Notas iniciais
Eu sei que vocês estavam com os vestidos prontos para esse baile. Boa leitura!

Quando Darcy escreveu a carta para Charlotte pedindo que ela viesse no primeiro navio toda e qualquer expectativa em relação ao baile já havia passado. Toda essa ideia mirabolante era por causa de Elisabeta e ela na verdade o esnobava. Bastou sair da casa dos Benedito para Darcy se sentir estressado e de mal humor. E de brinde com um baile para organizar. A sua sorte tinha nome e sobrenome: Ema Cavalcante, que se ofereceu não só para conseguir a fácil autorização de Julieta como para organizar tudo. Ao menos com isso o lorde não precisava se preocupar.

Charlotte chegou quase duas semanas depois. E por duas semanas Darcy mergulhou no trabalho da ferrovia, indo para São Paulo duas vezes, sendo a última delas para buscar a irmã. Charlotte estava radiante pela companhia do irmão. Sabia que ele era um homem ocupado, mas o fato de ele estar organizando um baile fez a moça se encher de esperanças de que talvez Darcy estivesse começando a se permitir viver um pouco.

Por todo o Vale só se falava sobre o baile, já que o último tinha sido há três anos, na ocasião do casamento de Julieta e Aurélio. As irmãs Benedito eram, sem dúvida alguma, as mais empolgadas. Até mesmo Elisabeta. A ideia de rever Darcy deixava a jovem animada. Muitos dias haviam se passado desde o beijo e os dois ainda não haviam se encontrado, mas não por falta de tentativas de Elisa. Mais de uma vez ela foi até a ferrovia, passou a visitar Ema com maior frequência, e até usou Jane uma vez como desculpa para convidar Darcy e Camilo para um passeio, mas todas as tentativas foram em vão, já que o lorde Williamson andava bastante ocupado, passando o dia na construção da ferrovia, e não no escritório, e chegava em casa todos os dias muito tarde, segundo Ema e Camilo. Isso quando não estava em São Paulo ou Campinas.

Para Jane, por outro lado, a vida estava indo muito bem. Ela e Camilo estavam cada vez mais próximos, e Elisa mal sabia dizer qual dos dois estava mais apaixonado. Mas eram tão tímidos e certinhos os dois! Elisabeta esperava que o baile fosse dar uma engrenada no relacionamento dos dois.

Vestidos escolhidos, penteados impecáveis, finalmente chegou o dia do tão falado baile. Todos estavam muito admirados da decoração, a casa de Julieta parecia outra. Ema estava bastante orgulhosa de seu trabalho e a rainha do café não poderia estar mais feliz em receber todos os amigos queridos mais uma vez em sua casa. Darcy se recusou a ficar na porta recebendo os convidados, deixou essa função para os donos da casa, apesar de, teoricamente ser ele o anfitrião. Usou a desculpa de que precisava circular para apresentar Charlotte às pessoas, e era isso que estava fazendo quando seus olhos viram a família Benedito chegar.

Ofélia estava maravilhada, os olhos brilhavam tamanho era seu contentamento. Cecília sentia-se como em um dos romances de sua estante, e os olhos de Jane procuravam timidamente por Camilo.

— O Darcy é muito rico mesmo, mamacita. A casa de dona Julietinha está toda diferente, mais chique e elegante. Será se o lorde trouxe essas coisas caras tudo da Europa?

Quando Elisa, que estava conversando com Ema, se aproximou das irmãs, pôde sentir o olhar de Darcy em cima dela. Ele a olhava sério, mesmo quando ela lhe dirigiu um sorriso provocativo. As Benedito se espalharam pelo salão e Ofélia e Felisberto foram conversar com dona Agatha e Vicente.

Elisabeta notou uma jovem de cabelos dourados muito bonita próximo a Darcy e imaginou que fosse Charlotte. Ela estava ansiosa para conhecê-la, então caminhou decidida em direção aos Williamson.

— Darcy. — cumprimentou Elisa com toda a educação britânica que aprendera nos livros, mas o chamara pelo primeiro nome de propósito, pois o tipo de intimidade que possuíam já permitia esse tipo de tratamento. — Você deve ser Charlotte! Já ouvi muito sobre você.

