Stalker

32 Disfarce


Notas iniciais
Séculos para botar no papel o que penso.

Mio estava com vergonha de sair da cabine da loja luxuosa que Rafael havia o levado, tudo era para por em prática o plano de visitar Ian sem ser reconhecido por Natally.

—Tem certeza que isso é realmente necessário? — perguntou somente com a rosto para fora da cortina.

— Eu sei que você fica bonito usando qualquer coisa, então deixa de besteiras e saia logo daí antes que eu mesmo vá ai e te tire. Com roupa ou sem roupa! — alertou Rafael, sentado na poltrona para os acompanhantes, de frente para a cabine dele.

— Estou começando a achar que essa foi uma péssima ideia... Eu não tenho coragem de sair usando isso... — queixou-se Mio.

— Mostre-me logo! Você está me deixando nervoso! Lembre-se, estamos perdendo tempo! Já liguei para lá combinando de jantarmos em um restaurante, o plano está todo traçado. Teremos uma reserva em um salão exclusivo, você poderá ter uma chance de falar com ele, sem que Natally desconfie que é você.

— Tem que ser vestido assim??? — disse finalmente saindo do provador, usando um vestido preto justo no corpo com salto médio da mesma cor. Fisicamente por ser magro e, possuir um pouco de curvas na cintura, Mio realmente parecia uma garota que não curtia se maquiar.

— Nossa! Você está parecendo uma modelo exótica. — disse Rafael se levantando e batendo palmas para ele — Não se preocupe, agora só falta a maquiagem e a peruca e ninguém vai te reconhecer.

— Eu não curto esse tipo de fetiche, Rafael. Não confunda o fato de ser gay com querer me travestir. Isso para mim é muito constrangedor... — reclamou, tentando puxar ainda mais o vestido.

— Isso é por Ian, você mesmo disse que não confirmou seus sentimentos por ele, deixando uma grande lacuna no ar que pode facilmente ser preenchida pelo ódio. — ele colocou uma peruca na cabeça de Mio, preta com franja. — Ian já se arriscou bastante para ficar ao seu lado, que tal fazer o mesmo uma vez? Sem contar que isso é muito divertido, e eu irei protegê-lo. Vamos para a maquiagem, uma profissional vai te ajudar.

— É difícil andar de salto... E não sei como me comportar como uma garota.

— Nem precisa, você está realmente parecendo uma, é só agir naturalmente, que já fica meigo.

Mio olhou furioso para ele, percebendo a ironia.

— Calma. — disse rindo Rafael, percebendo que ele ficou ofendido — Eu quis dizer um meigo de um jeito mais masculino sabe? E vamos mudar de assunto e se concentrar no mais importante, não esqueça que você precisa acalmar Ian de qualquer pensamento ruim que ele esteja tramando para se livrar da Natally. Eu não gostei nem um pouco do seu comportamento hoje, temo que ele possa fazer alguma besteira, você é o único que pode acalmá-lo.

— Tudo bem — respirou fundo Mio e tomou postura — Eu nunca me senti com tanta vergonha, mas quero fazer a diferença hoje, mesmo que eu seja humilhado desse jeito...

— Só repassando o combinado, você vai dizer que precisa ir ao banheiro, eu sinalizarei para Ian ir logo em seguida, enquanto isso eu fico distraindo Natally com o papo de casamento que eu sei que ela viaja quando começa a falar disso, inclusive estou levando uma amiga que trabalha nesse ramo, ela ficará bastante entretida. Você vai direto para a sala do gerente que fica no corredor que dar para os banheiros, estará aberto e sem ninguém.

— Espero que esse seu plano der certo, porque se ela descobrir...

— Eu planejei tudo minuciosamente, inclusive os seguranças dela não poderão ficar dentro do restaurante. Eles são fortes, mas não são cinco. Os seguranças do restaurante farão a nossa segurança mantendo eles do lado de fora.

