Spotlight - EM HIATUS

1 Capítulo 01 - Abrigo


Notas iniciais
Bem, eu tentei muito resistir a vontade de postar essa fanfic antes de concluir as outras que escrevo, mas... não consegui. Espero que curtam o enredo e os personagens e, como vocês sabem, criticas construtivas serão sempre bem vindas. Boa leitura.

A gritaria começou cedo naquela noite. Mamãe tentava acalmar Josiah, prometendo-lhe que prepararia algo melhor para o jantar, mas o barulho da louça se estilhaçando pelo chão da cozinha deixava claro que ele não estava disposto a tolerar o deslize.

Peguei o celular, coloquei meus fones de ouvido e me deitei com o rosto virado para a parede do quarto e de costas para a porta.

Toda noite era a mesma coisa. Quando eles não brigavam por causa da comida, brigavam por causa da casa, das contas, do lixo no quintal e até pelos latidos dos cachorros do vizinho. Tudo para Josiah era motivo para uma discussão e, quando ele não achava um motivo plausível para discutir, ele inventava um. A questão era que não havia paz naquela casa.

— Eu passo o dia inteiro no trabalho para chegar aqui e encontrar essa merda na minha mesa?! – Outra louça se espatifou pelo chão da cozinha e eu aumentei o volume dos meus fones de ouvido ao máximo, mas ainda assim conseguia ouvi-lo gritar. – Que porra de gororoba é essa, Cheryl?! Acha que eu me mato para sustentar você e aquela vadiazinha da sua filha para chegar em casa e ter que comer essa porcaria de ensopado?

Mamãe tentou tranquiliza-lo de novo, mas por causa da música alta que ecoava em meus ouvidos, não consegui entender o que ela disse. Josiah saiu batendo os pés e as portas pela casa.

Eu podia imaginar minha mãe chorando na cozinha enquanto limpava toda a sujeira e colocava as panelas no fogão, pronta para preparar outra refeição para seu marido, mas permaneci em meu quarto, concentrada nas músicas da nova playlist que tinha criado. Eu havia cometido o erro de tentar consolá-la na primeira noite em que isso aconteceu, mas ganhei um sermão que eu não soube muito bem o que fiz para merecer e, desde então, eu não tentei consolá-la de novo. Depois de algumas semanas naquela casa, aprendi que aquilo era rotina e que era mais seguro, para mim, manter a boca fechada e não me intrometer em seus assuntos.

O encanamento da casa rangeu quando Josiah acionou a descarga no banheiro e, depois, ouvi os passos pesados dele pelo corredor. Abaixei um pouco o volume da música e olhei de esguelha para a fresta de luz sob a porta de meu quarto, esperando a sombra de seus pés passarem por ali. Josiah nunca tinha entrado no meu quarto, mas minha porta não tinha fechadura e, às vezes, eu temia que ele invadisse o meu pequeno santuário e me pegasse de surpresa.

Aquele homem me apavorava. Com suas raízes latino-americanas, Josiah era um homem forte e moreno, de pouco mais de 1,80m e olhos negros pequeninos. Ele achava que a careca e a barbicha que ostentava, junto com uma quantidade absurda de correntes e anéis de ouro, lhe deixavam parecido com o Pitbull, mas ele estava mais próximo de um dos bicheiros que perambulavam pelo centro da cidade que do rapper em si. Apesar disso, ele me intimidava. Não foram poucas as vezes em que o flagrei olhando para mim como se eu fosse um pedaço suculento de carne. Eu tinha medo de encontra-lo pela casa e tinha mais medo ainda de que ele me encontrasse enquanto eu estava distraída. Era realmente uma droga que a maior parte dos cômodos da casa não tivesse uma tranca e isso incluía o banheiro.

Os passos dele sumiram pelo corredor e respirei aliviada. Dois meses, eu disse a mim mesma. Apenas mais dois meses e eu teria dezoito anos e, então, poderia sair daquela casa e ser dona do meu próprio nariz. Quem sabe eu ainda conseguisse uma vaga remanescente em alguma universidade. Suspirei... Não me conformava que Josiah tivesse dito a minha mãe para jogar fora todos os meus formulários de inscrição. Eu tinha recebido propostas muito boas de bolsas de estudo, mas por causa dele, não pude me candidatar a nenhuma delas.

As discussões na cozinha recomeçaram pouco tempo depois e perduraram por várias horas. Variavam entre reclamações sobre a incapacidade de minha mãe de ser uma boa dona de casa e reclamações diversas relacionadas a dinheiro. Por fim, quando a casa finalmente silenciou, lá pelas onze da noite, calcei meus chinelos e me senti segura o suficiente para sair do quarto e ir ao banheiro fazer xixi e escovar meus dentes.

