Sr. e Sra. Uchiha
1 Capítulo 1
A arte da espionagem.
Regra número 1: ninguém te avisa o quão desgraçadamente desconfortável é um vestido de gala bordado a mão quando você precisa dar um chute na cara de alguém.
Regra número 2: vestidos de gala com fendas ousadas são uma invenção genial. Eles garantem a atenção distraída de noventa por cento dos guardas do evento e escondem com absoluta perfeição um kit de gazuas de titânio, dois grampos magnéticos e um frasco minúsculo de gás lacrimogêneo preso na liga de renda da minha coxa esquerda.
Regra número 3: não beba em serviço, a menos que você queria ser capturada e morta.
Ajustei a postura e movimentei suavemente a minha taça de espumante cristalino. Inclinei a cabeça com o meu melhor sorriso falso de "nossa, que fascinante", enquanto fingia ouvir atentamente a explicação entediante de um barão do petróleo sobre a cotação do dólar.
Por dentro, eu só estava contando os segundos para não esmurrar aquele homem.
Três. Dois. Um.
Soltei um risinho encantador, murmurei um "Com licença, preciso retocar o batom" na voz mais charmosa do meu repertório e desfilei pelo tapete vermelho do palácio.
A minha missão da noite era simples: a Coleção Romanov. Mais especificamente, um cetro cravejado de safiras negras que abrigava, em seu cabo oco, um microchip com as senhas bancárias de metade dos bilionários corruptos da Europa. Nada de geopolítica densa, nada de guerras macabras ou relatórios de cem páginas. Era apenas um roubo limpo, charmoso e que me renderia uma comissão indecente.
Subi a escadaria de mármore para o setor restrito do segundo andar, deslizando entre as sombras do corredor. Com a habilidade de quem já fez aquilo mil vezes, desativei os sensores de presença com meu disparador de pulso elétrico minúsculo e usei um simples grampo de cabelo para violar a fechadura da galeria privada em exatos quatro segundos.
A porta estalou. Eu sorri. Eu sou uma gênia.
O quarto era escuro, iluminado apenas pela luz da lua que atravessava a rosácea de vidro e pelo facho focado na redoma de cristal blindado no centro da sala. Lá dentro, repousava o meu prêmio.
— Fácil demais — murmurei para mim mesma, tirando do decote o meu cortador de vidro com ponta de diamante. — Eles nem tentam mais dificultar a minha vida.
Aproximei-me em passos silenciosos, ajustei a lâmina no vidro temperado e comecei a riscar a superfície. O som agudo do cristal sendo cortado quebrava o silêncio da galeria. Quando a cúpula finalmente cedeu, usei uma ventosa de silicone para içar o pedaço cortado sem emitir som algum.
Estiquei minha mão enguantada em cetim preto. Meus dedos estavam a milímetros de tocar a relíquia. Eu já conseguia sentir o gosto da vitória e do champanhe caríssimo que eu iria abrir mais tarde.
Então, vindo do absoluto nada no escuro, outra mão — firme, enguantada em couro negro e extremamente irritante — surgiu pelo outro lado da redoma e agarrou o cetro primeiro.
Eu congelei.
Pisquei devagar, sentindo meu olho esquerdo dar um leve tremor. Ergui a cabeça centímetro por centímetro.
Do outro lado do pedestal, vestindo um terno sob medida tão escuro e impecável que parecia ter sido desenhado no corpo dele, estava Sasuke Uchiha. Ele segurava o meu cetro com a facilidade de quem pegava uma maçã na feira. A gravata borboleta estava perfeitamente alinhada, e o rosto dele ostentava aquela cara clássica de deboche contido que fazia meu sangue ferver.
— Chegou tarde, Haruno — a voz dele veio baixa, grave e transbordando a mais pura e insuportável arrogância.
— Você só pode estar de brincadeira com a minha cara — rosnuei entre os dentes, mantendo a postura, embora minha vontade real fosse voar no pescoço dele. — Eu passei quarenta minutos ouvindo um velhote falar sobre ações de extração mineral só para chegar aqui primeiro. Devolve isso agora, Uchiha.
— Ou o quê? — Ele ergueu uma sobrancelha, girando o cetro de safiras entre os dedos longos como se fosse um brinquedo. — Vai me bater com a sua bolsa de grife?
— A minha bolsa de grife custa mais que o seu terno e pesa o suficiente para quebrar esse seu nariz perfeito, seu prepotente!
— Tentador. Mas o contrato do cetro é da minha agência.
— O contrato era do primeiro que pegasse! E a minha mão estava a um milímetro de distância!
— "Quase" não paga as contas, Sakura.
Foi a gota d'água. Sem dar aviso prévio, desferi um golpe certeiro com a lateral da mão em direção ao pulso dele. Mas é claro que o Sasuke — aquele desgraçado treinado — previa meus movimentos desde a época em que disputávamos as melhores notas na academia. Ele esquivou o braço com uma agilidade irritante, mas eu aproveitei o embalo para girar sobre o meu salto de quinze centímetros e tentar dar uma rasteira nele.
O pano pesado do meu vestido esvoaçou com um som super dramático. Sasuke saltou por cima da minha perna como um gato, aterrissando sem produzir o menor ruído no piso de madeira.
— Vestido bonito — ele comentou, mantendo a voz calma enquanto desviava de um soco cruzado que tentei acertar no queixo dele. — Meio impróprio para pancadaria, não acha?