— Gostaria de saber como você consegue tramar essas coisas tão rapidamente. — comentou Mio.

— Quando se é formado em publicidade, pensar rápido é uma das nossas habilidades. — disse Rafael sorrindo.

Rafael se afastou para que a maquiadora pudesse trabalhar com o rosto de Mio, mas antes de sentar-se na cadeira para se maquiar, Mio percebeu que sua mochila vibrava, era seu celular que não parava de tocar no silencioso, Kame havia ligado inúmeras vezes e continuava tentando falar com ele. Mio ficou um pouco receoso de atender a ligação, mas achou que seria melhor falar logo com ele.

— Oi... Kame... — atendeu sem graça.

— Pensei que fosse pedir demissão, mas recebo uma mensagem sua dizendo que foi chamado para uma reunião. Que tipo de reunião é essa?— perguntou ele irritado do outro lado da linha.

— Sim... As coisas mudaram por enquanto.

— Aposto que seu ex tem alguma coisa a ver com essa história não é? Vocês dois devem estar juntos nesse exato momento rindo da minha cara, aposto que nem no trabalho você está! Deve estar em uma motel de quinta se pegando com esse ridículo! — gritou exaltado.

— Se me ligou para falar essas coisas, prefiro nem continuar com essa ligação. — respondeu Mio devolvendo a resposta com o mesmo tom.

— Desculpe, ok? Eu estou nervoso, não gosto de saber que vocês dividem o mesmo espaço. — falou Kame se acalmando mais.— O problema é que você anda muito estranho depois que começou a trabalhar com ele, é obvio que eu pensaria um monte de besteiras.

Mio se sentiu horrível, porque o que ele dizia era totalmente verdade, principalmente depois de hoje. Ele não tinha a mesma coragem de olhar em seus olhos e mentir. Gostava de Kame, queria amá-lo na mesma intensidade, mas Ian ainda era um assunto não resolvido em sua vida, que causava muita dor e quando juntos, saudade. No entanto, ela sabia que falar sobre isso com Kame nesse momento, seria perigoso. A vida de Ian corria perigo, e ter mais alguém o odiando só pioraria as coisas, precisava deixar Kame mais calmo, mesmo que fosse preciso fazer o menos gosta, mentir.

— Eu sei que é minha culpa, estou levando meus estudos e trabalho muito à sério. Eu disse para você que gostaria de entrar nesse ramo da computação e querendo ou não aqui é uma grande oportunidade de aprender sobre as coisas. Desculpe se tenho te deixado como segundo plano, mas eu quero alcançar minha independência logo.

— Bom, eu te apoio no que quiser escolher na sua carreira — disse mais aliviado— Se sua única intenção é realmente ser independente, eu acho certíssimo. Porém, eu preciso ficar com você também, faremos assim :esse final de semana, nada de estudos ou trabalho, será somente nós dois. Uma pequena viagem para casa de praia dos meus pais, quem sabe eu posso te apresentar a minha mãe?

Mio se sentiu aliviado por não estarem conversando frente à frente, as palavras "casa de praia" não era uma lembrança que ele queria compartilhar com Kame, muito menos, refazer.

— Eu não gosto de praia, poderia ser outro lugar?

— Tudo bem, podemos ficar no meu apartamento sozinhos assistindo filmes.

— Tudo bem, preciso ir agora trabalhar. Depois nos falamos.

— Eu te amo, Mio.

Muito sem graça, ele respondeu:

— Eu também...

Quando desligou o celular, Rafael apareceu do seu lado.

— Era o seu namorado?

— Ah... Sim.

— Esqueça ele por algumas horas, se ficar se lastimando uma hora dessas, tudo vai por água-abaixo.

A maquiadora o chamou para começar o serviço e ele voltou a sentar na cadeira sendo observando de longe por Rafael, que no fundo temia que ele desistisse no meio do caminho.

