Notas iniciais
Esse capítulo é especialmente dedicado à Carol que teve um dia ruim e está estressadinha, espero que traga um pouco de alegria pois está muito fofo. Boa leitura!

Nenhum dos dois voltou para casa depois que o sol nasceu. A vista do alto do morro e a companhia estavam agradáveis demais. Elisabeta estava sentada no chão, recostada em Darcy, as mãos dele fazendo um leve carinho no braço dela.

— Darcy, agora que somos namorados…?

A afirmação soou mais como uma pergunta e o rapaz abafou o riso nos cabelos da moça.

— Sim, somos… — respondeu e beijou a nuca de Elisabeta.

— Agora que somos namorados, tem algo sobre mim que você precisa saber.

— Você é casada. — Ele brincou.

— Claro que não, Deus me livre!

A última frase atingiu Darcy como um tiro. Ele não soube dizer o porquê de ter doído tanto, já que ele mesmo havia jurado nunca se casar. Mas ao mesmo tempo sentia que estaria enganando Elisabeta — ou qualquer outra mulher — se entrasse em um relacionamento sem intenção de casar com ela.

— Conte-me seus segredos. Eu quero saber tudo sobre Elisabeta Benedito.

— Eu tenho sonhos meio estranhos. Eu nem diria sonhos, está mais para planos. Eu tenho ambições que algumas pessoas julgam… Inadequadas.

— Não vejo como você pode ser inadequada. — rebateu o lorde, agora fazendo carinho no rosto da jovem e depositando um leve beijo no topo do seu nariz.

— Eu quero conhecer o mundo. E era por isso que eu estava evitando, a todo custo, me envolver com você, ou com qualquer outra pessoa. Eu não quero ficar no Vale do Café. Eu não quero ficar parada em lugar nenhum, entende? Esse mundo é tão grande para eu me contentar com um lugar apenas. E aos olhos das outras pessoas — de minha mãe principalmente — isso não é nada adequado. Eu deveria encontrar um bom partido, me casar e ter cinco filhos a quem eu dedicaria cem por cento do meu tempo, dentro de casa enquanto meu marido trabalha para nos sustentar. Mas essa não sou eu, Darcy. E você precisa saber disso. Porque não seria justo você investir um pouco que seja em um namoro com alguém que não almeja o futuro que a sociedade criou para as mulheres. E nem tente gastar sua energia para me fazer mudar de ideia!

— Elisa…

— Deixe-me terminar, por favor. Eu gosto de você, Darcy. Gosto de ficar com você, gosto dos seus beijos, dos seus carinhos. Mas uma hora eu vou sair pelo mundo, e não posso esperar que você venha atrás de mim. Ou muito menos que eu desista dos meus planos por você.

— Se você saísse pelo mundo hoje, agora, eu iria atrás de você, Elisabeta.

— Você não acha que é loucura? — A Benedito mudou de posição e se colocou de frente para Darcy, a curiosidade e a expectativa praticamente gritando em suas palavras.

— Eu acho admirável. Quando encontrei você na estrada àquela noite eu soube que você não era como as outras, que jamais se contentaria com algo diferente do que realmente almeja. Você demonstra isso em cada atitude sua. E foi por essa Elisabeta que eu me apaixonei.

— Você ainda está apaixonado por mim? Ainda quer namorar comigo?

— Nenhuma outra coisa no mundo pode me interessar mais agora. Talvez lhe beijar.

Elisabeta sorriu para Darcy. Seu namorado. E foi o sorriso mais lindo que ele recebeu. Havia tantos sentimentos dentro daquele sorriso. Havia alívio, carinho, paixão, gratidão. Ele a puxou mais para perto e a beijou rapidamente.

— Sendo assim… — Elisabeta retomou sua fala.

— Hmm — murmurou Darcy enquanto cheirava o pescoço da namorada.

— Eu estou esperando a resposta de um jornal de São Paulo…

— Como assim? — Darcy ajeitou um pouco mais a postura, ficando ereto.