Não acendi nenhuma luz pelo caminho e andei o mais silenciosamente que consegui, respirando aliviada quando encostei a porta do banheiro e ela emitiu apenas um “clic” suave. Fiz minhas necessidades, escovei meus dentes rapidamente e, quando voltei para o quarto, percebi que minha garrafinha de água estava vazia. Praguejei baixinho, mas fui até a cozinha para enchê-la.

Estava tão distraída, esperando avidamente que o filtro velho que possuíamos cumprisse sua tarefa de nos proporcionar água filtrada que não reparei que Josiah havia entrado na cozinha até sentir a mão dele enlaçar minha cintura. Deixei a garrafinha escapar de meus dedos no mesmo instante e ela caiu sobre a pia de inox com um baque alto, derramando boa parte da água que eu custara a conseguir.

Josiah encostou seus lábios em minha orelha.

— Eu sei o que você quer. – Ele sussurrou como se me contasse um segredo e eu senti o cheiro do álcool em seu hálito. – Você fica desfilando por aí, tarde da noite, só esperando me encontrar pelos cantos. Acha que eu ainda não te saquei, sua putinha? – As mãos dele subiram por minha cintura e, antes que eu pudesse reagir, Josiah agarrou um dos meus seios e o apertou. – Hoje eu vou te dar o que você quer.

Ele lambeu o lóbulo de minha orelha, prendendo-me contra a pia da cozinha e eu nem pensei muito no que estava fazendo. Quando dei por mim, tinha agarrado uma das panelas que minha mãe deixara na pia e a tinha acertado na lateral do rosto de Josiah, abrindo um corte ali.

Josiah grunhiu e se afastou um passo e aquilo me deu tempo para acertá-lo uma segunda vez e empurrá-lo para longe de mim. Ele caiu, tropeçando nos próprios pés e eu corri de volta para o meu quarto e fechei a porta, arrastando minha velha escrivaninha até ela para que servisse como uma barreira.

Eu tinha cerca de sessenta segundos antes de Josiah se recuperar de meu ataque e vir atrás de mim. A escrivaninha poderia dificultar sua entrada, mas não o manteria afastado para sempre e, quando ele conseguisse entrar, eu estaria perdida. Eu precisava pensar rápido.

Olhei ao redor, para meu quarto diminuto, à procura de qualquer coisa que pudesse me ajudar, mas não encontrei nada. Eu não tinha um esconderijo, não tinha uma arma que pudesse usar para me defender e sabia que minha mãe jamais intercederia por mim. Era provável que ela até fingisse que estava dormindo enquanto Josiah fazia o que quisesse comigo e, que Deus me ajudasse, mas do jeito que ela era, talvez ela até me culpasse por isso, dizendo que eu é quem o havia seduzido. Eu precisava sair dali!

A paisagem escura e fria do outro lado de minha janela não me parecia nada convidativa, mas, naquele momento, a escuridão das ruas de Seattle se mostrava mais segura que qualquer coisa que me aguardasse dentro daquela casa, então, não precisei pensar muito para me decidir. Enfiei meus pés no primeiro par surrado de All Star que vi pelo quarto, coloquei um casaco e recolhi todo o dinheiro que pude encontrar, enfiando-o nos bolsos. Não me preocupei em pegar o celular, pois não havia ninguém para quem eu pudesse telefonar e aquele aparelho só serviria para que Josiah me encontrasse mais facilmente.

Abri a janela do quarto, agradecendo por nossa casa possuir apenas o andar térreo e saltei para fora dali no exato momento em que ouvi a primeira batida de Josiah contra a porta. Fechei a janela e, simplesmente, corri. Com sorte, Josiah demoraria alguns minutos para conseguir passar pela escrivaninha que eu colocara atrás da porta e eu esperava já ter colocado alguns quilômetros entre nós quando isso acontecesse.

Disparei pelas ruas escuras e chuvosas de Seattle, sem me preocupar muito com a direção que estava tomando enquanto forçava minhas pernas a se moverem no ritmo mais rápido que conseguiam. Passei por vielas, cruzei estacionamentos desertos e, apenas quando achei que já estava muito distante de casa, me permiti parar para respirar um pouco. O vento frio fustigava a pele de meu rosto e o capuz de meu casaco não era suficiente para me proteger da chuva fina que caía, mas meu coração batia tão rápido que mantinha meu corpo aquecido. Enfiei as mãos nos bolsos e recolhi todo o dinheiro que tinha conseguido juntar.