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Ian achou estranho o pedido do amigo de ir em uma reunião que não estava combinada com um cliente que ele não fazia ideia quem era. Achou que seria alguma coisa elaborada por Rafael para distraí-lo, já que ele saiu repentinamente puxando Natally da sala do amigo. Era possível que Rafael estivesse preocupado com ele, pois conhecendo a sua personalidade, ele sabia que Ian não era do tipo de homem que tratava uma mulher daquela forma. Sua única curiosidade, porém, era como Rafael convenceu Natally ir a esse jantar tão facilmente, ela estava muito radiante com o convite, os dois chegaram a conversar à sós no telefone sem deixá-lo participar, Ian estava muito intrigado com isso.

— O que exatamente você e o Rafael conversaram no telefone? — tentou ele tirar alguma informação de Natally.

— Segredo nosso, meu amor. De qualquer jeito concentre-se em fechar outro bom e sucedido negócio, você sabe como meu pai é exigente com um homem perfeito para mim, aposto que ele ficará orgulhoso de saber que você além de herdeiro dos Holf, também tem um negócio paralelo muito próspero. — disse ela ajeitando as mechas do cabelo e retocando a maquiagem olhando-se em um espelhinho.

— Sei...

— Muito machismo desse povo árabe não negociarem com mulheres por perto né? Você vai ter que ir em uma reunião privada cheia de homens, que horror.

— É? — isso era algo que Ian não sabia, tentou reverter a situação para ela não perceber sua falta de informação — É... Cada país tem suas regras, mas são negócios, mulheres bonitas iriam nos distrair mesmo.

— Mulheres bonitas? Você quis dizer, EU iria distraí-los não é? — perguntou ela em tom ameaçador.

— Entenda como quiser. — respondeu ele revirando os olhos.

O jantar estava marcado em um restaurante que era de Ian porém, estava no nome de outra pessoa. Um jovem chef iniciante da culinária árabe que Ian conheceu em uma de suas fugas de Natally, que ele fez amizade e ajudou ele a construir seu sonho de ter um restaurante. A ideia deu tanto certo, que o restaurante temático árabe era um dos favoritos das celebridades naquele país, ganhador de cinco estrelas. As reservas eram muito buscadas, e difíceis de conseguir. Como dono real do restaurante e tendo Rafael de Sócio, não foi uma missão impossível conseguir o melhor salão e tenda.

O restaurante era composto por tendas que proporcionavam aos clientes um pouco de privacidade, todas elas eram muito confortáveis e personalizadas, com almofadas aconchegantes no lugar das cadeiras e mesas baixas, tudo dourado com vermelho, dançarinas do ventre, e música árabe ao vivo. Rafael já havia preparado tudo, a Tenda deles era a maior que tinha no salão, e a mais luxuosa também, o chef de cozinha, amigo de Ian iria cozinhar especialmente para eles, tudo para deixar Natally absorta na luxúria, enquanto eles ficassem ausentes na falsa reunião com atores que fingiriam ser acionistas estrangeiros. Mesmo sem entender a finalidade daquilo tudo, Ian achou melhor seguir a onda do amigo, até descobrir o que finalmente ele estava reservando para ele.

O Maitre os levou até a sua mesa, sendo observados por todo caminho pelos clientes das outras tendas. Ambos parecia um casal de celebridade estrangeira, Ian com sua postura de cavaleiro, levando Natally com seu vestido berrante e muito decotado vermelho pelo braço, ela não gostou ao perceber que precisaria retirar os sapatos para sentar mais confortavelmente nas almofadas.

— Que desagradável não ter cadeiras aqui, tenho que comer no chão como os cachorros? — reclamou ela fazendo cara feia.

— Todos estão se divertindo com o ambiente, se está incomodada e por não conseguir comer elegantemente sentada em belas almofadas costuradas com fios de ouro, você pode ir embora. Não é como se fossem sentir sua falta de qualquer jeito... — alfinetou Ian ao pé do seu ouvido.

