridícula que Natally havia comprado, pensando a quanto tempo ele havia vestido algo que ele mesmo escolheu. Todos os dias ela o obrigava a vestir as roupas que ela achava melhor para ele.

Optou por tomar uma ducha, precisava refrescar a mente para voltar a dormir, ele queria ter certeza de chegar em bem cedo no trabalho para confirmar que Mio iria continuar trabalhando na empresa. Apesar de ouvir, e aceitar a proposta, não havia nenhuma garantia que ele comparecesse como o planejado, ainda era uma decisão dele continuar ou não. De repente, veio na sua cabeça os pensamentos sobre Mio e o seu atual namorado, será que uma hora dessas, eles poderiam estar dormindo juntos? Outro poderia estar transando com Mio? Deu um soco forte na parede de azulejo do box do banheiro, enquanto a água do chuveiro escorria pelo seu corpo. A raiva que sentia era mais forte que a dor que sentia na mão pelo soco, tinha certeza que havia machucado feio sua mão, mas naquela altura, esse era o menor de seus problemas. Seu coração estava partido muito mais que qualquer osso do seu corpo.

O corpo de Mio era tudo que ele queria naquele momento, o físico esguio, a pele macia, seu rosto corado com a aproximação de seus corpos, como Mio adorava passar as mãos em volta de seu pescoço para beijá-lo, e como mexia no seu cabelo e nuca enquanto se beijavam. Queria tanto senti tudo aquilo novamente, por que as coisas ficaram do jeito que estavam agora? Eles não teriam nunca mais um futuro juntos? Mesmo não querendo admitir para si mesmo, ele sabia que aquilo era possível, Mio estava namorando outra pessoa agora. Seus pensamentos no banheiro foram encerrados pela aproximação de Natally, que parecia desesperada por ter levantado e não ter encontrado ele na cama.

— Ian, voê está ai? Abra essa porta agora! ABRA JÁ! ABRA JÁ! — gritava que nem uma louca do lado de fora.

Ian respirou fundo, era contra violência contra as mulheres, mas tinha vontade as vezes de empurrar Natally da janela do prédio. Desligou o chuveiro, enrolou a toalha na cintura e abriu a porta antes que ela chamasse os seguranças para arrombarem.

— Você sabe que horas são para está gritando que nem uma histérica? Estava tomando banho, por onde pensa que irei fugir? Não passo pelo ralo. — disse em frente a ela na porta.

Natally ficou corada, era a primeira vez que via Ian de perto sem roupa, molhado e com uma áurea sexy, que o próprio não percebia. Toda sua autoconfiança estava abalada pelo seu "noivo", passou anos esperando casar com Ian, que nunca se deitou com nenhum outro homem. Não tinha experiência nenhuma com o sexo oposto.

— Eu... Eu não te vi na cama e pensei que havia fugido. — respondeu virando o rosto. — Além do mais, isso é horas de tomar banho?

Ian notou que ela agia estranho, logo percebeu que ela estava sem jeito pela maneira que ele estava vestindo, até porque ela evitava encará-lo, o que era uma atitude muito estranha vindo de Natally. Pela primeira vez em muitos anos, ele se sentiu no controle da situação com ela.

— Por que você não confere por si mesma se eu não fui abusado no banho por um fantasma ou alguma entidade com esse poder de passar sem ser percebido por seus seguranças e você? — falou pegando a mão dela e passando no seu abdômen definido.

Natally parecia que iria desmaiar, estava tremendo e extremamente pálida. Puxou a mão de volta rapidamente.

— Que...que...Que atrevimento, Ian! Se enxugue e volte para cama! Vai pegar um resfriado assim! — tentou se afastar para voltar ao quarto, porém, Ian segurou sua mão e a puxou para perto do seu corpo seminu.

— Não entendi, estou te dando uma grande brecha e você está fugindo, Natally?

— Ian, me solta! Você está me molhando! — pedia nervosa.

— Que tal adiantarmos a nossa lua-de-mel? Eu estou com muita vontade de transar agora. — disse puxando sua camisola e deixando os seios rosados dela amostra.

Ele cobriu com as mãos, extremamente tímida.