Eu tinha exatamente U$S 6,30. Com esse valor eu sequer conseguiria pagar por uma noite em alguma espelunca da cidade, quanto mais comprar uma passagem para sair dela, mas, pelo menos, eu conseguiria pegar um ônibus para um bairro mais distante e, quem sabe, eu até conseguisse comprar alguma coisa para enganar a fome depois. Seattle era uma cidade grande e populosa, se eu conseguisse me afastar o suficiente, talvez Josiah nunca me encontrasse.

Segui, então, para o ponto de ônibus mais próximo e escolhi aquele cujo itinerário me levaria para o mais longe possível dali. Eu não sabia o que uma vida nas ruas me reservaria, mas tentava me convencer de que eu era esperta o suficiente para lidar com aquilo que estava por vir. Eu conseguiria dar a volta por cima.

Quando o ônibus estacionou na parada, paguei minha passagem depositando o dinheiro na caixinha e o motorista me olhou de esguelha, desconfiado de meu estado miserável. Eu sabia que devia estar horrível, encharcada da cabeça aos pés e com meus longos cabelos loiros escuros completamente desgrenhados. Abaixei o capuz um pouco mais sobre o rosto e me sentei em um dos últimos bancos do ônibus, observando a paisagem urbana passar pela janela. Devo ter ficado sentada ali por mais de uma hora, mas, por fim, quando o ônibus esvaziou, o motorista desligou o painel luminoso e se virou para mim.

— Essa é a última parada, moça. Você precisa descer. – Ele me alertou e, muito a contra gosto, eu saí da segurança daquele veículo e voltei para a incerteza das ruas úmidas da cidade.

A chuva já havia passado a essa altura, mas meu surto de adrenalina também, o que – combinado com as minhas roupas molhadas –, deixava o meu corpo com uma sensação térmica próxima a do Alasca. Eu estava tremendo e não duvidava de que meus lábios já estivessem bem próximos de adquirir uma coloração arroxeada. Tudo o que eu queria era um banho quente e roupas secas, mas eu nem fazia ideia de quando voltaria a ter esses luxos. No momento, minha maior necessidade era encontrar um abrigo onde pudesse me esconder durante aquela noite.

Caminhei pelas ruas da cidade, passando por várias avenidas sem que ninguém notasse a minha presença. Como já era tarde e o clima não estava lá muito bom, havia mesmo poucas pessoas nas ruas, mas era engraçado que ninguém se importasse com uma garota de dezessete anos perambulando por aí no meu estado. Meu avô costumava dizer que as cidades grandes deixavam as pessoas menos empáticas, mas eu não tinha ideia do quanto ele estava certo até esse momento. Era como se eu fosse invisível.

Depois de caminhar por aí há mais de quarenta minutos, encontrei um posto de gasolina com uma loja de conveniência 24 horas e quase chorei de alegria. Eu tinha gastado dois dólares com a passagem de ônibus, mas ainda me restava algum dinheiro e a possibilidade de comprar algo para comer e matar minha sede quase me deixava em êxtase.

Segui apressada até a loja e empurrei suas portas de vidro como se eu tivesse acabado de passar pelas portas do Paraíso. O atendente do caixa ergueu o olhar para mim e eu sorri para ela antes de me embrenhar pelas prateleiras à procura das mercadorias mais baratas. Encontrar um pacote de bolachas acessível não foi um problema. Achei um, sabor presunto, que custava pouco mais de um dólar e que eu poderia fazer durar até a manhã seguinte, mas a parte das bebidas se mostrou um desafio. A única promoção que encontrei já não tinha mais nenhuma mercadoria disponível e todo o restante parecia custar mais de três dólares, o que me fez praguejar baixinho, perguntando-me o porquê de preços tão altos.

A porta da loja de conveniência se abriu de novo e um homem, que aparentava estar na faixa dos vinte e poucos anos, adentrou no estabelecimento em um estado não muito diferente do meu. Suas roupas também estavam molhadas por causa da chuva e o capuz de seu moletom também impedia a visão completa de seu rosto. Ele poderia ser a minha versão masculina, não fosse pelo fato de que seu porte e suas roupas, cujos tons varivam do cinza escuro ao preto, o faziam parecer bem mais ameaçador que eu com minha calça de pijama azul marinho e meu casaco vermelho.

Percebi que os pensamentos do atendente do caixa seguiram pela mesma linha que os meus porque ele se sentou mais ereto e passou a observar o homem com atenção. Eu rezava a Deus para que aquele cara não fosse um assaltante, pois eu só tinha U$S 4,60 e precisava muito deles. Receosa, tentei me manter praticamente invisível na área reservada às bebidas no fundo da loja, mas todo o meu esforço foi inútil porque o cara se dirigiu justamente para lá.