— Impróprio é o seu perfume! — rebati, agarrando a lapela do terno dele com as duas mãos e puxando-o para frente com toda a minha força. — Fica impregnando o ar toda vez que você resolve aparecer para estragar o meu trabalho!
Nossos rostos ficaram a centímetros de distância. Ficamos ali, presos num duelo de olhares, a respiração acelerada pela adrenalina. O cheiro do meu perfume floral se misturou com o aroma amadeirado dele. Por um segundo terrivelmente rápido, meu cérebro deu um nó e eu pensei em como aquele terno caía bem nele.
Foco, Sakura! Ele é o inimigo!
Antes que eu pudesse usar meu joelho para atingir um lugar doloroso nele, passos pesados e o som metálico de armas sendo destravadas ecoaram do lado de fora do corredor.
“Verifiquem o setor da galeria! O alarme do painel foi ativado!”
Nós dois olhamos para a porta ao mesmo tempo.
— Você ativou o alarme?! — olhei para ele, horrorizada, sussurrando.
— Eu? Você é quem estava tentando me dar uma voadora de salto alto num piso envernizado! — ele sussurrou de volta, a cara de paisagem dele finalmente rachando de irritação.
As luzes vermelhas de emergência começaram a piscar no teto. Os guardas estavam a menos de dez metros.
— Não tem saída pela janela, a sacada tá cheia de homens — olhei em volta, num desespero mudo.
— Ali — Sasuke apontou para uma porta discreta no canto.
Sem tempo para discutir quem passaria primeiro, nos jogamos na direção da porta, nós dois nos empurrando como duas crianças mimadas para ver quem entrava antes. Despencamos para dentro do espaço reduzido e batemos a porta exatamente no segundo em que a equipe de segurança invadiu a galeria.
A tranca estalou. O silêncio caiu sobre nós.
E que silêncio tenso.
Nós estávamos literalmente prensados dentro de um armário de suprimentos de limpeza de dois metros quadrados.
O cheiro de pinho concentrado, cera de assoalho e desinfetante industrial era de fazer os olhos lacrimejarem. Eu estava completamente espremida contra o peito do Sasuke. As costas dele estavam coladas nas prateleiras cheias de espanadores, e a minha perna estava bizarramente entrelaçada entre as dele por pura falta de espaço.
— Tira o cotovelo da minha costela, Haruno — ele murmurou bem perto do meu ouvido no escuro. A voz dele ressoou direto no peito, onde minha mão estava espalmada.
— Se você não ocupasse o espaço de três pessoas com esse seu ego gigante, meu cotovelo estaria em outro lugar — sussurrei de volta, tentando me mexer e acabando por roçar meu quadril no dele.
— Não se mexe. Você vai derrubar o...
CLANG.
Um rodo de alumínio despencou da prateleira alta e atingiu em cheio a cabeça do Sasuke. Ele soltou um praguejo abafado e, no milissegundo em que ele instintivamente levou a mão livre à cabeça por causa do impacto, meus dedos deslizaram com precisão cirúrgica por trás das costas dele.
Afundei meu rosto no ombro do terno dele, sentindo meu corpo todo chacoalhar enquanto eu tentava segurar a gargalhada mais dolorosa da minha vida.
— Achou engraçado? — a voz dele veio transbordando veneno no escuro.
— Um pouco — sussurrei, erguendo o rosto. Meus olhos já tinham se adaptado à penumbra. — O grande agente Uchiha... derrotado por um rodo de alumínio. Vou colocar isso em destaque no meu relatório.
— Não vai ter relatório porque o cetro é meu — ele disse, a mão direita firmemente fechada ao redor do objeto que mantinha escondido.
— Tem certeza? — dei a ele o meu melhor sorriso. Doce, angelical e absolutamente mortal.
Do lado de fora, ouvi os guardas se afastando: "Limpo! Eles devem ter descido pelas tubulações! Vamos para o pátio!"
Sasuke esperou mais dez segundos. Com um suspiro de alívio, ele empurrou a porta do armário e caminhou para o centro da galeria vazia, ajeitando a lapela enquanto erguia a mão vitorioso para admirar o prêmio.
— Uma perda de tempo lamentável — ele disse, sem nem olhar para trás. — Mas, como sempre, a eficiência Uchiha prevalece...
Ele parou de falar.
Ele olhou para a própria mão.
Em vez do cetro de safiras negras, o poderoso e infalível Sasuke Uchiha estava segurando, com todo o orgulho do mundo, uma escova de vaso sanitário de plástico azul.
Ele piscou. Uma vez. Duas vezes.
Lentamente, virou a cabeça para o lado.
Aproveitei a distração dele durante o seu pequeno discurso para cruzar a sala até a janela. Eu já estava devidamente equilibrada no parapeito aberto, com o vento da noite fazendo meus cabelos rosa voarem de um jeito deliciosamente dramático. Em uma das mãos, eu girava o cetro reluzente com a maior facilidade do mundo; na outra, segurava meu disparador de gancho.
— Realmente, Uchiha... uma eficiência de dar inveja — mandei um beijo no ar, pisquei um olho e me joguei para trás na noite, despencando em direção ao meu carro de fuga enquanto soltava uma gargalhada deliciosa que com certeza ecoou pelo palácio inteiro.
A vingança do Sasuke viria? Com certeza. Mas ver a cara dele segurando aquela escova de sanitário valia cada segundo do risco!
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