— Não, isso só depois do casamento! — respondeu tentando se afastar novamente, mas ele continuava segurando ela de encontro ao seu corpo.

— Você já dorme comigo na mesma cama, e anuncia para todos que estamos noivos, o que tem transar antes do casamento? — ironizou.

— Por quê? Porque é diferente! — gritou empurrando Ian, que a soltou.

— Não me diga que você ainda é virgem?

— Você saberá depois que nos casarmos! — disse ela entrando no banheiro e se trancando.

Ian ficou rindo da situação, não tinha intenção de abusar dela, estava apenas provocando porque gostou de saber que ela ainda era humana apesar de tudo. Estava mais aliviado também por saber que ela pelo menos não iria tentar obrigá-lo a transar com ela, antes do casamento imaginário que ela planeja. Voltava para o quarto quando sentiu a necessidade de aproveitar que Natally havia se trancando no banheiro, para espiar a janela da casa de Mio, percebeu por entre as cortinas do quarto dele, que a luz do quarto ainda estava acessa, porém, assim que ele chegou na janela, ela foi desligada.

— Espero que esteja pensando na gente, Mio. — falou Ian consigo mesmo, antes de voltar para cama.

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Mio só levantou da cama por insistência de sua mãe. Não havia dormido quase nada, passou sua noite em claro pensando no que iria fazer. As palavras de Rafael ecoavam em sua cabeça, maltratando ele à noite inteira. "Ian pode ser mais velho que você, mas no fundo ainda é uma criança perdida, e ele está em um momento que precisa muito de pessoas que o amem para lhe dar forças". Mio sabia que não deveria ser fácil viver o que Ian estava passando com sua suposta noiva, porém, também não era fácil para ele aceitar tudo que isso implica em sua vida. Amava ainda Ian, mas sua vida havia mudado e hoje não amava somente ele.

Kame conquistou um espaço em seu coração, e devia muito a ele, não queria magoá-lo com escolhas erradas. Sabia por experiência o quanto doía nutrir amor sem esperanças, não queria fazer o atual namorado passar pelo mesmo que passou com Ian. Queria que as coisas dessa vez dessem certo, algo que cada dia ficava mais impossível de acontecer com Ian.

Todo problema estava em continuar na empresa e não ser afetado por ele, mesmo dizendo que respeitaria sua decisão, Mio não tinha certeza dos seus próprios sentimentos tendo que trabalhar com Ian. Como controlaria o nervoso, a tremedeira, as palpitações só por estar na mesma sala que ele? Como controlaria as lembranças das suas mãos em seu corpo?

Olhou para o boné em cima da mesa, que recebeu antes de sair da empresa no mesmo dia, conseguiu esconder quase todo o cabelo nele e passou tranquilamente pelos seguranças de Natally sem ser reconhecido, sem contar que seus colegas de trabalho ficaram animados com o brinde que usariam. Ninguém desconfiou do motivo.

Olhava para o objeto e via nele dois caminhos diferentes para seguir: um complicado e cheio de espinhos, o outro, livre e calmo. Se usasse a lógica, séria fácil escolher o melhor caminho, o mais tranquilo, porém, estava inclinado a escolher o mais tortuoso. Aquele que levava até Ian.

— Quando foi que me tornei masoquista? — se perguntou levantando para tomar seu desejum.

— Filho, está muito pálido hoje. Tem certeza que está se sentindo bem? Eu posso ligar para o seu trabalho informando que você acordou indisposto hoje, sua saúde em primeiro lugar. — disse sua mãe o servindo na mesa.

— Eu estou bem, não preciso de nada disso, além do mais, não irei de qualquer forma.

— Hoje eu tenho plantão, me ligue se sentir que não está bem.— ela levantou e deu um beijo em sua testa, pegou a bolsa.

Quando foi abrir a porta, se deparou com Kame que estava prestes a tocar a campainha da casa.

— Nossa, a senhora tem um bom sentido de presença das visitas. — riu Kame.

— Kame, meu filho! Fico feliz que esteja aqui, o Mio acordou indisposto, ficaria mais tranquila se pudesse fazer companhia para ele. — pediu ela.