Ele passou por mim e parou diante da geladeira das cervejas, avaliando todas as opções ali dentro e, quando pareceu se decidir, abriu a geladeira e retirou dali uma latinha de suco de pêssego, franzindo as sobrancelhas para ela como se não entendesse o que ela fazia ali na área das bebidas alcoólicas. Meus olhos brilharam. Aquela latinha era a única que restara da promoção e eu precisava pegá-la.

Esperei que o cara do capuz pegasse seu engradado de Corona e se dirigisse ao caixa e, depois, praticamente voei sobre a latinha de suco. Quando cheguei ao caixa, o encapuzado ainda estava escolhendo um pacote de chicletes, então, entreguei minhas escassas mercadorias ao atendente.

— São U$S 4,85. – Ele me informou e senti meu coração afundar até o meu estômago. Aquilo não podia estar certo.

— Tem certeza de que esse é o valor total? – Perguntei desanimada. – Há uma placa no setor de bebidas que diz que este suco está em promoção.

O atendente negou com a cabeça.

— O suco realmente estava em promoção, mas a oferta terminou ontem. Acho que a garota da manhã se esqueceu de retirar a placa.

Olhei para o suco e para o pacote de bolachas de presunto que estavam sobre o balcão sem saber o que fazer. Eu não tinha jantado depois do escândalo que Josiah fizera por causa do ensopado, então, estava faminta, mas também estava morrendo de sede depois de correr tanto. Talvez o atendente pudesse me dar um copo de água, nem que fosse da torneira ou, talvez, voltasse a chover o bastante para eu conseguir beber algumas gotas na rua, mas eu realmente queria aquele suco. Poderia ser o último suco que eu tomaria na vida.

— Tenho U$S 4,60. – Ofereci ao atendente com uma frágil esperança de que ele sentisse pena de mim e me deixasse ficar com os dois itens.

Ele até pareceu tocado, mas, de todo modo, não me ajudou.

— Sinto muito, moça, mas não posso vender nada por um valor menor que o registrado. Desculpe.

Eu suspirei, derrotada e deixei meus ombros caírem.

— Nesse caso, vou levar apenas o pacote de bolachas mesmo.

O atendente assentiu e eu paguei pela mercadoria e saí da loja. Nem tive coragem de perguntar sobre o copo de água, mas sabia que teria de engolir essa vergonha muito em breve – não dava para me tornar uma sem teto e ter vergonha de pedir coisas como essas.

Já cansada de tanto andar, sentei-me na calçada ao lado da loja e comecei a comer o meu pacote de bolachas. Elas fizeram maravilhas ao meu estômago vazio, mas também contribuíram para aumentar a minha sede e choraminguei um pouco por isso. Provavelmente eu teria que voltar à loja de conveniência e implorar por um copo de água.

Já estava até ensaiando o meu discurso de menor abandonada, quando o encapuzado das cervejas saiu da loja e parou ao meu lado, estendendo-me a latinha de suco de pêssego que eu havia deixado sobre o balcão. A princípio, fiquei confusa com o gesto, perguntando-me se aquilo realmente significava o que eu achava que significava ou se seria apenas uma piadinha da parte dele, mas quando ele acenou levemente com a cabeça na direção da lata, entendi que ele realmente queria que eu a pegasse. Ele a havia comprado para mim.

Meus lábios se retorceram em um sorriso e eu a peguei da mão dele, sentindo-me mais grata do que jamais estivera por um desconhecido, enquanto abria a latinha e tomava um longo gole do suco de pêssego. Parecia que eu havia retirado navalhas de minha garganta e a sensação de poder matar a sede foi tão boa que deixei que um suspiro escapasse por meus lábios.

— Parece que você precisava mesmo disso. – O cara do capuz comentou, fitando-me através da sombra que encobria parte de seu rosto.

Eu assenti e tomei outro gole do suco antes de me dirigir a ele.

— Muito obrigada por isso. Eu já estava me preparando para voltar lá para dentro e implorar por um copo de água da torneira. – Admiti. Então, enfiei a mão no bolso de meu casaco e retirei de lá o pouco dinheiro que havia me sobrado. – Não é muito, mas pode ficar com ele como agradecimento pelo suco. – Ofereci.

O encapuzado ficou ali, olhando para minha mão estendida, como se não tivesse compreendido minhas palavras e eu agitei o dinheiro um pouco mais em sua direção, incentivando-o a pegá-lo. Eu sabia que precisaria de cada moeda que tinha para não morrer de fome nos próximos dias, mas não podia deixar que aquele gesto gentil passasse em branco.

