Sr. Otimista
5 Capítulo 4
Notas iniciais
A turbidez de minha visão e o distante som de Mônica ressonando eram os únicos indícios de que eu permanecia acordado. Ainda era difícil acreditar no que eu tinha que fazer. Eu não queria me desfazer da presença da garota em minha cama. Não ainda. Relutava-me a ideia de acordá-la. Era minha terceira tentativa ao fazê-lo, mas, sempre que minha mão estava prestes a tocar seu ombro, eu recuava rapidamente. É fato que um dos motivos de eu não querer tirá-la daquele estado é o de ela ficar tão linda enquanto dormia... Deitada de lado, a boca semiaberta, a expressão pacífica de uma criança que está tendo bons sonhos: aquela cena me hipnotizava...
Entretanto, devo dizer que não era essa a principal razão que me impedia de prosseguir com meu intento. Verdade seja dita: eu estava com medo. De quê? Ora, a resposta é bem óbvia, não? Eu temia ver a reação de Mônica ao acordar em meu quarto e se dar conta do que ocorreu. Após a conversa com Denise, tudo havia ficado mais claro. Havia o risco de ela se arrepender do que houve, de a noite não ter sido tão especial para ela como fora para mim... Essa possibilidade era mínima, é claro, mas a sorte nunca esteve ao meu favor. Diria que sou azarado? Não exatamente. Só acho que, em algum momento, a sorte se ressentiu de minha natureza contrária ao mundo, e decidiu não me ser partidária. Ou, talvez, a lei de Murphy funcionasse com mais força em mim do que deveria. Não sei. Só acho que, num caso tão delicado como este, a alternativa era torcer pelo melhor e se preparar para o pior.
Desde quando você se tornou tão inseguro, Do Contra?
Desde quando? Desde quando eu, o cara que sempre tinha uma resposta afiada na ponta da língua, me tornara tão incerto? Desde quando eu, o poço de sarcasmo da turma, começara a hesitar tanto em minhas resoluções? Pois eu lhe digo desde quando. Isso aconteceu a partir do momento em que Mônica se entregou para mim. A partir do instante em que senti cada minúcia de seu corpo em minhas mãos. A partir do momento em que pude me deleitar com cada suspiro que ela soltava por minha causa.
Decidi afastar de vez esses pensamentos de minha mente. De que adiantaria ficar mergulhado em dúvidas em vez de partir para a ação? Nunca fui muito do estilo contemplativo e que esperava as coisas chegarem de prontidão em minhas mãos. Minhas constantes investidas em Mônica comprovavam isso. Mesmo que minha mente e sentimentos estivessem uma bagunça, eu não iria mudar meu modus operandi.
Desta vez, sem vacilar, sacudi delicadamente o ombro de Mônica. Ainda de forma suave, para que ela não despertasse assustada.
Nenhuma reação.
Utilizei ambos os braços para segurá-la e agitei seu corpo mais uma vez, com um pouco mais de força.
– Mônica! Acorda!
Minha voz saía em sussurros firmes, porque, querendo ou não, ainda era noite. Alguém poderia escutar.
Se não escutou o que aconteceu até agora, é provável que não escute mais nada.
Mais uma vez, ela não demonstrou ter sentido qualquer coisa.
Eu, pra ser sincero, já estava desistindo daquilo. E ficando bastante preocupado também. Talvez o corpo dela estivesse respondendo tardiamente às substâncias que ela tinha ingerido. Todos sabiam que Mônica não tinha costume de tomar nada com álcool. Ela poderia ser forte em muitos aspectos, mas no quesito “bebida”, é certo que ela não devia ser.
Mexi mais uma vez seu corpo com minhas mãos, porém agora sem tanto cuidado e chamei Mônica num tom mais enérgico. Já não me importava com alguém acordando ou não. Eu só queria ver mesmo se ela mostrava algum sinal de que nada grave estava acontecendo à ela.
Só então, obtive uma resposta. Não exatamente a que eu queria, porque ela apenas ganiu, murmurou algo ininteligível, e virou para o outro lado da cama.
Uma onda de alívio percorreu meu corpo, porque, aparentemente, ela só estava muito cansada. Eu só precisaria me empenhar um pouco mais para acordá-la, certo?
Errado...
Quando repeti o procedimento anterior ela, novamente, só soltou alguns barulhos estranhos e continuou dormindo.
Fala sério...
Meu relógio me avisou que já se passara um bom tempo desde que a Denise me ligou.
Droga!
Eu tinha que me apressar, porque já estava perto de amanhecer. A qualquer momento, Nimbus chegaria e exigiria uma explicação para Mônica estar em minha cama. Meus pais acordariam e fariam o mesmo.
Como se fosse algo difícil de deduzir.
O mais preocupante, entretanto, é que os pais dela apareceriam a qualquer momento na casa da Denise. Se isso acontecesse, aí, sim, as coisas ficariam complicadas em níveis que não ouso imaginar.
Era melhor agilizar tudo logo. Eu já tinha carregado Mônica durante a noite quase toda pra lá e pra cá. Isso não seria novidade agora, com ela dormindo. Quem sabe, ela não acordaria no percurso? Sorri ao me lembrar da fala de Denise mais cedo sobre Mônica não precisar de uma babá, porque, ironicamente, era isso que eu vinha sendo desde que me encontrei com ela na festa.
Liguei a luz do meu quarto, rezando para que a luminosidade pudesse surtir algum efeito sobre ela. Nem preciso dizer que nada ocorreu mais uma vez.
Eu nem queria que ela acordasse mesmo...
