Srta. Desastre
1 A Desastrada que Tanto Amo
Notas iniciais
Sakura Haruno não é nem de perto uma mulher perfeita. Quero dizer, nenhuma mulher é perfeita, mas ela consegue passar longe de qualquer padrão de mulher perfeita que possa existir. Sempre metida em confusão. Aquela mulher é um furacão humano – muito devastador por sinal- que destrói todo lugar por onde passa.
Ainda me lembro do dia em que a conheci. Foi em um belo dia de primavera, na praça, em uma fonte, ela com uma abelha no cabelo, eu dentro da fonte, nós dois encharcados.
Depois disso só piorou. Quando eu achava que nunca mais iria encontrá-la me enganei feio.
Nosso segundo encontro foi em um parque de diversões, mais exatamente na roda gigante. Havia levado minha sobrinha Akemi para dar uma volta no brinquedo e por puro azar não havia nenhuma cabine disponível, a não ser da moça de cabelos rosa que disse gentilmente que nós poderíamos acompanhá-la. Mal ela terminara de falar e Akemi já estava sentada ao seu lado. Naquela época eu ainda não conhecia a fama dela de ser desastrada, mas com certeza ficar por 2 horas a 30 metros do chão já me dava possibilidades para começar a desconfiar.
O terceiro encontro foi em um dia de chuva. Havia ido me abrigar debaixo de um toldo enquanto esperava a chuva passar – Maldito dia em que saí sem carro! – segundos depois a cabeleira rosada que já era conhecida por mim apareceu. Foi simpática, me disse “oi” enquanto um carro passava jogando a água da enxurrada em nós dois e o toldo despencava sobre nossas cabeças.
No quarto encontro eu já sabia que algo ruim iria acontecer, não que eu fosse médium ou algo do tipo, mas aquele dia eu havia acordado com uma sensação ruim. Quando peguei o elevador do shopping e a cara-de-pau-de-cabelo-rosa me disse um “olá!” eu deveria saber que em menos de um minuto haveria um blackout e ficaríamos por nada mais, nada menos do que CINCO horas presos no elevador.
Seis é o número da besta segundo algumas culturas, a sexta vez que eu a encontrei foi da forma mais besta que poderia haver, ela agora era minha vizinha, apartamento número seis. Seis foi o número de palavras que ela disse “- Oi, sou Sakura, sua nova vizinha!”, enquanto a cozinha de seu apartamento recém comprado pegava fogo.
A sétima vez que nos encontramos foi a primeira que tivemos um encontro. Talvez houvesse sido um erro convidá-la para jantar em um restaurante tão caro como o Yonoko’s. Ainda mais depois que ela enroscou o pé na toalha de mesa e derrubou caríssimos pratos de porcelana e taças de cristal, juntamente com a vela que aos poucos consumia a pobre toalha.
Da oitava vez que a encontrei já estava preparado para algo ruim que viesse a acontecer. Eu poderia ter ignorado seu pedido de ajuda, tê-la deixado debaixo da chuva com o pneu furado, mas fui bobo o suficiente para ajudá-la. Só tardiamente percebi que enquanto a ajudava a trocar o pneu, seu carro descia em direção a traseira do meu Jetta recém adquirido.
Na nona vez em que a vi já estava decidido a dar um basta em tudo. Fingiria que não a havia visto passar ao meu lado. Impossível de não notar seu cachorro urinando em minha calça.
A primeira vez que fiquei muito tempo sem encontrá-la suspeitei que algo muito errado havia acontecido.
Da décima vez que a encontrei fiquei uma semana em casa por conta de catapora.
Décima primeira vez e eu já havia me acostumado com o fato de que ela era um imã para problemas, principalmente depois de ficar por meia hora a beijando sem parar me esquecendo totalmente do telefone que tocava insistentemente. Perdi um grande contrato nesse dia.