— Não preciso do seu dinheiro. – O encapuzado colocou sua mão livre de volta no bolso do moletom, deixando claro que não aceitaria minha tentativa de compensação e, meio sem jeito, eu guardei o dinheiro.

— Nesse caso, agradeço pelo suco.

— Não foi nada. – Ele deu de ombros e se afastou, mas nem chegou a dobrar a esquina antes de parar e voltar para onde eu estava.

Fiquei tensa de imediato. Aquilo não podia ser bom. Na melhor das hipóteses, ele me arrastaria para um beco escuro e eu teria um fim horrível e, na pior, ele descobriria que fugi de casa, arranjaria um jeito de me levar de volta e eu teria um fim ainda mais trágico nas mãos nojentas de Josiah. Seja lá qual viesse a ser o meu destino, nenhuma das opções me parecia agradável.

— Decidiu aceitar o dinheiro? – Brinquei na esperança de que, se eu não demonstrasse medo, ele desistiria de me importunar e iria embora.

— Na verdade, não. – Ele parou na minha frente e eu precisei erguer a cabeça para encará-lo já que eu ainda estava sentada na calçada, saboreando o meu pacote de bolachas. – Qual é o seu nome?

Minha mente girou. Eu sabia que não era seguro dizer o meu nome a um completo desconhecido – e possível maníaco sexual –, mas temia que, se me recusasse a responder, isso deixaria transparecer todo o medo que eu sentia e só serviria como incentivo para que ele continuasse.

— Precisa de um tempo para inventar um nome falso? – Ele perguntou e senti um nó se formar em meu estômago. Na verdade, eu precisava sim.

O encapuzado me estendeu a mão.

— Eu sou o Shannon e, se você quiser, eu posso te chamar de Lulu até você inventar um nome melhor.

Aquilo me fez rir. Lulu era, possivelmente, o nome falso mais ridículo já inventado, mas eu tinha a sensação de que o meu verdadeiro nome seria capaz de causar uma crise de riso ainda maior nele. Coloquei-me de pé e apertei sua mão.

— É um prazer, Shannon.

— Então, quantos anos você tem, Lulu?

— Tenho dezoito. – Respondi sem pestanejar. Eu faria dezoito anos apenas dali há dois meses, mas Shannon não precisava saber que eu ainda era menor de idade.

— Ah. E não está muito tarde para uma garota de dezoito anos perambular sozinha pelas ruas de uma cidade como Seattle?

— Estou acostumada. – Menti.

Shannon me fitou e, sob a iluminação precária do posto de gasolina, eu não soube dizer precisamente qual a cor dos olhos dele, mas não precisava de luz para saber que ele não tinha acreditado em mim.

— Problemas com os pais? – Ele perguntou e eu fiz o possível para manter a minha melhor cara de paisagem. Eu não precisava responder nada daquilo. Shannon suspirou. – Olha, Lulu, eu sou o rei dos problemas com os pais, então, se esse for motivo de você estar aqui, eu posso entender, mas, se você não falar comigo, eu terei que chamar a polícia. Está mais que na cara que perambular pelas ruas de madrugada não é um costume seu e eu não quero ficar com a consciência pesada por te largar aqui e, amanhã, descobrir que o seu corpo foi encontrado em uma lixeira qualquer.

— E como é que eu vou saber que não é você quem vai me matar e jogar o meu corpo em uma lixeira?

Shannon retirou um celular do bolso traseiro de sua calça e o estendeu para mim.

— Você pode ligar para os seus pais ou eu posso ligar para a polícia e deixar que eles lidem com você. – Ele sugeriu. – De qualquer modo, não vou te largar nessa calçada. Você não duraria uma noite aqui.

Eu olhei para o celular na mão dele, tentando controlar o pânico. De jeito nenhum eu voltaria para casa e para as mãos de Josiah e eu poderia até cogitar a história da polícia, não fosse pelo fato de que eu não tinha nenhuma prova ou testemunha para acusá-lo de assédio e ele, por sua vez, teria dois grandes hematomas em seu rosto para comprovar minha agressão. Eu estava ferrada! Minhas únicas opções eram a fuga ou confiar em Shannon e em sua boa vontade e eu tinha certeza de que não me sairia bem tentando fugir dele. Shannon parecia bem ágil.

— Tudo bem, você tem razão. – Confessei, dando-me por vencida. – Estou com problemas em casa e não posso voltar para lá. Por favor, não chame a polícia, ok?

— Seus pais te expulsaram ou o quê?

Olhei ao redor, incomodada com aquele interrogatório e Shannon ergueu uma sobrancelha para mim.

