Notas iniciais
espero que gostem, boa leitura!

“Porque o amanhecer logo antes
Do sol nascer é o mais escuro…”

— Tomorrow (BTS)

❄ [.....]❄

{❄Springbroke 1980❄}

Está escuro aqui.

Frio, muito frio.

Por favor, salve-me.

Por favor, alguém me ajude.

Onde estou ?

Em um sonho talvez ?...

Não. Isso é real.

“Ei, acho que encontrei alguma coisa”.

Vozes, de quem será ?

Abri os olhos tentando fazer minha visão se acostumar com a escuridão que nesse momento já não era mais tão forte.

Logo eu estava caminhando por uma praia quase deserta, a areia era bem branquinha. Estava muito frio. Agarrei meu casaco com força me abraçando, tentando fazer aquele frio parar.

Mais a frente, tinha dois homens, eles deveriam ter na faixa de 50 anos.

“ tem alguém dentro da água” falou um dos homens que estavam olhando para o mar. Ambos usavam roupas térmicas e chapéu de pescador.

Olhei na mesma direção que eles vendo o corpo de uma pessoa boiando.

— Eu vou ir lá — falou um deles.

Eles se olharam, e quando o outro assentiu, o homem entrou correndo dentro da água, nadando até o corpo que boiava e voltou para a areia arrastando o corpo do que parecia ser um garoto.

Me aproximei do outro homem que nem mesmo percebeu minha presença e foi atrás de seu amigo.

Ele colocou o corpo no chão e eu pude ver que era um menino magrelo e baixinho, devia ter a minha idade. Ao menos eu achava isso. Mas eu nem mesmo sabia minha idade, ou quem eu era. Nem como fui parar naquele lugar.

— Ele deve ter se afogado — falou um dos homens.

Me aproximei mais dos três para enxergar melhor.

O menino que antes devia ter a pele branca, estava muito mais pálido como se não tivesse mais sangue correndo em suas veias.

— Esse não é aquele garoto que desapareceu ? — perguntou dirigindo o olhar para o amigo.

— Acho que sim, vamos checar a pulsação dele -falou.

O homem fez o que lhe foi dito, ele checou todos os pontos vitais do corpo do menino e logo tirou o chapéu da cabeça ficando de pé com o semblante triste.

— Kaio, vá correndo chamar a polícia, diga que encontramos o menino perdido, e que não devem chamar a mãe dele, não agora.—falou o homem para o amigo sussurrando a última frase.

— Por que ? — perguntou Kaio.

— O menino está morto! — respondeu o homem fazendo Kaio se assustar.

— Eu volto já! -falou Kaio e saiu correndo.

Olhei para o homem que ficou com o corpo e me aproximei mais dele.

— Com licença... — falei limpando a garganta tentando chamar a atenção do homem — o senhor pode me ajudar ?

O homem nem se quer me olhou. Ele se ajoelhou ao lado do corpo e começou a murmurar coisas, como se estivesse orando.

— Senhor, por favor me… -parei de falar assim que olhei para o garoto morto.

Ele me lembrava alguém. Mas quem ?

Será que eu o conhecia ? Aliás, quem sou eu ?

Fiquei ao lado do homem e tentei encostar nele mas minha mão ultrapassou seu ombro e ele tremeu um pouco olhando para o lado.

Puxei minha mão e a olhei. Que coisa estranha.

— Ei, o que está acontecendo ? -perguntei e novamente não obtive respostas.

— Pobre criança, seus pais vão ficar desolados — falou o homem chorando enquanto apertava o chapéu em mãos.

Um grupo de pessoas se aproximavam da praia e eu corri me aproximando.

— Ainda bem -falei suspirando pesadamente.

Um policial vinha correndo na frente e fui de encontro a ele.

— Senhor, me desculpe mas, eu estou muito assustado. Tentei falar com aquele senhor, mas ele não me escuta — falei sorrindo andando ao lado do policial que também me ignorou.

Fiquei irritado e andei mais depressa ficando na frente dele.

—Me responda. Eu estou falando com vo… -parei de falar novamente quando o policial passou por mim sem me enxergar. Mas não foi só isso.

Ele atravessou meu corpo. Aliás, EU atravessei seu corpo. Assim como aconteceu com o homem com o chapéu de pescador.

Alguns policiais correram até o homem em prantos e ao corpo.

— O que aconteceu ? — perguntou o policial e eu voltei a me aproximar deles correndo.

— Por favor, eu estou assustado. O que está acontecendo ? -perguntei e fui novamente ignorado.

— Eu e meu amigo estávamos observando a maré e vimos um corpo boiando -falou o homem soluçando enquanto o tal Kaio, amigo do homem se aproximou dele e o abraçou.

— Será que esse é o corpo do garoto desaparecido ? — perguntou o tal Kaio.

O policial agachou ao lado do corpo e levantou a franja que cobria boa parte do rosto do garoto e eu me assustei.