Ela olhou para ele dando um sorriso desgostoso e, se ajeitou nas almofadas ao seu lado. Não demorou muito para Rafael chegar acompanhado por três mulheres. Duas Ian conhecia, mas uma delas ele tinha certa dúvida. Ian levantou-se para cumprimentá-los, Natally continuou sentada, só fez o gesto de levantar o braço e oferecer a mão para Rafael cumprimentá-la. Ian deu boa noite as garotas, e ficou cismado com a morena, muito clara do cabelo curto e com franja. Ele sentia que conhecia ela de algum lugar, porém, sempre que a olhava ela escondia o rosto com o braço, ou ia para trás de Rafael.

Finalmente devidamente sentados e servidos de champanhe e vinho, Rafael começou o assunto.

— Ian, os árabes nos esperam em uma sala privada para explicarmos novamente o acordo, espero que eles finalmente aceitem, mas por enquanto, vamos dar um chá de cadeira neles para aproveitar essas belas mulheres, apesar que você está muito bem servido de um delas. — disse sorrindo para Natally, que sorriu de volta, orgulhosa de si mesmo.

— Sim... Rafael, eu não conheço ainda essa sua amiga, ela não parece ter idade para beber ainda. — brincou Ian cismado com a garota.

— Ela tem idade, só é um pouco tímida, não é Mia?

— Mia? — perguntou Ian olhando para ela, que só faltou esconder o resto com uma almofada. Cada vez que ela reagia assim, mas Ian sentia que a conhecia de algum lugar.

Rafael percebendo que o amigo estava começando a ficar curioso com sua "amiga", resolveu mudar de assunto para que Natally não ficasse curiosa também.

— Sobre meu presente para vocês, noivos, chamei as duas mais famosas casamenteiras do mundo para planejar junto com Natally o casamento de vocês. Aposto que elas terão muita coisa para conversarem em quanto trabalhamos. — disse Rafael.

— Sim, eu trouxe as melhores e luxuosas opções de planejamento para esse casamento, vai ser o evento do ano! — disse uma das mulheres tirando um tablet da bolsa e começando a amostrar para Natally que ficou animada.

Aproveitando que as outras três garotas estavam entretidas no assunto do casamento, Ian chegou perto de Rafael e sussurrou para ele:

— Ok, pode me dizer o que está acontecendo aqui? Que papo é esse de planejar meu casamento? Tá me sacaneando? E quem é essa garota? Eu sinto que a conheço de algum lugar, ela se comporta estranho quando falo com ela.

— Só mais um momento que você vai saber. — disse Rafael tomando um gole de sua bebida, com um sorriso no rosto de satisfação olhando para Mio, que entendeu a mensagem e pediu licença dizendo que precisaria ir ao banheiro e fazer uma ligação. Depois disso o Chef de cozinha apareceu, informando sobre o jantar que seria servido especialmente para eles, e chamando Rafael e Ian para a sala privada onde aconteceria a negociação. Natally fez questão de puxar Ian pelo paletó aberto que ele usava o forçando a dar um beijo em sua boca de despedida.

— Boa sorte, querido. Prometo fazer as melhores escolhas para nosso casamento.

— Ok. — respondeu Ian, tentando controlar a raiva pelas ações dela.

Rafael e Ian foram para a parte de cima do restaurante, onde ficava uma sala privativa para reuniões de negócios que as vezes ocorriam no restaurante. Rafael abriu a porta dizendo que ele deveria ir primeiro, Ian entrou, porém, Rafael fechou a porta sem entrar junto. Ele ficou sem entender o que estava acontecendo, quando percebeu a garota magra de vestido preto que ficava envergonhada sempre que ele a olhava, estava em pé sozinha segurando sua bolsa de mão. Olhava para ele nervoso, parecia estar tremendo de frio, Ian não entendia o motivo de Rafael deixá-los à sós, mas quando ele ouviu seu nome saindo dos lábios "dela", seu susto foi muito maior.

— Mio?!!!

Notas finais
Be continued...