— Eu fugi. – Resmunguei a contra gosto. – Não quero falar disso, mas espero que saiba que nada nesse mundo vai me fazer voltar para casa e, se eu tiver que escolher entre isso ou ter o meu corpo apodrecendo em uma lixeira, eu escolho a segunda opção.

Cruzei os braços diante do peito, pensando no quanto era ridículo ter aquele tipo de discussão com um completo desconhecido e Shannon permaneceu em silêncio, olhando para mim enquanto tomava uma decisão.

— Eu tenho quarto vago no meu apartamento e ele é seu por uma noite, se quiser. – Ele ofereceu.

Senti meu queixo cair. Ele realmente achava que eu o seguiria até seu apartamento e que passaria a noite lá? O que viria a seguir, esperar que eu dormisse com ele como agradecimento pela gentileza?

— Você só pode estar...

— É isso ou voltar para a sua casa. – Ele me interrompeu, mostrando-me o celular. – Você pode escolher, mas não vou te deixar dormir na rua.

Eu fechei a boca, inconformada e Shannon aguardou enquanto eu me decidia. Não sei quem era mais louco: ele por oferecer abrigo a alguém que poderia ser uma criminosa ou eu, por aceitar abrigo de alguém que também poderia ser um criminoso. No entanto, entre um criminoso com Josiah e um possível criminoso como Shannon, eu ainda preferia Shannon. Até mesmo porque, que tipo de criminoso insistiria tanto em telefonar para a polícia? Talvez eu fosse até mais perigosa que ele, no fim das contas e eu não podia negar que a perspectiva de dormir em uma cama quentinha em vez de encolhida sob uma marquise úmida, era tentadora.

— Tudo bem – concordei –, mas é apenas por uma noite e já aviso que, se você tentar alguma coisa comigo, vou te dar um chute tão forte no saco que você vai virar uma garota.

Shannon bufou e me virou as costas.

— Você não faz o meu tipo.

Aquilo me ofendeu. Não que eu quisesse ser o tipo dele, mas eu não era uma garota feia, na verdade, eu me achava até bastante atraente para a minha idade. Sempre tive curvas nos lugares certos e tinha muito orgulho de meus longos cabelos loiros e de meus olhos azuis. Meu avô dizia que eu parecia uma boneca e meu avô não era de mentir.

— Você vem? – Shannon parou a alguns passos de mim e esperou que eu me movesse.

— E eu tenho escolha?! – Reclamei, seguindo atrás dele.

Nós caminhamos, em total silêncio, por cerca de um quarteirão enquanto eu me mantinha sempre alguns passos atrás de Shannon: longe o suficiente para ter uma vantagem caso precisasse fugir, mas não tão longe que pudesse perdê-lo de vista. Ele, por sua vez, não pareceu se incomodar com a distância e, tão pouco, me pediu para apressar o passo. Apenas retirou uma garrafa de Corona de sua caixinha e passou a bebê-la, sem cerimônia, por todo o caminho. Quando paramos em frente a um edifício discreto, porém bem organizado, algum tempo depois, Shannon já havia terminado sua cerveja e jogou a garrafa na lixeira mais próxima.

— Aqui estamos. – Ele anunciou e marchou para dentro do edifício, cumprimentando o porteiro com um breve aceno de cabeça.

Nós mantivemos uma distância amigável dentro do elevador, esperando impacientes que o painel digital nos levasse até o apartamento de Shannon e, quando finalmente paramos no oitavo andar, ele desceu e segurou a porta para mim.

— Ainda podemos ligar para os seus pais ou para a polícia, se você preferir. – Disse ele quando hesitei em sair do elevador.

— Você vai usar essa ameaça todas as vezes que eu ficar indecisa?

— Não é uma ameaça, Lulu. Estou te dando opções. Sei o quanto a vida lá fora é difícil e também sei que a vida em família não é sempre um mar de rosas. Você pode passar a noite aqui ou pode voltar para casa, mas uma coisa é certa: não há nenhuma maneira no mundo de eu te deixar dormir na rua.

Mantive meu olhar no carpete cinza do elevador e suspirei. Ele parecia tão sincero e preocupado que eu já não conseguia mais encontrar motivos para duvidar de sua boa vontade.

— Beethoven. – Falei baixinho.

— O que? – Shannon me encarou e eu tomei coragem para erguer a cabeça e olhar para ele.

— O meu nome é Beethoven, mas todo mundo me chama apenas de Tove.

Os olhos de Shannon se estreitaram.

— Você tá me zoando, né?

Fiz que não com a cabeça.