Alcancei minhas roupas, jogadas no chão devido à atividade de outrora, e tratei de me vestir com rapidez. Sem pensar muito, tirei os cobertores de Mônica para transporta-la, em meu colo, até o andar de baixo, quando me lembrei de algo que me deixou um tanto... Desconcertado...
Ela permanecia nua... Eu tinha me esquecido completamente desse detalhe. Estava tão compenetrado em meus próprios questionamentos que qualquer outra coisa havia passado despercebida até o atual instante.
A verdade é que, se eu ficasse encarando mais ainda o corpo de Mônica, é provável que eu não conseguisse leva-la para a casa de Denise e passasse os próximos minutos em uma situação pra lá de delicada.
Antes que as circunstâncias do momento saíssem de controle, fui em direção à sua vestimenta, também num dos cantos do cômodo. Ao toca-las, senti a umidade em meus dedos e estava óbvio que o tecido ainda não havia secado.
Maravilha...
Agora Mônica precisaria usar uma roupa minha. Como eu iria explicar isso pra bisbilhoteira da Denise? Ela adorava se meter onde não lhe cabia, além de já estar com uma pulga atrás da orelha desde nossa última conversa. Não lhe tiro a razão, porque, realmente, ser sutil não era uma das minhas melhores qualidades. Ainda assim, não vinha muito a calhar que ela tivesse conhecimento de determinados fatos.
Simples! Diga que um carro passou por uma poça estrategicamente no momento em que andávamos por perto.
Mais um pretexto terrivelmente mal elaborado. Porém, deveria ser o suficiente. E, mesmo se não fosse, eu não devia satisfações à ela, certo? O fato de Denise acreditar ou não no que eu dissesse não deveria ser importante pra mim. E não era. O problema mesmo seria se a notícia se espalhasse em proporções catastróficas, o que não seria difícil se caísse nas mãos – ou melhor, ouvidos – errados.
O moletom que eu, no início da madrugada, iria emprestar à Mônica e que desencadeou toda aquela cadeia de eventos recentes se encontrava no chão, ao lado de minha cama. Catei-o e tratei de colocar Mônica dentro dele.
Teve também o constrangedor episódio de vesti-la em suas roupas íntimas e a curiosa tonalidade vermelha que minhas bochechas assumiram durante o ato, mas, essa parte eu prefiro não descrever.
Após todo o processo embaraçoso que consistia em cobrir Mônica devidamente e, de quebra, observar cada curva de seu corpo que, por acaso, houvesse passado despercebida pelo calor dos momentos anteriores, levei-a, a passos trôpegos, até a saída de casa. Tentei, é claro, fazer o mínimo de ruído possível. “Melhor prevenir do que remediar” e, neste caso, “remediar” seria encarar meus pais com expressão de poucos amigos – pra não dizer assassina.
Antes de deixar definitivamente minha residência, certifiquei-me de ligar para uma companhia de táxi mandar um para nos buscar e de pegar todos os pertences de Mônica — cuidadosamente colocados em minha mochila.
E todo o dinheiro acumulado até o fim do mês vai para o bolso dos taxistas.
Pensei, amaldiçoando a legislação brasileira por me permitir dirigir somente após os dezoito anos.
Parei pra refletir no quão engraçada devia ser a cena naquela hora. Madrugada, quase amanhecendo, um cara segurando uma garota desacordada na calçada, aparentemente sem propósito, esperando alguma coisa acontecer. Acho que, qualquer um que nos visse, ou chamaria a polícia por pensar que sou uma espécie de sequestrador, ou, no mínimo, teria uma crise de risadas. Agradeci à Gaia pela segunda vez na noite pelo bairro do Limoeiro ser tão ermo naquele horário. Morar na periferia tinha lá suas vantagens.
Enxerguei, de longe, os faróis de um carro se aproximando. O motorista estacionou próximo a onde eu me encontrava, abaixou o vidro e ficou me olhando com um semblante que denotava cansaço e um pouco de surpresa. É... Ele deve ter achado graça de ver a mim e a garota em meu colo naquelas circunstâncias.
Fui rápido em entrar no banco de trás do veículo com ela e dar ao motorista o papel no qual eu havia anotado o endereço da Denise. Ele observou cautelosamente a letra cursiva sofrível e deu partida. Creio que ele deve ter achado estranho eu ter pedido um táxi, já que meu destino não era longe. Denise deveria morar a alguns quarteirões de minha casa. Ir a pé até o lugar seria uma tarefa fácil, mas fazer o trajeto com uma garota nos braços a uma hora daquelas eram outros quinhentos...
Em poucos instantes, como era de se esperar, estávamos na porta da casa da Denise. Pouco antes de chegarmos, fiz questão de enviar-lhe uma mensagem, — desta vez, pelo meu celular — avisando-a que estávamos a caminho. Nem cogitei tocar a campainha naquele horário. Nunca fui fã de “conveniência social”, mas, em alguns casos, era necessária. Agora, por exemplo. Certamente não me convinha acordar todo mundo daquela casa só pelo meu hábito de contrariar Deus e o mundo.
Avistei o cabelo alaranjado de Denise e percebi que já nos esperava na porta. Desci do táxi, paguei o motorista e andei em direção à ela. Ao me ver carregando Mônica desacordada, ela soltou uns gritinhos abafados e seu rosto adquiriu um quê de perplexidade, surpresa e apreensão, nessa ordem. Com uma mão na boca e olhos exorbitantemente arregalados, ela perguntou:
– Minha Nossa Senhora da Bicicletinha, o que aconteceu?
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