— Claro, faço isso com prazer. Pode ir trabalhar tranquila, eu tomo conta dele.

— Obrigada, querido. Você é um bom rapaz. — disse ela dando um beijo na testa dele e saindo fechando a porta atrás de si.

Ele foi direto para a cozinha onde Mio estava sentado comendo.

— Bom dia, amor. — disse puxando uma cadeira para perto dele, e roubando um beijo antes que ele colocasse uma torrada na boca.

— Bom dia.

— Sua mãe disse que você acordou indisposto, está doente de novo?— perguntou colocando a mão na testa dele para verificar temperatura.

— Não, só acordei com preguiça mesmo.

— É, sua temperatura está normal pelo menos.

— Kame... Tem algo que eu preciso conversar com você.

— Você quer me falar sobre está trabalhando na mesma empresa do seu ex-namorado?

Mio olhou para ele surpreso.

— Como você soube?

— Os garotos me contaram sobre a empresa, e eu havia me batido acidentalmente um dia com Ian, e sem saber quem ele era, trocamos cartões de visita, eu ainda tenho o dele, por isso percebi quando me disseram o nome da empresa.

—Você nunca me contou sobre isso.

— Você também não me conta tudo.

— Eu não estava escondendo isso de você, eu realmente não sabia que Ian trabalhava lá, nunca perguntei sobre nome da empresa que ele trabalhava quando estávamos juntos.

— Agora que sabe, você vai pedir transferência para a minha, não é? — perguntou olhando ele intensamente.

— Eu não sei... — dizia Mio cabisbaixo.

— Como assim você não sabe? Por que você está relutante por conta disso? É simples pedir transferência, eu posso até te solicitar se quiser para ser mais fácil, ou será que vocês resolveram reatarem, e estão se encontrando por lá as escondidas?

— Não! Eu não fiz nada disso, além do mais, o Ian me prometeu não interferir na minha vida, estou lá pelo trabalho e experiência. — defendeu-se Mio.

— Será mesmo, Mio? Será que você está naquela empresa somente por experiência? Você poderia muito bem ter o mesmo resultado trabalhando para mim, mas preferiu trabalhar para ele! — Kame começou a ficar furioso, levantou bruscamente da cadeira e ficou inquieto em pé na frente da pia da cozinha.

— Se você não confia em mim, Kame, por que está comigo? — perguntou Mio encarando.

Kame percebeu que ele estava chateado, e voltou atrás na sua atitude.

— Desculpe, meu amor. — disse ajoelhando-se do lado de Mio segurando suas mãos — Eu estou com muito ciúmes e medo de te perder para ele, estou perturbando com isso desde o dia que fiquei sabendo que trabalharia lá.

— Eu só estou na mesma empresa que Ian por coincidência, além do mais... Eu não sei se continuarei trabalhando lá.

— É sério? O que te fez mudar de opinião?

— A noiva dele. Ela é ciumenta e tem ciúmes de mim, muito mesmo, além que é muito perigosa pelo que eu sei, eu não quero que ela faça uma cena na frente dos colegas ou dos outros funcionários caso me encontre trabalhando lá.

— Sabendo disso, o que te impede de vim trabalhar comigo?

— Não quero trabalhar com ninguém que eu já tive ou tenho envolvimento, prefiro prestar meus serviços para a loja do próprio curso, assim continuo estagiando, ganhando experiência no ramo.

— Mas não é a mesma coisa que trabalhar para lojas muito mais reconhecidas, Mio.

— Trabalhar na empresa que meu namorado é dono, para mim é nepotismo. Além do mais, Kame, eu te conheço. Você vai tentar mexer comigo no trabalho. — disse Mio alisando o cabelo loiro dele.

— São os beneficios de namorar o dono, deveria estar agradecido. — disse ele beijando o peitoral de Mio por cima da camisa que ele vestia.

—Não gosto de nepotismo. Sinto que trabalhar no mesmo local que você me traria problemas, já que você é impulsivo. Eu tenho que ir agora conversar com meu supervisor sobre minha decisão.

— Por que não telefona, assim não precisa sair.