Eu amava o meu avô, mas jamais conseguiria perdoá-lo por ter me batizado com esse nome. Eu entendia totalmente a sua paixão pela música clássica, pois essa era uma paixão que eu também nutria e, embora Ludwig Van Beethoven fosse um dos meus maiores ídolos, só Deus sabe quanta chacota eu já aguentara na vida por ter o mesmo nome que ele.

— É sério que você se chama Beethoven, como o São Bernardo daquele filme?

Me senti ultrajada.

— Meu nome não foi inspirado no cachorro. Foi uma homenagem a Beethoven, o pianista! – Reclamei.

Shannon se recostou contra as portas abertas do elevador e abriu um sorrisinho.

— Ah, então, você é uma garota com nome de garoto. Saquei.

Eu bufei de raiva.

— Ok, qual é mesmo o seu apartamento? – Disse saindo do elevador como um raio. Certamente havia algum pobre coitado lá embaixo esperando por ele há tempos e nós o estávamos monopolizando enquanto Shannon ria da minha cara.

— Sabe, Tove não é tão ruim. Tem uma cantora com esse nome.

— Ah, que alívio. – Retruquei de maneira sarcástica. Era óbvio que eu sabia da existência de Tove Lo, a cantora e, cá entre nós, ela era grande parte do motivo pelo qual as pessoas achavam o meu apelido legal.

— Pelo menos é melhor que Lulu. – Shannon comentou enquanto abria a porta de seu apartamento e eu cruzei os braços com força.

— Você fala como se o seu nome fosse a coisa mais maneira do mundo, mas é bem difícil encontrar alguém chamado Shannon e que seja homem.— Frisei e Shannon fez uma careta.

— Eu ainda posso te mandar embora, sabia?

— Tanto faz. Para início de conversa, eu nem queria ter vindo. – Respondi de má vontade.

— Tá, nervosinha, cale a boca e entre aí. – Ele me empurrou para dentro do apartamento e, quando acendeu as luzes, senti o meu queixo cair, mas não de um jeito bom.

O apartamento em si era bonito. Apesar de não ser muito grande, era bem dividido e tinha uma decoração que meu avô descreveria como de bom gosto, embora não contasse com nenhum luxo aparente. O problema mesmo era a bagunça.

O sofá estava repleto de roupas sujas e embalagens vazias de comida congelada e a mesinha de centro parecia o depósito de uma adega falida, cheia de garrafas vazias, copos sujos e manchas grudentas de cerveja por aqui e por ali. O que eu conseguia ver da cozinha não me parecia muito promissor e eu nem queria pensar no que encontraria quando conhecesse o banheiro.

— Bem vinda ao seu lar temporário. – Shannon comentou ao fechar a porta. Olhei para ele e tenho certeza de que minha expressão de completo assombro era digna do Oscar.

— Você chama isso de lar?

Shannon avaliou o estado do apartamento.

— É, tá meio bagunçado, mas de um modo geral...

— Está uma zona. – Eu disse sem rodeios.

— Você é sempre tão crítica?

— E você é sempre tão bagunceiro?

Shannon não respondeu. Apenas deu de ombros e foi até a cozinha guardar o restante de suas cervejas na geladeira. Eu o segui de perto, esperando que ele me mostrasse o restante daquele lixão, mas parei quando cheguei ao corredor e encontrei outro cômodo bagunçado, mas ocupado com alguns instrumentos musicais. Meu avô teria chorado de alegria ao encontrar aquele lugar, pois era apaixonado por música e, eu precisava dizer, tinha muito talento para aquilo. Algo que eu gostaria de ter herdado dele, mas para o qual, na verdade, eu era uma completa negação, assim como a minha mãe.

Sem conseguir me conter, entrei naquele espaço e corri o meus dedos por um instrumento após o outro como se, de alguma forma, fazer isso me deixasse mais próxima do meu avô. Perdê-lo foi um grande golpe para mim e quando precisei deixar a casa onde ele me criou e todas as lembranças contidas nela para vir morar com minha mãe e Josiah, foi como se eu o tivesse perdido outra vez.

— Então, você gosta de música? – Shannon perguntou, adentrando naquela sala e eu me virei para respondê-lo, mas, assim que meus olhos se depararam com seu rosto, senti meu coração parar.

Ele havia tirado o moletom e, sob a iluminação descente daquele cômodo, eu podia ver cada detalhe de sua aparência, desde o tom castanho-arruivado de seus cabelos até o azul-esverdeado de seu olhos e o rosa pálido de seus lábios, que eram emoldurados por uma barba curta, sem falar nas inúmeras tatuagens que cobriam seus braços e parte de seu pescoço.

Shannon era um espécime masculino a ser admirado, isso ninguém podia negar, mas o que mais chamou minha atenção não foi sua beleza, embora ela fosse de tirar o fôlego. Foi o reconhecimento.