— Já eu, infelizmente, não ouvi falar da senhorita, mas sinto que deveria. Não vai nos apresentar, Darcy?

— Charlotte, essa é Elisabeta Benedito. Elisabeta, essa é minha irmã, responsável por todo esse baile.

— Então devo lhe agradecer, Charlotte. Você não imagina o quanto minhas irmãs ficaram felizes com esse baile. E mamãe então! Finalmente vai poder jogar todas as suas cinco filhas para os leões com posses da cidade. Não sei quais são as reais intenções do seu irmão com esse baile, mas eu lhe diria para ter cuidado. — Elisa disse a última frase olhando diretamente para Darcy.

— Sinto que seremos grandes amigas, Elisabeta! Já gostei de você. Agora começo a entender porque meu irmão a escondeu de mim.

Charlotte riu e enlaçou seu braço ao de Elisabeta e as duas saíram conversando pelo salão, deixando Darcy atônito e completamente sem reação. Nem ele mesmo sabia quais eram suas reais intenções com aquele baile.

—Parece que Elisabeta tem o dom de conquistar os Williamson à primeira vista. — Camilo se aproximou do amigo ao ver a cena.

— Essa mulher é um verdadeiro furacão. Não sei se é boa companhia para Charlotte.

— Ah, Darcy, francamente! Você está aliviado por elas terem se dado tão bem.

— Não sei porque eu estaria aliviado, Camilo. — o inglês tentou desconversar — Não deveria estar buscando pela primeira dança de Jane?

— Essa dança já está reservada faz tempo, meu amigo. Agora vou atrás de cobrá-la.

O resto do baile seguiu animado, pelo menos para os convidados. Darcy estava entediado, já que Camilo dançava com Jane e Charlotte estava entretida numa conversa animada com as Benedito. O rapaz não conseguiu esconder o sorriso, afinal era bom ver a irmã se divertir com outras jovens. Charlotte sofrera muito com a morte dos pais e o distanciamento de Darcy. E ainda havia o ocorrido com Uirapuru, o crápula que a havia seduzido pelo dinheiro dos Williamson. Depois dele Charlotte entrou em uma fase de desânimo, passou a desacreditar em si e a fugir do contato com qualquer tipo de pessoa. Era realmente um alívio que ela tivesse se dado tão bem com Elisabeta e suas irmãs.

Aos poucos o grupo de moças foi diminuindo. Cecília agora dançava muito contente com o médico da cidade, Rômulo, se Darcy bem lembrava. Pouco tempo depois o Coronel Brandão tirou Mariana para dançar. Lídia nunca fez parte da roda de conversa, pois estava muito ocupada dançando com vários oficiais durante toda a noite.

Darcy notou a irmã se aproximar dele, acompanhada de sua nova amiga, Elisabeta.

—Meu irmão, não vai dançar no seu próprio baile? Isso não é falta de educação?

— Na verdade esse baile foi oferecido em sua homenagem, então deveria ser você a dançar.

— E o farei com prazer. Logo depois que você dançar com Elisabeta.

— Elisabeta não quer dançar comigo, Charlotte. Não seja inconveniente.

— Se você continuar aí parado feito bobo ela não vai querer mesmo. Ninguém gosta de um homem sem atitude.

Elisabeta observava toda essa interação em uma tentativa falha de segurar o riso.

— Não se preocupe, Charlotte, pois eu sou uma moça de atitude. Darcy Williamson, me concede esta dança? — A jovem perguntou, estendendo a mão para o lorde, quase em uma reverência.

Se as pessoas realmente possuíam dons, sem sombra de dúvidas o de Elisabeta Benedito era provocar em Darcy sensações confusas e desconhecidas.

E, mesmo contra sua vontade, no minuto seguinte lá estava Darcy ao lado de Elisabeta no salão. Foi inevitável não atrair os olhares de todos. Charlotte sorria satisfeita ao lado de Camilo e Jane. Ofélia quase desmaiou com a cena que seus olhos observavam.