Ele… ele… ele sou… Eu !

— Não. Não pode ser. — falei ficando de joelhos com as mãos afundadas em meus cabelos.

— Não posso afirmar nada. Apenas a família pode reconhecer o corpo — falou o policial examinado o rosto do garoto.

— Ele deve ter se afogado! -falou o homem limpando as lágrimas.

— Acho que não foi só isso -falou o policial observando um machucado profundo na lateral do rosto do garoto.

— Vamos levar o corpo — falou outro policial. Fazendo um gesto chamando os outros.

Eles colocaram o corpo dentro de um saco plástico e saíram o carregando até a viatura estacionada na estrada de terra.

Eu resolvi segui-los.

O policial que examinou o corpo, pegou um rádio que estava grudado à seu ombro.

— Capitão Peter ? — perguntou o policial.

— Sim tenente Gael ? — respondeu outra voz pelo rádio.

— Nós achamos o corpo do menino Charlie — falou o policial sem esperar a resposta entrando na viatura.

Charlie ?

Eles deram partida na viatura e eu tentei segui-los mas ao chegar ao fim da praia e passar por uma estação de trem, Eu senti como se um campo de força me impedisse de seguir correndo atrás das viaturas.

Tentei passar novamente mas não consegui.

É como se houvesse uma barreira que impedisse meu “ espírito” de avançar para longe daquele local. E eu, fiquei sozinho na praia, tremendo de frio e sem entender nada.

Se aquele garoto era mesmo “eu”, e “eu” havia morrido, como isso aconteceu ?

[....]

{❄ 22 de setembro 2012❄}

Batidas na porta branca soavam de forma pesada e contínuas. Do lado de fora, uma mulher loura e alta gritava com a adolescente que dormia dentro do quarto.

— Acorda. Levanta dessa cama, agora!— gritou a mulher mais uma vez quando a porta foi aberta.

— O que você quer ? — perguntou uma pré adolescente encarando a mais velha com raiva.

— Termine de juntar suas coisas, vou deixar você na estação daqui a quatro minutos — falou a mais velha jogando seus cabelos louros tingidos para o lado e saindo da frente da menina.

— Já vou descer! -falou a ruiva de forma tediosa fechando a porta com raiva.

A menina olhou tudo a sua volta, notando como o cômodo estava vazio. Apesar de considerar aquela casa como seu inferno particular, A menina sentiria falta de seu quarto.

As paredes brancas, a cama de solteiro velha, porém confortável.

Todas as suas coisas já tinham sido embaladas e enviadas anteriormente para a casa de sua avó materna. Onde iria viver de agora em diante.

Trocou o pijama por uma roupa mais quente, afinal, a pacata cidade de Springbroke vivia em um inverno constante.

Olhou por todos os lugares procurando algo que talvez pudesse ter esquecido e encontrou uma antiga caixinha de música que havia ganhado de sua vizinha quando completou dez anos.

Vera, era o nome da mulher. Ela foi a única (além de sua avó) que lembrou de seu aniversário.

Guardou as últimas coisas que faltavam em uma mochila. Se olhou no espelho por uma última vez e saiu do quarto.

— Finalmente — falou a mulher. Ela estava sentada na mesa tomando café da manhã – Não vai comer nada?

— Vou esperar você na casa da Vera! — falou a menina colocando a mochila pesada nas costas.

Ela saiu da pequena casa, se dirigindo a casa de Vera que ficava em frente a sua.

Vera não era uma menina da sua idade. Muito pelo contrário. Era uma senhora muito simpática.

A menina a conheceu quando havia quebrado uma das mais caras maquiagens de sua madrasta, e resolveu se esconder no quintal da mulher.

Bateu na porta e logo foi atendida.

— Bom dia — falou a garota sorrindo e abraçando a mulher.

Vera tinha por volta de seus 76 anos, pele branca, cabelos curtos e pintados de preto.

A mulher usava um suéter cinza, o qual a menina havia descoberto ser o favorito da mesma.

Ela é uma mulher bondosa, porém muito solitária. Era viúva e o único filho que teve, havia morrido quando ainda era jovem.

— Bom dia menina Lira – falou a mulher sorrindo carinhosamente.

— Vim me despedir... – falou Lira de forma triste abraçando a mulher mais forte.

— Oh – exclamou a mulher perdendo o sorriso -Vamos, entre vou lhe servir um chocolate quente.

A casa de Vera era tão pequena quanto a sua, mas a maior diferença, era que em sua casa, tinha de aguentar os gritos estridentes e constantes de sua madrasta. Enquanto na casa vizinha, era recebida bem, e tratada como uma filha pela mais velha.

Lira sentou em uma das confortáveis poltronas próximas a pequena mesa redonda, onde Vera havia colocado coisas para tomar seu “café da manhã”.

— A senhora já viveu lá não é mesmo ? — perguntou Lira quando Vera voltou segurando uma xícara de chocolate quente e entregou a menina.