— Ah, meu Deus, você é Shannon Reed! – Exclamei embasbacada.

Eu já tinha escutado, pelo menos, cinco músicas desse cara por aí e nem queria mencionar quantas vezes seus clipes passavam, diariamente, nos canais de TV a cabo. Ele era tipo o artista do momento no mundo do Pop/Rock e eu não era lá uma de suas fãs porque curtia mais música clássica e, às vezes, um pouco de Soul, mas não tinha como não conhecer esse cara: ele estampava a capa de quase todas as revistas do país.

— Eu estava me perguntando quando isso aconteceria. – Shannon disse, parecendo ligeiramente incomodado.

Eu não consegui segurar a risada.

— Fala sério! Não acredito que fugi de casa e vim parar, justamente, no apartamento do astro do Rock mais procurado dos Estados Unidos. Quero dizer, não era para você estar em uma clínica de reabilitação ou algo assim? Tipo, a mídia inteira está dizendo que você surtou e precisou de uma intervenção profissional. O que é que você está fazendo em Seattle, morando em um apartamento como esse?

De repente a minha ficha caiu e parei de rir.

— Ai, caramba. É uma pegadinha, não é? Tipo aqueles quadros de “conheça o seu ídolo nos lugares mais improváveis do mundo”, é isso, não é? Puta merda! Eu estou perdida. Onde estão as câmeras? – Olhei ao redor, preocupada. – Sério, cara, eu não posso ser vista na TV agora, ninguém pode saber onde eu estou, entende? Além do quê, eu nem sou uma das suas fãs. Quero dizer, as suas músicas até que são legais, mas é que o meu estilo é outro...

— Tove – Shannon interrompeu minha tagarelice, erguendo uma das mãos –, você não está em um programa de TV e isso não é uma pegadinha.

— Não?

— Não. – Ele confirmou e eu respirei aliviada.

— Então, você realmente me convidou para passar a noite aqui sem esperar nada em troca?

— Bem... não. – Shannon coçou a cabeça, parecendo desconfortável. – Na verdade, eu espero sigilo.

— Ninguém sabe que você está aqui, não é?

— Ninguém que não deva saber. – Ele me corrigiu e eu entendi completamente o que ele quis dizer.

De repente, pareceu óbvio o motivo de Shannon compreender tão rápido a minha necessidade de me manter escondida. Apesar de nossas situações serem diferentes, ambos estávamos fugindo de alguém. Eu de um padrasto abusivo que havia tentado me molestar e, Shannon, de um bando de repórteres malucos que invadiam sua privacidade como urubus. E depois dele ter sido tão generoso comigo, minha discrição era o mínimo que eu poderia lhe dar para retribuir a sua ajuda.

— Não vou contar nada a ninguém. – Prometi e ele sorriu.

— Acho que eu devo te mostrar onde fica o banheiro, antes que você pegue uma pneumonia, não é?

— Seria muito bom. – Concordei já sentindo as pontas dos dedos ficarem dormentes por causa do frio.

Shannon me mostrou qual era o meu quarto e, depois, me guiou até a última porta do corredor, para um banheiro que, surpreendentemente, não estava tão bagunçado quanto imaginei que estaria. Ele me mostrou onde ficavam as toalhas limpas e os outros produtos de higiene pessoal e, quando ele saiu, tranquei a porta e me dei um minuto para assimilar toda a loucura que minha vida tinha se tornado nas últimas horas.

Eu havia fugido do inferno que fui obrigada a chamar de casa nos últimos quatro meses e, agora, tinha me tornado uma hóspede temporária no apartamento de um músico famoso que minhas amigas da antiga escola dariam tudo para conhecer. Parecia que eu tinha entrado escondida no roteiro de algum filme adolescente e não pude me impedir de rir disso.

Shannon Reed, repeti ainda sem acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo comigo.

Por acaso a vida tinha como ficar mais estranha?

Notas finais
Então, galerinha, eu espero que vocês tenham gostado desse capítulo e que ele tenha servido para vocês conhecerem um pouco da Tove e do Shannon e, também, da personalidade dos dois. Muitas outras aventuras nos esperam nos capítulos que estão por vir e eu espero que vocês continuem acompanhando. Não tenho uma data certa para atualizar, mas prometo que estarei de volta com o segundo capítulo, assim que possível. Enquanto isso, clique aqui embaixo e deixe seu comentário, contando o que achou desse primeiro capítulo e quais suas expectativas quanto a história. Agradeço a todos que decidiram dar uma chance a essa fic e a opinião de vocês será sempre bem vinda. Beijocas e até o próximo!