Quando a encontrei pela décima segunda vez já acreditava que talvez não fosse ela o imã de problemas, mas sim nós dois. Talvez fossemos como cargas elétricas de mesmo sinal e nos repelíamos. Mas eu simplesmente não conseguia viver sem beijá-la. Só não contava em ir parar no hospital com um corte na cabeça, após ela acidentalmente tropeçar no sofá e me jogar em cima da mesinha de centro de sua sala.
Treze é o meu número de sorte. Da décima terceira vez que a encontrei nada aconteceu... nos primeiros cinco minutos. Até ela ver uma barata andando pelo meu apartamento e jogar a primeira coisa que viu para matá-la: meu X-box.
Sabia que era uma má ideia quando a deixei sozinha na sala do meu apartamento no nosso décimo quarto encontro, minha TV nunca mais foi a mesma depois dela tentar colocar no The Oprah Winfrey Show e dessintonizar todos os canais.
Da décima quarta vez decidi que não levaria ela ao meu apartamento novamente até que eu tornasse tudo “à prova de Sakura”, por isso resolvemos ir ao cinema. Fomos expulsos da sessão depois que Sakura derrubou três vezes (em menos dez minutos) refrigerante no lanterninha.
Nosso décimo quinto encontro terminou fatalmente no hospital após ela engolir o anel que eu havia posto no meio de seu bolinho.
Em nosso décimo sexto encontro a levei para conhecer minha família. Mamãe e papai gostaram muito dela, menos tia Chieko que reagiu mal a sua presença mesmo estando dentro de sua urna funerária.
No décimo oitavo encontro eu já estava ponderando contratar uma babá para observá-la, para que não houvesse riscos dela tentar pegar algo na repartição mais alta do armário e consequentemente quebrar o braço após uma trágica queda da cadeira.
No décimo nono encontro, quando fomos visitar os pais de Sakura, descobri que talvez o problema de Sakura fosse genético, assim que sua mãe contou como ficou careca ao ir cortar o cabelo.
No vigésimo encontro resolvemos dar um passo adiante... no escuro, e quando percebemos já estávamos os dois todos doloridos por tropeçar no tapete e cair de mal jeito no chão.
Na vigésima quinta vez descobri que talvez fosse melhor não deixar Sakura cozinhar para mim novamente, pelo menos não arroz, já que a mesma trocara sal por açúcar.
O trigésimo encontro era para ser uma tarde romântica, antes de a Sakura dar curto circuito em todo prédio tentando instalar o DVD.
No quadragésimo encontro eu já ponderava se Sakura era a mulher perfeita pra mim, o fato dela ser desastrada superava todas as boas qualidades que ela podia ter. Nosso término foi o menos agradável possível. Eu esperava que algo a mais acontecesse aquele dia, mas estranhamente tudo ocorreu normalmente. Nada de desastre.
Nas semanas seguintes acreditei que a teoria de sermos cargas de sinais iguais talvez fosse realmente verdade, já que após nosso termino sempre que eu a via nada de ruim acontecia.
Talvez o destino quisesse assim, talvez não fosse para ser.
Nós dois...
Da quinquagésima vez que a vi, senti algo parecido com abstinência, abstinência de Sakura, abstinência de problemas...
Na quinquagésima primeira vez que nos encontramos foi no hospital, após ela ter forte alergia do buquê de flores que havia mandado a ela no dia anterior.
No nosso ducentésimo segundo encontro a pedi em casamento. Fiquei com o olho roxo por duas semanas depois que seu pai estourou a champagne e a rolha acidentalmente veio em minha direção.
No dia do nosso casamento nada de ruim aconteceu, até quebrarmos a cama na noite de núpcias.
No nosso milésimo encontro eu já havia me acostumado com o fato de minha esposa ser naturalmente desastrada, mas isso é apenas um detalhe. Talvez se ela não fosse tão desastrada não teríamos caído dentro daquela fonte e eu não seria o homem mais feliz do mundo.
Notas finais
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