— Eu gosto de escrever. Sempre gostei. — Darcy lembrou-se dos textos que encontrou na casinha da árvore e um sentimento de culpa lhe invadiu, sentiu que havia invadido a privacidade de Elisabeta, mas tentou não transparecer — E morro de vontade de conhecer São Paulo. Sempre imaginei que a capital seria minha porta de entrada no mundo. Então eu mandei alguns escritos para uns jornais da cidade. Obviamente a maioria deles me negou uma chance antes mesmo de ler apenas por eu ser mulher, mas um deles demonstrou interesse. Responderam minha carta pedindo que eu escrevesse uma pequena matéria sobre as mulheres que me inspiram, então eu escrevi sobre cada uma das mulheres Benedito e enviei para eles semana passada. E desde então não consigo conter a ansiedade.

— Isso é incrível, meu… Elisa! Você escreve muito bem, vai conseguir essa chance, com certeza!

— Como você sabe?

— Sei o que?

— Que eu escrevo bem.

— Eu… Eu acredito em você. E porque você faz tudo muitissimo bem.

— Ah, mas não faço mesmo. Só está falando isso porque nunca me ouviu tocar piano.

— Aposto que está exagerando. Vamos tirar a prova hoje a noite. Tenho certeza de que Julieta adoraria lhe receber para o jantar. Ema com certeza vai amar. E você pode levar Jane, porque sou um ótimo amigo que pensa em Camilo. E ao final da noite você, Ema e Charlotte podem nos prestigiar com seus talentos no piano.

— Agora mesmo que não irei a esse jantar. Ema é uma exímia pianista, e soube que Charlotte não fica atrás. Eu estragaria tudo.

— Você nunca estraga nada.

— Você está me mimando demais, Darcy Williamson. Acho que está muitíssimo apaixonado por mim.

— Talvez só um pouquinho… — Ele a puxou para um beijo, em meio a risadas e carinhos.

Elisabeta Benedito sentia-se livre e leve, como as andorinhas que sobrevoavam o Vale, e sabia que o motivo atendia pelo nome de Darcy Williamson. Quem diria que ela encontraria leveza e liberdade justamente em um homem? Estava animada com a ideia de que talvez o lorde Williamson não fosse tão tradicional e intolerante como ela imaginava. Desde que descobriu seus sentimentos em relação a Darcy, Elisa tentou lutar contra eles de todas as formas possíveis, pois cresceu com a ideia de que casamento era um empecilho para a realização do seu sonho. Cresceu ouvindo de dona Ofélia repetir que ela era um caso perdido, que ficaria para titia, porque homem nenhum seria capaz de tolerar as ideias mirabolantes da cabecinha da primogênita. E agora que ela tinha finalmente desabafado com Darcy ela sentia-se mais leve. Sentia-se acolhida. Nem mesmo as irmãs sabiam do jornal. Nem mesmo seu pai, que era a única pessoa em todo o Vale que Elisa tinha certeza de que jamais a julgaria. Talvez estivesse indo rápido demais com Darcy, já contando confidências, e a maior delas! Mas Elisabeta era impulsiva, e quando sentiu que precisava contar aquilo a Darcy simplesmente contou. Ela já estava acostumada com as críticas e os julgamentos, estava sempre pronta para o pior.

Próximo a hora do almoço os dois seguiram seus rumos. Darcy precisava passar na ferrovia e Elisa… Elisa não precisava passar em lugar nenhum, mas decidiu ir aos correios da pequena cidade, na expectativa de que encontraria sua resposta.

No meio do caminho, passou na casa de chá e se permitiu comer uma fatia da tão saborosa torta de laranja, mesmo antes do almoço. Encontrou as quatro irmãs na companhia de Rômulo e Camilo. Ao que parecia, ao menos para duas das irmãs, o romance estava bem encaminhado. Para três, ela logo se corrigiu, pois não seria justo retirá-la da conta. Confraternizou com o grupo e se deliciou com as histórias de Rômulo na Europa durante sua graduação. Era o tipo de história preferida de Elisabeta, e ela esperava em breve ter a sua história para contar.

Quando ela saiu dos correios com a tão esperada correspondência na mão naquele final de tarde ela soube que sua história estava prestes a começar.