— Muito elegante o baile que o senhor ofereceu. — Elisabeta quebrou o silêncio, mas Darcy permaneceu calado, preocupado apenas em manter seus pés longe dos da moça, pois ele não costumava dançar. — Sua vez de falar algo, sr. Darcy. Eu falei sobre o baile, agora é sua vez de falar sobre os convidados, ou a quantidade de casais no salão.

— Ficarei feliz em agradá-la, por favor diga-me o que mais gostaria de ouvir. O que você quer de mim, Elisabeta?

— Por enquanto uma tentativa recíproca de manter um diálogo está de bom tamanho.

— Achei que a senhorita não gostasse do que normalmente sai da minha boca.

— Vejo que voltou a ser o lorde arrogante e prepotente que conheci na estrada!

— E algum dia deixei de ser para a senhorita?

— Achei que estávamos começando a nos entender.

— Eu também, mas obviamente me enganei. A senhorita não quer nada comigo.

— E o que eu poderia querer com o senhor?

— Aparentemente uns beijos. Sem compromisso.

Elisabeta interrompeu a dança de súbito.

—Darcy, não estou entendendo. Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu que a senhorita brincou com meus sentimentos. Sentimentos esses que eu nem sabia que existiam. Sentimentos que tanto lutei para afastar. Eu tenho lutado contra mim, e eu não consegui nada com isso. Não posso mais. Não posso mais reprimir meus sentimentos. Eu tenho me debatido com essa maldita sensatez! E eu tinha jurado não deixar isso acontecer. Mas a senhorita não pode chegar assim e atrapalhar tudo!

— Darcy, só estou mais confusa. Que sentimentos? O que eu atrapalhei?

— Atrapalhou meus planos! Todos eles! E agora eu sinto que preciso dizer, mesmo que você ria de mim. Mas eu preciso dizer ou vou enlouquecer! Eu preciso que você saiba o quanto eu te admiro, e o quanto eu te respeito.

Darcy estava visivelmente nervoso e vê-lo assim estava começando a deixar Elisabeta da mesma forma. Foi então que a jovem decidiu ignorar o olhar de todos e puxou o lorde pela mão até o lado de fora da mansão.

— Darcy, respira. Eu também admiro muito você. Mas não entendo como posso ter atrapalhado seus planos… Você precisa me ajudar aqui. Eu fiz alguma coisa?

— Fez, Elisabeta. Você me enfeitiçou. Meu corpo e alma. E, ao que tudo indica, estou apaixonado por você. Por esse seu jeito desafiador de quem quer sempre ser a dona da razão, e de como insuportavelmente, quase sempre, você é a dona da razão. E eu não sei o que fazer com esse sentimento, porque eu jurei nunca sentir nada assim. E porque, claramente, você não sente o mesmo.

— Darcy, eu…

— Tudo bem, Elisabeta, eu ouvi sua conversa com o Tornado. Eu sei que nossos beijos e nossos passeios não significaram nada e que seus planos não me envolvem. E eu não quero cobrar nada de você. Eu só precisava dizer, ou sinto que eu poderia sufocar a qualquer momento.

Elisabeta não sabia o que dizer. Ela não sabia como se sentia em relação a Darcy. Gostava da companhia dele, era um homem inteligente, educado e muito, muito bonito e charmoso. E definitivamente sabia como beijá-la. Mas estaria ela apaixonada? Ela não sabia. A única coisa que sabia era que queria desesperadamente beijá-lo, até seus corpos se tornarem um só. Ela sabia que, naquele momento, precisava de Darcy. Dos braços dele a envolvendo, suas mãos em sua nuca, sua língua explorando a dela. E, enquanto o jovem lorde se debatia em pensamentos e angústias, as mãos nervosas passando pelo cabelo pelo que já devia ser a quinta vez, ela ficou na ponta dos pés e o puxou para um beijo. E foi ainda melhor do que as outras vezes. Havia algo de diferente. E Elisabeta rezou para todos os santos que ela conseguiu lembrar na voz da mãe, para que não estivesse apaixonada por Darcy Williamson. Mas talvez estivesse. Perdida e completamente.