— Sim, a muito tempo — falou Vera pensativa e suspirando pesadamente ela se sentou de frente para a garota e colocou um pouco de chá em sua própria Xícara e começou a toma-lo.

— Talvez, a senhora possa me visitar... um dia— falou a menina sorrindo de forma animada e sussurrou a ultima parte. Lira iria falar algo, mas foi interrompida pela mulher novamente.

— Eu não vou voltar para aquela cidade! -respondeu a mulher de forma grosseira assustando a menina.

Vera sempre foi tão doce, mas sempre que Springbook era mencionada, a mulher mudava completamente sua personalidade.

Vendo o semblante assustado da menina por sua reação exagerada suspirou pesadamente e ficou de pé andando até próximo da lareira e pegando um retrato que estava lá.

— Você sabe que não gosto de falar disso — falou Vera tocando o retrato com a ponta dos dedos como uma leve carícia.

— E por causa do seu filho, não é ? — perguntou Lira ficando de pé também.

A mulher nada disse e Lira se aproximou da mesma vendo a foto.

Desde o primeiro dia que havia pisado na casa de Vera. Lira havia se deparado com a foto de Thomas, o filho de vera!

Um garoto de traços asiáticos, pele branca, e bochechas gordinhas.

— Meu menino – falou a mulher alisando o porta retrato segurando as lagrimas.

— Ele deve estar em um bom lugar – falou Lira segurando a mão de Vera.

—Você pode ir visitar o tumulo dele por mim ? – perguntou a mulher e a menina sorriu limpando uma lagrima que rolou pelo rosto de Vera.

—Eu prometo!

[....]

O trem seguia a toda velocidade nos trilhos, e Lira observava as paisagens passarem por ela de forma veloz. As vezes seu apito era soado parando nas determinadas estações.

Uma placa de boas vindas a pequena cidade do interior foi vista, os trilhos passavam por uma área descampada com alguns trechos cobertos de neve.

Lira avistou uma única árvore, ela era muito escura, apenas galhos, nada de folhas. Logo mais a frente, ela avistou a estação onde irá ficar.

O trem parou dando um pequeno tranco e a porta foi aberta. Um rapaz a ajudou a descer sua mala de rodinhas e ela pegou sua mochila e desceu da locomotiva.

Por mais incrível que pareça, a estação estava deserta e Lira foi a única a descer na mesma. O trem deu partida a deixando sozinha naquele local frio.

A pequena estação, tinha algumas lojas, porém, todas deveriam ter sido fechadas a muito tempo. Do outro lado, após a segunda faixa de trilhos ( os quais um novo trem levaria os passageiros para fora da cidade), alguns vagões de uma velha locomotiva estavam deixados de lado.

Assim que o trem partiu seguindo seu rumo Lira viu um menino parado do outro lado. Ele olhava diretamente para ela.

O menino deveria ter sua idade, pele extremamente pálida, lábios grossos nariz arrebitado e traços asiáticos. O menino usava roupas estranhas, uma camisa de mangas toda listrada, uma bermuda jeans, um casaco com capuz azul felpudo, meias brancas esticadas ate sua panturrilha e um tênis de cor verde. Mas o que mais chamou a atenção, foi seus cabelos, eles eram cor de rosa.

O garoto estreitou mais os olhos observando Lira com atenção, causando na menina a estranha sensação de que ela o conhecia.

— Olá – falou Lira tentando ser simpática.

O menino arregalou os olhos e saiu correndo para se esconder nos vagões.

— Ei, não fuja – falou Lira se preparando para seguir o menino mas uma mão segurou seu braço.

Lira olhou assustada para a pessoa que a segurava encontrando um rosto conhecido, era a sua avó, Emy.

Quando jovem, a avó de Lira também possuía os cabelos ruivos como sua filha Alissa e sua neta, Lira. Mas agora, os cabelos da mulher estão esbranquiçados, quase se fundindo com seu tom de pele, a cor verde dos olhos da mulher estavam mais evidentes se comparado com o castanho esverdeado de sua neta.

— O que aconteceu? – perguntou Emy com seu eterno tom doce de voz.

Lira olhou novamente para os vagões abandonados, mas não encontrou mais o garoto.

— Não foi nada...- falou a menina e sorriu para a avó.

— venha, vai cair uma nevasca essa noite, não é bom ficar fora de casa nesse tempo frio – falou a mulher sorrindo para Lira ajudando a menina a carregar as suas duas ultimas malas até o velho carro de Emy.

Lira olhava constantemente para o mesmo local, sua avó decidiu ignorar esse detalhe, e quando sua avó deu partida no carro, ela conseguio avistar o garoto parado de pé ao lado de um dos vagões. Mas ela já estava distante o suficiente para tentar uma nova aproximação com o garoto, ficando extremamente curiosa.

Notas finais
desculpe se houver algum erro, irei corrigi-lo assim que possível.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.