— Seria antiprofissional da minha parte fazer isso, além do mais, tenho que passar no RH da empresa de qualquer maneira, eu assinei os papeis me comprometendo trabalhar por um tempo determinado, não rola sair assim só da boca para fora. E preciso falar com o presidente da empresa também.

— Eu irei com você!

— Melhor não...

— Não me faça essa desfeita depois de omitir para mim que estava trabalhando com seu ex-namorado. — fez cara feia para intimidá-lo.

— Eu não omitir! Mas enfim, tanto faz, mas você não pode procurar briga com o Ian se você se encontrar com ele, alias, nem saia do carro!

— As suas ordens, chefe!

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Ian estava atrasado, acordou com a mão inchada pela manhã e foi obrigado a passar no hospital para engessá-la, pois havia fraturado dois dedos no seu ato repentino de fúria. Meio dopado por conta dos remédios que tomou em casa e depois no hospital, foi direto para empresa ansioso para ver se Mio escolheu continuar trabalhando para ele.

Impaciente, [ele não queria que Mio percebesse toda sua agitação, isso poderia afetar sua decisão. Pensava que se Mio notasse o quanto ele se importava com a presença dele na empresa, poderia desistir pensando que ele iria interferir em sua vida profissional porque achar que ele optou continuar na empresa para ficar com ele, o que não deixava de ser um desejo de Ian. Respirou fundo e contou até dez quando estava saindo do carro de Natally que o acompanhou até o trabalho, convenceu ela que não era preciso acompanhá-lo e que a presença dela interferiria na concentração dos funcionários por ela ser muito bonita e estilosa. Sabendo que era entediante esperar,ela aceitou a sua desculpa e foi para outro local, deixando os seguranças de vigias dele.

Quando entrou no edifício, ficou indeciso se iria diretamente na sala dos estagiários dar um bom dia, ou para a sala de Rafael saber se Mio pediu demissão. Optou pela segunda opção.

— Eai, alguma notícia para mim? — perguntou depois de dá três batidinhas na porta e entrar.

— Bom dia para você, também! — brincou o amigo sentado na mesa digitando algo no computador sem virar-se para ele.

— Sim, sim. Bom dia, e ai? — perguntou Ian se sentando em sua frente.

— Na verdade, nada. Hey! — gritou Rafael assustando Ian — O que aconteceu com sua mão? Não me diga que...

—Não! Não! Dessa vez foi eu mesmo que fiz isso sem querer em um excesso de raiva.

— Cara, ver se não me assusta assim! Depois de ficar sabendo que você passou quase um mês no hospital pelos maus tratos que sofreu com ela, sem eu saber, pensei que ela havia feito de novo. Juro que não me controlaria dessa vez.

— Obrigado, amigo. Fique tranquilo que estou me cuidando dessa vez. Bem.. Irei para minha sala, me avise se ele vier falar com você — disse saindo da sala.

Ian passou tão entretido em seus pensamentos, que não notou Mio na sala do lado do corredor, a sala de jogos onde as janelas eram transparentes. Mio estava sentado em um dos puffs em formato de bola de futebol, pensando numa abordagem convincente de seus motivos para sair da empresa, quando viu Ian passar com o braço enfaixado. Uma onda de terror passou por seu corpo, pensando que Ian havia sido maltratado de novo pelos seguranças de Natally, será que ela descobriu sobre ele?

Desesperado, correu até a sala de Ian, queria pedi desculpa, saber se algo mais em seu corpo estava ferido, o que ela fez. Seu coração doía em saber que Ian estava sendo machucado, não queria ver aquele Ian que encontrou no hospital novamente. Se algo pior acontecesse com Ian, ele não seria capaz de continua vivendo. Bateu na porta, e assim que ouviu a liberação para entrar, correu diretamente para ele, e o abraçou.

As lágrimas escorriam por seu rosto, chorava como uma criança que passou por um grande trauma relembrando do acontecimento. Depois se afastou aos poucos, pensando que ele poderia estar com dor por outras partes do corpo.

Ian estava paralisado sem entender nada do que estava acontecendo.

Notas finais
Comente, aguardo sua opinião.