Stalker
11 Limbus Patrum
Notas iniciais
Sabiá - Chico Buarque e Tom Jobim
Agora que estava enterrando meu amado, sabia que era hora de voltar. Durante todo o tempo que vivi aqui, tive medo da realidade, tive medo que do outro lado nada fosse feliz. E foi por causa desse medo, que permaneci neste lugar até hoje.
Antigamente acreditava-se que os sonhos duravam apenas alguns segundos, que não passavam de uma projeção em nossa mente. Hoje sabe-se que os sonhos duram um tempo real que varia de minutos até horas, dizem que nos sonhos, dias equivalem à horas, ou seja, uma noite de sono pode parecer dias de sonho, e em casos extremos onde o sono dura dias, esses dias se transformam em meses de sonho. Mas e quando o sonho é de anos. Quanto tempo se passa dormindo? Espero que não muito, pois vou voltar.
Meu sonho já dura 50 anos, e faz 48 que sei que estou sonhando. Nos primeiros dois anos tive a ilusão de ter saído ileso do acidente na torre de sal, sala ilusãode ter começado um namoro com Victórius, e de termos vivido felizes juntos. Só que de repente todos começaram a falar que eu deveria acordar, que tudo não passava de sonho, foi difícil, tentava despertar, porém não conseguia, era como se estivesse preso. Decidi por fim, aceitar a "realidade" e continuar sonhando, não voltei a tentar acordar, estava feliz! Agora meu amado se foi, mas sei que o verdadeiro Victórius esta me esperando do outro lado, e eu sei que vou voltar para ele!
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Victórius
Minhas tardes resumiam-se a ficar no hospital com Angelus, felizmente Catherine sempre estava ao meu lado, e a irmã dele sempre me animava quando vinha visitar o irmão. Têne, muitas vezes reagia à estimulos, para os médicos não passava de uma contração muscular, mas eu sabia que era um sinal de que ele estava voltando.
Mais uma vez estava na lanchonete do hospital tentando comer alguma coisa enquanto Cath havia ficado no quarto, fui até o balcão e pedi um sanduíche natural (parecia ser a unica coisa comestivel naquele lugar), quando fui me sentar percebi que não havia mesas vazias, então optei por sentar com alguém.
— É... Me descupe, posso me sentar aqui?
— ãh? Perdão, estava distraído!
— Eu perguntei se posso sentar aqui! Acontece que as outras mesas estão ocupadas.
— Sim estão.
— Mas... Eu posso me sentar?
— Ah claro! me desculpe, hoje estou um tanto distraído.
— Sim você já disse isso, mas podemos conversar, a conversa ajuda a relaxar. Então, o que faz no hospital?
— Minha mãe está aqui.
— Ela está bem?
— Não sei, acho que sim.
— O que ela tem?
— Ela morreu. — Refleti em silêncio por algum tempo e depois falei:
— Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre."
— "O que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma. O auto da compadecida. — Completou ele levantando o rosto, que até agora permanecera abaixado.
Era um homem jovem, com seus vinte e poucos anos, de curtos cabelos loiros, pele clara e olhos verdes, seu olhar era triste, no entanto esboçava um estranho sorriso.
— E você. O que faz aqui? — Perguntou-me, mantendo o sorriso.
— Meu namo... Um amigo meu está internado.
— Esse seu amigo, o que tem? — Estranhamente deu ênfase em "amigo"
— Ele sofreu um acidente e está em coma.
— Faz muito tempo?
— Cinco meses. Mas ele vai acordar, eu sei que vai!
— É bom ter fé, é ela quem mantém nosso equilíbrio quando nos falta a razão.
— Certamente é ela que me mantém de pé.
— Verdade, você parece muito cansado.
— E estou, não como nem durmo direito há dias, pensando bem...
— Viiiií, ele acordou! — Catherine gritou, ignorando o fato de estarmos em um hospital. — Ele acordou, Angelus acordou!
Não, não podia ser verdade, ela não estava falando sério. Num instante minha cabeça rodou, senti meus olhos pesarem, meus sentidos de perderem e meus pensamentos se esvaírem. Um par de mãos posaram sobre meus ombros, e pude ouvir uma voz tranquila dizendo que estava me segurando.
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