Elisabeta até que tentou dormir, mas era difícil demais. Parte porque estava preocupada com Tornado, parte porque sua curiosidade quanto aquele homem era grande demais para deixá-la dormir. Outras moças sentiriam medo. Jane com certeza sentiria. Mas não ela, muito menos Mariana. Cecília já estaria toda desconfiada, imaginando historias e tentando tirar do forasteiro a maior quantidade de informações que conseguisse. E Lidia… Bem, Lídia, sem sombra de dúvidas, já estaria no banco do passageiro, dormindo tranquilamente, pois a caçula não possuía a menor noção do perigo.

Não era confortável ali no chão, mas a Benedito mais velha jamais daria o braço a torcer e entraria naquele carro. Não porque o tal Darcy Williamson lhe era um completo estranho, mas porque ela o havia achado muito arrogante e prepotente, usando sua “educação e bom senso” como disfarce para um ego inflado.

Elisa olhou para Tornado e notou que o sangramento de fato havia parado e, mesmo com alguma dificuldade, o animal conseguia descansar.

Era tudo culpa de Xavier. Se ele tivesse respeitado a recusa de Elisabeta, ela jamais teria saído cavalgando tão rápido por aquela parte da mata que não conhecia direito. Não sabia mais de que forma dizer a Xavier que não tinha interesse nele. Casamento não estava nos planos de Elisa, muito menos com um marido como aquele. E por mais que a Benedito repetisse para si mesmo e para todos que não tinha medo de Xavier a verdade é que, em alguns momentos, ela tinha. Aquele tinha sido um desses momentos.

O forasteiro dormia tranquilamente em seu carro elegante, e Elisabeta se dividia entre o riso e a dó. O riso que ela não conseguia conter ao ver um homem daquele tamanho todo encolhido num carro que mal cabiam suas pernas. E dó pelo mesmo motivo, ele acordaria todo dolorido, isso se conseguisse levantar-se.

Mais uma vez Elisa virou para o lado procurando uma posição para dormir. Invejava Darcy e Tornado por conseguirem. Mas agora o sol já começava a nascer e ela sentia que precisava voltar para casa antes de Jane notar sua falta no quarto.

Desistiu de tentar dormir e levantou-se limpando sua capa. Ao erguer os olhos encontrou Darcy de frente para ela.

— Bom dia, senhorita-sem-nome. — Ele cumprimentou com os cabelos bagunçados, dois botões da camisa estavam abertos e ela percebeu que uma parcela do tecido faltava na parte de baixo, a que ele havia usado para fazer o curativo em Tornado. À luz do dia, Elisa não pôde deixar de perceber o quanto aquele homem era bonito. E realmente alto. Odiou admitir que toda a arrogância dava a ele um ar ainda mais charmoso.

— Bom dia. O senhor já pode ir embora. Já amanheceu e eu não me encaixo mais no papel de donzela indefesa. Logo alguém passa por aqui e poderei pedir ajuda.

— Eu prometi que buscaria ajuda logo que acordasse, e é isso que irei fazer. Agradeceria se a senhorita não desaparecesse antes que eu volte com a ajuda. Algum veterinário na cidade que eu possa chamar?

— Tenho certeza de que Aurélio viria de imediato. Pergunte na cidade pela mansão de Julieta Bittencourt.

— Aurélio, o marido de Julieta?

— Você conhece dona Julieta?

— Eu deveria ter passado a noite na casa dela se uma donzela indefesa e seu cavalo não tivessem surgido no meu caminho.

— Não há nenhuma donzela indefesa aqui! E ninguém pediu para que parasse!

— A senhorita é muito ingrata! Eu vou mesmo para a Mansão dos Bittencourt, e se por acaso encontrar com Aurélio talvez eu avise que há um cavalo ferido. Passar bem, senhorita!

Elisabeta e Tornado não esperaram por muito tempo, logo Aurélio chegou acompanhado de Ema, a jovem ficou preocupada com o fato da amiga ter passado a noite ao relento.

— Um lorde inglês uma ova! Eu não acredito que Darcy deixou você dormir ao relento! É isso que chamam de educação britânica? Ele sequer lembrou o seu nome! Descobrimos que era você porque ele chegou falando de Tornado!

— Lorde inglês? Então é ele o sócio de Julieta? Eu esperava um homem mais civilizado e educado, e não um… grosso!

As duas amigas reviraram os olhos, sem muita paciência para o famoso Sr. Darcy.

— O que aconteceu, Elisa? Como você e Tornado vieram parar aqui quase na saída o Vale? Você nunca costumou andar por essas bandas.

— Eu estava distraída e acabei me perdendo. E acabei assustando Tornado, que se feriu. Mas já está tudo bem. Pelo menos até eu chegar em casa. Dona Ofélia vai me matar!

— Não se preocupe minha amiga, eu e papai vamos com você. Eu digo que você procurou papai para cuidar de Tornado ontem a noite e devido ao adiantar da hora achamos melhor que dormisse na casa de Julieta.

Elisabeta agradeceu e os três se encaminharam para a casa dos Benedito onde encontraram um Felisberto preocupado e uma Ofélia completamente fora de si, que acusava a filha mais velha de ser um caso perdido.

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Quando a moça acordou já passava das 3 da tarde. Elisa mal abriu os olhos e viu diante de si quatro irmãs curiosas a espera de respostas. Normalmente as Benedito não estranhariam Elisabeta chegando tarde em casa ou dormindo na mansão dos Bittencourt, mas Ema deixara escapar o nome de Darcy e as irmãs não puderam conter a ansiedade. Cecília queria saber tudo sobre o lorde inglês, suas origens, seu passado, já conseguia imaginar historias mirabolantes sobre ele. Lídia estava mais interessada em saber se ele era solteiro. Já Mariana encontrava-se na expectativa quanto a aventura que a irmã viveu com Tornado e o que a fez se infiltrar na parte perigosa da mata. Jane era a única com um olhar paciente e preocupado, ela e Elisabeta compartilhavam uma conexão mais forte. Sempre foram opostas. Jane era calmaria, romance e ingenuidade, enquanto Elisa era intensidade, paixão e desconfiança. Uma era o que faltava na outra e juntas eram o equilíbrio que faltava na casa dos Benedito.

A mais velha bem que tentou desconversar, mas conhecia as irmãs e sabia que nenhuma delas a deixaria em paz antes de saber qualquer informação sobre o tal lorde inglês. Então ela contou que ele era tolerável, mas não belo o bastante para lhe tentar. E a moça emitiu tal frase com uma convicção capaz de convencer a qualquer pessoa, com exceção dela mesma.